Pular para o conteúdo principal

NECROPOLÍTICA E DOUTRINA ESPÍRITA

 

  De vez em quando, alguns termos ganham as páginas dos jornais – que hoje estão em ritmo cada vez mais virtual, já que a dinâmica das informações está um cada vez mais ligada ao mundo virtual, facilitando não somente a pesquisa como também o esclarecimento de termos como este no título.

            De acordo com o verbete que aborda o assunto na Wikipédia, “Necropolítica é o uso do poder social e político para ditar como algumas pessoas podem viver e como outras devem morrer.” (Tradução livre de https://en.wikipedia.org/wiki/Necropolitics). O autor desse termo é o filósofo camaronês Joseph-Achille Mbembe, que utilizou esse termo em um artigo em 2003 e depois escreveu um livro com tendo esse termo como título em 2019.

            É muito comum esse termo ser associado a discursos ligados a grupos políticos; contudo, vamos trazer o que esse pensador nos diz e pensar de que forma podemos relacionar a doutrina espírita com esse termo:

            Voltando ao referido artigo da Wikipédia, numa tradução livre:

            “A necropolítica é frequentemente discutida como uma extensão do biopoder, o termo foucaultiano para o uso do poder social e político para controlar a vida das pessoas. Foucault primeiro discute os conceitos de biopoder e biopolítica em sua obra de 1976, História da Sexualidade: A Vontade de Saber Volume I. Foucault apresenta o biopoder como um mecanismo de "proteção", mas reconhece que essa proteção muitas vezes se manifesta como subjugação de populações não normativas. A criação e manutenção de instituições que priorizam determinadas populações como mais valiosas é, segundo Foucault, como o controle populacional foi normalizado. O conceito de necropolítica de Mbembe reconhece que a morte patrocinada pelo Estado contemporânea não pode ser explicada pelas teorias de biopoder e biopolítica, afirmando que "sob as condições de necropoder, as linhas entre resistência e suicídio, sacrifício e redenção, martírio e liberdade são borradas." Jasbir Puar assume que as discussões de biopolítica e necropolítica devem se entrelaçar, pois, "esta última faz sua presença conhecida nos limites e pelos excessos da primeira; a primeira mascara a multiplicidade de suas relações com a morte e o assassinato para possibilitar a proliferação destes últimos ".

            Mbembe deixou claro que a necropolítica é mais do que um direito de matar (o droit de glaive de Foucault), mas também o direito de expor outras pessoas (incluindo os próprios cidadãos de um país) à morte. Sua visão da necropolítica também incluía o direito de impor a morte social ou civil, o direito de escravizar outros e outras formas de violência política. A necropolítica é uma teoria dos mortos-vivos, ou seja, uma forma de analisar como “as formas contemporâneas de subjugação da vida ao poder da morte” obriga alguns corpos a permanecer em diferentes estados de estarem colocados entre a vida e a morte. Mbembe usa os exemplos da escravidão, do apartheid, da colonização da Palestina e da figura do homem-bomba para mostrar como diferentes formas de necropoder sobre o corpo (estatista, racializado, estado de exceção, urgência, martírio) reduzem as pessoas a condições precárias de vida.”

            O que parece estar muito distante de nós, vivendo em condomínios fechados ou isolados socialmente por causa da pandemia, bate à porta das populações periféricas cotidianamente: basta analisar os dados do anuário de segurança pública, analisados no artigo  O Espírita e a Segurança Pública - "Bandido bom é bandido morto"

            O agravante da necropolítica é que a violência é direta ou indiretamente patrocinada pelo Estado: diretamente quando a polícia decide quem tem direitos de cidadania ou não (o veículo chamado Ponte Jornalismo (https://ponte.org/) mostra diversos casos de abuso policial, especialmente sobre a população preta, pobre e periférica), e indiretamente quando não se faz presente em comunidades mais pobres, levando os serviços básicos patrocinados pelos impostos, como saúde, educação, assistência social, pavimentação, saneamento básico e segurança pública – ou seja, a ausência de quaisquer desses serviços nos bairros periféricos, onde mora a maior parte da população brasileira, pode ser englobada nesse tema.

            A pandemia de covid-19, longe de demonstrar ser uma doença “democrática”, tem vitimado justamente as pessoas que já são vítimas da precariedade das condições dos serviços públicos que deveriam ser oferecidos pelo Estado: homens, pobres e negros (https://epoca.globo.com/sociedade/dados-do-sus-revelam-vitima-padrao-de-covid-19-no-brasil-homem-pobre-negro-24513414); para completar, a visão capitalista do sistema ressalta o agravante de que a morte de idosos teria melhorado contas da previdência (https://www.opopular.com.br/noticias/economia/morte-de-idosos-por-covid-19-melhora-contas-da-previdência-teria-dito-chefe-da-susep-1.2060698).

            Quando o Estado privilegia determinadas classes sociais em detrimento de outras, passamos a ter uma dificuldade de entender de que forma podemos conseguir uma situação mais justa para todos os habitantes de um país. A responsabilidade de quem está investido de autoridade nos é chamada a atenção por François-Nicolas-Madeleine em O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo XVII - Sede perfeitos, seção Instruções dos Espíritos, tema Os superiores e os inferiores, item 9:

“Quem quer que seja depositário de autoridade, seja qual for a sua extensão, desde a do senhor sobre o seu servo, até a do soberano sobre o seu povo, não deve olvidar que tem almas a seu cargo; que responderá pela boa ou má diretriz que dê aos seus subordinados e que sobre ele recairão as faltas que estes cometam, os vícios a que sejam arrastados em consequência dessa diretriz ou dos maus exemplos, do mesmo modo que colherá os frutos da solicitude que empregar para os conduzir ao bem. (...)

            Assim como pergunta ao rico: “Que fizeste da riqueza que nas tuas mãos deverá ser um manancial a espalhar a fecundidade ao teu derredor”, também Deus inquirirá daquele que disponha de alguma autoridade: “Que uso fizeste dessa autoridade? Que males evitaste? Que progresso facultaste? Se te dei subordinados, não foi para que os fizesses escravos da tua vontade, nem instrumentos dóceis aos teus caprichos ou à tua cupidez; fiz-te forte e confiei-te os que eram fracos, para que os amparasses e ajudasses a subir ao meu seio.”

            O superior, que se ache compenetrado das palavras do Cristo, a nenhum despreza dos que lhe estejam submetidos, porque sabe que as distinções sociais não prevalecem às vistas de Deus. Ensina-lhe o Espiritismo que, se eles hoje lhe obedecem, talvez já lhe tenham dado ordens, ou poderão dar-lhe mais tarde, e que ele então será tratado conforme os haja tratado, quando sobre eles exercia autoridade.”

            Portanto, quem está investido de algum grau de autoridade tem o dever de lutar contra a necropolítica. Além disso, devemos tomar cuidado contra os abusos por má interpretação da lei de destruição. Peguemos a pergunta 733 de O Livro dos Espíritos:

            “733. Entre os homens da Terra existirá sempre a necessidade da destruição?

            “Essa necessidade se enfraquece no homem, à medida que o Espírito sobrepuja a matéria. Assim é que, como podeis observar, o horror à destruição cresce com o desenvolvimento intelectual e moral.””

            Nosso senso moral já permite entender o quanto é nocivo à humanidade esse tipo de tratamento. Numa sociedade que deve preconizar o “amai-vos uns aos outros” deve procurar embasar suas leis com esse lema.

            Infelizmente, há agentes públicos e privados que ainda estão aproveitam a necropolítica para aplicar um certo grau de crueldade em suas decisões. Mais uma vez, peguemos O Livro dos Espíritos trazendo esse tema:

            “752. Poder-se-á ligar o sentimento de crueldade ao instinto de destruição?

            “É o instinto de destruição no que tem de pior, porquanto, se, algumas vezes, a destruição constitui uma necessidade, com a crueldade jamais se dá o mesmo. Ela resulta sempre de uma natureza má.”” (Grifos nossos)

            Logo, a crueldade com que determinados grupos populacionais são tratados por conta dessa política estabelecida deve ser combatida de todas as maneiras – afinal, quem é cruel é antes de tudo mau, e quem ainda está nessa condição precisa passar por um processo de educação moral bastante adequado.

            E devemos sempre nos lembrar da consequência última da crueldade, abordada também em O Livro dos Espíritos:

            “746. É crime aos olhos de Deus o assassínio?

            “Grande crime, pois que aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão. Aí é que está o mal.”” (Grifos de Kardec)

            Quando se trata de necropolítica, logicamente, está-se tratando de morte. E a morte, nesse caso, é um problema estrutural que precisa ser modificado. Nenhuma vida pode estar abaixo dos interesses econômicos; governos e empresas têm preconizado lucros em prejuízo das necessidades básicas dos seres humanos.

            O movimento espírita, infelizmente, tem deixado de lado esse e outros assuntos por conta de considera-los política partidária e procurado resolver problemas sociais com atitudes filantrópicas; essa atitude, infelizmente, apenas enxuga gelo; com o potencial que as instituições espíritas têm, poder-se-iam promover oficinas que estimulassem o cooperativismo e atitudes cidadãs, indo muito além da entrega de cestas básicas (elas matam a fome, mas não resolvem os problemas estruturais). Além disso, as pessoas influentes junto às empresas e às instituições governamentais poderiam auxiliar na revisão de procedimentos das mesmas junto às populações periféricas.

            “Deus fez o homem para viver em sociedade.” (O Livro dos Espíritos, questão 766); disseram os Espíritos a Kardec; logo, é nosso papel trabalhar para a melhoria dela revendo também as estruturas, tornando a sociedade cada vez mais humanizada.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

ALLAN KARDEC, O DRUIDA REENCARNADO

Das reencarnações atribuídas ao Espírito Hipollyte Léon Denizard Rivail, a mais reconhecida é a de ter sido um sacerdote druida chamado Allan Kardec. A prova irrefutável dessa realidade é a adoção desse nome, como pseudônimo, utilizado por Rivail para autenticar as obras espíritas, objeto de suas pesquisas. Os registros acerca dessa encarnação estão na magnífica obra “O Livro dos Espíritos e sua Tradição História e Lendária” do Dr. Canuto de Abreu, obra que não deve faltar na estante do espírita que deseja bem conhecer o Espiritismo.

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

E QUANDO TUDO VOLTAR AO NORMAL...

  Por Doris Gandres Essa frase “e quando tudo voltar ao normal” é a frase que mais tem sido pronunciada e escutada ultimamente, de todo tipo de pessoa, de todas as classes sociais, culturais, religiosas e outras mais... Poder-se-ia dizer que está se transformando em uma espécie de “mantra”, de monoidéia, ou seja, de uma ideia única, fixa, constante, sobrepondo-se a todas as outras ideias, absorvendo a mente das criaturas e, muitas vezes, toldando-lhes o raciocínio, a razão.

LÉON DENIS ENTRE A LIBERDADE MORAL E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

  Por Wilson Garcia    Por que reduzir o Espiritismo a rótulos políticos empobrece seu alcance humano Há leituras que esclarecem — e há leituras que, sem o perceber, estreitam o campo de visão. No debate recente sobre Socialismo e Espiritismo[i], de Léon Denis, esse risco tornou-se visível: ao tentar proteger o pensamento espírita de apropriações materialistas, corre-se o perigo inverso de reduzir sua densidade social, confinando-o a categorias políticas que jamais lhe fizeram justiça. A análise crítica de Marco Milani sobre a edição brasileira da obra, publicada pela Casa Editora O Clarim, prestou um serviço inegável ao movimento espírita. Ao demonstrar problemas de tradução e enquadramento editorial, Milani mostrou com clareza que Denis não pode ser confundido com o socialismo materialista, estatizante ou revolucionário que dominava o debate político de seu tempo. Essa advertência é necessária — e correta.

A FAMÍLIA PÓS-NUCLEAR

      Por Jerri Almeida Preâmbulo O estudo das relações familiares na contemporaneidade implica pensarmos sobre suas novas configurações e mediações. Sabemos que é cada vez mais comum encontrarmos exemplos de filhos que vivem somente com a mãe, com o pai ou com outro parente. O contexto das relações, na sociedade complexa que vivemos, define novos vínculos e novas tendências na composição da família. Conforme apontou Bauman, em seu livro intitulado Amor Líquido[1] – Sobre a fragilidade dos laços humanos, os relacionamentos conjugais tornaram-se, na pós-modernidade, muito “líquidos”, isto é, sem bases sólidas. Os valores sociais e culturais de nossa época contribuem para uma fragilização do casamento, ampliando vertiginosamente o número das separações.

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

HOMENAGEM AO CONFRADE E IRMÃO FRANCISCO CAJAZEIRAS

            Francisco Cajazeiras, ao centro, com os colaboradores do Instituto de Cultura Espírita.             Tive a alegria e felicidade de conhecer Francisco Cajazeiras, a quem passei a tratá-lo por Francisco, no início da década de 1990, quando residia em Sobral, norte do Estado do Ceará, apresentado-o pelos colegas Everaldo Mapurunga e Geovani de Castro Pacheco, do Banco do Brasil em Viçosa Ceará, empresa onde também trabalhei. À época, abracei o ideal espírita e me vinculei ao Grupo Espírita Bezerra de Menezes, em Sobral. A aproximação entre os familiares foi alegre reencontro de almas – Rejilane (esposa), Alana e Ariane (filhas), logo em seguida nasceu Ítalo.