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CATÓLICO E ESPÍRITA AO MESMO TEMPO: É POSSÍVEL SIM, SENHOR REVERENDO!

Imagem da internet
 

Artigo publicado em um site católico com o título acima, reverendo responde a uma profitente católica que a mesma não poderia ser espírita diante do conflito doutrinário existente, principalmente, entre ressurreição e reencarnação.(saiba mais) O posicionamento do religioso merece algumas considerações. Diz ele:

Nós, católicos, cremos na ressurreição da carne. Jesus ressuscitou e garantiu a nossa ressurreição. Voltaremos no final dos tempos ao nosso corpo. Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim terá a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”.

Continua:

“Pior ainda, minha irmã: Jesus Cristo, para os espíritas, não morreu na cruz para nossa salvação. Somos nós que nos salvamos por meio de uma “evolução” como resultado de sucessivas reencarnações.”

 

“Então, não há por que ficar tentando explicar o que eles creem, porque certamente não baterá com o que a Igreja Católica nos ensina. Deus a abençoe, minha irmã!

 

            O reverendo desconhece que a dogmática católica já vem sofrendo sutis atualizações espíritas ao longo do tempo, como foi o desejo de Allan Kardec. Ao se lê as obras básicas, especificamente,“O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo”, vê-se o esforço de Kardec, nesse processo dialético, com vistas a proporcionar exatamente possibilidades de existirem: o “católico-espírita”, o “protestante-espírita”, o“budista espírita”, unidos pelo Espiritismo, sob o manto da caridade e fraternidade.. É conveniente lembrar Léon Denis, que coerente com o pensamento de Kardec, afirmou que o Espiritismo seria o futuro da religião.

 Esse tipo de pergunta, seguida dessa resposta, ao longo do tempo, fez o Espiritismo no Brasil ser reconhecido como mais uma religião, contrariando Kardec e Denis. Aquela velha e conhecida frase: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.”, aliás, Kardec, por mais de uma vez, advertiu que se isso ocorresse o clero seria o responsável, como o é.

            As alterações na dogmática católica, segundo Renold Blank, doutor em Teologia e em Filosofia licenciado em Letras, professor titular da Pontifícia Faculdade de Teologia de São Paulo, um dos mais respeitados teólogos católicos, foram realizadas para responder às exigências formuladas pela Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, de 04.12.1963, onde exige que: “O rito das exéquias deve exprimir mais claramente a índole pascal da morte cristã.”

            Essa nova interpretação realizou uma profunda releitura na compreensão e explicação da situação pós-morte, muito embora, assegura Blank, apesar de teologicamente aprovada, ainda não marca a consciência de todos os católicos. Ou seja, a Igreja rompe com o tradicional modelo dualista e cartesiano do ser humano - corpo e alma -, centrando o pós-morte na ressurreição de Jesus, como assegura o Apóstolo Paulo, na I Epístola aos Coríntios – 15:44: é semeado um corpo natural, contudo ressuscita um corpo espiritual. Ora, se há corpo natural, há também corpo espiritual.” Esta atualização não é nada mais nada menos que uma atualização espírita. O Espírito ressurge com o próprio perispírito.

Afirma Blank:

“Conforme a Bíblia, o ser humano sempre forma uma unidade indivisível. Esta unidade, porém, está sendo apresentada a partir de vários enfoques, nos quais, dependendo do enfoque, se acentua mais a perspectiva biológica (sarx-corpo); a perspectiva psíquica (nefresh-alma) ou a perspectiva antropológica-transcendental (ruah-espírito).”

Blank vai mais além e cita um Pronunciamento da Comissão Teológica Internacional,

em dezembro de 1990:

“A Igreja jamais ensinou que a matéria seja necessária, para que se possa dizer que o corpo é o mesmo.”

            Com a nova posição, a Igreja admite paradigma espírita, que o desencarnado não perde a sua individualidade, além de se ajustar aos modelos antropológicos atuais, elaborados nas várias disciplinas antropológicas, da psiquiatria à neurobiologia.

            Ao negar, por enquanto, a reencarnação, a Igreja apresenta um modelo de salvação, melhor dizendo, de evolução. Não mais a ressurreição do cadáver. Agora, o desencarnado ressurge diante de Deus com a consciência plena, com o corpo espiritual (perispírito), respeitando-se o seu livre-arbítrio, concluindo-se que o Espírito não evoluiu o bastante em sua existência corpórea, haverá necessidade de continuar evoluindo – não em uma nova existência terrena – agora essa evolução é possível na morte. Esse encontro com Deus é conhecido como “experiência de Purgatório”, que nada tem a ver com o dogma medieval do purgatório. Essa experiência é concedida a cada pessoa na sua morte. A aceitação dessa oferta, ou última oferta, pode ser difícil e dolorosa. Segundo Blank, é o fato que no passado foi exprimido pela imagem simbólica de “fogo”.

            Portanto, para o indivíduo que pouco ou nada evoluiu, é uma situação de fracasso - e não tendo mais o dogma do inferno -, “a figura humana se fecharia dentro de uma situação de morte, não querendo evoluir para a plenitude. Com isso, porém, perderia o último e decisivo destino de toda a sua existência que é a vida plena com Deus.” Então fica incompreensível a criatura recusar uma proposta do Criador, que o criou por amor e para amar.

            Em aceitando, terá a “Vida Eterna,” uma maneira nova de existir, desligada de tempo e espaço, onde o homem permanece a mesma pessoa que era com todas as suas relações interpessoais e cósmicas.

            É fato, posto que a Igreja hoje se sustenta fundamentalmente nos dogmas da ressurreição – não mais da carne – e da Trindade. Os demais foram demolidos pelo progresso do conhecimento humano.

            É fácil concluir que é possível ser católico e espírita, já que começa a existir um “catolicismo espírita”. É bom frisar ainda o movimento carismático, que reintegra a mediunidade das primeiras comunidades cristãs, como bem enfatiza o Apóstolo Paulo, em sua I epístola aos Coríntios, 12:1-11 – Dons Espirituais.

         Matéria publicada na Folha de S. Paulo, 06.05. 2007, traz alguns números que merecem reflexão: a) 48% das pessoas que se declaram espíritas possuem algum santo de devoção; b) 44% dos católicos acreditam totalmente na reencarnação, c) embora o conceito de céu e inferno não faça sentido para o Espiritismo, 39% dos seguidores de Allan Kardec creem no céu, mesmo número dos que creem no inferno, d) fiéis católicos e até mesmo pastores evangélicos frequentam casas espíritas.  Vê-se que a evolução não dá saltos. A individualização da crença fundamenta-se no exercício do livre-arbítrio pelo indivíduo, desatrelado da figura do "profissional religioso".

            A visão vanguardista de Allan Kardec aqui demonstrada vem sendo ratificada na atualidade no contexto das megatendências na nova ordem mundial, apresentadas por Adjied Bakas e Minne Buwalda, na obra “O Futuro de Deus”. Nela, eles apontam a tendência à individualização da religião e a um cenário religioso multiforme. Assim se expressam:

“Nos lugares onde as pessoas estão fazendo suas próprias escolhas no campo da religião, é possível ver uma pluralização do cenário religioso e uma hibridização de crenças. (...) Às vezes até se convertem para uma nova religião, mas, na maioria dos casos, mantêm-se fiéis ao seu passado religioso ou se tornam neutras, aceitando opiniões éticas e doutrinas religiosas distintas.”

           

           

 

 

Referências

            AUTORES DIVERSOS. A Arte de morrer: visões plurais. São Paulo: Comenius, 2007.

            BAKAS, Adjied e MINNE, Buwalda. O futuro de Deus. Rio de Janeiro: A Girafa, 2011.

            DENIS, Léon. Síntese doutrinária: prática espírita. Minas Gerais: Instituto Maria, 1982.

 

           

Sites:

<http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html>.

<http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_1990_problemi-attuali-escatologia_sp.html>.

<https://pt.aleteia.org/2021/01/18/catolico-e-espirita-ao-mesmo-tempo-e-impossivel-por-causa-da-reencarnacao/>.

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj0605200711.htm

 

 

 

 

Comentários

  1. Primeiramente, creio que a grande dificuldade da maior parte dos estudiosos religiosos é entender que o brasileiro é um povo sincrético; segundo, como a doutrina espírita, no Brasil, ganhou um caráter religioso muito forte - diga-se, de passagem, com bastante empenho do movimento, especialmente as federativas - há uma dificuldade de difundir as outras vertentes, que permitem uma visão pluralista da doutrina.
    Parabéns pelo artigo.

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