Pular para o conteúdo principal

FALANDO SOBRE A MORTE COM CRIANÇAS


 

“Se quereis verdadeiramente conhecer o espírito da morte, abri o vosso coração até ao corpo da vida.

Pois vida e morte são uma só, tal como o são o rio e o mar.” (Kahlil Gibran)

 

           

            Nesses tempos de pandemia é inevitável que as crianças não estejam lidando diariamente com as questões inerentes à morte, quer sejam no contexto familiar com perdas de entes queridos, ou mesmo na escola ou em programas jornalísticos ou de auditórios, novelas. Enfim, a morte faz parte do cotidiano da criança.

            Até pouco mais da primeira metade do século XX, principalmente nas pequenas cidades, a morte era uma cerimônia pública, “coordenada” pelo próprio moribundo da qual participava familiares, parentes, amigos, figuras públicas, profissionais da saúde e, comumente, crianças.

            Apesar desses aspectos, há pessoas insistindo que o assunto sobre a morte deve ser mantido distante do universo infantil.

            É necessário se entender que a morte é um fenômeno universal e faz parte da vida de todo o indivíduo desde o momento do nascimento até o último suspiro neste plano.

            O bom senso exige, portanto, que tornar a criança consciente em lidar com a morte não significa ficar o tempo todo falando sobre o assunto, adotando o cuidado e a proteção. É fundamental entender que a criança enfrenta o luto e a perda, como os adultos, e exige a proteção e o cuidado.

            Os diversos estudos realizados apontam que não são conclusivos quanto à forma que as crianças na primeira infância enfrentam a morte. É fato, posto, que até os três anos, não há conceito de morte. A morte é falta.

            Kastebaum & Aiseberg citam na obra Psicologia da Morte trabalhos de vários psicólogos especializados no desenvolvimento, que até os dois anos não se tem compreensão da morte pela incapacidade de abstração.

            Na realidade, são muitas as variáveis nas pesquisas acerca da perspectiva da morte nos primeiros anos de vida. Alguns estudos indicam que crianças pequenas podem ficar impressionadas por se verem expostas à morte. Embora possam não possuir condições cognitivas para entender a morte, as percepções relativas à mesma podem produzir forte e duradouro impacto sobre elas, afirmam os citados acima.

            A obra de Kastebaum & Aiseberg é densa e rica de possibilidades de estudos. Em outro estudo dos citados, acredita-se que ser exposto à morte nos primeiros anos de vida exerce importante influência sobre o desenvolvimento subsequente da criança, com implicações para o comportamento várias décadas depois.

É fácil observar que os resultados de tantas variáveis são decorrentes do processo educacional em que a criança foi submetida,  as circunstâncias e as particularidades do evento.

É preciso que o espírita  tenha em mente a afirmativa de Allan Kardec, que somente com a Educação poderá levar os indivíduos às condições desejadas. Educação para a morte? Sim. É o que defende o professor e filósofo espírita Herculano Pires (1914-1979), e os psicólogos da linha clínica e sociocomportamental.

Pires assim se expressa acerca do assunto:

 

“A Educação para a Morte é, portanto, a preparação do homem durante a sua existência, para a libertação do seu condicionamento humano. Libertando-se desse condicionamento, o homem se reintegra na sua natureza espiritual, torna-se espírito, na plenitude de sua essência divina.”

 

Prossegue ele:

 

“As religiões nasceram desse anseio existencial do homem e deviam transformar-se em escolas de Educação para a Morte. Não conseguiram esse objetivo em virtude da exigência quantitativa, decorrente da febre de proselitismo. Ficaram no plano da transcendência horizontal, imantadas ao fazer existencial.”

           

            O próprio Jesus ensinou na prática que a morte se resolve na ressurreição, ninguém morre, todos os indivíduos têm o corpo espiritual, ou perispírito, e vivemos no além-túmulo mais vivos que os vivos na matéria. A ausência de uma educação na visão crística é a causadora do prejuízo maior dos desesperos, angústias existenciais e loucuras que varrem a Terra, sendo, inclusive, a maior motivadora da violência entre os seres humanos.

            Não é nenhuma forma de preparação religiosa para a conquista do Céu, necessário que se entenda isso. É um ajustamento do educando à realidade da vida, que não consiste em apenas viver, mas viver e transcender.

            Por tudo isso que foi mostrado, Educação para a Morte abrange todas as idades da evolução biopsíquica do ser humano, que só atinge realmente os seus fins quando abrange as coletividades.

            Os pais, portanto, assegurando-se da idade e do desenvolvimento cognitivo da criança e da sua capacidade de abstração, quando oportuno, já no processo do luto, devem abordar os seguintes aspectos:

a)    promover a comunicação aberta e segura dentro da família, informando a criança sobre o que aconteceu;

b)    garantir que terá o tempo necessário para elaborar o luto;

c)    asseverar que terá sempre um ouvinte compreensivo toda vez que expressar saudade, tristeza, culpa e raiva;

d)    assegurar que continuará tendo proteção.

 

 

            Na obra a Arte de Morrer – Visões Plurais, organizada por Dora Incontri e Franklin Santana, encontra a citação de Ricardo Azevedo, de sua obra Contos de Enganar a Morte, o seguinte:

 

“(...) falar sobre a morte com crianças não significa entrar em altas especulações ideológicas, abstratas e metafísicas. Nem em detalhes assustadores e macabros. Refiro-me a simplesmente colocar o assunto em pauta. Que ele esteja presente, através de textos e imagens, simbolicamente, na vida da criança. Que não seja mais ignorado. Isso nada tem a ver com depressão, morbidez ou falta de esperança. Ao contrário, a morte pode ser vista, e é isso o que ela é, como uma referência concreta e fundamental para a construção do significado da vida.”

           

            Uma das maneiras de falarmos em morte com as crianças é através das histórias infantis.

            Há um vastíssimo material bibliográfico sobre a temática. Essas histórias estimulam a imaginação, favorecem  o diálogo e ajudam a criança a trabalhar com coisas que não conseguem lidar.

            Rubem Alves (1933-2014) foi um psicanalista, educador, assim ele se expressa sobre o tema:

“(...) o objetivo da história é poder dar às crianças símbolos que lhes permitam falar sobre seus medos fazendo de conta que se está falando de bichos, por exemplo. Isso facilita. Porém, é importante que a criança não esteja sozinha nessa aventura. É necessário que ela faça essa caminhada com um adulto de sua confiança, que esteja junto com ela, para que a criança se sinta segura.”

 

            A biblioterapia, palavra de origem grega que designa cura pelo livro. Ela é uma ferramenta auxiliar, no processo de ajudar a criança a lidar com a morte. Deve ser desenvolvido por pessoas treinadas que além de saber trabalhar como o material deve ter um cuidado na seleção deste. Rubem Alves tem obras editadas sobre a temática.

            O fato é que existe uma relação simbiótica entre nascimento e morte. Roger Woolger, psicólogo junguiano, cita em sua obra As Várias Vidas da Alma, pesquisas com estados alterados de consciência que atestam que as experiências físicas e psíquicas do nascimento devem ser entendidas como fenômenos gerais, onde a morte e o nascimento fundem-se como dois aspectos do mesmo arquétipo universal.

Interessante nesse tema é que muitas complicações no nascimento com imagens violentas, tais como esmagamento, estrangulamento, afogamento, asfixia, têm relação com o fenômeno da morte, segundo a psicologia junguiana. A falta de uma educação para a morte concorre para esses traumas?

Ora, o que se pode concluir é que nascimento e morte é um evento único. A educação religiosa atrelada ao materialismo operante contribuíram para o grau de consequências nefastas do ser ante a sua passagem além-túmulo. A Educação para a Morte, no atual conceito espírita, possibilitará uma transcendência do ser para a plenificação espiritual, e contribuirá sobremaneira para a paz no mundo.

 

 

Referências:

AUTORES DIVERSOS. Morte e Suicídio – uma abordagem multidisciplinar. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.

INCONTRI, Dora & SANTOS, Franklin S. (Org.) A arte de morrer. São Paulo: Comenius, 2007.

KASTENBAUM, Robert & RUTH, Aisenberg. Psicologia da morte. São Paulo: Pioneira, 1983.

PIRES, José H. Educação para a morte. São Paulo: Correio Fraterno, 1993.

WOOLGER, Roger. As várias vidas da alma. Cultrix: São Paulo, 2007.

 

 

 

 

SITE: 

<https://www.ip.usp.br/revistapsico.usp/index.php/30-commentor-2/79-falando-de-morte-com-criancas.html>.

 

Comentários

  1. Interessante o artigo. Falar sobre morte com crianças não é um assunto muito atrativo, mas necessário.
    Parabéns, Tio!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

AS DEFORMIDADES COGNITIVAS PRETENSOS “HERCULANISTAS”

  Por Jorge Hessen O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo. Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...

ENLATADOS NO TEMPO

  Por Marcelo Teixeira Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

RÉQUIEM

 Por Paulo Eduardo (*) O ofício dos mortos em música sublime. Réquiem significando repouso. Pausa na vida física a fim de enfrentar novos rumos. Retorno à pátria espiritual sendo relembrado neste segundo dia de novembro. Dia de Finados a alegria paradoxalmente triste de uma festa realmente com melodia em surdina. O palco desse momento de velada despedida ou de comunicação interna é o cemitério. Jazigo é sepultura e os espíritos são livres da vestimenta física quando partem em busca dos planos etéreos da vida plena. Ninguém fica residente em catacumba. Uma verdade inconteste. Convém destacar o crescimento da cremação de corpos e nem por isso leva-se ao esquecimento dos nossos cujos despojos tornaram-se pó. Nos réquiens pelo Dia de Finados vamos orquestrar a saudade no seu patamar de harmonia e certeza da perpetuação da vida. A Doutrina Espírita repercute na sua forma belíssima de reverenciar quem parte através do evento morte. Somos imortais na natureza divina...

ASSOMBRAÇÃO

                 "Noiva de Furquim", Mariana (MG) - Ilustração                Contou-me um confrade que certa feita regressava ao lar, por volta de meia-noite, após uma festa.             Estava sozinho em seu automóvel. Numa curva, perdeu a direção do veículo, que se precipitou numa ribanceira. Desceu sacolejando e tombou dez metros abaixo.             A custo saiu do carro, rodas para cima. Repleto de escoriações, começou a subir, retornando à estrada. Já no alto olhou para o automóvel. Ficou estarrecido. Estava destruído. Impossível sair com vida dali.             Espírita estudioso, apavorou-se. Certamente morrera! Pensou em descer para confirmar o trágico acontecimento com a visão de seu corpo sem vida, entre as ferr...

O QUE É O ESPÍRITO SANTO?

    Quem se defronta com os textos bíblicos sem os subsídios proporcionados pela Doutrina Espírita, fica confuso, em muitas situações, como, por exemplo, no entendimento da identidade do chamado “Espírito Santo”. Em verdade, o Mestre Jesus, sabendo que suas instruções seriam falseadas, esquecidas e mal compreendidas, prometeu enviar, e assim o fez, o Consolador, a excelsa Doutrina Espírita que faz lembrar os seus sublimes ensinamentos. Ao mesmo tempo, revelou que todos os esclarecimentos seriam ofertados (“vos ensinará todas as coisas”), deixando evidente à posteridade que não pode dizer tudo devido ao intenso atraso evolutivo das criaturas daquela época (João XIV: 15-26).