terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

QUANDO A FÉ SE TORNA UM MAL POLÍTICO

 


Em muitos momentos da história moderna e contemporânea, a fé, dos mais variados credos, aliou-se a governos e instituições que perseguiam e barbarizavam, em detrimento da coerência de seu arcabouço doutrinário e moral.

Assim foram os cristãos durante o tenebroso período de escravidão que as Américas viveram. Ainda os cristãos apoiaram os bárbaros regimes nazista e fascista da Europa no período entre as duas grandes guerras. Judeus apoiam o governo israelense que assassina, mutila e exila palestinos de suas terras. Muçulmanos de linhas diversas sustentaram e ainda sustentam muitos estados ditatoriais e perversos, que perseguem e matam seu próprio povo. Monges budistas ligados a estados do extremo oriente expulsam e matam seguidores de outros credos de seus territórios.

Parece, algumas vezes, que a humanidade, apesar dos fartos exemplos históricos, anda em círculos e não consegue sair de seus vícios morais e dilemas sociais, porque hoje, no Brasil, por exemplo, vemos algo semelhante começar a brotar no meio do povo: cristãos de linhas neopentecostais, católicos fundamentalistas e bolsoespíritas uniram-se, em palavras e ações, para perseguir e vilipendiar todos aqueles que não seguem seu catecismo bolsonarista.

E esse catecismo, longe de expressar a beleza moral e poética dos credos representados, é um amálgama de violência contra os já oprimidos, de insensata perseguição à educação, ao conhecimento e à ciência e de luta insana contra os direitos e liberdades dos trabalhadores.

E tudo em nome de um deus que juram amar sobre todas as coisas.

Hannah Arendt, divergindo do mal radical kantiano, propõe que o mal não é imanente ao ser humano, ontológico, mas histórico e político, portanto dialético e contextualizado. A banalização do mal em algumas sociedades, segundo a pensadora alemã, dá-se quando existe uma conjuntura social capaz de despertar esse fenômeno aliada ao "vazio de pensamento", como o são as crises sociais extremas e os momentos de guerra e violência.

 Parece que a fé passa a ter um papel muito importante no discurso de sociedades doentes, pois ela fornece aos indivíduos alienados a justificativa moral e social para o comportamento voltado à violência verbal, física e simbólica: "aqueles que não pensam e não agem como eu serão punidos pelo meu deus, e eu sou esse instrumento de punição porque tenho fé". Dessa forma, assassinatos de homossexuais, agressões a mulheres e subjugação de etnias minoritárias são justificados por interpretações bem peculiares por líderes interessados no butim do poder.

Fica claro, então, que o discurso religioso imiscuído à atividade política deve despertar em toda pessoa atenta e crítica a mais severa repulsa. Lemas como "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos" apenas expressam a estratégia de dominação dos incautos por meio da fé, instigando-os a odiar todos os que não se dobram a tais mundanas propostas soteriológicas propaladas por redentores de oratória magnética.

A fé já fez muitos estragos na história ao se instalar nos núcleos de poder. Não permitamos, portanto, que essa experiência infeliz se reproduza entre nós, pois já sabemos de antemão o resultado dessa aventura funesta. Não, a fé em si não é uma virtude.

3 comentários:

  1. O Sr. confunde fé com religião.

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  2. Olá, Telma! Boa tarde! Grato pela colaboração.
    O artigo é da confreira Ana Cláudia Laurindo, de Alagoas.
    Sugiro à você a leitura do capítulo XIX de O Evangelho Segundo o Espiritismo, os itens 6 e 7, a Fé Religiosa, e o item 12, a Fé Divina e a Fé Humana, te ajudará entender a abordagem da Ana Cláudia. Jorge Luiz

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  3. Estamos vivenciando um momento bem difícil, com essa nova mescla de religião com política. Sempre que isso acontece, todos perdem.

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