Pular para o conteúdo principal

É DA FAMÍLIA!

 


Mira era muito estimada pelos patrões.

Serviçal humilde, a todos encantava com sua boa vontade e dedicação.

Órfã, vira escoarem-se a infância e a adolescência num lar infantil. Depois se empregara na residência de Lupércio, abastado comerciante, onde passara a residir.

Jerônima, a esposa, em princípio a contratara para serviços gerais. Logo, observando sua vocação para lidar com crianças, confiara-lhe seus filhos.

A jovem revelou-se uma babá muito especial, que cuidava de rebentos alheios com o carinho e a solicitude que dispensaria aos de sua própria carne.

Não se casara. Tímida e recatada, raramente saía, furtando-se ao contato com os rapazes da vizinhança, e nenhum deles poderia imaginar que aquela mulher de discreta beleza reservava todo um tesouro de ternura àquele que conquistasse seu meigo coração.

A patroa, encantada com a serviçal, proclamava frequentemente:

– Mira é da família!

As crianças cresceram. Os anos escoaram-se, modificando os quadros da vida, sem alterar em nada o devotamento da serviçal aos filhos de Jerônima, que repetia sempre:

– Mira é da família!

Até que aconteceu o problema...

Certo dia ela desenvolvia seus afazeres domésticos quando sentiu forte dor no peito. Desmaiou. Providenciada a internação de emergência, o médico informou, após vários exames, o quadro sombrio:

– A paciente está com grave deficiência cardíaca. Recomendo repouso absoluto por três meses.

Jerônima dirige-se ao marido:

– Meu querido, a situação é grave. Não podemos abandonar Mira, mas é impossível sua permanência em casa. Precisamos de uma substituta e o quarto onde dorme é muito pequeno para acomodar duas pessoas. Além do mais não disponho de tempo para atendê-la em suas necessidades.

Lupércio concordou com a mulher e apresentou a solução:

– Entrarei em contato com uma organização de assistência que mantém um lar de idosos. Embora Mira seja relativamente jovem, seu mal a situa em velhice precoce. Conheço os diretores e tenho feito doações. Não será difícil conseguir a internação.

– Ótima ideia!

Da palavra à ação foi um passo. Com a presteza de quem resolve incômodo problema, Lupércio tomou as providências necessárias.

A serviçal recebeu com imensa tristeza a notícia, mas, humilde, conteve-se, aceitando os argumentos da patroa:

– Sabe como a estimamos. Por isso mesmo queremos que descanse à distância das responsabilidades em nosso lar. Lá desfrutará da tranquilidade necessária para a sua recuperação. Seu cantinho aqui continuará reservado...

E, enfática:

– Afinal, você é da família!

No dia seguinte levou-a ao novo lar. Dirigindo-se à atendente, Jerônima recomendou solene:

– Peço-lhe que a receba com muito carinho. Preocupo-me com seu bem-estar.

Com o alívio de quem se livra de indesejável encargo, acentua:

– Mira é da família!

A doente não sobreviveu à tristeza de separar-se da sua “família”. Faleceu algumas semanas depois. No velório Jerônima chorava, emocionada, falando da antiga serviçal.

– Pobre criatura! Lamento sua morte como a de uma filha querida. Tantas lutas e logo agora, que podia descansar tranquilamente, a morte veio buscá-la. Fará muita falta. Lembraremos sempre de nossa Mira como de um familiar querido que partiu.

 

* * *

Os lares da Terra são como clubes fechados, onde só entram os que possuem a senha indispensável: o mesmo sangue.

Em situações peculiares, premiando uma dedicação sem limites, poderá um serviçal ser promovido a “membro da casa”.

Todavia, semelhante disposição não resiste aos testes da gratidão, porquanto tão logo se reduzam suas possibilidades de trabalho, em decorrência da idade ou de insidiosa moléstia, será sumariamente descartado. Se não pode servir à família, deixa de ser “da família”.

Comentários

  1. Nessas horas, eu me lembro da fala de uma empregada, considerada "parte da família", de um desses ricos, falou para o Lula: "Pergunta se ele me colocou no testamento dele?". Como diria Jesus: "Hipócritas!".

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

16.11 - DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Jesus, Mt, 22:34-40)                            John Locke (1632-1704), filósofo inglês, com o propósito de apaziguar católicos e protestantes, escreveu em 1689, Cartas sobre a Tolerância. Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, impactado com o episódio ocorrido em 1562, conhecido como Massacre da Noite de São Bartolomeu , marcado pelos assassinatos de milhares de protestantes, por fiéis católicos, talvez inspirado por Locke, em 1763, escreveu o Tratado sobre a Tolerância.             Por meio da  UNESCO¹, em sua 28ª Conferência Geral, realizada de 25.10 a 16.11.1995, com apoio da Carta das Nações Unidas que “declara a necessidade de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,...a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e...

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

SE O UNIVERSO É TÃO GRANDE, POR QUE IMAGINAMOS UM MUNDO ESPIRITUAL TÃO HUMANO?

    Por Wilson Garcia     Se a ciência expandiu nosso conhecimento sobre o cosmos de forma impressionante, talvez seja hora de perguntar: será que nossa visão sobre o mundo espiritual não ficou pequena demais — terrestre demais, humana demais? Uma leitora fez uma pergunta que me deixou pensando. Ela havia lido meu texto anterior,  Um bilhão de galáxias e uma única pergunta: e o espírito? , e trouxe uma questão que merece ser levada a sério. Ela disse, em resumo: — Tudo bem, falamos de bilhões de galáxias, de um universo gigantesco… mas e o outro lado? O que tudo isso tem a ver com a realidade espiritual? Será que o tamanho do universo material diz algo sobre o universo espiritual? A pergunta é boa. A resposta, porém, pede cuidado.

AS DEFORMIDADES COGNITIVAS PRETENSOS “HERCULANISTAS”

  Por Jorge Hessen O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo. Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.

DARWINISMO ESPIRITUAL E A SOCIOBIOLOGIA DO REINO: A LUTA DE IDEIAS COMO MOTOR DA TRANSIÇÃO

           Por Jorge Luiz                    A Espiral da Transição e o Equívoco do Evento                 Uma celeuma existente no movimento espírita acerca de leituras literais de transições planetárias desviou aquilo que é um processo profundo de adaptação biossocial para a transição vista como um mero evento cronológico. A evolução não se opera em uma constante, mas sim em uma espiral de eventos. A evolução dos mundos está atrelada à evolução dos Espíritos vinculados a eles.             Para compreender esse mecanismo na escala macro, é imperativo analisar o microcosmo das relações humanas. No livro Missionários da Luz (Cap. 13), psicografado por Francisco C. Xavier, o espírito André Luiz relata o grave trauma sofrido por um núcleo familiar em virtude das atitudes predatória...