Pular para o conteúdo principal

DE PAI PARA FILHO – CONSTRUINDO UM MAPA MENTAL (*)

 

Por Roberto Caldas

           A poesia descreve o ciclo, o tempo estabelece as regras, a estrada manobra o passo a passo. O enredo apresenta alguém de calças curtas, joelhos ralados e uma incansável sede de sorver toda a alegria que possa ser extraída das peraltices da infância.

“Eu vi um menino correndo/Eu vi o tempo brincando ao redor/Do caminho daquele menino”, diria Caetano Veloso (Força Estranha). “Ontem um menino que brincava me falou/Hoje é semente do amanhã”, retrucaria Gonzaguinha (Semente do Amanhã).  A metamorfose do menino em adulto não deveria apagar os sonhos da criança que amadurece para embalar outras crianças quando deixa de apenas ser filho e se torna um pai.

            Ser pai supõe ter sido filho um dia e ter um mapa especial que terá sido urdido nas paisagens de sua infância para, de forma lúdica e responsável, ter a coragem de entregar a porção mais substancial de sua vida na construção dos caminhos dos pequenos que brincam e se alvoroçam em seu entorno.

            Diversas as armadilhas que podem impedir o bom desempenho da tarefa paternal. A maior, esquecer como funciona a cabeça de uma criança impondo-lhe uma visão cartesiana, real demais, pelo risco de destruir as estrelas imaginárias dos sonhos. Inegável que o mundo das pessoas grandes é exigente e até cruel, mas o coração paterno sempre haverá de produzir molas e colchões para imprimir suavidade e leveza aos passos dos filhos.

            Mais especial ainda a função da paternidade quando as relações afetivas se ampliam para aquém do nascimento e além da morte. Circunstância que vincula Espíritos em processo de contínuo aprendizado com permuta de papéis entre si na fortificação dos laços de amor que a transitoriedade do corpo não impede a transcendentalidade. Tamanha felicidade nesses reencontros está descrita em O Livro dos Espíritos (q. 207 – a): “De onde vêm as semelhanças morais que existem às vezes entre os pais e os filhos? – São Espíritos simpáticos, atraídos pela afinidade de suas inclinações”.

            Aos pais do presente cabe uma divagação que os faça buscar a energia da criança que traz consigo, quando olhando a figura de seus pais se percebia amparado por alguém que muito mais que saciar-lhes as necessidades da sobrevivência construía uma ponte para o futuro, uma mensagem viva de terem alguém que estaria ali incondicionalmente. Provavelmente muitos desses pais já se despediram dos seus pais, viajores da eternidade agora, mas é possível reconstruir em suas mentes, as crianças que foram enquanto degustam, embalados pela saudade e a felicidade das lembranças, aquela convivência que ficou num tempo que as memórias guardaram.

            Antena Espírita tem a honra de parabenizar todos os pais do planeta na figura daqueles que embalam os seus filhos permitindo que os meninos que foram um dia falem aos seus corações, ora representados pelos meninos-pais aqui citados: Jean, Cid, Castro, Clélio, Paulo Vale, Paulo Eduardo e Roberto, adultos/crianças que reverenciam os seus pais. Nossa gratidão aos velhos amigos que nos deram a oportunidade dessa encarnação. 

 

(*) publicado originalmente em agosto de 2021, neste blog. 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - GEMINI
    O texto que você forneceu é um belo e reflexivo comentário sobre a paternidade, misturando observações poéticas, referências musicais e uma perspectiva espiritual.

    Aqui está um comentário sobre o artigo:

    O texto apresenta uma visão comovente e profunda da paternidade, traçando uma jornada do "menino de calças curtas" ao pai que, ao amadurecer, não deve esquecer a criança que foi. A metáfora do pai como um construtor de pontes para o futuro dos filhos é particularmente poderosa, ressaltando a importância de manter a leveza e a imaginação da infância, em vez de impor uma visão "cartesiana, real demais" do mundo.

    A inclusão de referências musicais de Caetano Veloso e Gonzaguinha enriquece a narrativa, conectando a passagem do tempo e o amadurecimento a sentimentos universais. A menção ao Espiritismo, com a citação de "O Livro dos Espíritos", adiciona uma camada de transcendentalidade ao tema, sugerindo que a paternidade é um reencontro de almas em constante aprendizado.

    O texto conclui com uma homenagem tocante a pais e amigos, reforçando a ideia de que a paternidade é um ciclo de amor, aprendizado e gratidão que se estende para além das barreiras da vida terrena. É uma reflexão que convida os pais a olharem para trás e se reconectarem com a criança interior, usando essa experiência para guiar os passos de seus próprios filhos com mais empatia e compreensão.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

ATAVISMO DO SENHORIO: A GÊNESE DO DESEJO DE EXPLORAR

     Por Jorge Luiz De onde brota esse desejo insaciável de oprimir e explorar o outro, transformando a vida alheia em mero recurso para o proveito próprio?   A Inquietação Fundamental e a Soberba O filme Guerra do Fogo , embora ficcional, é emblemático para determinar a disputa de duas tribos pelo domínio do fogo, que só uma sabia produzi-lo. O fogo não representava só o calor e a arma para enfrentar os predadores, mas, sim, um “poder tecnológico”. Quem o possuía dominava o ambiente e outras tribos. A tribo que rouba o fogo não quer apenas sobreviver; ela descobre que o medo da outra tribo a torna “soberana”. (*) O cientista britânico Robert Winston considera que o instinto de dominação é uma herança instintiva da nossa luta pela sobrevivência, proporcionada pela testosterona. Sabemos, diz ele, que para enfrentar os predadores violentos, os hominídeos tinham de ser fortes e poderosos. É ela a responsável pela formação da massa muscular e, portanto, da form...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

HOMENAGEM AO CONFRADE E IRMÃO FRANCISCO CAJAZEIRAS

            Francisco Cajazeiras, ao centro, com os colaboradores do Instituto de Cultura Espírita.             Tive a alegria e felicidade de conhecer Francisco Cajazeiras, a quem passei a tratá-lo por Francisco, no início da década de 1990, quando residia em Sobral, norte do Estado do Ceará, apresentado-o pelos colegas Everaldo Mapurunga e Geovani de Castro Pacheco, do Banco do Brasil em Viçosa Ceará, empresa onde também trabalhei. À época, abracei o ideal espírita e me vinculei ao Grupo Espírita Bezerra de Menezes, em Sobral. A aproximação entre os familiares foi alegre reencontro de almas – Rejilane (esposa), Alana e Ariane (filhas), logo em seguida nasceu Ítalo.

ALLAN KARDEC, O DRUIDA REENCARNADO

Das reencarnações atribuídas ao Espírito Hipollyte Léon Denizard Rivail, a mais reconhecida é a de ter sido um sacerdote druida chamado Allan Kardec. A prova irrefutável dessa realidade é a adoção desse nome, como pseudônimo, utilizado por Rivail para autenticar as obras espíritas, objeto de suas pesquisas. Os registros acerca dessa encarnação estão na magnífica obra “O Livro dos Espíritos e sua Tradição História e Lendária” do Dr. Canuto de Abreu, obra que não deve faltar na estante do espírita que deseja bem conhecer o Espiritismo.

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

LÉON DENIS ENTRE A LIBERDADE MORAL E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

  Por Wilson Garcia    Por que reduzir o Espiritismo a rótulos políticos empobrece seu alcance humano Há leituras que esclarecem — e há leituras que, sem o perceber, estreitam o campo de visão. No debate recente sobre Socialismo e Espiritismo[i], de Léon Denis, esse risco tornou-se visível: ao tentar proteger o pensamento espírita de apropriações materialistas, corre-se o perigo inverso de reduzir sua densidade social, confinando-o a categorias políticas que jamais lhe fizeram justiça. A análise crítica de Marco Milani sobre a edição brasileira da obra, publicada pela Casa Editora O Clarim, prestou um serviço inegável ao movimento espírita. Ao demonstrar problemas de tradução e enquadramento editorial, Milani mostrou com clareza que Denis não pode ser confundido com o socialismo materialista, estatizante ou revolucionário que dominava o debate político de seu tempo. Essa advertência é necessária — e correta.

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

A HONESTIDADE NÃO NECESSITA DE ELOGIOS - É OBRIGAÇÃO HUMANA

Por Jorge Hessen (*) Não experimento qualquer regozijo quando leio as notícias sobre pessoas que são festejadas por atos de honestidade. Isso significa que ser honesto é ser exceção numa maioria desonesta. Despertou-nos a atenção um recente roubo ocorrido em Canna, uma pequena ilha da Escócia. O imprevisto ocorreu em uma loja gerenciada pelos próprios fregueses, que vendia comidas, produtos de higiene pessoal e outros utensílios. Produtos como doces, pilhas e chapéus de lã artesanais foram roubados, sendo a loja revirada pelos ladrões. Parece coisa pequenina para nós brasileiros, mas o roubo assombrou os residentes de Canna, que não viam nada parecido acontecer por ali havia meio século. A loja permanece aberta em tempo integral e o pagamento da compra dos produtos é feito na “boa fé” ou “caixa da honestidade”: os fregueses deixam o dinheiro junto com um bilhete descrevendo o que compraram. Se confrontarmos a realidade do Brasil, seja na educação, na saúde, na ética, na hon...

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...