Pular para o conteúdo principal

GUERRA CULTURAL – COMO INVENTAR INIMIGOS E MANIPULAR PESSOAS


  

 Por Maurício Zanolini

     O escritor George Orwell, pouco antes do final da II Guerra Mundial, criou uma fábula para contar a revolução bolchevique que implantou um comunismo na Rússia e seus desdobramentos. No livro A Revolução dos Bichos somos apresentados aos animais da Granja do Solar, que cansados da exploração dos humanos, fazem uma revolução proletária, que começa romântica, igualitária e fraterna, e vai ficando cada vez mais sombria, autoritária e violenta.

            O mote principal da narrativa é mostrar a receita do totalitarismo (que funciona para qualquer ideologia política). Elege-se um inimigo externo (os humanos, no caso da fábula), inventa-se um inimigo interno (um animal traidor do movimento), pela causa se incentiva que todos os cidadãos se vigiem e se denunciem mutuamente, elege-se uma casta de líderes defensores dos valores da causa e cria-se uma força policial (a KGB no mundo real) que pune rigorosamente todos aqueles que se opuserem ao regime (mesmo sem provas, já que basta a delação do vizinho ou a convicção do juiz). O medo de ser injustamente denunciado, o terror de não saber o que é verdade e o que é mentira, faz com que todos se agarrem a um fanatismo que os transforma em massa de manobra.

            Essa mesma receita foi usada pelo nazismo (que aliás se opunha ao comunismo e o combatia). Também um inimigo externo (judeus que na verdade eram internos e externos ao mesmo tempo), só que aqui com um viés nacionalista (povo alemão = raça pura). Uma força policial (SS), uma política de extermínio (limpeza étnica), tudo baseado em notícias e narrativas falsas. Ao longo do século XX, a “receita” foi se aperfeiçoando, se infiltrando na cultura (que agora é globalizada), e hoje aparece em teorias conspiratórias que servem de estratégia para as guerras culturais do século XXI.

            A teoria da conspiração segue a cartilha de sistema fechado do totalitarismo, mas com características peculiares – o inimigo é invisível (um grupo que trabalha nas sombras manipulando as massas ou os acontecimentos históricos). Qualquer fato que prove que a conspiração é uma mentira é imediatamente usado para reafirmar a teoria que se retroalimenta e  passa a ser um ato de fé daqueles que a seguem. Funciona assim – se eu afirmo que forças ocultas estão controlando um determinado assunto e eu digo que vou expor essa manipulação, qualquer coisa que venha a dar errado nessa minha tentativa de expor a verdade será vista como resultado da ação sabotadora dessas forças ocultas (e não resultado da inexistência de uma conspiração). Se existe uma sabotagem deliberada, existe a conspiração. Minha tentativa frustrada de provar que a conspiração é real é a prova da realidade dela. Isso faz com que seja impossível provar a teoria da conspiração, ou então que seja impossível descartá-la. Os fatos que negam a teoria passam a ser vistos não como fatos mas como uma outra teoria que usa as mesmas estratégias de dissimulação e relativização da verdade.

            Usando essa tática de guerrilha de ideias já se tentou negar o Holocausto (assistam ao filme Negação para saber mais), já se atribuiu o controle do sistema financeiro mundial aos Templários / Maçonaria / Iluminatti que, além de tudo, desenvolvem patologias em laboratório para exterminar parte da população. O livro Os Protocolos dos Sábio do Sião foi uma dessas histórias fabricadas que serviu como “prova” para a escolha dos judeus como inimigos pelos nazistas. Hoje com a ascensão do conservadorismo político, a narrativa conspiratória é a que diz que a Escola de Frankfurt (de intelectuais na maioria judeus, que fugiram do nazismo e desenvolveram suas ideias nos Estados Unidos), juntou ideias marxistas com psicanálise e psicologia para doutrinar as massas e destruir o capitalismo ocidental. É dessa teoria da conspiração que derivam a “ideologia de gênero” que quer destruir a família tradicional burguesa, a doutrinação marxista que quer destruir os valores morais cristãos da sociedade (aqui entra a Escola sem Partido). E ainda tem as que falam de raças alienígenas infiltradas, URSAL, crianças índigo, data limite, etc.

            Por mais que pareça complexo, a estrutura por trás desses sistemas fechados é bastante simples – eu sou bom e o outro é mau. A polarização é tamanha que é muito comum o “bem” começar o argumento contra o inimigo dizendo que antes de tudo é preciso ficar atento porque os maus vão acusar os bons de serem maus, e que essa acusação é a prova de que eles são maus (só que se por um instante você imaginar que quem está dizendo isso é na verdade alguém mau, é impossível saber a verdade).

            Mas então como não inventar inimigos e enganar pessoas? Como não comprar uma narrativa fechada que se fortalece com as críticas e trata seus adeptos como fiéis de uma crença religiosa? A resposta é trabalhosa – precisamos entender que as coisas são complexas. Todas as teorias da conspiração, totalitarismos e fake news se baseiam em verdades para construir uma base crível para seus vôos delirantes. Separar o que é fato do que é ficção não é tarefa rápida, mas é possível para qualquer pessoa. Hoje, o acesso à informação, que causa tanta desinformação, também nos abre para um mundo de conhecimentos sólidos e bastante aprofundados.

           O canal Leitura ObrigaHistória, que mostra com detalhes as diferenças e as nuances entre os conceitos de Esquerda e Direita, deixa claro que o debate raso e emocional das redes sociais não tem sentido nem verdade. No whatsapp, o mesmo jornal um dia é de esquerda e no outro é de direita, ao vento dos humores de quem escreve e vitaliza o meme.             

         O mesmo George Orwell escreveu poucos anos depois de A Revolução dos Bichos, seu magistral livro – 1984. Nele, o autor imagina o futuro do totalitarismo, onde câmeras e telas controlariam cada gesto cada pensamento de seus cidadãos. Na sequência de abertura de uma adaptação para o cinema (que foi feito no mesmo ano do nome do filme), vemos o uso do patriotismo (hino, bandeira) para criar a sensação de pertencimento, nomeia-se o inimigo externo (Eurásia) e a guerra (inventada), incentiva-se o ódio ao inimigo interno (Goldstein – não por acaso um nome judaico), terminando com a imagem do grande líder (o Grande Irmão – Big Brother), que olha por todos, que faz o papel de pai para aquela massa de adultos infantilizados.

            Na história a novalíngua (conjunto reduzido de vocabulário imposto pelo grande irmão para restringir o pensamento das pessoas), expressa o lema do partido – Guerra é Paz! Liberdade é Escravidão! Ignorância é Força! A profunda contradição é a marca do sistema fechado do totalitarismo. E nós nos entregamos de corpo e alma porque somos guiados pela irracional necessidade de pertencimento. Entregamo-nos às sombras com as melhores e mais puras intenções. Já passou da hora de amadurecermos.

 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA
    O texto traz uma excelente análise sobre a mecânica do totalitarismo e das teorias da conspiração, conectando de forma muito clara os clássicos de George Orwell (A Revolução dos Bichos e 1984) com as guerras culturais e a desinformação no século XXI.

    O ponto alto do artigo é demonstrar como essa "receita" — baseada na criação de inimigos invisíveis, no medo e em narrativas que se retroalimentam — funciona como um sistema fechado. Em um cenário assim, qualquer fato que contradiga a teoria é absorvido por ela como "prova de sabotagem", tornando o debate racional impossível.

    No fim, o autor acerta ao apontar que a única saída contra esse fanatismo e o debate raso das redes sociais é o enfrentamento da complexidade. Para não sermos massa de manobra guiada pela necessidade de pertencimento, precisamos trocar o conforto das respostas simples e polarizadas pelo esforço de checar os fatos e buscar conhecimentos sólidos. É um chamado necessário ao amadurecimento coletivo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

CENTRO ESPÍRITA NÃO É E JAMAIS DEVERÁ SER PALANQUE DE PODER

                 Por Jorge Hessen                  A instituição espírita nasceu para ser escola de almas, oficina de trabalho no bem e  posto avançado de fraternidade . Sua finalidade não é a  conquista de posições de chefia ,  prestígio ou autoridade administrativa , mas a  transformação moral  dos frequentadores  à luz do Evangelho do Cristo.             Entretanto, não raras vezes, observa-se o surgimento de aborrecíveis disputas por cargos, movimentos de bastidores, articulações silenciosas ( maledicência ) e verdadeiras campanhas eleitorais antecipadas em torno de futuras diretorias e presidências. Trata-se de um fenômeno deplorável que revela o quanto ainda estamos distantes dos valores que supostamente abraçamos.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

VISÕES NO LEITO DE MORTE¹

Especialista no tratamento de traumas e processo de superação, Dr Julio Peres, analisa as experiências no final da vida e o impacto das visões espirituais ao enfermo e sua família, assim como para os profissionais da saúde que atuam em cuidados paliativos. De acordo com Dr. Júlio Peres, pesquisas recentes demonstram que um grande número de pessoas de distintas culturas têm relatado experiências no final da vida – originalmente chamadas na literatura por end-of-life experiences – sob a forma de visões no leito de morte, sugestivas da existência espiritual. Esta linha de pesquisa tem trazido contribuições que interessam diretamente aos profissionais que atuam com cuidados paliativos e mais especificamente, aqueles que desenvolveram a Síndrome de Burnout decorrente do esgotamento, angústia e incapacidade perante a falta de recursos para lidar com as sucessivas mortes de seus pacientes.

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

CORRIDA DESABALADA POR MAIS POSSUIR

  Por Orson P. Carrara                O significado da palavra desabalada , entre outros, é: o que parece não ter freios ou limites , ou o que se mostra excessivo e mesmo o que é desmedido, como uma paixão gigantesca, desenfreada, indicando falta de moderação e reflexão . Daí adjetivar a palavra corrida .             E referida corrida não fica restrita apenas ao mais possuir , pode ser ampliada ou enquadrada também para ser mais reconhecido, ser mais famoso, por mais aparecer, por ser mais destacado socialmente, mais seguido ou curtido , como se diria na linguagem das redes sociais, atualmente.