quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

DO COMUNISMO CRISTÃO AO FASCISMO DOS CRISTÃOS - II PARTE

 


Cristianismo e social-democracia

            A conclusão da introdução escrita por Friedrich Engels (1820-1895), empresário industrial e teórico revolucionário prussiano, que junto com Karl Marx (1818-1883) revolucionário socialista, nascido na Prússia,:fundaram o chamado socialismo científico ou marxismo, para a nova edição de As lutas de classes na França de 1848 a 1850, assim explicita:

 

“Faz hoje quase 1600 anos que no Império Romano atuava também um perigoso partido subversivo. Esse partido minava a religião e todos os fundamentos do Estado; negava sem rodeios que a vontade do imperador fosse a lei suprema; era um partido sem pátria, internacional, estendia-se por todo o Império desde a Gália à Ásia e mesmo para lá das fronteiras imperiais. Durante muito tempo minara às escondidas, sob a terra. Todavia, já há muito tempo que se considerava suficientemente forte para aparecer à luz do dia. Esse partido subversivo, que era conhecido pelo nome de cristãos, tinha também uma forte representação no exército; legiões inteiras eram cristãs.”

 

            Vê-se que o cristianismo primitivo era revolucionário. Jesus tinha um espírito rebelde. O que ocorreu é que com a adesão das classes ricas e educadas, e a instituição do cristianismo como religião, o revisionismo foi crescente e cada vez mais o seu caráter revolucionário ou comunista foi se distanciando de suas origens. Contudo, apesar de todos esses pesares e esforços não conseguiram eliminar de Jesus o seu caráter rebelde.

Rosa de Luxemburgo (1871-1919), filósofa e economista marxista polaco-alemã, em um artigo O Socialismo e as Igrejas: O comunismo dos primeiros cristãos, copilado com o de Engels, editado no opúsculo Cristianismo Primitivo, assim se expressa:

 

“Os social-democratas desejam pôr em execução o estado de “comunismo”; é principalmente isso que o clero tem contra eles. Em primeiro lugar, é chocante notar que os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros cristãos.”

 

John P. Meier, padre católico e estudioso bíblico norte-americano, em sua obra de cinco volumes, Um Judeu Marginal, o classifica assim, para que possibilite uma compreensão maior desse aspecto não conformista com o status quo vigente. Em várias passagens nos Evangelhos são mantidas essas características.

            O mesmo Engels, no opúsculo Cristianismo Primitivo, afirma:

 

“A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria.”

            É importante lembrar que a social-democracia dos tempos de Rosa e Engels difere da dos dias atuais, pois pregavam um socialismo fundamentado na revolução.

                      Cristianismo Revolucionário e Espiritismo

            O Cristianismo em seu aspecto revolucionário tem pontos de contatos interessantíssimos com o Espiritismo, principalmente com alguns personagens e a própria estrutura espiritual. E essa revolução começa na dimensão espiritual com a suspensão das comunicações incessantes entre os dois planos, tão logo as mensagens começaram a destoar com as práticas e opiniões do sacerdócio nascente, como bem relata Léon Denis, em sua belíssima obra Cristianismo e Espiritismo. Por outro lado, os representantes da hierarquia eclesiástica levavam uma vida de opulência e as revoltas camponesas começaram a espraiar-se em várias regiões da Europa. Kautsky a esse respeito esclarece:

 

“As doutrinas coletivistas e igualitárias das primitivas comunidades cristãs, registradas nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, converteram-se em armas para os que, durante a Idade Média, apregoavam o confisco dos bens da Igreja e defendiam a pobreza voluntária dos cristãos, dado que Jesus e seus apóstolos nada possuíam.”

 

            Isso será marcante em todo o processo histórico do Cristianismo, nos seus reconhecidos episódios revolucionários. Há de se ressaltar a participação de dois personagens importantes para o Cristianismo e o Espiritismo em suas trajetórias históricas: John Wycliffe (1324-1384) e Jan Hus (1369-1415). O primeiro, doutor em teologia pela Universidade de Oxford, pregava a necessidade de reformar a Igreja Cristã, censurar seus costumes, privilégios e exprobrava o fato de que ela e as ordens monásticas se tornaram proprietárias de vastas extensões de terra, cujo confisco advogavam. Já Hus, professor de teologia da Universidade de Praga, abraçou a doutrina de Wycliffe, ressaltava que nenhum homem podia ter autoridade sobre outros, e nenhum grupo ou instituição podia reivindicar especial santidade e conceder indulgências.

            Jan Huss, em 1415, foi condenado à morte na fogueira. Em 1428, 44 anos após à morte de Wycliffe, o Concílio de Constança decidiu pela sua condenação. Wycliffe teve desenterrados os seus despojos e levados à fogueira.

            Sabe-se que Jan Huss é uma das encarnações do Espírito Allan Kardec. A revelação sobre essa existência veio através da psicografia de Ermance Dufaux, em 1857. Fazer referências acerca de reencarnações desse ou daquele personagem é sempre temerário. O confrade Wallace Leal Rodrigues, através de estudos dos encadeamentos lógicos apresentados, mostra na introdução da obra Léon Denis na Intimidade, da Sra. Claire Baumard, que as existências de Denis e Kardec, são animadas pelos Espíritos de Wycliffe e Hus.

            Aliás, a Reforma Protestante é um evento revolucionário que se unira às revoltas camponesas na Alemanha, no início do século XVI, que ocorreram realmente sob inspiração religiosa. Esse movimento, contudo, sob liderança de Thomas Munzer (1489-1525), logo ao perceber que as classes camponesas não sairiam ganhando nessa reforma, rompeu com Lutero.

                                                                                                                                continua....

Um comentário:

  1. Há um livro muito interessante do Reza Aslam chamado "Zelota", que descortina um período muito interessante desse período bastante obscuro para nós.

    E, por mais que se pinte um cristianismo doce e consolador, dentro do movimento espírita, e conservador e castrador em movimentos cristãos religiosos tradicionais, cada vez mais entendemos que o Jesus Histórico é bem diferente.

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