Pular para o conteúdo principal

OS ESPÍRITAS E OS GASPARETTOS



“Não tenho a menor pretensão de
falar para quem não quer me ouvir.
Não vou perder meu tempo.
Não vou dar pérolas aos porcos.”
(Zíbia Gaspareto)

“Às vezes estamos tão separados,
ao ponto de uma autoridade religiosa,
de um outro culto dizer:
“Os espíritas do Brasil conseguiram um prodígio:
 conseguiram ser inimigos íntimos.” ¹
(Chico Xavier)


     


        
            Li com interesse a reportagem publicada na revista Isto É, de 30 de maio de 2013, sobre a matéria de capa intitulada “O Império Espírita de Zíbia Gasparetto”.(leia matéria na íntegra)
            A começar pelo título inapropriado já que a entrevistada confessou não ter religião e autodenominou-se ex-espírita, a matéria trouxe poucas novidades dos eventos anteriores. Afora o movimento financeiro e patrimonial gerado pela família Gasparetto, que é progressivo, constatei que o número de integrantes da família no conglomerado também cresce.
            Como me insiro no universo dos “porcos” para quem ela não lança suas “pérolas”, não tenho condições de julgar o conteúdo de suas obras. Por outro lado, sendo a mediunidade uma faculdade humana o seu direcionamento está vinculado ao livre-arbítrio de quem a possui.
            Alguns pontos, no entanto, são dignos de notas:
a)    o sucesso das vendas mostra a força do Espiritismo;
b)    muitas casas espíritas expõem em suas livrarias as obras da Sra. Zíbia;
c)    são muitos os que se tornaram espíritas através das suas obras;
d) frequência de lideranças de centros espíritas nos cursos, palestras e workshops promovidos por Luiz Gasparetto;
e)    desvirtuamento do que é Espiritismo;
f)     o segmento editorial espírita está repetindo o mesmo ethos dos Gasparettos.
            É fácil de identificar que os espíritas brasileiros formam a expressiva massa de consumidores dos produtos ofertados pelos Gasparettos, o que é uma demonstração inequívoca que o Espiritismo ainda não é conhecido por muitos que se afirmam espíritas. O sucesso financeiro da família é diretamente proporcional à indigência doutrinária nas demandas do movimento espírita brasileiro.
             Portanto, tecer considerações sobre os fatos apresentados seria forçado abordar nuanças várias que poderiam me levar a incorrer em julgamentos, o que não é ético. Afinal de contas, a própria ética espírita fez com que eles se afastassem do Espiritismo.

            Entretanto, este tipo postura diante da mediunidade não passa despercebida por Kardec. Em “O Livro dos Médiuns” o Ínclito codificador define os que assim agem como “médiuns mercenários.”
            Luiz Gasparetto (foto) se considera “médium do Universo” e diz ser a sua, uma nova “forma de fazer mediunidade.”, afirma Sandra Jacqueline Stoll, doutora em antropologia pela Universidade de São Paulo, em sua tese de mestrado publicada pela Editora Orion com o título “Espiritismo Brasileiro.”

            “Quem disse que o Universo é miserável?” A pergunta é proposta por Luiz Gasparetto, “incorporado” pelo Espírito Calunga, onde ele se apoia para a questão da prosperidade, que segundo ele, o sentido extrapola a dimensão material (?), diz Stoll.
            Na referida obra ela situa a família Gasparetto no campo da “Nova Era” em que a prosperidade figura como posição de destaque, muito embora considere que as atividades institucionais deles ainda mantenham vínculos com os ensinamentos espíritas.
            A antropóloga arremata ainda: “Luiz Gasparetto, embora iniciado nessa linhagem espiritual, hoje integra uma corrente que vem se consolidando em diferentes meios confessionais, cujo denominador comum é a tematização da prosperidade.”
             Iniciado nos Estados Unidos, a “teologia da prosperidade” traz para o “aqui e agora” a promessa de realização pessoal e/ou sucesso financeiro. No cenário religioso brasileiro quem bem representa esse segmento é o movimento neopentecostal, cujo representante mais conhecido é a Igreja Universal do Reino de Deus.
            Citando o sociólogo Anthony D’Andrea (itálico), Stoll ainda acentua: “Diz ele que “O Kardecismo parece não estar atendendo as demandas existenciais e concretas de segmentos emergentes da classe média” demandas essas que “se chocam com o excessivo tradicionalismo e intelectualismo das instituições kardecistas oficiais.” Será verdade?                     
            O clã Gasparetto não deixa de ser emblemático. Os “Gasparettos” são uma das tantas rupturas que marcam de forma indelével e mostram o quão difuso e sincrético é o movimento espírita brasileiro. Hoje são muitas as correntes que diante deste quadro, tentam se promover e firmar como renovação deste desfigurado movimento.
            As dificuldades começaram nos primórdios do Espiritismo no Brasil com as cisões entre os “científicos”, (experimental) “místicos” (religião), “Espiritismo puro” (ciência e filosofia). Estas colunas mestras são onde se apoiam grande parte das cisões intestinas do movimento espiritista na atualidade.
            Diante deste cenário, a cada dia fica mais desafiadora a consumação dos ideais de união e unificação em solo brasileiro.
            Quanto à revelação feita pela Sra. Zíbia relacionada ao Chico Xavier: “O Chico abriu mão dos direitos dos livros dele, mas uma vez chorou para mim, arrependido do que tinha feito”.
            O próprio Chico responde: “Tenho consciência de que o que fiz, fiz em meu próprio benefício... O esforço é pertinente a cada um. A maior recompensa do trabalho é a sensação do dever cumprido. O reconhecimento que devemos buscar é o da própria consciência. Não importa a ingratidão. Todo aplauso externo é ilusório.” ²
            Deixo o Chico finalizar:
“Gente há que diz que eu disse isto ou aquilo. Pode ser falso.” ³

¹ O Evangelho de Chico Xavier, de Carlos Bacelli, Editora Didier
² idem
³ idem

Para saber mais leia:
- “Espiritismo Brasileiro” – Sandra Jacqueline Stoll – Editora Orion

Comentários

  1. Parabéns pelo artigo, caro amigo Jorge! Gardênia Carlos.

    ResponderExcluir
  2. Excelente artigo. Esse Blog. está cada dia melhor...
    Compatilhando...

    ResponderExcluir
  3. Então C.Xavier, em algum momento(será?!), ter se arrependido legitima o enriquecimento pelo comercio da mediunidade. É, confrade Jorge, tem horas que só com sofismas é possível racionalizar nossas "auto-alucinações".

    ResponderExcluir
  4. Um verdadeiro Canteiro de Ideias excelentes, onde nos chama sempre para quetionamentos sóbrios, esse artigo em questão extremamente esclarecedor.

    Luciana Lucas

    ResponderExcluir
  5. A participação de todos só enriquece o "Canteiro de Ideias". Grato sou, pelas palavras de estímulo.

    ResponderExcluir
  6. Artigo bem escrito, lúcido e esclerecedor.Parabéns !!!!!


    Danielle

    ResponderExcluir
  7. A doutrina espírita já traz em seu nome a crença no plano espiritual, nas virtudes, nos valores; tendo a reencarnação do indivíduo como um meio de progresso espiritual porque o ser humano tem provas, expiações a passar.

    Ler a entrevista completa do link e logo em seguida lembrar do nascimento e da infância simples de Jesus é reavivar a lembrança latente de que o progresso material deve existir, sem sombra de dúvida, mas que não é para isso que estamos aqui.

    Parabéns Jorge,
    tá se garantindo na escrita, hein?

    ResponderExcluir
  8. Qual é o problema de uma pessoa dotada com potenciais mediúnicos, usar isso para benefício próprio?? Desde que esteja atendendo a ética e moral com o próximo e a si, tudo é permitido, mesmo com intenção financeira.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caríssimo Anônimo!
      Nos EUA a prática é aceita, isto já se via à época de Kardec. No Brasil temos os"buenadicha" (ledores de sorte). Existem e não temos como julgar os aspectos éticos e morais da prática. Só que o uso da faculdade para estes fins não se pode considerar espírita. A conduta espírita no tocante à mediunidade está sistematizada na Codificação Espírita, que é cristalina na questão do uso da mediunidade como interesses financeiros. Sugiro a leitura de o E.S.E, cap XXVI, item 7 a10. Kardec assinala: "Que aquele, pois, que não tem do que viver, procure outros recursos que não os da mediunidade; e que não lhe consagre, se necessário, senão o tempo de que materialmente possa dispor."
      Grato pela participação!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

O ESPÍRITO NÃO “REINICIA” SUA EXISTÊNCIA AO DESENCARNAR. ELE PROSSEGUE COMO SUJEITO HISTÓRICO

      Por Wilson Garcia   Quem governa a vida: o encarnado ou os Espíritos? É relativamente comum, no meio espírita — e talvez mais ainda fora dele — a ideia de que os Espíritos acompanham os encarnados de forma permanente, opinando sobre tudo, interferindo em decisões cotidianas e, em certos casos, conduzindo a própria vida humana. Quando escrevi o livro Você e os Espíritos, um amigo sintetizou esse imaginário com ironia: “Parece que quem comanda a vida são os Espíritos, e não o encarnado.” A observação, embora espirituosa, revela um equívoco conceitual recorrente. Ela expressa uma leitura simplificada — e até confortável — da relação entre o mundo espiritual e o mundo material, pois desloca responsabilidades, dilui escolhas individuais e oferece explicações prontas para conflitos pessoais e sociais.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

ENLATADOS NO TEMPO

  Por Marcelo Teixeira Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

O CALVÁRIO DAS MARIAS: DA RED PILL À INSURREIÇÃO DO ESPÍRITO

      Por Jorge Luiz “Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele.” (Paulo Freire)   A Patologia da Simbiose Promíscua Vídeo que circula nas redes sociais mostra a comandante da Guarda Municipal de Fortaleza reunida com outras mulheres, arguindo que há algo de errado no segmento evangélico. Analisando alguns dados estatísticos, ela concluiu que o número de mulheres agredidas dentro da ambiência do lar é de evangélicas. Essas mulheres, ao buscarem ajuda em suas igrejas, são orientadas pelo pastor a não procurarem advogado ou a polícia, e que devem se submeter ao marido, ganhando-o pelo testemunho. A crise é espiritual; portanto, orem! Essa também é a convicção desse mediano escrevinhador. 

A RELIGIÃO DO CAPITAL: O ENRIQUECIMENTO DOS PASTORES E A ESTERILIDADE DA FÉ INSTITUCIONAL.

      Por Jorge Luiz   A “Teocracia do Capital”: A Ascensão das Organizações Religiosas no Brasil Moderno             Os números denunciam. Segundo o Censo de 2022, o Brasil tem mais estabelecimentos religiosos que superam a soma de hospitais e escolas. O número de organizações religiosas criadas por dia no Brasil varia de 17 a 25. Essas mesmas instituições movimentam mais de R$ 21 bilhões por ano, riqueza cujo retorno social institucionalizado é questionável. Esse montante, contudo, carece de um vetor social direto, uma vez que goza de imunidade tributária e não se reverte em investimentos em saúde ou educação. Tamanha pujança econômica permitiu, inclusive, que diversos pastores brasileiros figurassem na revista Forbes como detentores de fortunas bilionárias.             Em contrapartida a isso tudo, o Brasil vive uma anomia moral. Os escândalos de ...

UM POUCO DE CHICO XAVIER POR SUELY CALDAS SCHUBERT - PARTE II

  6. Sobre o livro Testemunhos de Chico Xavier, quando e como a senhora contou para ele do que estava escrevendo sobre as cartas?   Quando em 1980, eu lancei o meu livro Obsessão/Desobsessão, pela FEB, o presidente era Francisco Thiesen, e nós ficamos muito amigos. Como a FEB aprovou o meu primeiro livro, Thiesen teve a ideia de me convidar para escrever os comentários da correspondência do Chico. O Thiesen me convidou para ir à FEB para me apresentar uma proposta. Era uma pequena reunião, na qual estavam presentes, além dele, o Juvanir de Souza e o Zeus Wantuil. Fiquei ciente que me convidavam para escrever um livro com os comentários da correspondência entre Chico Xavier e o então presidente da FEB, Wantuil de Freitas 5, desencarnado há bem tempo, pai do Zeus Wantuil, que ali estava presente. Zeus, cuidadosamente, catalogou aquelas cartas e conseguiu fazer delas um conjunto bem completo no formato de uma apostila, que, então, me entregaram.