Por Jerri Almeida
A história de Jerônimo é comovente. Nasceu no dia 1º de novembro de 1939 em Ituiutaba, Minas Gerais. Narra-se que sua infância foi a de uma criança normal. Frequentou escola até o início do ginasial antigo. Todavia, já na adolescência, começou a sentir os primeiros sinais de sua doença, através de dores nas articulações, especialmente nos joelhos e tornozelos, que passaram a inchar e, aos dezoitos anos, já andava com dificuldade.
De família modesta, seu pai era lavrador e sua
mãe lavadeira de roupas, uma mulher corajosa e determinada, pois enfrentando
muitas dificuldades, jamais se permitiu o desânimo. Diante de muitas
necessidades econômicas, Jerônimo, desde cedo, passou a ajudar seu pai para
melhorar a renda familiar. Portador de um espírito indagador, ainda na
adolescência, tomou contato com a Doutrina Espírita passando a estudar os seus
ensinamentos. Dessa forma, passou a adquirir uma nova visão de Deus, agregando
os inestimáveis conhecimentos sobre a imortalidade da alma, da reencarnação e,
portanto, aperfeiçoando o seu conceito de destino.
Na verdade, conforme sua mãe, Jerônimo desde pequeno já não gozava de muita
saúde, era um menino frágil, anêmico, doente. Com o conhecimento oferecido pelo
espiritismo, percebia que o espírito reencarna com suas tendências, suas lutas,
com seus problemas inerentes aos méritos e deméritos, almejando, pelo esforço
pessoal, o crescimento impostergável.
Certo dia, quando se dirigia a um bairro da cidade, ao passar em frente a uma
alfaiataria, Jerônimo ouve uma voz lhe convidando a entrar. Para sua surpresa,
seu Josias, o alfaiate, lhe havia feito um “terno”. Ele, nos seus dezessete
anos, nunca havia usado um. Foi rapidamente para casa, agradecendo o seu
benfeitor. Naquela noite, no cinema da cidade, o filme de lançamento era: “E o
vento levou”. Era a oportunidade para usar seu terno, sua gravata, seus
sapatos. Mas aquela noite repleta de felicidade, ficaria também marcada em sua
história por um outro motivo.
Quando chegou ao cinema, não haviam mais poltronas vazias, Jerônimo teve então
que assistir ao filme, de 4 horas de duração, em pé. Foi aí que começou para
ele, a jornada inicial e dolorosa de sua doença. Ao término do filme, suas
pernas estavam inchadas e, ele imóvel, necessitou ser retirado nos braços do
cine Capitólio. Ao chegar em casa, sua mãe assustada, necessitou, devido ao
inchaço de suas pernas e pés, cortar aquela calça, que ele vestira com tanta
alegria e entusiasmo. Ali começava sua história de renúncias, permanecendo os
primeiros três meses no leito, impossibilitado de locomoção.
Daí para frente, Jerônimo passou a locomover-se com muletas e ainda, para ajudar sua família, trabalhou como professor rural em uma chácara. Com o tempo, veio a cadeira de rodas e, depois, a cama, em definitivo. Mas Jerônimo, muito embora os seus conflitos pessoais, não se deixava desanimar, apoiado como ele mesmo afirmava, na fé racional lhe oferecida pelo espiritismo. Ao invés das queixas que seriam compreensíveis, ele buscava no idealismo e no trabalho possível, os recursos para se manter perseverante no equilíbrio interior.
Mesmo com suas limitações, Jerônimo Mendonça
fundou várias instituições espíritas que atendiam os necessitados de alimento
material e espiritual. Enxugava lágrimas, consolava os aflitos falando-lhes de
Deus e da imortalidade da alma, mas, sobretudo, através do seu exemplo pessoal.
Quando, em certa oportunidade, participava de um programa de televisão,
Jerônimo – que já não mais se movia – foi indagado pelo repórter sobre o que
seria a felicidade para ele: “A felicidade para mim, deitado há tanto tempo
nesta cama sem poder me mexer, seria poder virar de lado.” Naquela
oportunidade, ele falara sobre o amor e o valor da vida. Ao terminar a
entrevista, o telefone da emissora tocou. Uma mulher, desesperadamente, desejava
falar com ele. Apresentara-se como uma senhora da alta sociedade, portadora de
muita riqueza, mas infeliz. Ela havia planejado suicidar-se. Comprara ingressos
para sua família ir ao teatro e alegando indisposição, ficaria em casa. Tudo
estava planejado. Quando pegou o veneno para ingerir, sentiu vontade ligar a
televisão pela última vez. Lá estava Jerônimo, deitado em uma cama, cego,
falando sobre o prazer em viver e da felicidade. “Fiquei envergonhada!” –
afirmou a mulher. “O senhor salvou minha vida!”.
Conta-se que Jerônimo, apesar de todos os seus desafios, era uma pessoa bem
humorada. Em certa oportunidade, após uma palestra que fazia na cidade de São
Paulo, uma jovem aproximou-se dele chorando e pedindo-lhe palavras de conforto.
Mas, curiosamente, ela afirmava que durante a palestra havia tido uma visão
onde um antigo calhambeque aparecia atrás dele. “Qual a explicação?” –
indagou-lhe. Jerônimo jovialmente lhe diz: “-Minha filha, isso significa que
nós, mesmo na condição de um calhambeque, devemos trabalhar muito, até virar um
Santana.” A jovem que estava triste, ficou alegre com o exemplo daquele homem
que, diante de tanto sofrimento, soubera manter o bom humor.
Em uma de suas viagens realizando palestras, Jerônimo, que era transportado com sua cama, em uma Kômbi, havia retornado de Curitiba, muito cansado, com a voz fraca. Entretanto, no dia seguinte, fez, por telefone, a campanha costumeira para arrecadar donativos, alimentos para as pessoas carentes atendidas pela Sociedade Espírita. Naquela noite do dia 25 de novembro, uma irmã dedicada passou a madrugada de plantão, cuidando dele. Pela manhã, sua mãe estranhou que Jerônimo estava muito quieto. Ele havia partido como um pássaro que alçou vôo na direção dos altiplanos, rumo ao país da imortalidade.
Conforme o relato dos amigos, o velório e o enterro de Jerônimo foram emocionantes. Filas imensas de pessoas desejavam prestar-lhe a homenagem de gratidão por tudo o que fez, mas, sobretudo pelo exemplo de estoicismo, de coragem e fé que deixou.
Bibliografia
VILELA, Jane Martins. O Gigante Deitado. Matão-SP: O Clarim, 1994.

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI).
ResponderExcluirO texto apresenta uma narrativa profunda e inspiradora sobre a vida de Jerônimo Mendonça, conhecida como a história de um verdadeiro "gigante deitado". O artigo destaca de forma sensível os aspectos centrais de sua trajetória:
Superação e Resiliência: A transição dolorosa de uma infância humilde para o avanço severo e precoce de sua limitação física contrasta com sua recusa em se render ao desânimo ou ao vitimismo.
Fé Racional como Sustento: A Doutrina Espírita surge como o alicerce pedagógico e moral que deu sentido ao seu sofrimento, transformando limitações corporais em combustível para o aperfeiçoamento espiritual e o trabalho no bem.
Impacto Social e Humano: Impressiona como a sua limitação extrema não o impediu de fundar instituições, socorrer os necessitados e, pelo poder do exemplo, salvar vidas de forma direta (como o marcante relato da mulher que desistiu do suicídio).
Leveza e Estoicismo: O traço do bom humor diante das adversidades evidencia uma elevação moral na qual a dor física não superou a alegria de servir.
Trata-se de uma reflexão poderosa sobre o real sentido da felicidade, o valor da vida e o peso do exemplo pessoal acima de qualquer discurso.