Por Doris Gandres
A definição de moral, à luz dos princípios espiritistas, está transcrita na resposta à q.629 do Livro dos Espíritos – “moral é a regra da boa conduta e, portanto, da distinção entre o bem e o mal. O homem se conduz bem quando faz tudo tendo em vista o bem e para o bem de todos.”
Certamente ainda estamos um tanto longe de visar estritamente o bem e não as vantagens pessoais e, dificilmente, particularmente o bem de todos...
José Herculano, em seu comentário à resposta da q.636 do mesmo livro, na edição por ele traduzida, afirma que “os sociólogos confundiram moral e costumes”; e conclui: “A moral relativa é a convencional, enquanto a moral absoluta é a ditada pela aspiração universal do bem, pela lei de Deus gravada nas consciências”.
Constata-se, efetivamente, diante dos problemas da atualidade, que, até ao presente momento, o comportamento generalizado do ser humano tem-se pautado, sobretudo, pelas convenções, quase sempre firmadas em função de interesses pessoais e materialistas. O homem, por medo ou comodismo, ou ainda ignorância, submeteu sua consciência a certos tipos de “coação social” a fim de não se sentir excluído ou renegado, ou mesmo apontado como tolo e otário... O que Herculano chama de “moral absoluta”, aquela que rege nossas consciências, sempre que permitimos, é ainda, para muitos de nós, de difícil aplicação. Quem de nós pode dizer-se completamente justo e imparcial em todos os aspectos da vida e em relação a todos que partilham nosso caminho...
Em todos os tempos a “coação social” exerceu-se de formas diversas: primeiramente, nas civilizações primitivas, pela força bruta; depois, pretensamente civilizados, passou-se a utilizar formas mais refinadas de coação, nem por isso menos dolorosas: a intelectual, a política, a econômica e até a religiosa — esta última então poderíamos classificar como a mais covarde porque frequentemente se firma sobre a dor, o sofrimento, o anseio da criatura de apoio e consolação, de esclarecimento e libertação espiritual.
Os segmentos coercitivos, na maioria das vezes, não hesitam em servir-se de meios duvidosos, amorais, imorais, ilícitos e até ilegais para atingir seus objetivos. Instalam uma forma coercitiva, autoritária e arbitrária de supremacia com base em conceitos ilusórios, artificiais e passageiros – não só do ponto de vista transcendental, mas até mesmo do terreno, visto que mais cedo ou mais tarde esses conceitos veem-se desmascarados. Só que, em muitos casos, nem se importam porque seu senso moral, ainda não subdesenvolvido, não os acusa claramente. Às vezes, sentem-se “desconfortáveis” por serem descobertos, não por praticarem atos indevidos — a lógica é a de que “os fins justificam os meios”; “se eu não aproveitar, outro o fará”; “todos fazem, de uma forma ou de outra”...
Deolindo Amorim, Léon Denis e Herculano Pires, entre alguns outros grandes clássicos do Espiritismo, compreenderam o cunho profundamente social da doutrina e, sem concessões ou meias palavras, trabalharam arduamente para despertar o meio e o movimento espírita quanto a essa implicação ético social dos princípios espiritistas.
Entretanto, o hábito milenar de postulados dominadores dos amantes do poder, do autoritarismo e da arbitrariedade e o apego a velhos conceitos comodistas, a posturas subservientes, ao misticismo enganosamente salvacionista e o medo da assunção de responsabilidades perante si mesmo e perante os demais, não permitem, ainda hoje, que esse aspecto, embora pressentido, seja encarado de forma direta e efetiva, presos que ainda nos achamos a atavismos firmados em existências precedentes (ou mesmo na atual). Basta, de um modo geral, o entorpecimento do assistencialismo desobrigado da promoção social, da educação e do esclarecimento quanto a direitos, inclusive outorgados pela Constituição e pela Declaração dos Direitos Humanos...
Frequentemente priorizamos um dos aspectos da doutrina, seja o científico, o filosófico ou o religioso, ferindo assim o corpo homogêneo do Espiritismo – e, kardequianamente refletindo, cabe
salientar, contudo, que o aspecto religioso, místico e de certa forma idólatra (quanto a médiuns, espíritos, dirigentes e palestrantes), é o que ressalta no meio espírita e no movimento institucionalizado – visão e entendimento absolutamente contrário aos princípios da doutrina.
Lembro aqui uma reflexão de Deolindo, em seu estudo Deus e a Criação, no livro Encontro com a Cultura Espírita: “A Doutrina Espírita, como sabemos, assume uma posição em que a luz da fé, o esclarecimento da razão e a contribuição científica constituem três ângulos de inferência, cada qual com sua ótica, sem que, todavia, nenhum deles, separadamente, possa abranger a visão global” – e é essa visão e a sua avaliação perante o avanço intelectual e moral da humanidade, que nos permite compreender a doutrina espírita como progressista e universalista, de acordo com o entendimento, à época, do próprio Allan Kardec.
O Livro dos Espíritos, qs. 629 e 636
Encontro com a Cultura Espírita, Deolindo Amorim

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirO texto apresenta uma reflexão crítica sobre a dimensão ético-social do Espiritismo, contrastando o ideal da "moral absoluta" (fundamentada no bem coletivo e na lei divina) com a prática humana, que ainda se curva a convenções materiais e mecanismos de coação social.
Principais Pontos do Texto:
Moral Convenção vs. Moral Absoluta: Com base em J. Herculano Pires, o texto diferencia costumes passageiros (moldados pelo medo, conveniência ou interesses individuais) da lei moral universal gravada na consciência.
Formas de Coação Social: O autor evidencia como a sociedade transitou da força bruta para coerções mais sofisticadas (econômica, política e, sobretudo, religiosa), onde o autoritarismo e posturas dominadoras costumam instrumentalizar o sofrimento humano.
A Crítica ao Movimento Espírita: Aponta que, apesar do trabalho de pensadores como Deolindo Amorim e Léon Denis em ressaltar a responsabilidade de transformação social, o meio espírita frequentemente descamba para o assistencialismo passivo, a subserviência e o misticismo salvacionista.
Resgate do Equilíbrio Kardequiano: Conclui destacando a necessidade de harmonia entre os aspectos científico, filosófico e religioso da doutrina. O avanço moral exige abandonar visões personalistas e idólatras em prol de uma postura progressista, autônoma e guiada pela razão.