Pular para o conteúdo principal

OS ESPÍRITAS FAZEM PROSELITISMO?




 Por Francisco Castro (*)




Se entendermos que fazer proselitismo é montar barracas em praça pública, fazer pessoas assinar fichinha, ou ter que fazer promessa de aceitar essa ou aquela religião? Por outro lado, se entendermos que fazer proselitismo significa fazer visitação porta a porta no sentido de convencer alguém, ou de fazer com que uma pessoa tenha que aceitar essa ou aquela religião? Ou, ainda, de dizer que essa ou aquela religião é a verdadeira, ou de que essa ou aquela religião está errada? Não. Não, os Espíritas não fazem proselitismo!
Mas, se entendermos que fazer divulgação da existência da alma, da reencarnação, da comunicabilidade dos Espíritos, da Doutrina dos Espíritos, do Ensino Moral de Jesus e de que ele é modelo e guia da humanidade e não de certa parcela de uma nacionalidade ou de uma religião? A resposta é sim! Os Espíritas fazem proselitismo sim!
Qual seria então a razão de termos essa grande quantidade de jornais e revistas espíritas; de programas de rádio e televisão difundindo exclusivamente idéias espíritas; de cursos oferecidos pelas Casas Espíritas desde a Evangelização Espírita Infanto-Juvenil, Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, Estudo e Educação da Mediunidade, Seminários e Congressos Espíritas, Livrarias e Feiras de livros Espíritas e a grande distribuição de mensagens Espíritas levando orientação e consolo indistintamente a qualquer pessoa? Sem pedir que assine fichinha, ou que deixem essa ou aquela religião? Se não for para fazer proselitismo?

Ah! O termo proselitismo é aqui empregado na sua verdadeira acepção, que é divulgar uma ideia, uma filosofia, uma doutrina. E isso consagra a liberdade de pensamento e de religião que é assegurada pela Carta Magna vigente. Portanto, não podemos abrir mão de um direito que é assegurado constitucionalmente a todos os brasileiros, que professam essa ou aquela ideia, essa ou aquela doutrina, essa ou aquela filosofia. Por que não?
Talvez devamos perguntar: O que Allan Kardec pensava a respeito? Ele, na condição de Codificador dessa novel Doutrina, como via essa questão? Teria ele expressado o seu pensamento de forma clara a esse respeito? Será que ele foi ou seria contra a que os Espíritas fizessem ou façam proselitismo de uma Doutrina que, sem exigir que ninguém abra mão de suas convicções religiosas, possa viver melhor por compreender que a  vida não começa no nascimento do corpo e nem acaba com a morte desse mesmo corpo? Que os nossos entes queridos que já desencarnaram, continuam vivendo e nos amando, apenas em outra dimensão da vida?
Kardec jamais foi contra que se fizesse, ou que se faça proselitismo, muito pelo contrário, basta que se consulte o segundo livro da Codificação, O Livro dos Médiuns, capítulo III, cujo título é: Do Método. Vejamos como Kardec inicia o primeiro parágrafo desse capítulo: “ Muito natural e louvável é, em todos os adeptos, o desejo, que nunca será demais animar, de fazer prosélitos. Visando facilitar-lhes essa tarefa, aqui nos propomos examinar o caminho que nos parece mais seguro para se atingir esse objetivo, a fim de lhes pouparmos inúteis esforços.”  Kardec prossegue com esse capítulo do item nº 18 até o item nº 35.
O Codificador no Capítulo XXIX de O Livro dos Médiuns, mais precisamente no item nº 350, conclui: “Se o Espiritismo, conforme foi anunciado, tem que determinar a transformação da humanidade, claro que esse efeito ele só poderá produzir melhorando as massas, o que se verificará gradualmente, pouco a pouco, em consequência do aperfeiçoamento dos indivíduos.” Ora, como nós Espíritas podemos ter vergonha de divulgar uma Doutrina que  pode produzir esse tipo de efeito na sociedade, especialmente em uma sociedade tão conturbada como a brasileira? A não ser que tenhamos vergonha de evidenciar que essa Doutrina maravilhosa ainda não está produzindo em nós tais efeitos. Nós que já somos seus profitentes, alguns há várias décadas! Será por essa razão que estamos confinando a Doutrina Espírita?
Talvez seja pelas razões elencadas pelo Codificador na sequência desse item nº 350 de o Livro dos Médiuns: “Que importa crer na existência dos Espíritos, se essa crença não faz que aquele que a tem se torne melhor, mais benigno e indulgente para com seus semelhantes, mais humilde e paciente na adversidade? De que serve ao avarento ser espírita, se continua avarento; ao orgulhoso, se se conserva cheio de si; ao invejoso, se permanece dominado pela inveja? Assim, poderiam todos os homens acreditar nas manifestações dos Espíritos e a Humanidade ficar estacionária”.
Vamos pensar nisso meus irmãos!
 

 (*) Francisco Castro (foto) advogado, escritor, expositor espírita e voluntário do Centro Espírita Grão de Mostarda

Comentários

  1. Proselitismo do bem, da paz, do amor, da caridade...

    ResponderExcluir
  2. Se Kardec estivesse encarnado em nossos dias, penso que ele usaria a internet: blogs, redes sociais, emails. jonais, revistas, televisão, cinema enfim, tudo que pudesse divulgar o Espiritismo. Nós estamos fazendo isso mas a divulgação "de qualidade" é o nosso exemplo de bom caráter no meio em que vivemos...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Vera!
      Bom dia!
      É bom sempre ler todos os comentários. Ai vai o reconhecimento ao confrade Denísio também.
      Já que Kardec não está, estamos nós. Belíssima reflexão!

      Excluir
  3. Parabéns pela escolha do tema!

    ResponderExcluir
  4. Parabéns ao site!!! Mais de 5000 visualizações. Proselitismo ... divulgar a VIDA sempre.

    ResponderExcluir
  5. Mesmo que irritemos, divulguemos. Afinal, para defender o que é nobre é preciso uma postura firme.







    ResponderExcluir
  6. Para os amantes de poesia, aí vai uma nascida de minhas intranhas:

    Sou o canto
    Sou a melodia
    Sou o sonho
    Sou realidade
    Sou um homem

    Sou um deus que dorme
    Por sobre minhas virtudes
    Apressando-me e demolindo
    Os passos de minhas tolas Inclinações.

    Sou poeta que rima
    Dor com Esperança
    Que compõem versos
    Por entre os espinhos
    Sou errante - em seu sentido
    Mais profundo - que descortina
    O mundo a cada amanhecer
    Burilando o mundo interno
    De minhas insondáveis
    Impefeições

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Alec!
      Prazer tê-lo em nossa família "Canteiro de Ideias".
      Para béns pela página poética.
      Abc

      Excluir
  7. Por isso e outras,temos que sair da nossa redoma de proteção e fazer valer o que nos foi deixado de presente.De que vale idéias,verdades dentro de se,e muitas vezes não iluminamos nem nossa alma?É claro que devemos expandir,vivenciar,explorar ,fazer valer apena o que Kardec através dos nossos irmãos espirituais nos deixou.Sermos gratos por ainda assim,não desistirem da humanidade.A caridade (Divugação!)

    ResponderExcluir
  8. Seria correto um espirita desenvolvido nesta Doutrina, esconder para um cristao sua crença de que Jesus nao morreu na cruz para a remissao dos pecados, pelo sangue derramado na cruz , de que este cristao a priore necessita participar das palestras e cursos, e depois de muito tempo quando este ex-cristao e um novo espirita aprende que Jesus passa a ser um Salvador moral, e nao de seus pecados. Se houvesse sinceridade nestes ensinos doutrinarios, por que nao ensinam que o espirita nao cre no sacrificio de Jesus para a salvaçao eterna???

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Francisco Castro de Sousa26 de agosto de 2013 às 17:27

      Prezado confrade, quando abordei essa questão foi no sentido de que devemos divulgar a Doutrina Espírita por todos os meios possíveis, sem imaginarmos que, com isso, estejamos fazendo algo pecaminoso. Devemos entender que, divulgando a Doutrina tal como se encontra em "O Livro dos Espíritos", aqueles que a compreenderem na sua expressão mais verdadeira, sem dúvidas chegarão a essa conclusão que o nobre amigo sugere. No entanto, devemos entender e respeitar o ritmo de cada um, sem sofrimento e sem desejar apressar o processo individual. Devemos entender que a melhor forma de demonstrar que compreendemos isso é pelo exemplo. Me coloco à sua disposição pelo endereço: castro.adv@bol.com.br Castro

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

CENTRO ESPÍRITA NÃO É E JAMAIS DEVERÁ SER PALANQUE DE PODER

                 Por Jorge Hessen                  A instituição espírita nasceu para ser escola de almas, oficina de trabalho no bem e  posto avançado de fraternidade . Sua finalidade não é a  conquista de posições de chefia ,  prestígio ou autoridade administrativa , mas a  transformação moral  dos frequentadores  à luz do Evangelho do Cristo.             Entretanto, não raras vezes, observa-se o surgimento de aborrecíveis disputas por cargos, movimentos de bastidores, articulações silenciosas ( maledicência ) e verdadeiras campanhas eleitorais antecipadas em torno de futuras diretorias e presidências. Trata-se de um fenômeno deplorável que revela o quanto ainda estamos distantes dos valores que supostamente abraçamos.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

CORRIDA DESABALADA POR MAIS POSSUIR

  Por Orson P. Carrara                O significado da palavra desabalada , entre outros, é: o que parece não ter freios ou limites , ou o que se mostra excessivo e mesmo o que é desmedido, como uma paixão gigantesca, desenfreada, indicando falta de moderação e reflexão . Daí adjetivar a palavra corrida .             E referida corrida não fica restrita apenas ao mais possuir , pode ser ampliada ou enquadrada também para ser mais reconhecido, ser mais famoso, por mais aparecer, por ser mais destacado socialmente, mais seguido ou curtido , como se diria na linguagem das redes sociais, atualmente.

VISÕES NO LEITO DE MORTE¹

Especialista no tratamento de traumas e processo de superação, Dr Julio Peres, analisa as experiências no final da vida e o impacto das visões espirituais ao enfermo e sua família, assim como para os profissionais da saúde que atuam em cuidados paliativos. De acordo com Dr. Júlio Peres, pesquisas recentes demonstram que um grande número de pessoas de distintas culturas têm relatado experiências no final da vida – originalmente chamadas na literatura por end-of-life experiences – sob a forma de visões no leito de morte, sugestivas da existência espiritual. Esta linha de pesquisa tem trazido contribuições que interessam diretamente aos profissionais que atuam com cuidados paliativos e mais especificamente, aqueles que desenvolveram a Síndrome de Burnout decorrente do esgotamento, angústia e incapacidade perante a falta de recursos para lidar com as sucessivas mortes de seus pacientes.

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

GESTÃO: O "NÓ" DA INSTITUIÇÃO ESPÍRITA

 O Espiritismo será o que o fizerem os homens.  Similia similibus! Ao contato da Humanidade as mais altas verdades às vezes se desnaturam e obscurecem. Podem constituir-se uma fonte de abusos. A gota de chuva, conforme o lugar onde cai, continua sendo pérola ou se transformar em lodo. (Léon Denis, No Invisível)             Há no Brasil o movimento espírita mais fecundo do Planeta. Porém, a ausência de ações doutrinárias e diretivas eficazes pelos órgãos federativos, favorecidas por essa fertilidade, permitiu a disseminação do sincretismo religioso, o institucionalismo, o religiosismo igrejeiro e o profissionalismo religioso. Atalhos e desvios.             Em decorrência dessas fragilidades, foi verificado o seguinte: a)    no afã de promoverem a divulgação doutrinária, alguns adeptos terminam aprisionando-a em p...

AFINAL, QUANDO O ESPIRITISMO SE TORNOU RELIGIÃO? UMA CONVERSA FRANCA SOBRE CULTURA, PODER E TRANSFORMAÇÃO NO ESPIRITISMO BRASILEIRO

  Por Wilson Garcia A Dissertação Espiritismo transnacional: poder, habitus e mitopráxis na configuração religiosa brasileira em décadas de perseguições, defendida na PUC-SP por Adair Ribeiro Júnior em 2026, tenta responder a uma pergunta que há décadas tira o sono de quem estuda ou vive o espiritismo: como e por que o espiritismo se tornou uma religião no Brasil?               A resposta que o autor apresenta é fundamentada, bem documentada, mas não é definitiva. E é justamente aí que mora seu valor. Ela nos obriga a pensar. Quem conhece Allan Kardec sabe: o projeto original não era religioso. Era um tripé — ciência, filosofia e moral — apoiado na investigação metódica dos fenômenos espirituais. Observação, comparação, controle das comunicações: um verdadeiro laboratório do invisível.             Mas aí essa ideia atravessou o Atlântico, desembarcou ...