Pular para o conteúdo principal

O APLAUSO NAS INSTITUIÇÕES ESPÍRITAS

 


“O aplauso é tão oportuno quanto o silêncio em outros momentos, de concentração e atividade mediúnica, ou o aperto de mãos sincero, o abraço, o beijo, o “muito obrigado”, o “Deus lhe pague”, o “até logo”…

***

 Por Marcelo Henrique

Curioso este título, não? O que tem a ver o aplauso com as instituições espíritas? Será que teremos que aplaudir os palestrantes (após suas exposições) ou os médiuns (após alguma atividade)?

Nada disso! Não se trata do “elogio à vaidade”, nem o “afago de egos”. Referimo-nos, isto sim, ao reconhecimento do público aos bons trabalhos de natureza artística que tenham como palco nossos centros.

O quê? Não há apresentações artísticas e literárias, de natureza cultural espírita, na “sua” instituição? Que pena!

 

E a arte espírita?

Bem que eu já tinha visto preconceito em relação à arte espírita, com gente “torcendo o nariz”, olhando “atravessado”, ou fazendo “cara feia”… Muitas pessoas, infelizmente, ainda consideram o centro um “lugar sagrado”, onde predominam a sisudez, a contrição, o semblante fechado e o cumprimento de “obrigações”. Certos condicionamentos ou paradigmas, assim, criados por uns e alimentados por outros, sem análise e discussão, acabam virando “dogmas” no movimento espírita.

Considerando-se a arte como um “veículo” de difusão das idéias espíritas, as apresentações espíritas devem ocupar os espaços públicos das instituições, não somente nos chamados eventos comemorativos ou especiais, mas no próprio dia a dia da seara.

Certo dia, conversando com um velho dirigente, ele me disse que o público que vem a casa, chega cheio de problemas, necessidades e carências, e, desta forma, vem à procura do lenitivo da mensagem (palestra) e do passe. Então, este poderia não “entender direito” se, ao invés de uma palestra “sobre o Evangelho”, houvesse lá na frente um “punhado” de jovens apresentando teatro

Eis a dura e triste realidade.

 

Os jovens espíritas e o aplauso

Os jovens – quase sempre os realizadores das apresentações artísticas, sejam elas cênicas ou musicais – ainda são vistos como um “gueto”. Lutam, árdua e corajosamente, para garimpar espaços. Demoram muito tempo mesmo para obter a valorização do (bom e belo) trabalho que fazem. Todos nós passamos por isto. Em outro artigo que escrevemos, há algum tempo, perguntávamos logo no título: “Serão conservadores os nossos jovens, amanhã?” (veja referência ao final), como a representar que, na idade madura, nós acabamos minimizando sonhos e lutas, contentando-nos com a rotina ou arriscando-nos muito pouco. Felizes são os que conseguem cultuar o espírito jovem por toda a vida.

O aplauso, assim, é sempre bem-vindo! Algum músico ou ator já disse que ele é o “combustível do espetáculo, do trabalho artístico”, na esteira do que Milton Nascimento sentenciou: “[…] todo artista tem de ir aonde o povo está”. Aplaudir (e sorrir), demonstram satisfação com o resultado, apreensão das idéias, entendimento da mensagem, emoção e sintonia com a proposta. Há, é claro, aplausos mais simples, e outros, mais efusivos. Há os que se levantam da cadeira e gritam: – Bravo! Muito bem! Há os que vão até o “camarim”, a “coxia”, para apertar as mãos dos atores ou músicos, ou os que assistem mais de uma vez o espetáculo ou apresentação. Há os que querem bater fotos com atores e músicos, estes ainda caracterizados ou “uniformizados”. Tudo isto é sinal de simpatia, de reconhecimento da qualidade do trabalho. E, convenhamos, não há dinheiro que pague estas manifestações autênticas e sinceras.

O aplauso, assim, não vai fazer “baixar a vibração”, não vai atrair “espíritos zombeteiros”, não vai tumultuar o ambiente, senhor dirigente! Ele vai, sim, enriquecer ainda mais o processo de interação entre público e artista espírita. Vai, ainda que através de gestos ou linguagem não falada, constituir o próprio processo comunicativo, através da interação, da simbiose, da empatia.

Lembro-me, ainda, de uma confraternização estadual de jovens espíritas, no início da década de noventa. Reunidos, mais de 400 jovens, em cinco dias de trabalho, estudo, confraternização e arte. Uma beleza! Ainda mais, porque realizado em pleno período das festas de Momo, quando, costumeiramente, a juventude bacana dos centros foge do burburinho das festas carnavalescas, buscando o refúgio da confraria espírita-jovem, na alegria, no carinho, na fraternidade. De repente, lá pelo segundo dia de encontro, um dos dirigentes – ainda relativamente jovem – propôs: – Gente, eu queria fazer uma sugestão…

Vamos substituir o aplauso, que faz barulho, e às vezes “agride” nossos ouvidos por um “sacudir de mãos”, assim, para o alto… E, mexeu as mãos, simultaneamente, como a sacudi-las, demonstrando como deveria ser o novo “aplauso”. Assim – continuou ele – os grupos que se apresentam sabem que estamos contentes e gostamos do número musical ou teatral e os “espíritos superiores” não ficam aborrecidos com o excesso de barulho que possamos fazer.

Sim, é isto mesmo que você acabou de ler… Os espíritos “superiores” ficam desgostosos porque batemos palmas…

Tais anátemas ficam por aí, se proliferando, virando verdades absolutas, alimentando, mais e mais, o preconceito contra a legítima arte espírita.

 

E Jesus?

Fico a me lembrar de Jesus, que precisou ser enérgico (e ruidoso) em algumas circunstâncias, mas revelou-se manso e pacífico em tantas outras… Há quem revele um Cristo sisudo, compenetrado ao extremo, triste até, nas suas andanças e conversações. Não creio nisto, sinceramente. Basta ver, perto de nós, o exemplo do Chico, que ria, até das suas duras provações e dificuldades. Que sempre era visto – apesar das dores atrozes – sorrindo para todos. Prefiro ficar com a imagem literário-poética de J. J. Benítez, no seu Operação Cavalo de Tróia, nos mostrando um Jesus feliz, até brincalhão, bem-humorado em várias oportunidades, sobretudo em meio às crianças e jovens de seu tempo, não obstante, durante os três anos de andanças de seu ministério de amor, fundando a “Casa do Caminho”, precisasse de toda a concentração e seriedade nos momentos de ensino e prática mediúnica.

Assim devem ser os ambientes espíritas. Sérios no trato e no exercício das faculdades mediúnicas, mas sem perder a graça, a alegria, a jovialidade e a leveza das apresentações artísticas. Como Che, poderíamos repisar: “[…] hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”, representando que a atividade espírita, eficiente e eficaz, no trato das necessidades humanas, não pode olvidar a alegria e da ternura, formas tão nobres quanto imprescindíveis para a nossa aproximação do outro, no relacionamento interpessoal e no serviço assistencial e doutrinário espíritas.

 

Conclusivamente…

O aplauso é, por isto mesmo, tão oportuno quanto o silêncio em outros momentos, de concentração e atividade mediúnica, ou o aperto de mãos sincero, o abraço, o beijo, o “muito obrigado”, o “Deus lhe pague”, o “até logo”… Nós é que temos, racionalmente, mas sem esquecer o sentimento, escolher dentre tais manifestações e muitas outras, qual a que melhor se adequa ao nosso momento de atividade.

Desejo-lhes, então, muitos aplausos, sinal de que a mensagem – tão carinhosamente preparada num esquete ou audição – foi bem entendida, e preencheu mente, coração e espírito de quem – encarnado ou desencarnado – teve a felicidade de presenciar.

 

  

Fonte:

Henrique, M. (2025). Serão conservadores os jovens, amanhã? “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 3. Set. 2025. Disponível em: <https://www.comkardec.net.br/serao-conservadores-os-jovens-amanhapor-marcelo-henrique/ >. Acesso em 20. Abr. 2026.

Comentários

  1. ELABORE UM COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O autor desconstrói a ideia de que o centro espírita deve ser um ambiente de constante austeridade. Ele defende que a arte espírita não é um mero entretenimento para datas festivas, mas uma ferramenta pedagógica e consoladora tão legítima quanto a palestra expositiva.
    Pontos de Destaque:

    Combate ao Dogmatismo: O texto critica a criação de "falsas etiquetas" (como a ideia de que aplausos perturbariam espíritos superiores), tratando-as como dogmas que engessam a naturalidade humana.

    Valorização da Juventude: Destaca a luta dos jovens para ocupar espaços, lembrando que o entusiasmo e a alegria são combustíveis essenciais para a renovação das instituições.

    O Equilíbrio de Jesus: A referência ao Cristo bem-humorado e acessível serve para humanizar a prática doutrinária. O autor pontua que há tempo para o silêncio da prece e tempo para a efusividade do reconhecimento.

    Conclusão

    Em suma, o artigo propõe uma Espiritualidade Viva. O aplauso, aqui, é ressignificado: deixa de ser um "alimento para o ego" e passa a ser um gesto de gratidão, conexão e empatia. Como bem diz o texto, a seriedade no trabalho mediúnico não deve excluir a leveza e a ternura no trato com a vida.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

FÉ INABALÁVEL E RAZÃO - O SIGNIFICADO DE RELIGIÃO PARA ALLAN KARDEC

Com esse artigo, iniciaremos SÉRIE ESPECIAL com origem no artigo científico elaborado por Brasil Fernandes de Barros, Mestre e Doutorando em Ciências da Religião pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC MINAS. E-mail: brasil@netinfor.com.br , publicado originalmente na Revista Interações , Belo Horizonte, Brasil, jan./jun. 2019. Reputamos de importância significativa para os espírita, considerando que o tema ainda divide o movimento espírita. Para possibilitar melhor comodidade à leitura, as postagens serão em dia sim, dia não. Boa leitura!  

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

OPINIÕES PESSOAIS APRESENTADAS COMO VERDADES ABSOLUTAS

  Por Orson P. Carrara                Sim, os Espíritos nem tudo podem revelar. Seja por não saberem, seja por não terem permissão. As expectativas que se formam tentando obter informações espirituais são muito danosas para o bom entendimento doutrinário e vivência plena dos ensinos espíritas.             É extraordinário o que Kardec traz no item 300 de O Livro dos Médiuns, no capítulo XXVII – Das contradições e das mistificações . O Codificador inicia o item referindo-se ao critério da preferência de aceitação que se deve dar às informações trazidas por encarnados e desencarnados, desde que dentro dos parâmetros da clareza, do discernimento e do bom senso e especialmente daquelas desprovidas de paixões, que deturpam sempre.

CIVILIZAÇÃO

  Por Doris Gandres A mim me admira como a filosofia espiritista ainda hoje, passados cerca de 160 anos de seu lançamento a público como corpo de doutrina organizada com base na pesquisa e no bom senso, se aplica a situações e condições contemporâneas. Ao afirmar que nos julgamos “civilizados” devido a grandes descobertas e invenções, por estarmos melhor instalados e vestidos e alimentados do que há alguns séculos, milênios até – o que hoje sabemos estar restrito a uma minoria dentro da humanidade – percebemos o quanto de verdade encerra essa afirmativa ao nos chamar a atenção de como estamos iludidos.

O COTIDIANO DO TRATAMENTO DO HOSPITAL ESPÍRITA ANDRÉ LUIZ - HEAL

O presente trabalho apresenta a realidade da assistência numa instituição psiquiátrica que se utiliza também dos recursos terapêuticos espíritas no tratamento dos seus pacientes, quando estes solicitam os mesmos. Primeiramente, há um breve histórico do Hospital Espírita André Luiz (HEAL), acompanhado da descrição dos recursos terapêuticos espíritas, seguido, posteriormente, do atendimento bio-psico-sócio-espiritual, dando ênfase neste último aspecto.         Histórico     O HEAL foi fundado em 25/12/1949, por um grupo de idealistas espíritas, sob orientação direta dos espíritos, em reuniões de materialização, preocupados com a assistência psiquiátrica aos mais carentes daquela região, além de oferecer o tratamento espiritual para os atendidos, por acreditarem na conjunção das patologias psiquiátricas com os processos obsessivos (ação maléfica dos espíritos).     O serviço de internação foi inaugura...

MOINHOS DE GASTAR GENTE: DO DIAGNÓSTICO DO BURNOUT AO "CRISTO MÁGICO" DAS MULTIDÕES

  Panorâmica do evento que reuniu 2.500 homens na Paróquia da Glória - Fortaleza CE.   Jorge Luiz   O Diagnóstico da Falência: A Mutilação em Números             Os dados do Ministério da Previdência Social e do Ministério Público do Trabalho (MPT) revelam um cenário de terra arrasada: um aumento alarmante de 823% nos afastamentos por Burnout e um salto de 438% nas denúncias relacionadas à saúde mental. Entretanto, esses números são apenas a ponta de um iceberg vinculado ao emprego formal; a realidade nacional é ainda mais perversa se olharmos para as periferias, onde multidões sitiadas pela privação e pela ausência de esperança acabam cooptadas pelo apelo à misericórdia divina das igrejas. Diante desse quadro, a recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) pelo Governo Federal surge como uma confissão oficial de que o ambiente corporativo se tornou patogênico. Contudo, as novas punições por ris...

REFORMA ÍNTIMA OU ÍNFIMA?

  Por Marcelo Teixeira Quando resolvi que iria escrever sobre a tão incensada reforma íntima, um dos assuntos que figuram nos “trend topics” do movimento espírita conservador (só deve perder para o bônus-hora), fiquei pensando por qual caminho iria. Afinal, tudo que se fala acerca do assunto está nos moldes convencionais. Com o passar dos dias, no entanto, percebi que seria viável começar justamente pelo que dizem os autores e palestrantes tradicionais. Encontrei, então, num artigo publicado no site “Amigo espírita” e assinado por “o redator espírita”, os subsídios que procurava para o pontapé inicial. O artigo se chama “Autoconhecimento e reforma íntima no contexto espírita: um caminho de transformação espiritual”. Ele argumenta que a dita reforma passa antes pelo autoconhecimento, ou seja, precisamos conhecer nossas fraquezas, virtudes, tendências e desejos e, gradualmente, substituindo vícios por virtudes. Nas palavras do autor, “um processo contínuo e dinâmico, que exige esfo...

O CAMBURÃO E A FORMA-MERCADORIA: A ANATOMIA DE UMA EXCLUSÃO ÉTICA

      Por Jorge Luiz   A Estética do Terror O racismo estrutural não é um ato isolado, mas uma relação social que estrutura o Brasil. Quando a sociedade aceita que "bandido bom é bandido morto" , ela está, na verdade, validando que a vida de um homem negro periférico tem menos valor. Pesquisas indicam que, apesar de a maioria dos brasileiros reconhecer o racismo, a aplicação da frase seletiva perpetua desigualdades históricas de raça e classe, com a mídia e o sistema de segurança muitas vezes reforçando essa lógica. Um caso chamou a atenção da sociedade brasileira, vista nos órgãos de imprensa e redes sociais, de D. Jussaara, uma diarista que foi presa e contida de forma violenta pela Polícia Militar na Avenida Paulista, em São Paulo, após ir ao local cobrar diárias de trabalho que não haviam sido pagas por antigos patrões. O caso gerou grande indignação nas redes sociais. A trabalhadora recebeu apoio e foi recebida no Palácio do Planalto após o ocorrido.