Por Jorge Luiz
A Analogia do Consumo
O CEO da OpenAI, Sam Altman, em entrevista recente, gerou polêmica ao se referir ao custo dos recursos com água e eletricidade de ferramentas de Inteligência Artificial (IA). Ao fazer uma análise comparativa com o ser humano, Altman afirmou: "Também é preciso muita energia para treinar um humano. Leva algo como 20 anos de vida e toda a comida que você puder consumir antes que você fique inteligente. E não só isso, foi necessária a evolução geral dos 100 bilhões de pessoas que já viveram e aprenderam a não serem comidas por predadores, ou aprender como entender a ciência e tudo mais, para produzir você" (1).
Altman tem uma visão reducionista do ser humano, como se o seu desenvolvimento fosse, na realidade, um “treinamento de IA” (input de dados); talvez ele seja simpático ao empirismo britânico das sensações e percepções, elaborado por John Locke, tendo seu núcleo na citação: “Suponhamos, pois, que a mente é, como dizemos, um papel em branco (white paper), desprovida de todos os caracteres, sem nenhuma ideia; como ela será suprida? [...] A isso respondo, numa palavra: da Experiência” (2013).
O que se constata é que, enquanto Sam Altman quantifica a vida em megawatts e calorias, ele ressuscita o fantasma de John Locke ao tratar o desenvolvimento humano como um mero 'custo de treinamento'. O Vale do Silício reduz a biografia a uma planilha de inputs e outputs, ignorando que a criança não é um papel em branco esperando a tinta do programador, mas uma luz buscando o Sol. Sob a ótica da autopoiese de Maturana e Varela (2001), o ser humano não é um modelo vazio a ser preenchido por dados externos, mas um sistema vivo em contínua autoprodução. O conhecimento, portanto, não é o acúmulo de informações em uma 'tábula rasa' biológica, mas a própria dança da vida em interação com o meio — um processo onde o sujeito não apenas processa o mundo, mas o cocria ao viver. Diferente da máquina, que depende de uma arquitetura imposta, o humano é um ser que se inventa e reinventa a cada instante, movido por uma teleologia interna que o algoritmo jamais poderá mimetizar.
A particularidade que se destaca na afirmativa de Altman é que se torna evidente o processo da construção da ideologia do capital na subjetivação dos sujeitos, entendendo-se por isso, como afirma Casara, o processo dirigido à construção do sujeito. Continua Casara: o processo de subjetivação não produz apenas subjetividades, leva também, necessariamente, a um quadro de submissão não de todo consciente (2024). Vê-se, nela, o claro propósito de se alcançar um determinado objetivo ou atender a um projeto; para esse mister, aliam-se, consciente ou inconscientemente, a família, a educação, as religiões, o militarismo, o judiciário, etc.
O Humano como Ser Teotrópico vs. A Máquina como Ser Entrópico
A miopia de Sam Altman, ao reduzir o desenvolvimento humano a um "custo de treinamento" para a sobrevivência, ignora a teleologia gravada em nossa própria biologia. Como demonstra Dean Hamer em O Gene de Deus, a espiritualidade possui uma base neuroquímica (o gene VMAT2); não somos "treinados" para o sagrado, somos vocacionados para ele.
Nesse sentido, o cérebro humano não funciona como o processador de silício da IA, mas, como defendem Mario Beauregard e Denyse O’Leary em O Cérebro Espiritual, como um receptor (rádio) de uma consciência que o transcende. Os "20 anos de comida e energia" não são um gasto de manutenção, mas o refino do instrumento biológico necessário para sintonizar a realidade transpessoal descrita por Stanislav Grof.
Essa lógica de "inputs e custos" é o ápice do que Paulo Freire denunciava como a transferência do fracasso sistêmico para o indivíduo. Na subjetividade capitalista analisada por Rubens Casara, o sistema nunca falha; quem falha é o "desempregado que não se qualificou" ou o "aluno que evadiu".
Dessa forma, a pedagogia do algoritmo de Altman tenta reduzir o Ser Teotrópico a um mero 'recipiente de dados' que, se não processa na velocidade do silício, é descartado como ineficiente. Contra essa contabilidade fria da existência, a mística de Rabindranath Tagore em Gitanjali ergue um protesto que atravessa os séculos, denunciando aqueles que preferem o isolamento das fórmulas à sagrada poeira da vida real:
“Deixa esse teu cantar, esse teu contar de contas! A quem adoras tu nesse canto solitário do teu templo, com todas as portas fechadas? Abre os olhos e vê: o teu Deus não está diante de ti! Ele está ali, onde o lavrador revolve a terra dura, e onde o operário quebra as pedras. Ele está com eles, sob o sol e sob a chuva, e as suas vestes estão cobertas de pó. Tira o teu manto sagrado e, tal como Ele, desce para o pó da terra!" (Tagore, v.11, 1978).
Ao convidar o homem a descer para o pó, Tagore destrói o pedestal de Altman. O 'custo de 20 anos' para formar um humano não é um erro de engenharia; é a liturgia necessária da experiência. Onde o capital vê atraso, Tagore vê a presença do Eterno no esforço de quem 'revolve a terra' da própria consciência para se tornar, enfim, o Ser Moral que a tecnologia jamais poderá simular.
Ao tratar o amadurecimento humano como um treinamento de baixa eficiência, o capital mascara sua incapacidade de oferecer dignidade, transformando a exclusão social em uma suposta insuficiência biográfica ou biológica. Contra essa "pedagogia do algoritmo", que nos quer adaptados e dóceis, o Ser Teotrópico não aceita ser um "recipiente de dados", mas um sujeito da história que transforma o mundo em vez de apenas ser "treinado" por ele.
A distinção de Ken Wilber em Espiritualidade Integral é letal para o argumento do Vale do Silício: a IA realiza apenas Tradução (reorganizar dados no mesmo nível), enquanto o humano realiza Transformação (saltos verticais de consciência).
Os "donos do mundo", movidos pela ganância e limitados ao "olho da carne", sofrem da cegueira da Flatland (Terra Plana), onde a verticalidade da alma é sacrificada pela eficácia material. No entanto, como propõe Teilhard de Chardin, a evolução é uma ascensão rumo ao Ponto Ômega. O Ser Teotrópico é a matéria que, através do esforço e da vontade, aprendeu a rezar e a evoluir para o estágio de Ser Moral.
Resgatar a dignidade é compreender que não somos 'algoritmos ineficientes', mas 'Luz do Mundo'. O erro de Altman foi tentar medir o infinito com a régua do mercado. Mas, como o 'Sal da Terra', o Ser Moral preserva o sentido da existência que nenhuma máquina pode simular.
A Moralidade: Do Cálculo à Consciência
Na realidade, Altman é o protótipo do homem desconhecido de Si mesmo, de Alex Carrel, ou mesmo o estado de “sono hipnótico” de George Gurdjieff, mestre espiritual e criador do "Quarto Caminho". Altman, perdido em ilações em um mundo centrado na virtualidade, construído por algoritmo, bastaria ele estudar seus sonhos durante um período de tempo prolongado, iria perceber uma sutil continuidade – uma progressão na sua vida, uma progressão em termos de sentido. A consciência é a comum à vigília, diz Goswami. Logo a consciência deve estudar presente também quando dormimos. Se não fosse assim, como afirma o Vedanta, como você poderia dizer, ao acordar, que “dormiu bem”, como fazemos muito de nós (2000).
Essa consciência que se expressa nessa realidade onírica, ela foi estudada por Moody Jr, que cientificamente foram definidas como Experiências de Quase-Morte. As constatações nos casos estudado guardaram alguma semelhança, a partir dos informantes e de frases como “nevoeiro”, “nuvem”, “fumaça”, “vapor”, “neblina”, “transparência”, e tantos outros semelhantes. Alguns relataram que sentiam que suas vidas tinham sido ampliadas e aprofundadas pela experiência, que por causa dela tinham se tornado mais profundos e mais preocupados com as questões filosóficas fundamentais (1979).
Estudos recentes, conduzidos por Dr. Manuel Sans Segarra, consubstanciado na obra A Supraconsciência Existe, ele explora à luz de não só uma ótica científica, inspirada na neurociência e física quântica, como também de uma perspectiva espiritual revela uma nova compreensão sobre a consciência humana e uma vida depois da morte.
O século XIX, após à aparição dos fenômenos espíritas que resultaram na Doutrina Espírita, as mentes mais primorosas da época, Ernesto Bozzano, Charles Richet, John B. Rhine, Cesar Lombroso, dentre outros. Lombroso, para vencer seu ceticismo acerca do fenômeno espírita, foi necessário que a médium Eusápia Paladino materializasse sua mãe, que o abraçou tratando-o como lhe tratava quando ainda na matéria: Cesar, fio mio, o que confesso, disse Lombroso, não era hábito seu, pois costumava dizer em sua linguagem veneziana- mio fio (1990).
Para Goswami, a mônada quântica (Espírito) é que sobrevive e de acordo com o modelo por ele estudado, conserva a memória quântica dos padrões de hábito e das propensões das vidas passadas (2000).
Na física quântica, porém, os objetos não são coisas predeterminadas. São possibilidades quânticas a partir das quais a consciência pode fazer escolhas. Esse mundo de opções conscientes é um mundo de causação descendente. Num mundo quântico, você pode escolher a sua realidade, o seu destino espiritual (Goswami, 2000).
Consequentemente, a moralidade não é um output de dados, mas o exercício da causação descendente sobre as possibilidades do ser. Enquanto o modelo de Altman nos reduz a um determinismo de "custos", a ciência da supraconsciência prova que somos artífices de nosso destino. Onde a máquina apenas calcula para sobreviver, o Espírito valoriza para transcender. A verdadeira consciência, portanto, não é aquela que se submete ao "treinamento" externo, mas aquela que desperta para a sua própria e milenar herança divina.
A Diferença entre Aprendizado e Iniciação
O equívoco de Altman reside em reduzir a educação ao ato de processar informações, ignorando a distinção fundamental feita por J. Herculano Pires: instruir é informar a mente; educar é transformar o Ser. Na Pedagogia Espírita, o tempo de desenvolvimento humano — esses 20 anos que o Vale do Silício considera ineficientes — é o período sagrado da iniciação do Espírito na matéria. Como reforça Dora Incontri, esse processo não é mecânico, mas dialógico e afetivo. Enquanto o algoritmo de Altman realiza um aprendizado horizontal e cumulativo, a educação do Ser Moral realiza uma ascensão vertical, onde cada estágio do crescimento biológico é uma etapa da iniciação da alma na compreensão das leis divinas.
O erro fundamental de Altman é acreditar que a excelência do "cálculo" levará, por acúmulo, à excelência do "ser". No entanto, a transcendência exige a morte desse ego calculista para o nascimento do ser teotrópico. É o paradoxo da crisálida: a lagarta constrói o casulo com toda a sua perícia técnica de lagarta, mas ela não "aprende" a ser borboleta através de um curso de treinamento; ela se transforma em borboleta através de um processo de dissolução e iniciação.
Nesse estágio, o que o Vale do Silício chama de "ineficiência" é, na verdade, a sacralidade da gestação. A inteligência artificial pode ser comparada a uma lagarta infinitamente rápida e eficiente em processar folhas (dados), mas ela jamais conhecerá o casulo. Ela desconhece a crise da dissolução e, portanto, é incapaz do voo da transcendência. A pedagogia proposta por Herculano Pires e Dora Incontri foca justamente no que acontece dentro do casulo: a educação do Espírito para que ele assuma suas asas morais, enquanto Altman permanece deslumbrado com a mecânica da lagarta.
Allan Kardec, comentando a questão nº 685-a de O Livro dos Espíritos, assevera que se deve educar o homem não como se refere constantemente, pelos livros, mas sim na que consiste na "arte de formar os caracteres", à que incute hábitos, porquanto a educação é o "conjunto dos hábitos adquiridos" (2000).
Nesta perspectiva, a Filosofia da Educação de Ney Lobo oferece o contraponto final à pressa utilitarista do Vale do Silício. Para Lobo, o processo educativo é a própria técnica de estimular a evolução do Espírito, onde o 'aprender' está subordinado ao 'ser'. O que Sam Altman enxerga como um atraso de 20 anos em relação ao processamento instantâneo da IA, Ney Lobo demonstra, em sua obra A Espiritualidade da Inteligência Humana, ser a cronologia necessária da alma. A inteligência não é um mero processamento de bits, mas uma faculdade espiritual que envolve a intuição e a conexão com o plano das causas. Assim, a educação não é adestramento para a eficiência de mercado, mas a jornada da transcendência onde o conhecimento se transmuta em sabedoria, respeitando o ritmo sagrado do amadurecimento em que o Espírito domina o instinto para forjar o seu caráter moral.
O Resgate da Dignidade e a Herança Divina
O Reino que Jesus anunciou estabelece-se na Terra a partir de uma reconexão dos homens com Deus — sentimento inato fundamentado na Lei de Adoração —, sem a intervenção do institucionalismo que ele renegou através da parábola da figueira estéril. Ao dizer que seu Reino "não é deste mundo", mas realizável nele, Jesus apresenta uma realidade que Sam Altman é incapaz de enxergar. Onde o CEO da OpenAI vê custos e ineficiências, o Espírito Joanna de Ângelis identifica o predomínio da sombra que ainda paira na "demorada infância psicológica" de indivíduos e massas, onde homens se transformam em chacais para disputarem as carnes dilaceradas das presas vencidas.
A pedagogia desse novo mundo é dirigida por duas disciplinas fundamentais: o Amor e a Reencarnação. Estas são as "asas da evolução", conforme delineado pelo Espírito Fénelon, que permitem o voo do Espírito para além da matéria. Portanto, quando Jesus afirma que o Reino de Deus está dentro de nós, esta sentença não é uma metáfora poética, mas uma definição ontológica da natureza humana que desmascara a miopia do Vale do Silício. Se o Reino é interno e latente, a vida humana jamais poderá ser medida pela régua da eficiência produtiva ou pelo "custo" de seu aprendizado.
Sam Altman, ao lamentar os vinte anos necessários para a formação de um adulto, revela-se como o personagem de Raul Seixas em "Ouro de Tolo": alguém que, apesar de ostentar o sucesso da "máquina", sente o vazio de quem não compreende o sentido da jornada. Ele é o tolo que busca o ouro externo do processamento, ignorando o tesouro da vida que pulsa. Como advertiu o poeta Rumi, a mente de Altman tornou-se "serva da cobiça", perdendo-se com "ídolos e imagens peregrinas" — as simulações digitais que tentam substituir a alma:
"Buscas ouro, mas derrama o sangue, / Tens desejos como as mulheres grávidas. / Adoras muitos deuses e te perdes / Com ídolos e imagens peregrinas." (Rumi)
O que o capitalismo cínico fabrica como "Lázaros" — seres reduzidos a custos operacionais — encontra sua redenção na compreensão de que somos uma Mônada Quântica em processo de despertar. Diante da frieza das máquinas, ergue-se a resposta crística: “Vós sois deuses”.
Como os "pássaros da alma" de Rumi, somos convocados a voar para fora do domo da matéria e do cálculo utilitarista. A verdadeira inteligência não reside no silício, mas no Espírito que, como o “Sal da Terra”, dá sabor à existência. O futuro não pertence à hegemonia do cálculo, mas à espiritualidade da inteligência, que reconhece em cada ciclo de iniciação o passo necessário para a posse definitiva de nossa herança divina. Somos os arquitetos de uma evolução que a máquina jamais conhecerá, pois nela não habita o Reino; em nós, ele é a própria essência do Ser.
REFERÊNCIAS:
BEAUREGARD & O’LEARY, Mário & Denyse. O Cérebro espiritual. Rio De Janeiro; BestSeller, 2008;
KARDEC, Allan. O Livro dos espíritos. São Paulo; LAKE, 2000.
CHARDIN, Pierre T. Hino do universo. São Paulo; Paulus,1994.
GOSWAMI. Amit. A Janela visionária. São Paulo; Cultrix, 2000.
GROFF, Stanislaw. Psicologia do futuro. Rio de Janeiro; Heresis, 2007.
HAMER, Dean. O Gene de deus. São Paulo; Mercuryo, 2005.
INCONTRI, Dora. Pedagogia espírita. São Paulo; Comenius, 2004.
LOBO, Ney. A Espiritualidade da inteligência humana. Brasília; Semeando Luz, 2008.
__________ Filosofia da educação (v.1 e 2). Brasília; FEB, 1990.
LOCKE, John. Ensaio sobre o entendimento humano. Domínio Público, 2013.
LOMBROSO, Cesar. Hipnotismo e mediunidade. Brasília; FEB,1990.
LUCCHESI, Marco. A Sombra do amado – poemas de rumi. Rio de janeiro; Fissus, 2000.
MATURANA & VARELA, Humberto & Francisco. A Arvore da vida. São Paulo; Palas Athena, 2001.
MOODY,JR. Raymond. Vida depois da vida. Rio de Janeiro; Nórdica, 1979.
PIRES, Herculano. Pedagogia espírita. Minas Gerais; Herculano Pirers, 1994.
TAGORE, Rabindranath. Gitanjali – oferenda lírica. Brasília; Thesaurus, 1978.
COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI).
ResponderExcluirAlém do Processamento: A Essência contra o Algoritmo
O artigo desmascara com precisão a miopia de Sam Altman ao reduzir a biografia humana a um "custo de treinamento". Enquanto a IA opera na horizontalidade da tradução de dados, o ser humano habita a verticalidade da transformação espiritual.
Ao citar vozes como Tagore, Herculano Pires e a física quântica de Goswami, o texto nos recorda que os "20 anos" de amadurecimento não são uma falha de eficiência, mas a liturgia da experiência necessária para que a "lagarta" do intelecto se torne a "borboleta" do Ser Moral.
A máquina calcula para sobreviver; o Espírito valoriza para transcender.
Em tempos de sombras algorítmicas, resgatar nossa natureza teotrópica é o único caminho para não sermos reduzidos a planilhas de inputs e outputs. Parabéns pela análise profunda que devolve ao homem sua herança divina.