Por Doris Gandres
Essa frase “e quando tudo voltar ao normal” é a frase que mais tem sido pronunciada e escutada ultimamente, de todo tipo de pessoa, de todas as classes sociais, culturais, religiosas e outras mais... Poder-se-ia dizer que está se transformando em uma espécie de “mantra”, de monoidéia, ou seja, de uma ideia única, fixa, constante, sobrepondo-se a todas as outras ideias, absorvendo a mente das criaturas e, muitas vezes, toldando-lhes o raciocínio, a razão.
Na verdade, o conceito de normal é muito relativo e variável, praticamente, de pessoa a pessoa, de entendimento a entendimento – e muitas vezes modificando-se, mais de uma vez, na mesma pessoa. Contudo, basicamente considerado normal, em geral, é a vida que se apresenta no cotidiano, com seus desafios e possibilidades de desenvolvimento intelectual e material, expectativas mesmo daqueles que nesta etapa lidam com todo tipo de dificuldades.
Esses anseios de desenvolvimento intelectual e material são naturalmente necessários na condição de espíritos encarnados, envolvidos com as condições e situações do mundo físico, visto que sabemos que é aqui, neste mundo, que somos colocados à prova, é aqui que temos oportunidade de comprovar se conseguimos absorver os ensinamentos dos Benfeitores Espirituais, em cumprimento à Lei de Sociedade, lei divina, bem explicitada na terceira parte de O Livro dos Espíritos.
Todavia, até que ponto, até que limites, levamos isso tudo que consideramos como “normal”? Em que instante ultrapassamos a linha limítrofe do que seja normal do que seja “excesso”, do que seja “ilusão”; quando o nosso entendimento individual de normal passou a ter um cunho egoístico, arbitrário, autoritário, e passou a ser o mais adequado, o mais certo para todos? Como já disse um companheiro de estudos espíritas, vivemos num mundo de efeitos, onde muitas vezes a ilusão de que brilhantes conquistas materiais, títulos pomposos, elevadas contas bancárias, podem nos proporcionar a felicidade real e verdadeira... Quando, na realidade, de repente, em determinado momento e ocasião, constatamos que, apesar disso, não alcançamos essa felicidade; quantas vezes, ao contrário, nos vemos diante de um vazio, e/ou da descoberta de nossa impotência perante a Lei Maior...
E não é isso que estamos verificando com clareza absoluta diante do que está acontecendo nesse momento dessa pandemia, que atingiu e abalou o mundo inteiro, toda a humanidade praticamente, dos países mais adiantados material e tecnologicamente assim como dos mais desprovidos dessas condições?
Então, a partir disso tudo, de tantas lições que todas essas experiências e situações nos têm brindado, o que queremos dizer quando dizemos: “E QUANDO TUDO VOLTAR AO NORMAL”? Será possível que estamos desejando que tudo volte ao normal que nos conduziu a tanto sofrimento, a tanta dor, a tantas consequências penosas de nossas escolhas equivocadas de NORMAL? E não me refiro só à essa presente condição, muitas outras têm sido vivenciadas pela humanidade no decorrer dos séculos. Entretanto, parece que não nos foram suficientes até aqui...
Portanto, penso que todos concordamos que é chegado, finalmente, o momento de despertar, de reavaliarmos nossa compreensão de “NORMAL”, de buscarmos outras propostas pessoais, outras escolhas, outros conceitos, isentos de pré-conceitos, outros princípios que priorizem os éticos e os morais que possam transformar nossos objetivos, nossas expectativas, nossas atuações; em que o NORMAL seja o respeito, a boa vontade entre todas as criaturas, em que o próximo seja aquele nosso ente querido chegado, mas também aquele ente distante, quem quer que ele seja... Que comecemos realmente a trabalhar, a nos esforçar, para erradicarmos o “homem velho” e, cuidadosamente, fincados nas leis naturais, gestar o homem novo, e “deixar brilhar a nossa luz” para além de nós, construindo um NORMAL bom e favorável a todos.
Referência:
O Livro dos Espíritos, Terceira Parte, As Leis Morais – Allan Kardec

COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirEste é um artigo provocativo e profundamente necessário, que utiliza o cenário da pandemia como um "laboratório da alma" para questionar as bases da nossa civilização.
O ponto central e mais assertivo do texto é a desconstrução da palavra "normal". O autor identifica com precisão que o "normal" anterior era, na verdade, uma patologia social e espiritual aceita: um ciclo de egoísmo, busca por títulos e acúmulo material que nos conduzia inevitavelmente ao vazio existencial e à dor coletiva.
A conexão feita com a Lei de Sociedade de O Livro dos Espíritos eleva o debate de uma simples observação sociológica para uma análise de compromisso espiritual. Ao sugerir a substituição da "monoidéia" do retorno ao passado pela gestação do "homem novo", o texto deixa de ser apenas uma crítica e passa a ser um manifesto de esperança ativa. O "brilhar a vossa luz" aqui é interpretado não como um ato isolado, mas como a construção de um novo padrão de convivência — um novo "normal" onde o ético e o moral precedem o material.
Em suma: um convite urgente para que não desperdiçamos a oportunidade pedagógica do sofrimento.