Pular para o conteúdo principal

O CUNHO DA VIRTUDE OU DO VÍCIO

 

 


Por Doris Gandres

No Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IX, item 8, encontramos uma colocação do Espírito Lázaro, em Paris, 1863, que ainda hoje se aplica perfeitamente à situação e à condição da conjuntura social e de uma boa parte da humanidade quanto ao seus posicionamentos éticos, morais e fraternos e suas escolhas, levando-se em conta esses posicionamentos.

Lázaro afirma: “Cada época é assim marcada pelo cunho da virtude ou do vício, que a devem salvar ou perder”. E basta-nos um pouco de conhecimento e de reflexão para entendermos e constatarmos a veracidade dessa afirmativa.

No desenrolar de milênios e séculos vimos essas situações se repetirem e se confrontarem, sem que, contudo, até aqui, se chegasse a alcançar a supremacia de nenhuma delas – forçoso desejar e esperar que a virtude venha a prevalecer e a ser o cunho da humanidade que, intimamente, anseia por libertar-se das provas e expiações, ou quaisquer sejam as denominações dadas aos sofrimentos e dificuldades com que ainda se depara.

Lamentavelmente temos que admitir, diante dos fatos atuais, que o cunho do vício ainda vigente na humanidade, em suas “N” modalidades, encerra uma quantidade de decisões, comportamentos, experiências e implementações desastrosas, maléficas, cruéis, para quem as pratica e para os que se acham sujeitos a essas práticas. É assim que se originam e crescem as desigualdades sociais, os preconceitos de todo tipo, as arbitrariedades, os abusos de autoridade, a exploração de criaturas em situação de precariedade e sem defesa...

Ainda com Lázaro temos a citação de que:

“A virtude da vossa geração é a atividade intelectual, seu vício é a indiferença moral (...) Digo atividade, porque a atividade é a reunião de esforços de todos para atingir um alvo menos brilhante, mas que prova a elevação intelectual de uma época."

Percebe-se nessa citação, ao frisar que os esforços eram para atingir um alvo menos brilhante, mesmo denotando elevação intelectual, que a indiferença moral era a tônica – assim como ainda hoje, de um modo geral... os avanços intelectual, tecnológico, técnico e científico da humanidade, nesses últimos anos, foram espantosos e processam-se cada vez mais rapidamente enquanto, infelizmente, a indiferença moral segue estagnada, sem que esses avanços a tenham enfraquecido ou debelado.

Muitos de nós argumentaremos que a lei de progresso é inevitável e que progrediremos, mais cedo ou mais tarde. Verdade – o problema é que, se não podemos evitar o avanço do progresso, podemos atravancá-lo, retardá-lo. E temos ainda que considerar que nós, seres pensantes, podemos avançar nos dois sentidos: na virtude ou no vício, em conformidade com as tendências que prevaleçam em nosso íntimo.

No presente estágio evolutivo, o cunho de virtude é um complexo conjunto de atitudes, formando uma característica que, em princípio, implica na extinção do interesse pessoal, pai do egoísmo e do orgulho, como nos ensinam os bons Espíritos. A partir do momento em que compreendemos tratar-se, consequentemente, de uma construção, de trabalho persistente, perseverante, exigindo constante esforço, iniciaremos a formação paulatina e gradativa da implantação desse cunho virtuoso, primeiramente no indivíduo e, sem seguida, no grupo social formado pelos indivíduos transformados.

Essas considerações de Lázaro estão contidas no texto sobre obediência e resignação, em que as designa como virtudes companheiras da doçura... E quão poucos de nós já desenvolvemos doçura suficiente para bem compreender a obediência e a resignação... Obedecemos ainda, de um modo geral, sob constrangimento, seja externo ou mesmo interno, devido a nossos sentimentos de culpa e de medo, cultivados por milênios. E, resignação, trata-se ainda, com frequência, de sensação de impotência, de submissão, diante de algo que, embora queiramos, não conseguimos mudar ou evitar.

Todavia, mesmo em face de tudo isso, da nossa rebeldia e da nossa inconformação, mesmo em face a todas as dificuldades, escolhos e obstáculos que semeamos no nosso caminho, chegará o dia em que, depurada a nossa atividade intelectual pelo senso moral desenvolvido, venceremos a indiferença, conquistando a docilidade e a paciência para conosco e para com os demais, em todas as situações e condições e, assim, alcançaremos a possibilidade de estabelecer o “reino de Deus” entre nós, aqui na Terra.

 

Bibliografia:

- ESE – Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IX, item 8.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O APARELHO PSÍQUICO - Uma proposta a partir da obra de André Luiz

Por Roberto Lúcio (*) Um estudo sobre a visão espírita da mente deve iniciar com as informações das obras de André Luiz, psicografadas por Chico Xavier e Waldo Vieira. As principais anotações encontram-se no livro “No Mundo Maior”, capítulo 03, ditado ao médium Chico Xavier. No entanto, em vários tópicos de suas obras encontram-se informações preciosas a serem apreciadas. No capítulo, André Luiz retrata o cérebro em três grandes áreas, como a biologia já indicava, mas ampliando a abordagem sob o ponto de vista espiritual. É necessário lembrar que uma divisão do aparelho psíquico em três grandes áreas já estava também presente nos textos de Freud, o grande estudioso e criador da Psicanálise. A Neurociência vem, nos últimos anos, avançando suas pesquisas na compreensão de certos aspectos da vida psíquica, clareando certas colocações freudianas, o que deu campo para a criação de uma nova subespecialidade: a neuropsicoanálise.    Não se pode negar ...

NEM ESPIRITISMO LAICO, NEM NOVA RELIGIÃO

Por Dora Incontri(*) A posição de Kardec ainda não foi compreendida pela maioria e uma das provas disto está no debate ainda atual se o espiritismo é ou não é religião. Por um lado, estão os que se autodenominam espíritas laicos e que defendem a idéia de que Kardec jamais pensou o espiritismo como religião, mas apenas como ciência, filosofia e moral; do outro, estão os que defendem o chamado tríplice aspecto do espiritismo, ciência, filosofia e religião, mas agem e pensam como se o espiritismo fosse apenas mais uma religião. Estes constituem a maioria do movimento espírita brasileiro. Analisemos a polêmica com cuidado, porque os dois lados têm suas razões e os dois lados cometem enganos. De fato, Kardec não quis estabelecer mais uma religião, no sentido comum do termo, (por isso, diz muitas vezes que o espiritismo não é religião), visto que o espiritismo não tem sacerdócio, templos, hierarquia institucional, dogmas de fé e nem rituais que o adepto deva seguir p...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

JESUS, ESPÍRITO ESPÍRITA

    Por Marcelo Henrique  O Espiritismo é uma filosofia atemporal, com o compromisso de manter-se atualizada e compatível com a progressão do nosso mundo, uma referência plena e permanente em termos de explicação das questões que envolvem o binômio espírito-matéria, considerados estes, pela teoria espírita, como dois dos três elementos básicos, ao que se vincula e acresce o primordial, a causa primeira, Deus. ***             Temos buscado diferenciar o Jesus Homem do Jesus Mito, ambos vigentes e observados no Movimento Espírita, como se fossem facetas de uma mesma personalidade, mas que são inconciliáveis entre si, porque apresentam contrariedades recíprocas. E isto só ocorre porque, a par dos conceitos trazidos pela Doutrina dos Espíritos, compostos por Allan Kardec (1857-1869) a partir das comunicações mediúnicas recepcionadas pela Codificação e pelas interpretações dadas pelo professor francês, há um simbolismo...

A HUMANIDADE - SER COLETIVO

      Por Doris Gandres     A humanidade é um ser coletivo no qual se operam as mesmas revoluções morais que em cada ser individual (Gênese, Cap.XVIII, item 12) (1)               Se pararmos para refletir sobre a nossa progressão através dos tempos – e particularmente presentemente à luz de tantas descobertas, tantos esclarecimentos em várias áreas do conhecimento humano, seja científico, filosófico ou espiritual – veremos há quanto tempo vimos caminhando, primeiramente em meio à escuridão e à ignorância; depois, gradativamente, realizando conquistas em meio a experiências muito frequentemente equivocadas, difíceis e de dolorosos resultados; até chegarmos, aos trancos e barrancos, a este momento em que, apesar do tanto que recebemos de tantos, continuarmos lamentavelmente e irrefletidamente fazendo escolhas erradas, assumindo posturas incoerentes e nocivas, a nós, aos que nos cercam, à humanidade ...

CONSUMO DE CARNE NA VISÃO ESPÍRITA

Entrevistei o engenheiro agrônomo e professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP-Botucatu (SP), Edson Ramos de Siqueira – que é espírita desde 1993 e vincula-se ao CE Irmão Thomaz na mesma cidade. Palestrante e ministrando cursos de Espiritismo, é autor do livro Alimentação e Evolução Espiritual, com abordagem sobre os animais, inclusive sobre a alimentação humana. A íntegra da entrevista, com lúcidas respostas, ainda inédita, oferece a lucidez do pensamento espírita. Reproduzimos aqui os trechos mais expressivos das respostas.

COMPULSÃO SEXUAL E ESPIRITISMO

  Certamente, na quase totalidade dos distúrbios na área da sexualidade, a presença da espiritualidade refratária à luz está presente ativamente, participando como causa ou mesmo coadjuvante do processo. O Livro dos Espíritos, na questão 567, é bem claro, ensinando-nos que espíritos vulgares se imiscuem em nossos prazeres porquanto estão incessantemente ao nosso redor, tomando parte ativamente naquilo que fazemos, segundo a faixa vibratória na qual nos encontramos. Realmente, na compulsão sexual ou ninfomania, a atuação deletéria de seres espirituais não esclarecidos é atuante, apresentando-se como verdadeiros vampiros, sugando as energias vitais dos doentes. O excelso sistematizador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, em A Gênese, capítulo 14, define a obsessão como "(...) a ação persistente que um mau espírito exerce sobre um indivíduo". Diz, igualmente, que "ela apresenta características muito diferentes, que vão desde a simples influência moral, sem sin...

PARA FICARMOS JUNTOS NO INFERNO

        Por Orson Carrara                  Já  sabemos que o chamado inferno não é um local, mas um estado consciencial. Amarguras, desejos de vingança, inveja, ciúme, intrigas e manipulações que alimentamos transformam a vida naquilo que podemos denominar de um inferno emocional, um estado de intensa perturbação e sofrimento. Aquele inferno de sofrimento eterno, de diabo e caldeirões ferventes, isso não existe -  é imaginação humana.             Referimo-nos aqui aos tormentos que a inveja e o ciúme produzem. Ou, da mesma forma, as culpas e ainda os sentimentos de vingança ou de controle sobre a vida alheia.

AS EXPRESSÕES "KARDECISTAS E/OU "KARDECISMO" NÃO DEVEM SER DESESTIMADAS

    É evidente que o termo espírita só é aquele preconizado por Kardec, sem hibridezes. Entretanto, as palavras “kardecista” e/ou “kardecismo” seriam de uso censuráveis? Talvez seja ineficaz a utilização dessas palavras, no entanto jamais serão impróprias. Além disso, entendemos que há algumas ponderações plausíveis a serem expostas com relação ao assunto. Primeiramente recorramos ao Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa [1]. Nele encontraremos as definições: kardecismo – Doutrina religiosa de Allan Kardec; kardecista – pertencente ou relativo a Allan Kardec ou ao kardecismo – adepto do kardecismo. A Enciclopédia Universal define o seguinte: kardecismo – Doutrina de Allan Kardec, espiritismo – kardecista – aquele que adota as doutrinas de Allan Kardec – Relativo a kardecismo [2]. Estamos aqui fazendo referência a duas consagradíssimas fontes do saber.