Pular para o conteúdo principal

O REINO DE DEUS É POLÍTICO

 


            O movimento espírita brasileiro está cintilante. Está ocorrendo uma supernova doutrinária com as iniciativas dos espíritas chamados de “progressistas”. Assim como as supernovas, as iniciativas coletivizaram e surgiram os coletivos espíritas. No meio do caos – dos “senões” – há uma ordem, e se espera que se ordene um movimento espírita doutrinário e organizacional.


            A sociedade brasileira rompe com a personalidade espírita do culto à mediunidade e das obras de caridade e começa a se identificar com uma nova personalidade cidadã que mostra a cosmovisão espírita do homem e do mundo.

            A temática política deixou de ser tabu e passou a ser discutida e publicada, muito embora ainda existam muitos espíritas que se declaram apolíticos, como se fosse possível alguém sê-lo. Duas estrelas cintilam nesse céu, as obras: “Deus e Política”, de Ana Cláudia Laurindo, e “Espiritismo, Gênero, Educação e Sexualidade”, de Alexandre Júnior, já disponíveis para aquisição.

O professor José Herculano Pires é incisivo nesse aspecto:

 

Verifica-se, entretanto, de parte de um grande número de espíritas dirigentes, um escrúpulo farisaico em face deste assunto. São muitos os que afirmam nada ter o Espiritismo com as questões políticas, embora assegurando, numa flagrante contradição, caber-lhe no mundo “uma grande tarefa social.

 

            O professor Herculano conclama aos espíritas a agirem com mais interesse, inteligência e honestidade e menos preconceito.

            Os filósofos Mário Sérgio Cortella e Leandro Karnal, em conversa sobre política, fazem lembrar que o conceito de política, na Grécia antiga, vem de polis, que quer dizer comunidade. O ser político é aquele que se preocupa com a comunidade, igualdade, participação e democracia. Em contrapartida, a palavra idiota, à época, dizia-se com aquele que só se preocupava com a sua “vidinha” privada, apenas pensa em seu “umbigo”, como nos tempos de hoje, principalmente no movimento espírita, quando se ouvem as frases: “eu sou apolítico”,“eu não me meto em política”, “eu não falo em política”, entretanto, prestam todo o tipo de assistência aos desvalidos, falam da necessidade de se amar ao próximo e pregam a necessidade de se alcançar o reino de Deus fundado por Jesus, atitudes frontalmente políticas.

            É de fundamental importância que revisitemos o conceito de reino de Deus conforme inaugurado por Jesus e não aquele que agasalhamos de forma atávica pelas romagens reencarnatórias em outras organizações religiosas.

O cristianismo atual não tem nada em comum com o cristianismo primitivo, baseado em um individualismo exorbitante e competição predatória. Está muito distante da fraternidade entre os indivíduos do reino de Jesus.

A aristocracia financeira, ao aderir ao cristianismo nascente e torná-lo religião oficial do Império, vai lentamente desfigurando o caráter revolucionário pregado por Jesus acerca do reino de Deus, vivido pelos primeiros cristãos iletrados. É um hábito da burguesia através dos tempos diante da grande massa que se permite manipular. Karl Kautsk, filósofo tcheco-austríaco, jornalista e teórico marxista e um dos fundadores da ideologia social-democrata, citou Hieronymus, pintor renascentista, quando afirmou que “a comunidade do Cristo não se recruta no Liceu e na Academia, mas na massa da população”. A partir dessa compreensão, os ensinos de Jesus, nos primeiros tempos, dependiam da oralidade, segundo Kautsky, e somente quando essa aristocracia aderiu ao cristianismo é que começaram a ser fixados por escrito, mas na realidade, não com propósitos realmente cristãos, mas para defender certas opiniões e exigências. Vê-se a compreensão diabólica que a burguesia construiu acerca do que é comunismo. Isso consolidou com a criação da aristocracia religiosa.

O reino de Jesus dos primeiros cristãos foi uma participação ativa na vida pública, na construção íntima de cada cristão dos princípios éticos de justiça e igualdade. Leia-se Jesus: “Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”.

Instigado pelo pensamento do controverso teólogo irlandês John Dominic Crossan, não seriam os petitórios do Pai Nosso – “Dá-nos a cada dia o nosso pão cotidiano, perdoa-nos nossos pecados, pois nós também perdoamos a qualquer que nos deve”, seguidos das locuções bater, pedir e buscar, longe de se tornarem um convite apocalíptico, o chamamento revolucionário, transformador da realidade? É bom lembrar que o cerne da mensagem sobre o reino de Deus está nos abusos do Império de César, principalmente a fome e as dívidas. O leitor deve também se intrigar e indagar: “O que isso tem de importante?” A resposta é: “tem e muito”. O reino não é algo exclusivamente metafísico, muito pelo contrário, ele traz apelos físicos: Leia-se Crossam com o qual concordo:

 

Além disso, súplicas se encaixam muito bem, na minha opinião, numa oração pelo reino sapiencial ou radicalmente ético que aparece em outros complexos de testemunho duplo. Isso fica ainda mais óbvio se encararmos o pão “de cada dia” exatamente como tal, isto é, o mínimo de pão material necessário para suprir as necessidades diárias, e se o mútuo perdão das dívidas também for compreendido ao pé da letra, como o perdão de dívidas monetárias: “o pão e a dívida eram simplesmente os dois problemas mais imediatos que os camponeses, os trabalhadores diaristas e os habitantes das cidades da Galileia tinham que solucionar. O alívio dessas duas preocupações seria o benefício mais óbvio a ser trazido pelo reinado de Deus.

 

            Carlos Torres Pastorino foi um ex-padre, radialista e escritor brasileiro que se expressou comungando com Crossan: “O ‘Pai nosso’ consta de uma invocação seguida de três pedidos espirituais e quatro solicitações a respeito das necessidades do homem na matéria.”

                Jesus prega abertamente o bem comum (comunismo) com o “Pai Nosso” realizável aqui no plano físico com repercussões naturais no plano espiritual. Vê-se que, por ocasião da sua primeira saída da Galileia, indo a Jerusalém, foi preso e executado. O seu diálogo com o jovem rico orientando que venda tudo para segui-lo, e que, ao encaminhar os seus doze discípulos para divulgarem a Boa Nova não haveria necessidade de levar nada, pois digno é o trabalhador do seu sustento. Tantas outras passagens que pregam sobre a vida em comum, atendendo-se às necessidades de todos na participação das riquezas, foram buscadas na prática pelos primeiros cristãos e lemos em Atos dos Apóstolos quando Paulo fala das primeiras comunidades cristãs. O comunismo, antes de se tornar satânico, é a proposta maior para a consolidação do reinado de Deus nos dois planos.

            As obras de Ana Cláudia e de Alexandre Júnior acima citadas, colaboradores desse blog, são saudadas pelo Canteiro de Ideias e, assim, saudamos a todos os que engendram esse movimento estrelar, certo que se consolidará nova fase no movimento espírita brasileiro.

 

 

REFERÊNCIAS

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico. Rio de Janeiro, 1994.

KAUTSKY, Karl. A origem do cristianismo. Rio de Janeiro, 2010.

PASTORINO, Carlos T. Sabedoria do Evangelho nº 2. Rio de Janeiro, 1967.

 

Comentários

  1. Obrigado Jorge pelo belo artigo, gratidão pela generosidade, parabéns a Ana Cláudia Laurindo, pela escrita de obras tão potentes e importantes para o cenário do mundo no século XXI!!!
    Como diz a nobre escritora, em seu livro, Deus e Política: o enredo da morte no Brasil; "Nunca foi pecado, sempre foi política".

    ResponderExcluir
  2. Gratidão Alexandre pela gentileza.
    Estamos juntos nessa peleja. Jorge Luiz.

    ResponderExcluir
  3. Gratidão Martha pelo comentário e pela criação do pôster que ilustra o artigo. Jorge Luiz.

    ResponderExcluir
  4. Tenho vivido crises! Passado pela agonia dos sobreviventes da pandemia, pelo luto por minha irmã e dores silenciadas em processos de perseguição jurídica, censura, solidões, nadando nas agruras políticas e econômicas do nosso país. Contudo, ser pessoa de fé, cercada de outras tantas irmandades devotadas ao bem, faz toda a diferença!
    Crises se transformam em reconfigurações interiores.
    E a certeza maior: nunca estamos sós quando temos amigos!
    Assim agradeço pelo lindo gesto ao @canteirodeideiasblog , @alessandra.araujo.735 , @marthasaraivaeu , @alexandrejuniorescritor e tant@s 💓❤️ que vibram amor entre nós!
    Extraído do Instagram de Ana Cláudia Laurindo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O APARELHO PSÍQUICO - Uma proposta a partir da obra de André Luiz

Por Roberto Lúcio (*) Um estudo sobre a visão espírita da mente deve iniciar com as informações das obras de André Luiz, psicografadas por Chico Xavier e Waldo Vieira. As principais anotações encontram-se no livro “No Mundo Maior”, capítulo 03, ditado ao médium Chico Xavier. No entanto, em vários tópicos de suas obras encontram-se informações preciosas a serem apreciadas. No capítulo, André Luiz retrata o cérebro em três grandes áreas, como a biologia já indicava, mas ampliando a abordagem sob o ponto de vista espiritual. É necessário lembrar que uma divisão do aparelho psíquico em três grandes áreas já estava também presente nos textos de Freud, o grande estudioso e criador da Psicanálise. A Neurociência vem, nos últimos anos, avançando suas pesquisas na compreensão de certos aspectos da vida psíquica, clareando certas colocações freudianas, o que deu campo para a criação de uma nova subespecialidade: a neuropsicoanálise.    Não se pode negar ...

NEM ESPIRITISMO LAICO, NEM NOVA RELIGIÃO

Por Dora Incontri(*) A posição de Kardec ainda não foi compreendida pela maioria e uma das provas disto está no debate ainda atual se o espiritismo é ou não é religião. Por um lado, estão os que se autodenominam espíritas laicos e que defendem a idéia de que Kardec jamais pensou o espiritismo como religião, mas apenas como ciência, filosofia e moral; do outro, estão os que defendem o chamado tríplice aspecto do espiritismo, ciência, filosofia e religião, mas agem e pensam como se o espiritismo fosse apenas mais uma religião. Estes constituem a maioria do movimento espírita brasileiro. Analisemos a polêmica com cuidado, porque os dois lados têm suas razões e os dois lados cometem enganos. De fato, Kardec não quis estabelecer mais uma religião, no sentido comum do termo, (por isso, diz muitas vezes que o espiritismo não é religião), visto que o espiritismo não tem sacerdócio, templos, hierarquia institucional, dogmas de fé e nem rituais que o adepto deva seguir p...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

JESUS, ESPÍRITO ESPÍRITA

    Por Marcelo Henrique  O Espiritismo é uma filosofia atemporal, com o compromisso de manter-se atualizada e compatível com a progressão do nosso mundo, uma referência plena e permanente em termos de explicação das questões que envolvem o binômio espírito-matéria, considerados estes, pela teoria espírita, como dois dos três elementos básicos, ao que se vincula e acresce o primordial, a causa primeira, Deus. ***             Temos buscado diferenciar o Jesus Homem do Jesus Mito, ambos vigentes e observados no Movimento Espírita, como se fossem facetas de uma mesma personalidade, mas que são inconciliáveis entre si, porque apresentam contrariedades recíprocas. E isto só ocorre porque, a par dos conceitos trazidos pela Doutrina dos Espíritos, compostos por Allan Kardec (1857-1869) a partir das comunicações mediúnicas recepcionadas pela Codificação e pelas interpretações dadas pelo professor francês, há um simbolismo...

PARA FICARMOS JUNTOS NO INFERNO

        Por Orson Carrara                  Já  sabemos que o chamado inferno não é um local, mas um estado consciencial. Amarguras, desejos de vingança, inveja, ciúme, intrigas e manipulações que alimentamos transformam a vida naquilo que podemos denominar de um inferno emocional, um estado de intensa perturbação e sofrimento. Aquele inferno de sofrimento eterno, de diabo e caldeirões ferventes, isso não existe -  é imaginação humana.             Referimo-nos aqui aos tormentos que a inveja e o ciúme produzem. Ou, da mesma forma, as culpas e ainda os sentimentos de vingança ou de controle sobre a vida alheia.

CONSUMO DE CARNE NA VISÃO ESPÍRITA

Entrevistei o engenheiro agrônomo e professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP-Botucatu (SP), Edson Ramos de Siqueira – que é espírita desde 1993 e vincula-se ao CE Irmão Thomaz na mesma cidade. Palestrante e ministrando cursos de Espiritismo, é autor do livro Alimentação e Evolução Espiritual, com abordagem sobre os animais, inclusive sobre a alimentação humana. A íntegra da entrevista, com lúcidas respostas, ainda inédita, oferece a lucidez do pensamento espírita. Reproduzimos aqui os trechos mais expressivos das respostas.

A HUMANIDADE - SER COLETIVO

      Por Doris Gandres     A humanidade é um ser coletivo no qual se operam as mesmas revoluções morais que em cada ser individual (Gênese, Cap.XVIII, item 12) (1)               Se pararmos para refletir sobre a nossa progressão através dos tempos – e particularmente presentemente à luz de tantas descobertas, tantos esclarecimentos em várias áreas do conhecimento humano, seja científico, filosófico ou espiritual – veremos há quanto tempo vimos caminhando, primeiramente em meio à escuridão e à ignorância; depois, gradativamente, realizando conquistas em meio a experiências muito frequentemente equivocadas, difíceis e de dolorosos resultados; até chegarmos, aos trancos e barrancos, a este momento em que, apesar do tanto que recebemos de tantos, continuarmos lamentavelmente e irrefletidamente fazendo escolhas erradas, assumindo posturas incoerentes e nocivas, a nós, aos que nos cercam, à humanidade ...

PODE UM PASTOR QUE NEGA A REENCARNAÇÃO PALESTRAR NUMA CASA ESPÍRITA?

    Por Jorge Hessen Convidar um líder religioso (pastor) que nega a reencarnação e a mediunidade para palestrar numa casa espírita é, no mínimo, uma alucinação.  O problema começa quando se perde a clareza dos objetivos doutrinários. O Espiritismo ensina o respeito irrestrito à liberdade de consciência. Allan Kardec jamais defendeu o sectarismo. Aliás, dialogou com cientistas, materialistas, religiosos e céticos. O diálogo é saudável e necessário. Todavia, existe uma diferença fundamental entre dialogar com quem pensa diferente e  conceder tribuna doutrinária a quem combate os princípios fundamentais da Doutrina Espírita. Se um  palestrante evangélico  afirma categoricamente que a comunicação entre encarnados e desencarnados é impossível; que a mediunidade é fraude ou ação demoníaca; que a reencarnação não existe, então estamos diante de alguém que rejeita os pilares básicos do Espiritismo.

COMPULSÃO SEXUAL E ESPIRITISMO

  Certamente, na quase totalidade dos distúrbios na área da sexualidade, a presença da espiritualidade refratária à luz está presente ativamente, participando como causa ou mesmo coadjuvante do processo. O Livro dos Espíritos, na questão 567, é bem claro, ensinando-nos que espíritos vulgares se imiscuem em nossos prazeres porquanto estão incessantemente ao nosso redor, tomando parte ativamente naquilo que fazemos, segundo a faixa vibratória na qual nos encontramos. Realmente, na compulsão sexual ou ninfomania, a atuação deletéria de seres espirituais não esclarecidos é atuante, apresentando-se como verdadeiros vampiros, sugando as energias vitais dos doentes. O excelso sistematizador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, em A Gênese, capítulo 14, define a obsessão como "(...) a ação persistente que um mau espírito exerce sobre um indivíduo". Diz, igualmente, que "ela apresenta características muito diferentes, que vão desde a simples influência moral, sem sin...