Pular para o conteúdo principal

MORRER FELIZ

 


Tema recorrente em nosso mundo é a felicidade, a maior aspiração humana.

Todos queremos, acima de tudo, ser felizes.

Seria interessante refletir sobre o assunto, a partir de um versinho de Mario Quintana:

 

"Quantas vezes a gente, em busca da ventura,

Procede tal e qual o avozinho infeliz,

Em vão, por toda parte, os óculos procura

Tendo-os na ponta do nariz."

 

Vale lembrar dona Malvina.

– Estou muito infeliz – reclamava desalentada, dirigindo-se a Juvêncio, mentor espiritual do Centro Espírita que frequentava.

E explicava:

– Enfrento intoleráveis atribulações com a família e as enfermidades. A Terra é um vale de lágrimas! Gostaria que Deus me levasse!

Juvêncio, um guia sem papas na língua, questionou:

– Quem lhe disse que pessoas infelizes recebem passaporte para o Céu?

– Ora, quem disse! – retrucou, contrariada, dona Malvina. – Foi Jesus. O nosso mestre ensinou, no Sermão da Montanha, que bem-aventurados são os sofredores.

– Você não completou: Bem-aventurados os que sofrem, porque serão consolados! Tapinha nas costas, minha filha! Felizes, apenas os humildes. Deles é o reino dos Céus, como está na primeira bem-aventurança.

– Eu sou humilde!

– Negativo. Pessoas humildes não fazem propaganda disso, nem reclamam da vida.

– Devo sofrer calada?

– De preferência. Nunca ouviu dizer que o coração é nosso e o rosto é dos outros?

– Como sorrir para alguém se a desolação está em mim?

– É simples. Primeiro aprenda a rir de si mesma. Olhe-se no espelho e veja como é lamentável sua expressão atormentada, como se carregasse os males do mundo sobre os ombros…

– E daí?

– Diga para si mesma: Por que esse figurino de velório? Coisa ridícula! Ninguém morreu! Quem deve morrer é o meu pessimismo, minha visão negativa da existência!

– O que ganharei com isso?

– Deixará de preocupar-se demais com as coisas da Terra e terá tempo e disposição para ser feliz. Além do mais, morrer infeliz é sintoma de rebeldia. Demostra não estar satisfeita com o que Deus lhe deu.

– Isso é ruim?

– É péssimo. Gente infeliz está despreparada para a vida espiritual. Fará estágio depurador no umbral para refletir um pouco e compreender que a infelicidade é opção equivocada, quando não nos ajustamos aos desígnios divinos.

– Então, o mais acertado…

–… É morrer feliz, minha filha, mesmo enfrentando as dores da Terra, com a consciência de que bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados, como ensina a quarta bem-aventurança.

– Ah! Isso é impossível!

– Por quê?

– Tenho sido injustiçada a vida toda. Sofro prejuízos com as pessoas, a começar por meus familiares…

– Você não entendeu a observação de Jesus. Essa sede de justiça não diz respeito aos nossos direitos. O Mestre reporta-se aos nossos compromissos.

– Compromissos?

– Sim. Bem-aventurados os empenhados em resgatar seus débitos com otimismo e coragem, sem desalento, sem queixumes, cumprindo a vontade de Deus. Ou você acha que está na Terra em jornada de férias?

– Ser feliz mesmo sofrendo?

– Exatamente, até porque sofrimento e infelicidade não são sinônimos. O sofrimento pode ser uma imposição da vida, mas a felicidade é uma construção pessoal, de esforço intransferível.

– É algo que me compete realizar…

– Exatamente. E peça a Deus, com todas as forças de sua alma, que não a deixe desencarnar antes de conquistar a capacidade de ser feliz.

Juvêncio até imaginou ser necessária a longevidade de Matusalém para pessoas como Malvina alcançarem semelhante objetivo, ante sua milenar vinculação ao pessimismo.

Não obstante, não seria caridoso, e afinal – considerou com seus botões – temos a eternidade pela frente. Todos acabam aprendendo que a felicidade não está subordinada à satisfação de nossos desejos diante da vida. Nasce do empenho de compreender o que a vida espera de nós.

 

***

O guia tem razão em suas ponderações, amigo leitor.

Lembro uma expressão feliz do apóstolo Paulo, na Primeira Epístola aos Tessalonicenses (5-16):

Regozijai-vos sempre!

Se sabemos que Deus é o Pai de infinito amor e misericórdia, revelado por Jesus, que nos reserva grandioso futuro…

Se compreendemos que as dificuldade e atribulações do mundo são lixas ásperas a desbastarem nossas imperfeições mais grosseiras…

Se temos a bênção do conhecimento espírita, que nos revela os porquês da existência humana – de onde viemos, por que estamos na Terra, para onde vamos…

Se tanto já aprendemos, como não manter o sorriso nos lábios, habilitando-nos a partir felizes quando chegar nossa hora, a fim de que a felicidade chegue conosco no continente espiritual?

E afinal, caro leitor, se os males maiores representam o pagamento de nossos débitos de vidas anteriores, por que ficar infeliz?

Quem salda suas contas deve sentir alívio e alegria, não constrangimento e tristeza, porquanto estará se depurando, o que o habilitará ao benefício maior, como ensinava Jesus (Mateus 5:8):

Bem-aventurados os que têm limpo o coração, porque verão a Deus.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PARÁBOLA DOS TALENTOS E REENCARNAÇÃO

  A “Pluralidade das Vidas Sucessivas”, o “Nascer de Novo” ou a Doutrina da Reencarnação, anunciada por Jesus e perfeitamente explicada hodiernamente pelo Espiritismo, já era do conhecimento dos apóstolos e ignorada pelo povo em geral, como afirmou o Mestre: “Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido” (1). Disse, igualmente: “Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque veem; e os vossos ouvidos, porque ouvem. Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram (2).

A CONTRIBUIÇÃO DE JOSÉ HERCULANO PIRES (1914-1979)

  09.03 - ANIVERSÁRIO DA DESENCARNAÇÃO DE JOSÉ HERCULANO PIRES - NOSSA HOMENAGEM  Por Dora Incontri (*) Ainda poucos no movimento espírita conseguem aquilatar a contribuição única que Herculano dera ao desenvolvimento do espiritismo. A primeira dessas contribuições está na própria compreensão da idéia espírita. Tratando-se de uma revolução conceitual, uma quebra de paradigma, um passo inédito na história do conhecimento – a sua dimensão e o impacto renovador de suas propostas ainda não foram entendidos pelos seus adeptos mesmos, que o tocam apenas superficialmente, carregados dos vícios religiosos do passado, incapazes de singrarem nos mares abertos, descortinados por Kardec.

UMA AMOSTRAGEM DA TESE ESPÍRITA: DOIS CASOS QUE SUGEREM REENCARNAÇÃO (PARTE I)

   Por Jerri Almeida   Introdução A pesquisa científica sobre reencarnação oferece contribuições valiosas para ampliar horizontes de conhecimento sobre o sentido da vida. Não se trata, obviamente, de trilharmos somente o caminho da fé ou da crença, pois estamos diante de uma questão mais complexa, que envolve de forma totalizante o saber humano. Infelizmente, na atualidade, nem sempre as pesquisas nessa área ocorrem com o ritmo e os critérios que as possam alavancar em termos de reconhecimento científico, mesmo porque o mundo acadêmico, em boa parte, ainda se ressente dos preconceitos com tal tipo de temática.

CRÔNICAS DO COTIDIANO: O CÃO CUIDADOR

           Em uma cidade no interior do Estado do Ceará, um cachorro atropelado é cuidado por outro durante mais de uma noite até ser socorrido. E mais, o cão cuidador lambia e passava a pata sobre o cão ferido, em tentativas de reanimá-lo. Tão logo o acidentado foi colocado dentro da viatura de socorro, o cuidador pulou para dentro do carro e o acompanhou até a clínica. Pela idade, sugere-se que são irmãos. Cuidador e acidentado estão bem, aguardando interessados para adoção.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

MATERIALIZAÇÃO DE ESPÍRITOS - NOVO TESTAMENTO E ESPIRITISMO

  O aparecimento de seres espirituais, em determinados momentos, sendo vistos por mais de uma pessoa, é um dos mais expressivos fenômenos mediúnicos de efeitos físicos, exemplificados na Bíblia e na Doutrina Espírita. Esse sublime acontecimento não é observado nos templos das religiões dogmáticas. Contudo, nos arraiais espiritistas, além da constatação do fato, há explicação de como ocorre, desde que Jesus prometera que o Consolador que o Pai enviaria em seu nome nos ensinaria todas as coisas, além de nos lembrar de tudo o que ele disse (João 14:25-26).

ESPIRITISMO SEM ESPÍRITO E CARIDADE SEM ALMA

  Por Wilson Garcia Quando a prática se afasta da essência e a forma sobrevive ao conteúdo Há algo de silenciosamente inquietante no movimento espírita contemporâneo. Não se trata de uma ruptura declarada, nem de um abandono explícito de princípios. Ao contrário: tudo parece funcionar — reuniões, palestras, obras assistenciais, rotinas institucionais. E, no entanto, cresce a sensação de que algo essencial foi sendo deslocado, suavemente, até quase desaparecer. Duas manifestações desse fenômeno merecem atenção urgente: o chamado “Espiritismo sem espírito” e a prática de uma caridade que, ao privilegiar o material, esvazia sua dimensão mais profunda — a espiritual.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

MORFOGÊNESE DO REINO: O "EN MARCHE!" DE CHOURAQUI E O MANIFESTO DE MYERS

  Imagens de IA   Por Jorge Luiz       O VERBO EM MARCHA: A Exegese de Chouraqui e a Morfogênese do Reino Este capítulo abandona a ideia de Reino como "lugar" e o apresenta como "processo biológico e social".             A polêmica joanina de que o “Verbo se fez carne” – João 1:1-14 –, que faz parecer, implicitamente, que há uma identificação entre Deus e Jesus, mereceu uma atenção especial de Allan Kardec, embora só tenha se tornada pública após a sua desencarnação.             Tão controversa que, somente no IV século uma parte da Igreja a adotou. Vê-se que, a decisão foi dos homens e não uma revelação divina, já que não foi o próprio Jesus que a considerou, tão somente, João, o evangelista.             Carlos Pastorino também a analisou azeitando ainda mais as considerações de Kardec,...

BRASIL, O PARAÍSO FISCAL DO SAGRADO

         Por Jorge Luiz   A "Offshore" da Fé: Anatomia do Privilégio Fiscal             A Câmara dos Deputados aprovou recentemente, em 28 de maio de 2026, a proposta que amplia drasticamente a imunidade tributária para entidades e templos religiosos de qualquer culto. O texto, que agora segue para o Senado, estende a vedação de cobrança de impostos para a aquisição de quaisquer bens ou serviços necessários à implantação, manutenção e funcionamento dessas instituições. Trata-se de uma manobra que pode abrir um rombo de até R$ 50 bilhões na arrecadação da União, dos estados e dos municípios.             Pelas regras do novo sistema tributário nacional, qualquer benefício fiscal concedido a um setor precisa ser compensado pelo restante da sociedade. Na prática, isso significa que enquanto as corporações da fé pagarão menos tributos, seus própr...