Por Jorge Luiz
A Encomenda da Esperança: A Captura do Imaginário
Muito recentemente, os símbolos da Pátria foram sequestrados por uma corrente partidária de extrema-direita. De repente, o imaginário do brasileiro foi dilacerado: o que era símbolo de pertencimento e brasilidade transmutou-se em sentimento de aversão por aqueles alinhados a ideologias progressistas. Com a camisa da Seleção Brasileira, o fenômeno não foi diferente. Esse episódio escancara algo fundamental: o imaginário é o campo onde se travam as disputas centrais da nossa época.
O imaginário, para Castoriadis (2012), não significa o fictício, o ilusório ou o especulativo, mas o elemento determinante — e não determinado — de novas formas e significações; uma criação autônoma que não se reduz a explicações causais ou puramente funcionais.
Na mesma linha, Laplantine e Trindade (2003) pontuam que as instituições sociais não se reduzem ao simbólico, mas só podem existir através dele. O imaginário, enquanto mobilizador de imagens, utiliza o simbólico para exprimir-se e ganhar corpo na realidade; por sua vez, o próprio simbólico pressupõe a capacidade humana de imaginar.
Recorrendo a Lukács, os autores lembram que a consciência dos sujeitos no capitalismo, ao mitificar as relações reais dos homens com o produto ou com as instituições por eles criadas, é a própria condição para o funcionamento adequado da economia. As leis do mercado só se realizam operando sobre as ilusões dos indivíduos. Em suma: o imaginário não é a negação total do real, mas a força que se apoia no real para transfigurá-lo, deslocá-lo e fabricar novas mediações no mundo aparente.
É exatamente nesse ecossistema que se insere o diagnóstico de Eugênio Bucci (2021) sobre a Superindústria do Imaginário. Para o autor, o capitalismo contemporâneo operou uma ruptura histórica ao colonizar e monopolizar os processos do desejo que, antes, habitavam esferas autônomas como os ritos, a religião e a arte. Ao confeccionar imagens e manipular o sensível, o capital aprendeu a lançar "anzóis libidinais" para afagar os sentidos, capturar o olhar e extrair do inconsciente a sua atenção e os seus dados, convertendo-os em força de trabalho e mercadoria. Não se trata de fumaça: a fabricação de representações imaginárias tornou-se o próprio motor da acumulação. É precisamente sobre essa arquitetura de sedução e alienação do olhar que o mercado das apostas virtuais (as Bets) fincou suas raízes. As plataformas de aposta não vendem probabilidade matemática ou mero entretenimento; elas operam o sequestro definitivo da atenção e do desejo do sujeito precarizado, transfigurando a angústia real e a esperança de emancipação social na ilusão digital de um ganho mágico a um toque na tela.
O Aparelhamento do Sujeito: A Fabricação do Isolamento
Toda essa engenharia de sedução e captura da atenção, contudo, não funcionaria em um corpo social coeso, solidário e politicamente desperto. Para que a superindústria do imaginário e as plataformas de aposta obtenham êxito pleno, é fundamental aparelhar e reformatar a própria subjetividade do indivíduo. A exploração do ganho mágico exige a fabricação contínua de um sujeito isolado, retirado da praça pública e empurrado para a esfera estritamente privada. É aqui que o sequestro do imaginário encontra o seu operário ideal: o indivíduo atomizado, cuja experiência de mundo se reduz à fronteira do seu próprio smartphone.
É de fundamental entendimento — e aqui recorremos a Casara (2024) — perceber que o processo de subjetivação alimentado pelos símbolos do imaginário não se limita a produzir identidades, mas conduz necessariamente a um quadro de submissão de toda a consciência.
Para Casara, na massa neoliberal as pessoas não compartilham o desejo por um bem coletivo; não há qualquer perspectiva de renúncia ou ação individual em nome do "comum", pois cada indivíduo se movimenta exclusivamente em torno dos próprios interesses e necessidades. Unidas na massa unicamente por impulsos de abundância, pertencimento e vantagens pessoais, as pessoas convertem-se em objetos funcionais à manutenção e reprodução da própria hegemonia neoliberal.
É exatamente nesse vácuo de coletividade que o ecossistema das apostas virtuais encontra seu nicho de reprodução perfeito. O aplicativo de aposta no smartphone opera como a tecnologia máxima da idiosubjetividade: um cassino de bolso onde o sujeito joga, sofre e se endivida no mais absoluto isolamento. Despojado da dimensão pública, o indivíduo "idiotizado" — no sentido clássico resgatado por Casara — deixa de enxergar as causas estruturais de sua precarização e passa a encarar a própria vida como uma cartela de apostas.
A consequência inevitável dessa clausura subjetiva é o surgimento de quadros patológicos severos. O isolamento alimentado pelas telas converte-se no solo fértil para o desenvolvimento da ludopatia (o vício compulsivo em jogos de azar), agravada por crises agudas de ansiedade, depressão e anomia. Sem a mediação do olhar do outro, do diálogo comunitário e dos laços de amparo interpessoal, o circuito dopaminérgico das odds e das roletas virtuais assume o controle da psique. A dor do endividamento e a frustração da perda contínua não deságuam em mobilização política ou pedido de socorro, mas em um espiral de vergonha, segredo e adoecimento mental silenciado. A atomização, portanto, atinge seu estágio supremo: a captura do imaginário não apenas despolitiza o sujeito, mas adoece e destrói sua estrutura psíquica na mais profunda solidão.
A Dessubstancialização e o Descarte da Vida
O adoecimento psíquico e a ruína financeira do indivíduo atomizado não são desvios de rota ou falhas pontuais do sistema; são a consequência lógica e previsível de uma engrenagem projetada para a extração máxima. Todavia, a tragédia das apostas digitais avança para além do sofrimento privado. Quando a subjetividade é capturada e a saúde mental é dilapidada na solidão da tela, produz-se um fenômeno ainda mais profundo: a dissolução dos próprios sentidos coletivos da existência. O vício e a dependência em massa deixam de ser apenas uma questão clínica e passam a revelar o estágio supremo do esvaziamento ontológico — aquele em que a vida humana perde sua densidade ética, histórica e comunitária, convertendo-se em mera mercadoria descartável no cassino do capital.
O diagnóstico de Cornelius Castoriadis (2012) sobre A Ascensão da Insignificância ilumina com precisão a anatomia desse colapso. Para o filósofo, o capitalismo tardio é marcado pelo esvaziamento das significações imaginárias centrais — aquelas que, em outros tempos, conferiam densidade, orientação ética e sentido coletivo à existência humana. Em seu lugar, ergue-se o triunfo do mero consumo, da apatia e da privatização dos indivíduos.
No fenômeno das Bets, essa insignificância atinge seu ápice ontológico. A práxis humana — o trabalho que transforma, a criação artística, a ação política e o projeto de vida — é inteiramente suplantada pela expectativa amorfa do ganho sem criação. A vida desidrata-se de substância: o futuro do sujeito deixa de ser um horizonte construído pela ação consciente e passa a depender do giro arbitrário de uma roleta algorítmica. Onde não há sentido, a esperança é substituída pela vertigem do acaso.
A consequência inevitável dessa perda de significação é a anestesia moral da própria sociedade. Como alertava Castoriadis, a insignificância destrói os laços de responsabilidade recíproca. É por isso que o rastro de vidas ceifadas — o endividamento crônico que liquida famílias, o colapso psíquico da juventude e os casos crescentes de suicídio — é absorvido pela opinião pública e pelos conglomerados econômicos com uma frieza estarrecedora. A tragédia do outro deixa de provocar comoção ou indignação política; passa a ser tratada como um "efeito colateral" negligenciável, o descarte natural de um consumidor que simplesmente "não soube jogar".
Onde a vida perde a substância, a própria comoção social torna-se seletiva e mercantilizada. É sintomático observar como o debate público e a cobertura mediática sobre uma eventual regulamentação ou retração das Bets são conduzidos: quando se especula sobre o fim ou a limitação dessas plataformas, a preocupação central das manchetes não se volta para os milhares de lares destruídos, para o endividamento das famílias ou para a saúde mental dilapidada pela ludopatia. O pânico de mercado restringe-se à perda dos milionários patrocínios nos clubes de futebol, ao encolhimento das verbas publicitárias nos conglomerados de comunicação e à frustração da arrecadação tributária do Estado. A vida que padece no vício do jogo permanece invisível; a métrica que choca a opinião pública é apenas a sangria no balanço das corporações.
Onde o trabalho produtivo e a criação autônoma perdem o sentido, a superindústria do imaginário — como bem observa Eugênio Bucci — preenche o vazio com a oferta do mágico. A indústria das Bets opera justamente através desse curto-circuito psíquico: promete a dissolução imediata da miséria e da angústia sem a mediação do tempo, do esforço ou da transformação real do mundo. A aposta converte-se no pensamento mágico do homem precarizado. Porém, quando a ilusão mágica se desfaz na roleta digital, o que sobra no mundo real não é a riqueza prometida, mas o ruído seco do desespero, do endividamento e do descarte sumário das vidas que acreditaram na miragem.
A Vida em Si: Por uma Ética da Restauração Humana
O que é, afinal, a Vida em Si?
Ao longo da história, o pensamento humano debruçou-se sobre essa interrogação fundamental em busca de um sentido ontológico. Para o materialismo, a vida não passa de um arranjo mecânico e transitório da matéria — uma perspectiva que, levada às últimas consequências pelo capitalismo financeirizado, reduz o indivíduo a um dado estatístico e a um insumo descartável. Para o panteísmo, a existência individual dilui-se na imensidão de um todo impessoal, desidratando a responsabilidade ética do sujeito singular. O existencialismo, por sua vez, ao afirmar que a existência precede a essência, lançou sobre os ombros do homem o fardo e a dignidade de inventar a si mesmo, situando a liberdade e a responsabilidade no centro do drama humano.
É no encontro entre a responsabilidade moral e a destinação do ser que a obra de Allan Kardec oferece uma síntese luminosa. Na questão 132 de O Livro dos Espíritos, ao indagar sobre o objetivo da encarnação dos espíritos, a resposta é categórica: Deus a impõe com o fim de os fazer chegar à perfeição, mas também para "pô-los em condições de suportar a sua parte na obra da criação".
Essa formulação encerra uma profunda ética do trabalho, da criação e da responsabilidade. A vida não é uma roleta aleatória, nem um jogo de entretenimento anestésico; é uma convocação à autoria e à colaboração ativa no mundo real. Ao prometer o ganho sem esforço, o enriquecimento sem criação e o progresso sem transformação moral, o ecossistema das Bets opera uma sabotagem direta à própria finalidade da existência.
Aprofundando essa razão de ser, a Doutrina Espírita demonstra que a emancipação do ser é indissociável da Lei de Sociedade. O homem não foi destinado ao isolamento da tela ou à busca solipsista por vantagens pessoais. É no convívio, na troca e na solidariedade interpessoal que as faculdades da alma se desenvolvem. A indústria das apostas, ao atomizar o indivíduo e lucrar sobre a sua ruína e desespero, comete a violência suprema de rasgar a lei de cooperação social, substituindo a fraternidade pela predação algorítmica.
Reivindicar a "Vida em Si" diante do avanço das Bets é, portanto, um ato de resistência ética, política e espiritual. Exige recusar a passividade da massa neoliberal, desmascarar a ilusão do atalho mágico e compreender a diferença radical entre o cassino algorítmico e o verdadeiro Jogo da Vida. Enquanto a roleta digital exige o isolamento do sujeito e cobra como preço a sua própria alma e saúde, o Jogo da Vida — aquele desenhado pela lei de cooperação e pela busca do progresso moral — só pode ser jogado em comunhão. Nela, a única aposta legítima é o trabalho consciente, a presença no mundo e o amparo mútuo; a única vitória real é a construção da dignidade e do bem comum. Contra a engrenagem que reduz a existência a uma odd descartável, afirma-se a sacralidade irrenunciável de cada ser: o verdadeiro Jogo da Vida não se encerra na tela de um smartphone, mas na beleza trágica e luminosa de nos sabermos coautores da criação.
Referências:
BUCCI, Eugênio. A Superindústria do imaginário. Belo Horizonte; Autêntica, 2021.
CASARA, Rubens. A Construção do idiota – o processo de idiossubjetivação. Rio de Janeiro; DaVinci, 2024.
CASTORIADIS, Cornelius. A Ascensão da insignificância. Lisboa, Bizâncio, 2012.
KARDEC, Allan. O Livro dos espíritos. São Paulo; LAKE, 2000.
LAPLATINE & TRINDADE, François e Liana. O Que é Imaginário. São Paulo; Editora Brasiliense, 2003.

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirO artigo articula uma crítica sociofilosófica e ética ao avanço do capitalismo financeirizado contemporâneo, tomando como estudo de caso a popularização das apostas virtuais (as Bets). A reflexão integra conceitos da teoria crítica, da psicologia social e da filosofia espiritual.
Principais Linhas de Análise
A Captura do Imaginário: Apoiando-se em Cornelius Castoriadis, Eugênio Bucci e na crítica da reificação, o texto demonstra como o capital deixou de produzir apenas bens materiais para colonizar o sensível, o desejo e os símbolos da identidade (como os símbolos pátrios).
Fabricação da Atomização e Adoecimento Social: Recorrendo às teses de Rubens Casara sobre a idiossubjetividade, o ensaio explica que a eficiência das plataformas digitais depende do isolamento do indivíduo. O smartphone funciona como um "cassino de bolso", no qual a vulnerabilidade econômica do trabalhador precarizado é convertida em endividamento, ludopatia, isolamento social e crises de saúde mental.
Esvaziamento Ontológico e Anestesia Moral: O texto argumenta que a prática da aposta desidrata o sentido do trabalho e da ação coletiva, substituindo o esforço consciente e a construção histórica pela busca por um "ganho mágico". A reação da opinião pública e dos conglomerados de mídia é criticada por focar nos impactos financeiros (patrocínios e impostos) em detrimento da devastação social das famílias atingidas.
A Ética da Restauração Humana: Na seção final, o ensaio contrapõe o modelo de espoliação algorítmica ao pensamento existencialista e à visão humanista e cooperativa da Doutrina Espírita (Allan Kardec). Defende-se que a existência humana encontra sentido na cooperação, na responsabilidade moral e no trabalho coletivo, em oposição ao solipsismo predatório promovido pelo mercado das apostas.