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SER HUMANO: ZONA DE INTERESSES – DA COISIFICAÇÃO DA VIDA AO NEGÓCIO DA MORTE

 


 Por Jorge Luiz

O Sujeito como Território de Caça

 Thomas Hobbes, em sua festejadíssima obra Leviatã (1651), sentenciou que o “homem é o lobo do homem”. Para ele, a ausência de uma autoridade central condenaria a humanidade a uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. O remédio hobbesiano é o Contrato Social de submissão: a entrega irreversível do poder ao Soberano (Estado) em troca de segurança. Hobbes rompe com o pensamento puramente religioso ao defender o Erastismo — a subordinação da Igreja ao poder civil —, sob a premissa de que não pode haver dois senhores disputando a obediência do súdito.

Contudo, o Leviatã de Hobbes não anteviu a mutação do Estado-Nação sob o capitalismo. O sistema, consolidado entre os séculos XVIII e XIX, transitou do mercantilismo para o liberalismo industrial, onde o Estado parece diminuir sua intervenção, mas se agiganta na construção das subjetividades. Como propõe Louis Althusser, o Estado realiza-se através de seus Aparelhos Ideológicos (Judiciário, Educação, Mídia, Família), que não oferecem apenas uma visão de mundo, mas fabricam o próprio indivíduo como um "território de caça". Para Althusser, as ideologias não são concepções de mundo abstratas, mas práticas materiais produzidas pela força do capital para garantir a reprodução do sistema (2022).

Essa captura ganha contornos contemporâneos com o "solucionismo" do Vale do Silício.             Como aponta Quinn Slobodian, o capitalismo atual funciona para as nações que elaboram as melhores regras para proteger a propriedade e regulamentar o trabalho (2024). Percebeu-se que o mundo estava repleto de "problemas" a serem sanados por soluções tecnológicas; contudo, esses problemas não eram a fome ou a miséria, mas barreiras ao livre fluxo do lucro. Airbnb, Uber e a infame Theranos prometem revolucionar o cotidiano, mas seus interesses navegam em águas estritamente privadas.

Essa 'solução' tecnológica é, em última análise, a face digital do Leviatã: entregamos nossos dados, tempo e privacidade para que algoritmos gerenciem nossas carências. Os aparelhos ideológicos nos ensinam a desejar nossa própria submissão, vendendo a conveniência do aplicativo como o auge da civilização. No entanto, essa eficiência é a própria Coisificação da Vida. Sob o triunfo do Capitalismo Destrutivo, a democracia torna-se um sistema que "não envolve os residentes" e a vida vira insumo para o "negócio da morte". O sujeito, alvo desse colonialismo por convite, acaba por trocar sua natureza divina — a centelha do "Sois Deuses" — por um conjunto de regras que o reduz à função de mantenedor. Ele trabalha não para o seu progresso, mas para sustentar prazeres que não lhe pertencem, subvertendo a Lei de Conservação em uma Lei de Exploração (Kardec, Q. 674).

 

   A Herança como Campo de Batalha: A Aritmética do Descarte

            A transição da predação estatal para a doméstica é ilustrada com crueza na obra Nas Telas do Infinito, de Yvonne do Amaral Pereira. Ao descrever a sucessão no "Castelo Negro", a autora revela que os verdadeiros "demônios" não são entidades ocultas, mas a parentela que, sob crepes de luto, acorre para devorar o "enigma de um tesouro". Essa cena transcende o drama literário para tornar-se o retrato fiel da "Elite do Atraso" descrita por Jessé Souza. Para essa classe, a herança não é um bem material, mas a perpetuação de um privilégio de casta que substitui o mérito real pelo sobrenome e pelo patrimônio.

            Essa dinâmica reflete-se na vulnerabilidade das empresas familiares, pilares de setores como o agronegócio e a indústria. Sem mecanismos jurídicos claros para disciplinar a relação entre sócios e herdeiros, a disputa sucessória frequentemente leva ao enfraquecimento ou à quebra de organizações inteiras. Neste cenário, o afeto é a primeira vítima da coisificação: o falecido deixa de ser uma biografia para tornar-se um "monte-mor" a ser partilhado.

Essa "geometria da cobiça" encontra eco no realismo cético de Machado de Assis, especialmente em seu conto Herança. Ali, a aritmética da partilha atropela a melancolia do luto, transformando o herdeiro em um calculista que chora a perda do homem enquanto celebra a posse da coisa. Quando a família transmuta o lar em tribunal, ela valida a lógica do Capitalismo Destrutivo: o valor do indivíduo é medido estritamente pelo que ele deixa ao partir. Se o "pergaminho" do testamento revela cofres vazios, a memória do ser é descartada como um "ingrato mister", provando que o indivíduo só é reconhecido como "humano" enquanto território de extração econômica.

            Essa predação íntima desafia as leis naturais e encontra o seu juízo ético em O Livro dos Espíritos (L.E.). Ao abordar a desigualdade das riquezas (L.E.Q. 808), os Espíritos esclarecem que, embora a diversidade de aptidões seja natural, a exploração é fruto do egoísmo. A herança, quando utilizada apenas para a perpetuação de privilégios (L.E.Q. 810), torna-se a raiz de ódios e divisões, pois ignora que a riqueza é um depósito temporário destinado ao progresso coletivo (L.E.Q. 809). No campo de batalha sucessório, a subversão da lei de fraternidade revela que, enquanto o homem não dominar seu orgulho, a morte do outro continuará sendo vista como oportunidade de rapina, e não como transcendência.

            Essa patologia social atinge seu ápice de perversidade no descarte do idoso desprovido de posses. Se o patrimônio garante a "veneração" póstuma e o litígio fervoroso, sua ausência decreta a invisibilidade em vida. A "zona de interesse" se fecha hermeticamente para aquele que não mais produz lucro nem promete espólio. O abandono do idoso pobre revela a face mais cruel da coisificação: a negação da dignidade a quem o sistema rotula como "insumo exaurido". Sem o "enigma de um tesouro" para atrair a parentela, o ser humano é banido do território de afeto, sentenciado ao exílio existencial antes mesmo do túmulo.

 

O Homem como Massa de Manobra: Entre o Púlpito e o Palanque

Na arquitetura da dominação contemporânea, a política e a religião operam através daquela "audácia" denunciada por Padre Antônio Vieira em seu Sermão do Bom Ladrão: uma eloquência cínica que não busca iluminar a consciência, mas capturar a vontade para o interesse do pregador. Se a palavra deveria ser a semente que frutifica na alma, a retórica do palanque e do púlpito tornou-se uma rede de arrasto que transmuta o indivíduo em massa, anulando a sua "centelha divina" em favor de um automatismo ruidoso. O sujeito, já estabelecido como território de caça, sofre aqui sua despersonalização final: ele deixa de ser um "Eu" consciente para se tornar um insumo ideológico, cuja força é sequestrada pela audácia daqueles que subvertem o bem comum e a fé em benefício da manutenção de seus próprios impérios.

Recentemente, observamos o movimento de presidentes de legendas partidárias brasileiras em convescotes com grandes empresários, formalizando um pacto para que as bancadas parlamentares se posicionem contra o fim da escala 6x1. Tal articulação, que prioriza interesses corporativos e eleitorais em detrimento da dignidade humana, revela a face crua do pragmatismo que habita o espaço entre o púlpito e o palanque. É a prova de que, na "Zona de Interesse", a exaustão do trabalhador é a moeda de troca para o conforto da elite.

Ao entronizar o pensamento de Walter Benjamin neste cenário, percebe-se que essa captura não é apenas retórica, mas teológica: o capitalismo funciona como uma religião de culto permanente, onde o mercado é o novo púlpito e a política o novo palanque. Nesta liturgia do capital, a massa não é composta por cidadãos, mas por fiéis da dívida, mantidos em um estado de culpa eterna (Schuld) que alimenta a engrenagem produtiva. O "voto" e o "consumo" tornam-se atos rituais de uma assembleia que adora o sistema que a devora. O fiel deste culto não busca a transcendência, mas a manutenção de uma estrutura que o coisifica, transformando sua angústia existencial em combustível para a elite que gere o sagrado e o econômico.

Diante desse cenário de sequestro da subjetividade, a alternativa reside na decolonialidade da alma, como propõe Nicolás Panotto. Se o púlpito e o palanque funcionam como ferramentas de colonização do imaginário, a resistência exige uma "desobediência espiritual". Decolonizar, neste contexto, significa romper com a lógica do caçador que nos ensinou a ver a religião como submissão e a política como idolatria. A alternativa decolonial converge com a essência do "Sois Deuses": ela convoca o indivíduo a retomar seu protagonismo, retirando o sagrado das mãos dos mercadores e a ética das mãos dos audaciosos. Propor uma política e uma religião decoloniais é, em última análise, restaurar o Evangelho como força de insurgência contra a coisificação, substituindo o fiel-devedor pelo ser-consciente que, ao reconhecer sua natureza divina, torna-se incontrolável para o sistema.

 

         A Crueldade do Descarte: O Idoso sem Herança

         A relação entre a velhice e a dignidade humana, na lógica do capital, é visceralmente mediada pelo interesse patrimonial. O cuidado dispensado ao idoso torna-se um reflexo das posses que serão transmitidas aos herdeiros; onde não há herança, o afeto raramente é o determinante. A situação do idoso pobre no Brasil é o retrato dessa falência ética: com cerca de 2,8 milhões de pessoas vivendo na pobreza em 2022, o envelhecimento populacional revela um abismo de desigualdade onde a previdência social é o único anteparo contra uma miséria absoluta que saltaria de 1,9% para 35,2% sem o benefício estatal.

Essa disparidade é geográfica e biológica. No Mapa da Desigualdade de São Paulo, o contraste é obsceno: enquanto em Alto de Pinheiros a idade média ao morrer é de 80,9 anos, em Cidade Tiradentes a vida é interrompida aos 58,3 anos. Essa diferença de 23 anos de existência, ditada pelo CEP, é a prova material de que o sistema escolhe quais corpos merecem a longevidade e quais devem ser exauridos antes mesmo de alcançarem a terceira idade.

As Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) de baixa renda tornam-se, frequentemente, depósitos de invisibilidade. Abandonados em hospitais ou nestas instituições, muitos idosos têm seus benefícios administrados por organizações que nem sempre priorizam o bem-estar e a dignidade do assistido. Essa realidade colide frontalmente com a Questão 685 de O Livro dos Espíritos, que estabelece o repouso na velhice como um direito natural: "o forte deve trabalhar para o fraco" e, na ausência da família, cabe à sociedade o amparo por força da lei de caridade.

Contudo, sob a égide da ideologia do capital, o idoso pobre é gerido como "resíduo" ou dano colateral. É aqui que o pensamento de Achille Mbembe se torna indispensável: o sistema opera uma Necropolítica, um conjunto de estratégias que define quem pode viver e quem deve morrer. Na "Zona de Interesse" do deus-mercado, o controle dos corpos biológicos é absoluto; quando o corpo não mais produz mais-valia e não possui patrimônio para garantir a "veneração" dos herdeiros, ele é entregue à gestão da morte — seja pelo abandono institucional, seja pela negação das condições básicas de sobrevivência. O idoso sem herança é a vítima definitiva dessa política que transforma a vida em um cálculo de custo-benefício.

 

A Morte como Negócio: O Luto das Mangueiras

A lógica do "sujeito como território de caça" atinge seu ápice quando a própria vida, em sua expressão mais orgânica e sagrada, é lida apenas como um obstáculo ao cronograma de obras do capital. O poeta Jessier Quirino sintetiza essa tragédia em versos que são, ao mesmo tempo, lamento e denúncia:

    "As mangueiras tão de luto

    E as mangas de sentimento

    Derrubaram um pé de manga

    Pra fazer um apartamento"

 Aqui, nos versos de Quirino, o interesse imobiliário especulativo expõe de forma visceral o exato momento em que o Valor de Uso (a sombra, o fruto, o tempo da natureza) é assassinado pelo Valor de Troca (o metro quadrado, o lucro imobiliário). A morte aqui não é apenas o fim biológico, mas a "desvivência" programada: derruba-se o que é vivo e compartilhado para erguer o que é concreto e privado.

Essa 'desvivência' programada encontra sua arquitetura definitiva na convergência entre a utopia distópica do Metaverso e a lógica do Anarcocapitalismo. Se no mundo físico o capital derruba a mangueira para erguer o concreto, no ambiente virtual ele anula o próprio conceito de 'bem comum' em favor da privatização absoluta da experiência. Para a doutrina anarcocapitalista, não há cidadãos, apenas proprietários e consumidores; o espaço público desaparece, restando apenas o território loteado. O Metaverso surge, então, como o loteamento do imaginário: um 'não-lugar' onde o 'Rosto' de Lévinas é substituído pelo avatar customizado, eliminando a alteridade e a vulnerabilidade da dor real. O indivíduo, exaurido pela predação cotidiana, é convidado a habitar uma simulação onde até o ar e a luz são tarifados, trocando definitivamente sua herança divina por um simulacro de existência. É o triunfo de um sistema que transforma a realidade em um ativo digital e a alma em um capital a ser minerado, provando que a 'Zona de Interesse' não busca apenas o que o homem possui, mas a captura total do seu sentido de realidade.

 

O Despertar da Centelha: Da Morte como Negócio à Vida como Transcendência

O mercado, como rotineiramente designam os senhores que dominam as almas encarnadas, não demonstram nenhum interesse sobre a vida futura, em um entendimento científico acerca do Espírito, como ser moral, imortal que jornadeia na terra através das vidas sucessivas. Em reconhecendo isso, ressignificaria a vida e sepultaria os interesses neoliberais acerca da vida. Os indivíduos teriam uma nova visão de si e consequentemente mudaria a cosmovisão da vida. Os interesses individuais e coletivos, onde o reconhecer o rosto do outro, na concepção de Emmanuel Lévinas nos princípios da alteridade, a partir do reino de Deus está dentro de vós, de Jesus, faria a humanidade trilhar o caminho da paz, isto é fato. A “zona de interesse” tanto dos indivíduos e Nações é fomentada pelo egoísmo. Os Espíritos são fáticos a afirmarem que do egoísmo deriva todo o mal (L.E. Q.913) O egoísmo, resquício dos seres humanos no processo de individualização do Espírito, sucumbirá a partir do conhecimento de Si mesmo, ou individuação na concepção junguiana. O desejo da transcendência se realiza pela a força do progresso; o progresso é inexorável.

Se a 'Zona de Interesse' logrou transformar o ser em coisa e o sagrado em ativo, o retorno à natureza divina — o 'Sois Deuses' — exige mais do que resistência política; exige uma insurgência da sensibilidade. Recusar a desvivência é ter a coragem de chorar as mangueiras de Jessier, reconhecer o Rosto de Lévinas por trás do avatar e entender que o trabalho (Kardec, Q. 674) só é progresso quando preserva o sopro de vida que nenhum algoritmo pode minerar. No labirinto do concreto e do código, a única saída é a decolonização do afeto, devolvendo ao sujeito o território que o capital jamais deveria ter invadido: a sua própria alma.

 

Referências:

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 2022.

HOBBES, Thomas. Leviatã - ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. E-book.

KARDEC, Allan. O Livro dos espíritos. São Paulo; LAKE, 2000.

PEREIRA, Yvone. Nas telas do infinito. Rio de Janeiro; FEB, 1955.

PANOTTO, Nicolás. Religião, política e pós-colonialidade na américa latina. São Paulo; Recriar, 2020.

SLOBODIAN, Quinn. Capitalismo destrutivo. Rio de Janeiro; Objetiva, 2024.

SOUZA, Jesse. A Elite do atraso. Rio de Janeiro; LEYA, 2017.

 

https://www.dossotoledo.com.br/post/disputas-por-heran%C3%A7a-desafiam-a-continuidade-das-empresas-familiares-no-brasil

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/10/21/idade-obitos-mapa-sao-paulo.htm

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/630037-capitalismo-e-morte-um-olhar-sobre-a-necropolitica

 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR IA, GEMINI.
    O artigo nos propõe uma viagem profunda e desconfortável pelas entranhas da nossa despersonalização cotidiana. Partindo do clássico "homem lobo do homem" de Hobbes, o texto atualiza as amarras do controle social e nos mostra como o capitalismo contemporâneo — amparado pelo solucionismo tecnológico do Vale do Silício e pela lógica da predação íntima (as disputas de herança familiares) — transformou o próprio ser humano em um "território de caça".
    ​Da uberização do trabalho à mercantilização do afeto na velhice (onde o idoso sem posses é descartado como resíduo pela necropolítica), o que testemunhamos é a coisificação absoluta da vida. Fomos ensinados a desejar nossa própria submissão em troca da conveniência de um aplicativo.
    ​No entanto, o texto não encerra as portas na distopia. O verdadeiro despertar surge na urgência de uma "decolonialidade da alma": o resgate da nossa centelha divina e a insurgência do afeto contra o cálculo frio dos algoritmos e do mercado. É preciso retomar o território que o capital jamais deveria ter invadido: a nossa própria consciência.
    ​E você, o que pensa sobre essa "geometria da cobiça" que dita os nossos dias? Conseguimos nos desconectar desse culto ao mercado para resgatar a nossa humanidade? Deixe seu comentário abaixo!

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