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A CAPITALIZAÇÃO DA MENTIRA: DO DESMONTE DA ECONOMIA AO RESGATE DA CONSCIÊNCIA

 

 

Por Jorge Luiz

 

A Anatomia de um Crime Econômico

            A mentira, quando institucionalizada, deixa de ser um desvio ético para se tornar uma patologia econômica e social. O exemplo mais candente da última década brasileira é a Operação Lava-Jato. Sob a égide de um messianismo jurídico, articulou-se uma narrativa que, sob o pretexto de combater a corrupção, operou um desmonte sistêmico do patrimônio nacional. Os dados do DIEESE e das universidades UFRJ e Uerj são inequívocos: o custo dessa ‘verdade fabricada’ foi a aniquilação de 4,4 milhões de empregos e uma retração de 3,6% no PIB entre 2014 e 2017. Aqui, a mentira não apenas feriu reputações, como a do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva; ela asfixiou a massa salarial em R$ 85,8 bilhões e subtraiu R$ 172,2 bilhões em investimentos.

            Em Freakonomics, Levitt & Dubner consideram que o moralismo representa a forma como as pessoas gostariam que o mundo funcionasse, enquanto a economia representa a forma como ele realmente funciona. No Brasil e no mundo, em  que as relações entre os indivíduos se realizam pela forma da mercadoria, a economia em si é perversa, e ela funciona a partir de incentivos perversos. Ora, no caso citado, sabe-se, hoje, que havia interesses econômicos de multinacionais estrangeiras com benefícios para os ativistas jurídicos envolvidos as quais iriam locupletar em uma cifra bilionária – algo em torno de R$2,5 bilhões.

           

A Mentira na Estrutura Social e Psicológica

            Sêneca, o Moço, em epístola a seu irmão Gálio, recomenda o cuidado de não seguir cegamente os que nos precedem à maneira do gado — dirigindo-se não para onde se deve ir, mas para onde a massa se desloca. Para o filósofo, nas coisas humanas não se procede com acerto ao tentar agradar à maioria, pois a massa é, frequentemente, o pior intérprete da verdade (Sêneca, 2001).

Historicamente, a mentira ocupou o campo filosófico como o negativo de outros temas. Contudo, ao longo das civilizações, seus flagelos e impactos subjetivos têm exigido análises que atravessam os planos social, político e gnosiológico, alcançando problemas contemporâneos como a ideologia e a tecnologia (Mascaro, 2025). Sob a ótica de Gustave Le Bon, fundador da Psicologia Social, a mentira ganha novos contornos com o avanço tecnológico. As redes sociais mimetizam a “multidão”, oferecendo campo fértil para os processos de anonimato, contágio e sugestionabilidade (Le Bon, 1911).

Nesse ambiente, a integração do indivíduo à multidão psicológica provoca a anulação de sua personalidade consciente, transformando o sujeito em um autômato. O homem na multidão abdica de sua vontade própria, tornando-se peça mecânica guiada por uma “alma coletiva” suscetível a narrativas fabricadas. Diante desse cenário, o autoconhecimento — desafio outrora inscrito no Oráculo de Delfos — impõe-se como a superação necessária do autoengano, conforme analisa Eduardo Giannetti. Superar esse condicionamento resultante das contradições humanas é, portanto, um imperativo cognitivo na busca da verdade sobre si mesmo (Gianetti, 2005).

 

A Mentira no Poder: Totalitarismo, Autoritarismo e a Queda da Verdade

As democracias estão sob ataques em muitas nações, inclusive no Brasil. Essas ameaças não mais se restringem aos conhecidos golpes militares clássicos, mas pelas mãos de líderes eleitos de forma democrática, que empossados, subvertem as regras que as levaram ao poder.

         Le Bon adverte que já não é nos conselhos dos príncipes, mas na alma das multidões que se preparam os destinos das nações (Le Bon, 2022). É no contágio e na sugestionabilidade das multidões que se processa a instrumentalização dessa fraqueza e se explica a ascensão das estruturas autoritárias.

Líderes autocratas utilizam a desinformação para minar as instituições por dentro, transformando o adversário político em um inimigo existencial que deve ser aniquilado por qualquer meio — um processo que guarda verossimilhança com a perseguição judicial citada na abertura deste artigo.

        Indiscutivelmente, por ser sugestionável por excelência, a alma humana sofre por isso, com incompreensível resignação, o aniquilamento de sua capacidade perceptiva e analítica. O espírito, em outra direção, reclama, ao contrário, com indagadora insistência, tratamento e respeito próprios da sua paridade existencial (Pecothec, 2023). Portanto, o pensamento logosófico apresenta a luta contra a mentira institucionalizada e não se dá apenas no campo jurídico, mas na esfera da consciência individual, através da recuperação da autonomia sobre o próprio pensar.

A dominação das mentes da massa não seria possível sem essas terríveis deficiências. O próprio Hitler, em seu capítulo sobre propaganda em Mein Kampf, afirma que a capacidade receptiva das massas é muito limitada, e sua compreensão é pequena; por outro lado, elas têm um grande poder de esquecer, ele, portanto, limitava sua comunicação com as massas na forma de slogans (Stanley, 2018). Depois de um tempo, com essas técnicas, a política fascista acaba por criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar do debate fundamentado (idem).

 

A Era da Pós-Verdade: A Mentira Digital e Coletiva

Durante todo o seu primeiro mandato, o ex-presidente dos EUA proferiu diversas alegações falsas e enganosas. Os verificadores de fatos do The Washington Post documentaram 30.573 dessas afirmações, uma média de 21 por dia. Já o ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo relatório da ONG Internacional artigo 19, divulgado em 29.07.2021, mentiu 1682 vezes (**). Hannah Arendt já advertia que, para o governo totalitário, o súdito que realmente interessa é aquele para quem não existe mais distinção entre o fato e a ficção, entre o verdadeiro e o falso (Arendt, 2013).

Se tais reflexões eram alarmantes no século passado, nos dias atuais a verdade revela-se de forma nua e crua como um reflexo terrível do panorama político e cultural. Nele, fake news e mentiras são divulgadas em escala industrial por “fábricas de trolls”, lançadas em um fluxo ininterrupto por líderes de extrema-direita e espalhadas globalmente através das redes sociais. Surge, assim, o enfraquecimento do papel dos fatos e da análise na vida pública, consolidando o que entrou para o léxico como a era da “pós-verdade”.

A Operação Lava-Jato foi, sem dúvida alguma, uma “produção industrial” de narrativas que paralisaram a análise crítica do brasileiro. Conforme analisa Matthew d’Ancona (2018), a essência da pós-verdade não reside apenas na negação dos fatos, mas na erosão do papel que a evidência desempenha na esfera pública. A verdade factual é preterida em favor do apelo emocional e do reforço de preconceitos tribais, transformando o debate democrático em um campo de batalha de narrativas irreconciliáveis.

Somos gregários por natureza e trazemos um instinto tribal que ainda atua em nossa vida de relação, manifestando-se no lazer, na religiosidade e na vida profissional. Desse instinto emerge o tribalismo como comportamento, dinamizado em um ambiente onde a pós-verdade — que nada mais é do que um novo nome para a mentira — provoca uma erosão da realidade e sustenta uma indústria bilionária da desinformação. Nesse universo, o algoritmo atua como um mestre de cerimônias do tribalismo moral: ele não nos entrega a verdade, mas o espelho de nossas próprias convicções. Como adverte Jonathan Haidt, a moralidade “une e cega”: ao nos unir em torno de mentiras digitais que confortam nossos preconceitos, ela nos cega para a devastação real — como a queda do PIB e o desemprego — que essas mesmas mentiras produzem no mundo físico.

 

O Antídoto — A Busca pela Verdade

            A verdade é a essência espiritual da vida. Como ensina o Espírito Emmanuel, cada indivíduo ou grupo possui o seu quinhão de verdades relativas, que alimentam as almas nos vários estágios evolutivos (Xavier, 2009). No contexto das crises contemporâneas e das mentiras institucionalizadas, a retomada dessa busca pela verdade não é apenas um exercício intelectual, mas um imperativo do espírito.

O Espiritismo ensina que o indivíduo possui, ainda que inconscientemente, o germe do sentido ético da existência. Como “chispa” do Psiquismo Divino, o ser traz no âmago do seu “Eu profundo” esse embrião que se desenvolve na razão direta em que o conhecimento e a emoção predominam sobre os instintos primários. É esse processo que abre espaço para a razão, o discernimento e a evolução (Franco, 2000). Assim, o autoconhecimento torna-se o fundamento maior da vida do espírito encarnado, tendo como bússola a máxima de Jesus: amar o próximo como a si mesmo, consoante a Lei de Justiça, Amor e Caridade — a lei divina que deveria reger as relações humanas, inclusive as econômicas e políticas.

Fadado à plenitude espiritual por um determinismo irreversível, o espírito jornadeia pela senda que melhor lhe apraz desde que adquiriu o discernimento e o livre-arbítrio. Portanto, nenhum ser está condenado ao mal ou à desgraça; a concepção de que alguns foram criados para a desdita carece de fundamentação (Franco, 1995). O “antídoto” para a mentira que mata empregos e cega multidões reside, portanto, no despertar da consciência individual. Ao substituir o tribalismo do ódio pela ética do amor e o autoengano pela busca sincera da verdade, o homem deixa de ser um autômato das massas para se tornar o arquiteto de uma sociedade fundada na realidade e na justiça.

O cenário atual, ilustrado pelas movimentações obscuras do Banco Master e a conivência silenciosa da elite financeira, política e mediática, é a prova de que a capitalização da mentira atingiu seu estágio mais sofisticado: o da captura integral do real. Quando magistrados, veículos de comunicação e legisladores orbitam em torno de lucros astronômicos desprovidos de lastro moral ou social, a mentira deixa de ser apenas uma 'notícia falsa' para se tornar a própria estrutura da economia brasileira. Esse 'estamento bancário' opera uma forma de obsessão coletiva por fascinação, onde os números crescem no vácuo enquanto a vida humana é asfixiada pela dívida e pela exclusão. O resgate da consciência, portanto, exige que identifiquemos nesse 'milagre financeiro' a mesma raiz da desumanidade que produz o Lázaro à porta: uma intelectualidade técnica fria que, a serviço do capital, abdicou da alma. A verdade que liberta não virá dos balanços auditados por interesses escusos, mas do despertar de indivíduos que se recusam a ser autômatos de um cassino institucionalizado, reafirmando que a economia do Reino de Deus é incompatível com a prosperidade fundada no engodo e na exploração do próximo."

Afinal, o maior obstáculo para a reconstrução de uma sociedade lúcida não é apenas a sofisticação da mentira institucionalizada, mas a resistência visceral do indivíduo que, acuado pelo medo de perder o chão de suas convicções, prefere o conforto de uma ilusão que o escraviza ao rigor de uma verdade que o libertaria, mas que primeiro exigiria o luto de suas próprias certezas.

 

 

Referências:

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia. de Bolso, 2013.

DIVERSOS. Poliética. São Paulo: PUC, 2025.

FRANCO, Divaldo P. O despertar do espírito. Salvador: LEAL, 2000.

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: LeBooks, 2022.

PECOTCHE, Carlos B. G. Deficiências e propensões do ser humano. Minas Gerais: Logosófica, 2023.

SÊNECA. Da vida feliz. São Paulo: Martins Fortes, 2001.

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo. Rio Grande do Sul: L&PM, 2018.

STEVEN, David L. & DUBNER, J. Stephen. Freakonomics. Rio de Janeiro: Campus, 2025.

XAVIER, F. Cândido. O Consolador. Brasília: FEB, 2009.

 

SITE

(*)https://www.washingtonpost.com/politics/how-fact-checker-tracked-trump-claims/2021/01/23/ad04b69a-5c1d-11eb-a976-bad6431e03e2_story.html

(**)https://istoedinheiro.com.br/bolsonaro-1682-mentiras-em-um-ano


 

 


 

 

 

 

 

 

 


Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo analisa a mentira institucionalizada como uma ferramenta de destruição econômica, usando a Operação Lava-Jato para ilustrar como narrativas "messiânicas" podem aniquilar empregos e o PIB.

    O texto articula três pontos principais:

    Mecanismo: A tecnologia e os algoritmos potencializam a "psicologia das multidões", transformando o indivíduo em um autômato que prefere o conforto do dogma tribal à dureza dos fatos.

    Poder: A desinformação é a arma do novo autoritarismo, que substitui o debate democrático por um estado de irrealidade e perseguição.

    Antídoto: A solução não é técnica, mas ética e espiritual; passa pelo autoconhecimento e pela recuperação da autonomia do pensar para romper com o "cassino institucionalizado" que prioriza o lucro sobre a verdade.

    Em suma: O autor defende que a crise brasileira é, no fundo, uma patologia da consciência coletiva manipulada por interesses financeiros.

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