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ESPÍRITAS: PENSAR? PRA QUÊ?

 

 

 


    Por Marcelo Henrique

O que o movimento espírita precisa, urgentemente, constatar e vivenciar é a diversidade de pensamento, a pluralidade de opiniões e a alteridade na convivência entre os que pensam – ainda que em pequenos pontos – diferentemente. Não há uma única “forma” de pensar espírita, tampouco uma única maneira de “ver e entender” o Espiritismo.

***

Você pensa? A pergunta pode soar curiosa e provocar certa repulsa, de início. Afinal, nosso cérebro trabalha o tempo todo, envolto das pequenas às grandes realizações do dia a dia. Mesmo nas questões mais rotineiras, como cuidar da higiene pessoal, alimentar-se, percorrer o caminho da casa para o trabalho e vice-versa, dizemos que nossa inteligência se manifesta, pois a máquina cerebral está em constante atividade. E, ao que parece, quando surgem situações imprevistas ou adversas, é justamente neste momento em que os nossos neurônios são fortemente provocados e a nossa bagagem espiritual responde na forma da resolução de problemas e dificuldades ou na direção da tomada de decisões.

Ainda assim, nas chamadas atividades culturais e educativas, o pensamento parece ser o instrumento mais necessário e utilizado, de vez que diversos estímulos (visuais, auditivos, sensoriais, cognitivos, psíquicos) desencadeiam a necessidade de atribuir valor às ideias, aderindo a algumas ou rechaçando muitas delas. Todavia, não devemos esquecer que em diversificadas situações, o indivíduo apenas reproduz o saber que lhe é repassado por tutores, instrutores, professores, pais, chefes, colegas de trabalho etc., deixando muito pouco espaço para a atividade criativa, principalmente em sistemas mais fechados e ortodoxos, sobretudo aqueles em que as novas ideias provocam verdadeiras revoluções e, em razão da manutenção do status quo (poder, influência, decisão), são reprimidas, dificultadas ou não-incentivadas.

Para melhor entender a importância espiritual do pensar, recorremos à cátedra contida em “O livro dos Espíritos”, onde, sob a intervenção questionadora de Allan Kardec, os Espíritos Superiores responderam (item 71) que “a inteligência é uma faculdade especial, peculiar a algumas classes de seres orgânicos e que lhes dá, com o pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade cada um, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem às suas necessidades”. Ficam flagrantes, aí, quatro elementos que caracterizam a vida no estágio de espírito propriamente dito: o pensamento, a ação dele decorrente, a consciência da existência espiritual e a individualidade (independência em relação aos demais seres). 

Mais adiante, em diversas passagens, indagando aos Espíritos sobre tópicos relacionados ao relacionamento entre os indivíduos, suas ocupações espirituais e a influência do pensamento sobre o progresso (individual e coletivo), Kardec recebe valiosas instruções, entre as quais: a) a simpatia entre os seres se dá pela identidade de pensamentos e sentimentos, tanto para o bem quanto para o mal (item 513), daí decorrendo que, ao se unirem sob bons propósitos, atraem para si os Bons Espíritos (item 656; b); sempre ativo é o pensamento de cada Espírito (item 563; c).

Vale salientar, ainda, que em diversos contextos, Kardec faz judiciosos comentários, ampliando o espectro de análise das informações advindas do Plano Espiritual, como por exemplo: 1) o pensamento e a vontade são as duas molas mestras da ação humano-espiritual (item 662), o que nos remete ao conhecido adágio “querer é poder”; 2) pelo pensamento é possível dominar a Humanidade e, com propósitos elevados, torna-se viável a superação dos flagelos e das iniquidades que ainda são realidade em nosso orbe (item 738); e, 3) as revoluções morais e sociais que obram o progresso nascem do pensamento de um ou mais indivíduos e influenciam sobremaneira os povos, desmoronando as estruturas retrógradas e castradoras, abrindo espaço às novas conquistas em face das necessidades e das aspirações humanas (item 783).

Para ficarmos apenas no segmento da filosofia espírita, imaginemos se Rivail não tivesse colocado para funcionar a sua mente (pensamento), quando foi convidado por seus amigos para presenciar uma “sessão” em que os mortos vinham responder às perguntas dos vivos. E, por consequência, como iria ele perceber que não se tratava de um truque de ilusionismo e prestidigitação? Depois, convencido — pela reflexão madura que sua trajetória de homem e de Espírito proporcionavam — passou ele mesmo a compor (criar, com base em sua intelectualidade) um sem-número de indagações que foram remetidas a diversos pontos do planeta, para que os Espíritos a elas respondessem. E, no cume desta grandiosa atividade mental, foi ele, Rivail — já como Kardec, pois já tinha decidido racional e voluntariamente publicar o resultado de suas pesquisas e compilações, na qualidade de Autor —, quem selecionou quais as informações seriam disponibilizadas, utilizando o conhecido critério do Consenso Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE), fixando para a doutrina nascente as bases e os princípios de sustentação.

Kardec pensou — e muito! Continuou pensando até a data de seu regresso ao Plano Maior e, em lá chegando, seguramente, continua a efetuar digressões…

Seu legado — a construção intelectual-moral espírita — está em nossas mãos, não para que a reproduzamos nos mesmos termos e segundo as mesmas afirmações, mas como ponto de partida para novos raciocínios e produções, na continuidade tanto da evolução intelectual quanto do intercâmbio mediúnico.

Todavia — e aí é que reside a preocupação que nos faz conceber este ensaio —, grande parte do movimento espírita abandonou a atividade pensadora nas lides espiritistas. Preferiu acomodar-se no confortável sofá da “mesmice”, na segurança do que “está posto”, na limitação do “já estabelecido” (o conteúdo das obras publicadas pelo professor lionês), imaginando que “tudo” o que tinha de ser dito ali estava, não havendo espaço para complementações, a não ser – pelas próprias palavras dos dirigentes e os textos contidos em seu veículo oficial, a Revista “Reformador”, os próprios Espíritos decidissem e informassem que a “obra de Kardec” estaria sendo complementada por mais uma “revelação”. A “revelação” – se é que assim a podemos cognominar – continua ocorrendo, diuturnamente, na forma da constância das manifestações mediúnicas em instituições comprometidas com o saber espírita, e do interesse e da dedicação de inúmeros pensadores encarnados, que colocam sua mente e seus conhecimentos a serviço da produção de teses e estudos em áreas e temas complementares àqueles contidos nos livros básicos.

E o que é pior, ainda, grande parte dos dirigentes inibe o interesse pela pesquisa e pela discussão de temas “novos”, ou pela “releitura” dos temas “antigos”, como se não houvesse como, onde e por que avançar… Recentemente, ouvi de um ex-presidente de federativa: “– Se vocês querem ser livres-pensadores, deixem de ser espíritas! O Espiritismo já possui em si, prontas e acabadas, as bases de sua filosofia e prática. Não há espaço para o livre-pensar, mas somente para o pensar segundo o Espiritismo!” É de estarrecer tal afirmativa, de vez que o homem (Espírito) é, por si só, desde e para o sempre, livre, em suas análises, digressões, manifestações e atitudes. Não há um “molde espírita” nem para o pensamento nem para a ação, de vez que a cada passo o ser se descobre em si mesmo e vai reagindo, sempre, de acordo com suas possibilidades evolutivas, dando respostas compatíveis ao seu grau de espiritualização individual.

Veja-se, a propósito, a informação do Espírito Verdade (item 833, de OLE): “No pensamento goza o homem de ilimitada liberdade, pois que não há como pôr-lhe peias. Pode-se deter o voo, porém, não aniquilá-lo.” E, complementarmente, quando perguntado sobre os esforços e tentativas dos homens em obstaculizar o exercício do livre-pensar, em todas as épocas da Humanidade, assim expressa (item 836): “Falece-lhe tanto esse direito [de pôr embaraços à liberdade de consciência] quanto com referência à liberdade de pensar, por isso que só a Deus cabe o de julgar a consciência. Assim como os homens, pelas suas leis, regulam as relações de homem para homem, Deus, pelas leis da Natureza, regula as relações entre Ele e o homem.” 

O tolhimento à liberdade de expressão, assim, é sempre circunstância que merece rechaço e protesto, tal qual se depreende da lição contida, ainda, na obra pioneira (item 837): “Constranger os homens a procederem em desacordo com o seu modo de pensar, fazê-los hipócritas. A liberdade de consciência é um dos caracteres da verdadeira civilização e do progresso”. Não é, senão, em larga escala, que temos presenciado atitudes de notória hipocrisia, como se alguns fossem superiores aos outros, para ditar-lhes normas, para decidir “o que é e o que não é Espiritismo”, para nominar e adjetivar pessoas e instituições como “autorizadas” ou “proibidas”, como “benéficas” ou “prejudiciais” à grande massa de frequentadores e interessados nos Centros Espíritas.

As situações de combate às ideias manifestas por livres-pensadores, que “ousam” não aceitar subservientemente as “diretrizes federativas” ou o “senso comum vigente” – que deveriam ficar adstritas, apenas, àqueles que as integram como associados, mas que, infeliz e inadvertidamente, viram regras de procedimento inquestionáveis – têm sido denunciadas e informadas à comunidade espírita consciente, para que o “escândalo necessário” (“O evangelho segundo o Espiritismo”, Capítulo VIII, item 13) venha à tona, e para que se descubra, efetivamente, no rebanho espírita, quem são os lobos e quem são os cordeiros (“O evangelho segundo o Espiritismo”, Capítulo XXI, item 2). E, para que não pairem dúvidas acerca da responsabilidade que toca a cada um, nas “andanças” espiritistas, ao me ser perguntado que pensar da atitude da pessoa que tenta obstruir e atribuir falsidade a quem não pensa como ela, ouçamos novamente o Espírito Verdade (item 839): “Isso é faltar com a caridade e atentar contra a liberdade de pensamento”.

O que o movimento espírita precisa, urgentemente, constatar e vivenciar é a diversidade de pensamento, a pluralidade de opiniões e a alteridade na convivência entre os que pensam — ainda que em pequenos pontos — diferentemente. Não há uma única “forma” de pensar espírita, tampouco uma única maneira de “ver e entender” o Espiritismo. Acreditar e aceitar piamente isso como verdade seria tolher a própria possibilidade de expansão do pensamento espírita, caminhando perigosamente para deformações como o ufanismo, o pieguismo, o dogmatismo e a mistificação, adversários que se encontram alinhados, hoje, nas próprias lides espíritas, dividindo trabalhadores e cooperadores, pela exclusão, pela tentativa de imposição de “crenças”, pela luta por autoridade e influência vãs, que não subsistem ao mínimo exame lógico-racional.

Antevendo dias melhores à frente, em que imperem o respeito, a tolerância, a união de propósitos, o diálogo e a possibilidade de construção de pontes de trabalho e comunicação, fiquemos com a própria análise de Kardec, na Conclusão de “O livro dos Espíritos”, como inspiração para nossas ações: 

“Se é certo que, entre os adeptos do Espiritismo, se contam os que divergem de opinião sobre alguns pontos da teoria, menos certo não é que todos estão de acordo quanto aos pontos fundamentais. […]

Pode, pois, haver escolas que procurem esclarecer-se acerca das partes ainda controvertidas da ciência; não deve haver seitas rivais umas das outras. Antagonismo só poderia existir entre os que querem o bem e os que quisessem ou praticassem o mal. Ora, não há espírita sincero e compenetrado das grandes máximas morais ensinadas pelos Espíritos que possa querer o mal, nem desejar mal ao seu próximo, sem distinção de opiniões. Se errônea for alguma destas, cedo ou tarde a luz para ela brilhará, se a buscar de boa-fé e sem prevenções. Enquanto isso não se dá, um laço comum existe que as deve unir a todos num só pensamento; uma só meta para todas. Pouco, por conseguinte, importa qual seja o caminho, uma vez que conduza a essa meta. Nenhuma deve impor-se por meio do constrangimento material ou moral e em caminho falso estaria unicamente aquela que lançasse anátema sobre outra, porque então procederia evidentemente sob a influência de maus Espíritos.

O argumento supremo deve ser a razão. A moderação garantirá melhor a vitória da verdade do que as diatribes envenenadas pela inveja e pelo ciúme. Os bons Espíritos só pregam a união e o amor ao próximo, e nunca um pensamento malévolo ou contrário à caridade pode provir de fonte pura”. (Nossos os grifos.)

A liberdade é um atributo do Espírito, verdadeira conquista que se amplia à medida em que ele adquire mais conhecimentos e vivencia experiências. Todos somos, então, livres para pensar, e, de acordo com o nível de progresso de cada individualidade, é muito natural que haja diversidade e pluralidade de pensamentos e opiniões. Neste sentido, uns aprendem com os outros e é muito natural que uma ideia “nova” provoque novos pensares a quem ouve ou lê um novo argumento, a cada vez que ocorre.

Assim, como não existe — nem poderia existir — uma única forma de pensamento e de entendimento sobre as questões espirituais (e espíritas), vale o mote do título deste ensaio: Pensar? Pra quê? Que cada um responda por si mesmo acerca do porquê de pensar (ou não pensar)…

 

Fontes:

 

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

 

Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo defende, de forma incisiva, a necessidade urgente de o movimento espírita abraçar a diversidade de pensamento, a pluralidade de opiniões e a alteridade na sua convivência interna.

    O autor argumenta que muitos dentro do Espiritismo abandonaram a atividade pensadora e reflexiva, acomodando-se no que consideram ser o conteúdo "pronto e acabado" das obras de Allan Kardec. Essa postura, tida como ortodoxa e castradora, inibe a pesquisa, a discussão de novos temas e até a releitura dos antigos, contrariando o próprio princípio da Doutrina, que se baseia na razão, na liberdade de pensar (atributo inalienável do Espírito, conforme O Livro dos Espíritos) e no Consenso Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE).

    Em suma, o texto critica a hipocrisia, o dogmatismo e a tentativa de imposição de uma única visão, alertando que tais atitudes promovem divisões e tolhem o progresso. Conclui com um apelo à união de propósitos baseada no respeito, na tolerância e no diálogo, conforme as lições de Kardec sobre a caridade e a busca contínua pela verdade.

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