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A FOME... E OS ESPÍRITAS

 

Por Marcelo Henrique

“Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome.”

(“O livro dos Espíritos”, item 930).

***

Cristo, ou mais propriamente Jesus, é um dos personagens mais importantes da História. Não é à toa que a contagem do tempo se encontra dividida entre o antes e o depois de seu nascimento, por definição político-social. Entre o mito e o homem que existiu, a pouco mais de 2.000 anos, há uma infinita distância. Similar àquela que existe entre a idolatria e o equilíbrio na análise, a que chamamos bom senso.

Qual seria, então a “lei do Cristo”, conforme a dicção dos Instrutores Espirituais que dialogaram com o Professor Rivail (Allan Kardec) na segunda metade do Século XIX, conforme o trecho por nós sublinhado na abertura deste artigo?

Mas, antes, é preciso uma contextualização, tanto da proposta do Carpinteiro de Nazaré – a quem alcunho, carinhosamente, de Magrão – quanto da vigente nos dias desta segunda década do terceiro milênio da “Era Cristã”.

De pronto, podemos dizer que a conjuntura, o cenário e as convenções humanas, em todas as épocas, produzem o encanto em relação a indivíduos, nas mais diversificadas posições e áreas. Na religião, na política, na educação, na profissão, na família, nas artes, nos esportes, no rol de amigos, o indivíduo busca inspirar-se e espelhar-se em alguém. Muitas das vezes, o sentimento não ultrapassa o estágio de admiração e encanto, mas há os que, de tanto apreciarem o outro e observar-lhe as condutas e ações, em termos de exemplos, lhe seguem os passos e, em alguns casos, o discípulo supera o professor.

Jesus foi um homem admirável, ainda que sua trajetória esteja permeada pela construção ficcional e mitológica, em que a Igreja forjou a identidade de um ser que seria, para a dogmática litúrgica, a encarnação de Deus na Terra. Do nascimento à morte, uma série de fatos sobrenaturais e milagrosos, distante da condição humana, afastando-o, portanto, do elemento que, para nós espíritas, é o mais importante: sua semelhança conosco e a obediência de todos os seres às Leis Divinas ou Naturais (veja-se a terceira parte de “O livro dos Espíritos”). Afinal de contas, ele mesmo teria dito: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas” (Jo; 14:12).

Nos passos do Galileu, havia muita misericórdia, fraternidade, benevolência, indulgência, paz e, é claro, esperança. Não foram apenas as palavras (frise-se isto!), mas as atitudes. O embrião do Reino dos Céus na Terra foi gerado, a semente do bem aqui foi lançada e a casa foi erigida na pedra na latitude e longitude das sociedades terrenas. Disto não temos qualquer dúvida.

Evidentemente, o revolucionário do amor foi incompreendido, perseguido e condenado à morte, justamente por seus atos e convicções. O tempo passou, e os algozes prosseguem, dos menores aos maiores cenários, patrocinando as mesmas iniquidades da ambiência dos primeiros anos da Era Cristã. Nestes dias de 2022, em todo o mundo e, particularmente, em nosso país, as mazelas sociais se avolumam e agravam o triste quadro de convivência. E um problema em especial merece nossa atenção, como verdadeiros (ou bons) espíritas – definições da obra kardeciana, na direção do homem de bem – que é a questão da fome.

Na semana em curso, neste início do mês de junho, as mídias destacaram o resultado da pesquisa Vox Populi realizada entre novembro de 2021 e abril de 2022, compreendendo 12.745 domicílios de 577 municípios nos 26 estados e no Distrito Federal: 33,1 milhões de pessoas, no Brasil, passando fome. Ou seja, 15,5% da população brasileira, superando os dados anteriores que eram de 9,1%, isto é, 19 milhões de brasileiros. Completa o diagnóstico, a conclusão de que 60% dos domicílios relataram algum tipo de dificuldade de alimentação e 58,7% dos habitantes do Brasil (125,5 milhões de habitantes) convive com insegurança alimentar em algum grau.

O quadro acima é catastrófico! Que podemos dizer em relação à decantada efígie e dístico do Espiritismo oficial: “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”? Ou, em face de outro bordão presente na retórica espírita, de que o nosso país seria o “Celeiro do Mundo”. De fato, o país é autossuficiente em produção agrícola e animal, em termos alimentares. Então, como podemos conciliar a prédica religiosa espírita e a realidade da indústria agropecuária com um quadro explícito de inanição e fragilidade, individual e coletiva e, mais que isso, o completo divórcio entre discurso e prática?

A gravidade dos números nos endereça, em primeiro plano, para a identificação dos responsáveis (material e espiritualmente) pelo quadro cruel e violento imposto à sociedade brasileira. Vamos a eles:

1) Os governos ou estruturas político-administrativas de nosso país, a quem compete a edição de medidas preventivas e corretivas em relação aos problemas sociais existentes e pela não-adoção de políticas públicas relevantes de emprego e renda;

2) A classe empresarial, sobretudo as grandes corporações, não-necessariamente vinculadas ao agronegócio, pela indiferença em face do quadro em tela, e pela não idealização e execução de projetos socialmente necessários, para a diminuição dos efeitos ou para a promoção de algum benefício compensatório, sobretudo para os mais carentes;

3) As igrejas em geral, que são centros de arrecadação de valores em números significativos, as quais, apesar de, algumas, terem programas sociais, neste momento de destacada gravidade, não têm se mobilizado para ações efetivas em prol da minimização das carências alimentares dos irmãos brasileiros; e,

4) O indivíduo em geral, sobretudo os que parecem “dar de ombros” em relação a esta problemática, entendendo, em padrões egoísticos, que cada um deva trabalhar pelo “pão de cada dia”, distante dos sentimentos cristãos de solidariedade, fraternidade e caridade.

Os últimos anos, em nosso Brasil, têm sido marcados pelo retorno de sombras que, pensávamos, inocentemente, já estavam sepultadas e, inclusive, carcomidas pela ação do tempo, com total destruição, como sói acontecer em a Natureza. Os despojos materiais são consumidos pela ação dos micro-organismos que atuam naturalmente na decomposição daquilo que foi extinto. No entanto, surpreendentemente, o ambiente social voltou a respirar ares putrefatos.

Uma série de sentimentos inferiores, discursos e práticas violentas, calcadas na profunda incompreensão humana sobre as diferenças de pensamento e expressão e, mais ainda, posicionamentos e discursos embasados no ódio, tornaram-se comuns e corriqueiros. A insensibilidade e a falta de empatia para com problemas e dificuldades alheias figura em manifestações de pessoas públicas, algumas ocupantes de funções ou posições de destaque na estrutura político-social da nação, e encontram eco em personalidades (mais ou menos) influentes na sociedade, como artistas, esportistas, políticos e empresários.

A animosidade entre os irmãos (em Humanidade) ainda é amplificada nas redes sociais, onde o diálogo que deveria ser livre e respeitoso, por numerosas vezes é permeado por impropérios e destacada agressividade, num ambiente de belicosidade que parece materializar o desejo íntimo de aniquilação de quem pensa diferente ou não professa as “crenças” do outro. Não raro, também, as políticas de cancelamento e de linchamento público de determinadas pessoas – em face da mera expressão do pensamento, ainda que discordante – são comuns e provocam, também, o coro do fanatismo e da perseguição.

Neste contexto, vale lembrar as carinhosas instruções dos Espíritos, repisadas pelo Professor francês, na “Revue Spirite”, Setembro, 1862, na dissertação “Perseguições”:

“Quando virem a impotência da arma do ridículo, experimentarão a da PERSEGUIÇÃO. Não mais haverá martírios sangrentos, mas muitos irão sofrer nos seus interesses e nas suas afeições. Procurarão DESUNIR as famílias, reduzir os adeptos pela fome, dar-lhes ALFINETADAS, por vezes piores que a morte. Mas aí encontrarão ainda almas sólidas e fervorosas que saberão enfrentar as misérias do mundo, na esperança do futuro melhor que as espera. Lembrai-vos das palavras do divino Salvador: ‘Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados’. Tende certeza, entretanto, que a era da perseguição, na qual em breve entrareis, terá curta duração e os vossos inimigos colherão apenas vergonha, porque as armas que empregarem contra vós voltar-se-ão contra eles” (grifos nossos).

O homem de bem não persegue, não calunia, não difama. O verdadeiro espírita adota a não-belicosidade como premissa, atentando para a observação feita por Kardec, inclusive pela recomendação final: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para DOMINAR SUAS MÁS INCLINAÇÕES” (“O evangelho segundo o Espiritismo”, Cap. XVII, Item 4, sublinhamos).

Abster-se de contendas (inúteis) e não duelar, ainda que verbalmente, pelas plataformas sociais, ainda que o nosso interlocutor deseje avidamente o conflito, deve ser a opinião do homem prudente. E isto não significa, em nenhum parâmetro, renunciar às suas próprias convicções ou fraquejar diante de argumentos contrários. Longe disso.

Do contrário, significa guardar as ARMAS MORAIS, simbolizadas pelos bons propósitos e a disposição de efetiva construção de uma sociedade mais humanizada, próspera e feliz, destinando nossa atenção, nossa transpiração, nosso tempo e nossas vibrações espirituais a temas e a projetos muito mais relevantes.

Vivemos uma época significativa – ainda que as anteriores também o sejam, dado que cenário e tempo são quadrantes importantes para cada uma das individualidades, sobretudo em face do curso progressivo espiritual – e o antagonismo entre os caminhos apresentados, que têm a ver com a forma de entendimento de cada um, pode conduzir ao desejo de sobrepujar, a qualquer preço, as opiniões alheias.

Infelizmente, discursos e práticas também encampam os grupamentos de matiz religiosa e, neste sentido, a ambiência do chamado Movimento Espírita Brasileiro (MEB) não está imune aos embates e à peculiar agressividade dos Espíritos ainda inferiores e embrutecidos.

É Kardec mesmo quem adverte, neste contexto religioso-espiritual:

“Começou a era predita. De várias direções assinalam-vos atos que a gente lamenta sejam praticados pelos ministros de um Deus de paz e de caridade. Não falaremos das violências feitas à consciência, expulsando da igreja aqueles que a ela conduz o Espiritismo. Tendo tido tal meio resultados mais ou menos negativos, buscaram outros mais eficazes” (“Revue Spirite”, Setembro, 1862, na dissertação “Perseguições”).

Por fim, merece destaque pela singularidade da mensagem direcionada aos tempos atuais, constante da Codificação Espírita, de que a guerra, as pestes, a fome e os tremores de terra (remontando ao evangelho de Mateus; 24: 6 a 8), receberam das Inteligências Superiores a explicação de que, “sob essas alegorias ocultam-se grandes verdades: primeiramente o anúncio das calamidades de todos os gêneros que atingirão a humanidade e a dizimarão; calamidades engendradas pela luta suprema entre o bem e o mal, a fé e a incredulidade, as ideias progressistas e as ideias retrógradas” (“A Gênese, Cap. XVII, Item 56).

Não é por outra razão que o Espiritismo proclama outras verdades, para a Humanidade. Neste sentido, voltando ao item da obra primeira, que está na abertura deste ensaio (930), Kardec assim complementa a resposta dos Espíritos Superiores: “Com uma organização social previdente e sábia, o homem não pode sofrer necessidades, a não ser por sua culpa. Mas as próprias culpas do homem são frequentemente o resultado do meio em que ele vive. Quando o homem praticar a lei de Deus disporá de uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade e com isso mesmo será melhor”.

A fome, assim, não pode passar ao largo, desapercebida, dos homens de bem, dos verdadeiros espíritas, ou, como quiserem, para representar uma bandeira maior, os cristãos do nosso tempo. Não é possível nem aceitável, pois, ficarmos indiferentes ante a perspectiva do número de óbitos e do agravamento das condições de saúde físico-psicológica-espiritual de quase um sexto da população nacional, conforme os dados do levantamento aqui exposto.

E, tampouco, não se pode aceitar, sob qualquer hipótese e pretexto, que a maior autoridade político-administrativa do Brasil, auto declaradamente cristã, responda lacônica e jocosamente, fazendo escárnio com a dor alheia, de seus irmãos, com o seu costumeiro “E daí? – para a situação pandêmica existente no Brasil e no mundo, poderia repetir: “E daí? Não sou cozinheiro!”.

Perdemos, enquanto nação e, mais precisamente, como espíritas, o “feeling” em relação à dor e à morte, a sensibilidade em relação às expiações e provas dos nossos semelhantes. E não é possível escudar-se em preferências ideológicas ou na falácia da “disputa” entre lados, no cenário político, para validar o atual quadro ou a iminência da sua permanência. Para isto tudo, dizemos: – Basta!

Que nos inspiremos, na luta de hoje e na de amanhã, na recomendação dos Bons Espíritos a Kardec: “Não haverá mil vezes mais grandeza e dignidade em lutar contra a adversidade, em afrontar a crítica de um mundo fútil e egoísta, que só tem boa vontade para com aqueles a quem nada falta e que vos volta as costas assim precisais dele?” (“O livro dos Espíritos”, item 947).

Se o meio social tem produzido esta série de mazelas que transparecem a olho nu, sem a necessidade de sermos especialistas em dadas matérias, devemos encarar o nosso grau de responsabilidade diante do quadro atual e do futuro que se avizinha. E ele consagra: a ordem social presente no Brasil de 2022 está muito distante da justiça e da solidariedade que caracterizam a lei de Deus. E, ao que parece, seja este momento (político-eleitoral e social) a oportunidade preciosa para encerrar um ciclo de iniquidades, sofrimentos e fome, para a construção coletiva de um ambiente mais favorável. Eis o que está em nossas mãos, espíritas cidadãos brasileiros!

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