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A PORTA PARA O MUNDO REAL

 

Por Roberto Caldas

Impossível não ser repetitivo quando o tema central for a morte. Por outro lado, o  aprendizado só se dá sob a batuta da repetição. Necessário que se escute e enxergue-se uma realidade muitas vezes, até que o processo de educação estabeleça o entendimento e consolide a lição.  

Antes do advento do Espiritismo a discussão em torno da finitude da existência no corpo exigia que se apelasse à aceitação de um dogma, portanto tratava-se de um problema em torno do qual a única discussão possível incorria na aceitação cega ou na negação inconteste. Não havia racionalidade possível. Religião e ciência altercavam argumentos sem encontrarem respostas nem consensos.

A coragem de Allan Kardec em adentrar tamanha polêmica deve ser motivo de toda admiração por parte dos espíritas contemporâneos, pois desafiava duas vertentes importantes do pensamento com o agravante de ser rejeitada por ambas. Apresentava  uma tese que punha por terra a crença dogmático-bíblica religiosa e golpeava a essência que mantinha o materialismo científico.

Há de se entender a confusão que isso terá criado em idos do século XIX. Ali a morte passa a fazer parte de um mecanismo não apenas compulsório, mas regular da vida para o retorno da alma à verdadeira casa do Espírito, o mundo espiritual. Uma porta que se abria à realidade invisível que se interpenetra molecularmente com o mundo dos vivos.

A teoria da Doutrina Espírita para a morte traz o requinte de ser explicada por aqueles que tendo passado pela própria experiência retornavam para comprovar a imortalidade dogmatizada pelos religiosos e combatida pelos cientistas e pensadores. Cria dessa forma a racionalidade para um campo que de racional nada permitia. De sobra, escancara uma compreensão que esclarece, fortalece a fé e consola o coração dolorido pela perda dos entes que transpõem a porta para outras paisagens. 

No livro O Céu e o Inferno (cap II, item 10 – Temor da Morte), Allan Kardec dispõe os argumentos que tornam a ideia espírita tão importante para tornar mais clara a aceitação das questões atinentes à finitude do corpo: “ A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. O estado das almas depois da morte não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergueu-se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação; aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da felicidade e da desgraça, assistindo, enfim, a todas as peripécias da vida de além-túmulo...”.

Eis porque a morte é vista pelos espíritas como A Porta para o Mundo Real. Inegável que as perdas doem e são tristes as despedidas. Saber que estamos ligados àqueles que amamos e que o futuro haverá de nos fazer perpetuar os nossos afetos e amores eternidade afora. A certeza da continuidade é a maior graça que nos é dada conceber.

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