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PROPRIEDADE E USUFRUTO

 


Por Roberto Caldas

Há polêmicas que se arrastam desde sempre. A ocupação do espaço e a detenção individual de áreas da superfície terrestre talvez esteja na origem das inúmeras distorções do comportamento humano com graves prejuízos à convivência pacífica. O conceito de propriedade pode estar na gênese dos fenômenos de escravidão e desigualdade social.

            Essa questão ocupou o pensamento de gênios da humanidade, entre eles Voltaire (1694 – 1778) e muito especialmente Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778), contemporâneos e debatedores sobre a questão da sujeição humana aos poderes do estado e da burguesia.

            A razão indica que tudo teoricamente, no princípio dos tempos, seria apenas um palco para o usufruto de cada um e de todos. Houve, então, um movimento de apossamento de alguns, com a aceitação dos demais, com o agravante de anuírem em se tornar empregados daqueles (ou na pior hipótese, escravos).

            Questão de alta complexidade serve de pano de fundo para o fato de contemplarmos em todas as épocas e propriamente na atualidade os problemas de difícil solução para os dramas humanos decorrentes da posse e da escassez, como fenômenos erroneamente complementares. Apesar de haver um entendimento sobre a capacidade da Terra em atender as necessidades fundamentais dos seus habitantes, não é exatamente esse o sentimento de partilha que permeia as relações sociais.

            Jesus levanta hipóteses espirituais sobre possuir a Terra considerando o desfrute da aquisição de espaço emocional, quando em Mateus(5:5) propõe-na como herança aos mansos. Por outro lado, Allan Kardec, em comentário à questão 707 de O livro dos Espíritos, lança a seguinte ideia: “... Há para todos um lugar ao sol, mas com a condição de cada qual tomar o seu e não o dos outros. A Natureza não poderia ser responsável pelos vícios da organização social e pelas consequências da ambição e do amor-próprio”. 

            Diante das disparidades que norteiam os conceitos de PROPRIEDADE e de USUFRUTO há um convite à população do planeta para uma reflexão que ultrapassa muito além aos limites dos seus efeitos sociais e avançam na direção de uma compreensão espiritual dos princípios éticos de Jesus.

            Quando contemplada sob o prisma da simplicidade, a Natureza expõe a sua face de dadivosa Mãe, que permite aos elementos que a compõem uma estreita e generosa relação de trocas equilibradas. 

            A confusão proposital entre os verbos ser e ter gera as crises sistêmicas que mergulha a humanidade na categoria de predadora de si mesma. Desconsiderar a coexistência das disparidades como patologia do caráter coletivo e grave anomalia de personalismos responsável pelas desumanidades que explodem mundo afora.

            O curto período de existência na Terra pode ser convite para o ajuntamento excessivo e a exploração do outro. Ampliar a visão para o entendimento das palavras de Jesus e os comentários de Allan Kardec são portas para a busca de suficiência generosa e o compartilhamento. Entender o binômio possessão/usufruto, muito além de incentivar posse ambiciosa pode ser a solução para tornar o planeta o espaço confortável e adequado pata todos, numa convivência pacífica e justa.                         

 

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