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O ESPIRITISMO E OS ESPÍRITAS EM MOVIMENTO

 


            Movimento espírita é o conjunto das atividades que têm por objetivo estudar, divulgar e praticar a Doutrina Espírita, contida nas obras de Allan Kardec, colocando-a ao alcance de toda a sociedade. Elas podem ser dinamizadas por pessoas individualmente ou em conjunto, e por instituições espíritas, sem esquecer que todos devem estar mobilizados para o mesmo fim. É necessário saber diferenciar Espiritismo de movimento espírita.

            Para isso, contudo, há algumas premissas básicas para que seja realmente entendido como espírita, fundamentalmente a vivência dos mandamentos universais ditados pelo Espírito da Verdade: Amai-vos! (UNIÃO). Instruí-vos! (UNIFICAÇÃO).

            Allan Kardec, ao elaborar o Projeto 1868 com algumas diretrizes para o movimento espírita, inserto em Obras Póstumas, assinala:

 

“Um dos maiores obstáculos capazes de retardar a propagação da Doutrina seria a falta de unidade. O único meio de evitá-la, senão quanto ao presente, pelo menos quanto ao futuro, é formulá-la em todas as suas partes e até nos mais mínimos detalhes, com tanta precisão e clareza, que impossível se torne qualquer interpretação divergente.” (grifos meus)

 

Kardec fez a parte dele.

Léon Denis anteviu o futuro que atravessamos quando afirmou que o Espiritismo seria o que os homens fizessem dele.

            Foram muitas as novidades e tensões que geraram rupturas e dissensões no seio da seara espírita, desde o Roustainguismo, Ubaldismo, até o Ramatisismo, que não cabe aqui debatê-las.

Em 5 de outubro de 1949, a Federação Espírita Brasileira, através do seu presidente e representantes das federações e uniões de vários Estados, assinaram o Pacto Áureo, com o propósito de se trabalhar pela unificação do movimento espírita nacionalmente. De lá até os nossos dias foram muitas idas e vindas. Iniciativas nunca faltaram na busca de se atingir esses princípios que sempre estiveram e estão na agenda do movimento espírita, tanto como a unificação em si ou também a centralização institucional. Flâmulas balouçam pela união e unificação entre os espíritas aos quatro cantos do Brasil.

Contudo, antes mesmo de perseguir a união entre os espíritas, era preciso definir em termos doutrinário o que é a unificação. Todas as iniciativas estudadas ao longo do tempo guardam, pelo próprio desconhecimento da Doutrina e dos postulados de Kardec, características personalísticas ou institucionais, vejam a própria Federação Espírita Brasileira – FEB, ao instituir o Esde – Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita. Nem mesmo entre as federativas há unidade. Confunde-se sempre autonomia administrativa com autonomia doutrinária; livre-arbítrio com arbitrariedade.

Célia Graça Arribas (1) constata o seguinte em seus estudos:

 

“(...) já que as lutas pela definição e unificação institucional não eliminaram, como pretendiam os espíritas, as várias vertentes que compõem o espiritismo –, contribuíram para a preservação da pluralidade de concepções doutrinárias e políticas, bem como para a introdução de inovações em suas práticas como uma forma de resistência a certo enrijecimento burocrático e doutrinário.”

 

            As questões mais recentes geradas devido ao quadro político brasileiro são uma das mais graves e talvez decisivas para os destinos do Espiritismo em solo brasileiro. A cisão ocorreu com o surgimento dos coletivos denominados “espíritas progressistas” para definir os espíritas que se identificam com o pensamento político de esquerda, afinado com as correntes inovadoras da sociedade brasileira. Conservadores versus progressistas. Dogmatismo versus heterodoxia. Tendências e Tendenciosidades.

            Contando com mais de vinte coletivos e instituições aderentes, a situação assim se configura, para Marcelo Camurça(1):

 

“Então, pondo em prática meu experimento, formulo que quando a ênfase das especulações sobre a relação entre o “plano espiritual” a vida social na Terra estiver assentada no aspecto “filosófico-científico”, o entendimento espírita da relação indivíduo-sociedade se encontrará mais próximo ao modelo do “individualismo moderno liberal”, podendo chegar ao de um “socialismo utópico”. Ambos engendrando posições no campo progressista. Porém, quando a ênfase do desvendamento dos mesmos desígnios do mesmo plano espiritual recorrer a uma perspectiva “mítico-religiosa”, o papel de determinados espíritos encarnados no meio social será entendido como o de emissários gloriosos de determinação do plano espiritual para moldar a sociedade. A isto estou chamando de “providencialismo divino de caráter conservador”.

 

            É fundamental entender que Allan Kardec, que teve educação liberal segundo as questões sociais, propôs uma conciliação entre liberalismo e socialismo utópico, segundo Aubrée e Laplatine, centrado na reforma moral do indivíduo como base para as mudanças sociais. Eles dizem:

 

 

“Apesar de todas as interferências ligadas paradoxalmente, em grande parte, à separação das disciplinas (história dos movimentos sociais,  história das religiões, história das ciências e das técnicas), há uma afinidade e uma conivência entre o espiritismo e o socialismo do século XIX que sempre permeou os dois temas.” “(...) Espiritualidade do progresso indissociável de um projeto social. (...) o espiritismo nos permite compreender os bastidores”. Permite-nos perceber que não há de um lado a razão social e política e, do outro, as loucuras da razão: as utopias espiritualistas do século XIX.”

           

            Os estudos e as pesquisas de Camurça trazem uma conclusão interessante que aponta as influências dos atores para essa clivagem, apoiadas inclusive em Arribas, que consideram no campo conservadorismo as ascendências dos médiuns e dirigentes. A classificação aqui empregada tem como fundamentos pátria, família, religião e tudo que representa a tradição. E no campo progressista, a ascendência identificada e considerada é dos escritores mais identificados com as suas profissões, e tem por referência os ideais da Revolução Francesa – LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE, conforme demonstrado por Allan Kardec em ensaio publicado em Obras Póstumas.

         Considera-se aqui certa rigidez na classificação progressista feita pelos pesquisados.  É de se presumir que esse universo alcançou uma compreensão mais unificadora dos fundamentos espíritas que fizeram esse público se identificar com as obras de muitos desses autores, principalmente José Herculano Pires, Humberto Mariotti, Manuel Porteiro, Cosme Mariño, dentre outros.

            Contudo, ainda hoje, no contexto dos coletivos e instituições identificadas como progressistas, expressa-se preocupante a fragmentação nos seus agrupamentos doutrinários.

            Cartografia elaborada por Luiz Signates(3) e João Damázio(4), publicada na Revista Tropos: Comunicação, Sociedade e Cultura, edição de julho de 2021, que os coletivos – progressista e de esquerda -, ainda se encontram, em sua maioria, em processo de estruturação. De forma preliminar, dizem os pesquisadores, pouca coisa une esses coletivos além do antibolsonarismo explícito e da crítica crescente contra o conservadorismo doutrinário, social e político. Explicam eles e é fato:

 

“Diversos também parecem ser os propósitos de cada coletivo, como se pode notar pelas declarações relacionadas pelas declarações às suas finalidades e práticas. Surpreendem-se grupos de estudo, coletivos de militância digital, espaços de debate social e político e movimento de apoio e assistência, tanto à comunidade de periferia, quanto aos adeptos outsiders(*), banidos direta ou indiretamente dos espaços institucionalizados dos centros espíritas.”

 

                        O que se pode perceber que ocorre uma mobilidade do conservadorismo para os espíritas progressistas, dentro das próprias especificidades conhecidas já no contexto espírita, apenas com uma visão crítica sociopolítica diferenciada. O que se configura mesmo é a consolidação entre os adeptos do SAGRADO (espiritismo religioso igrejeiro), e do PROFANO (inserção política e social).

            Dentro desse quadro que já perdura por mais de um século é natural que muitas perguntas surjam e, dentro delas, uma se torna prioritária: ainda há espaços para a união e a unificação do movimento espírita brasileiro? Revisitando os conceitos de Kardec e dos Reveladores Celestes da compreensão do que seja espírita e espiritismo, é fácil e natural de se concluir que é impossível. Adendo obrigatório se faz requisitando a admoestação de Jesus, contida no evangelho de Mateus, 9:16:

 

“Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura”

 

            Já foram muitos os remendos.

            Por outro prisma, quem sabe, não esteja já ocorrendo, dentro do processo que Bernardo Lewgoy(5) denomina transnacionalização do Espiritismo, (saiba mais) a advertência feita pelo Espírito Massilon, em mensagem intitulada Vai Nascer a Verdade, acerca da chegada do Espiritismo na Terra, inserta na Revista Espírita, de abril de 1861, na qual ele identifica que os maiores inimigos encarniçados na marcha do progresso da Doutrina seriam:  o orgulho, o egoísmo, a cupidez, a hipocrisia e o fanatismo. Assim ele conclui:

 

“Esta criança não tem pátria. Ela percorre toda a Terra, procurando o povo que há de ser o primeiro a arvorar a sua bandeira. Esse povo será o mais poderoso entre os povos, pois tal é a vontade de Deus.”

 

            Com certeza essa pátria não é o Brasil, como muitos se assenhoram sê-la.

 

           

 

Notas:

1Graduada em História, mestre e doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Vem desenvolvendo projetos de pesquisa na área de Sociologia da Religião, mais especificamente sobre a modernidade religiosa brasileira e o movimento de pluralização confessional. Trabalhou o processo de inserção do espiritismo kardecista no Brasil, analisando suas várias vertentes. Tem especial interesse nas áreas de Sociologia Histórica, História Social, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica.

2Doutor em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde leciona e pesquisa nos Programas de Pós-Graduação em Ciência da Religião desde 1995, e no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais desde a época de sua fundação em 2004. Tem estágio pós-doutoral na École Pratique dês Hautes Études e foi professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual do Ceará.

3Professor Associado III do PPG Comunicação da UFG. Professor Efetivo do PPG Ciências da Religião da PUC-Goiás. Doutor em Ciências da Comunicação pela USP. Mestre em Comunicações pela UnB.

4Doutorando em Comunicação na Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS); Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG);

5Professor Titular do Departamento de Antropologia e Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS. Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1988), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992) e doutorado em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (2000).

 

*indivíduo que não pertence a um grupo determinado.

 

 

Referências:

AUBRÉE & LAPLATINE. Martin e François. A mesa, o livro e os espíritos. Alagoas: UFAL, 2009.

KARDEC, Allan. Revista espírita – abril 1861 – Brasília: FEB, 2004.

_____________. Obras póstumas. Brasília: FEB, 2019.

_____________. O Evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: IDE, 2009.

SITES

<https://periodicos.ufpe.br/revistas/revsocio/article/view/243765>.

<https://periodicos.ufac.br/index.php/tropos/article/view/4535>.

Comentários

  1. Sobre o Pacto Áureo, Gélio Lacerda coloca um cenário bastante nebuloso, que serviu para transformar um centro espírita em Federação, em que todos os componentes externos só podem participar dizendo amém. Esse "pacto" foi assinado em meio ao congresso da CEPA na esquina da rua da sede da FEB, da qual ela se recusou a participar. Desde então, quem diverge da FEB não tem voz nem vez.

    Além disso, o "pacto" foi um acordo de cavalheiros de poucas entidades, que lutaram para que o presidente da FEB à época se manifestasse, e o que saiu foi um monstron que imobiliza o movimento espírita até hoje.

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  2. Uma doutrina cheia de luz e libertadora parece não conseguir libertar a maioria dos dirigentes de casas espíritas que ainda pensam e agem no século passado. Com isso muitas casas travam e não evoluem. Qualquer pensamento contrário é rechassado de imediato, por mais bem intencionado que seja.

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