Pular para o conteúdo principal

JESUS, ESPÍRITO ESPÍRITA

 

 Por Marcelo Henrique

 O Espiritismo é uma filosofia atemporal, com o compromisso de manter-se atualizada e compatível com a progressão do nosso mundo, uma referência plena e permanente em termos de explicação das questões que envolvem o binômio espírito-matéria, considerados estes, pela teoria espírita, como dois dos três elementos básicos, ao que se vincula e acresce o primordial, a causa primeira, Deus.

***

            Temos buscado diferenciar o Jesus Homem do Jesus Mito, ambos vigentes e observados no Movimento Espírita, como se fossem facetas de uma mesma personalidade, mas que são inconciliáveis entre si, porque apresentam contrariedades recíprocas. E isto só ocorre porque, a par dos conceitos trazidos pela Doutrina dos Espíritos, compostos por Allan Kardec (1857-1869) a partir das comunicações mediúnicas recepcionadas pela Codificação e pelas interpretações dadas pelo professor francês, há um simbolismo herdado das religiões cristãs, que se manifesta entre os adeptos e simpatizantes do Espiritismo, da mesma forma como pode ser visualizado nos livros publicados por Rivail.

            Vale salientar ainda que, neste contexto tão rico em detalhes e com questões que podem ser consideradas essenciais, porquanto amarradas aos princípios e fundamentos do Espiritismo, figuram relevantes as diferenças constatadas entre as edições de duas das obras considerais de Kardec, “O Céu e o Inferno” (OCEOI) e “A Gênese” (AG), levando em consideração que as edições popularizadas em quase todas as traduções conhecidas em nosso país (a quarta de OCEOI e a quinta de AG) possuem redações distintas das que foram totalmente escritas e lançadas pelo Codificador (as três de OCEOI e as quatro de AG, num e noutro caso, todas idênticas entre si), e que as alterações (adulterações) implicaram na inclusão de ideias/elementos que implicam na noção, figura e imagem sobre Jesus, perante ou segundo o Espiritismo.

            Não são muitos os espíritas que conhecem a dicotomia entre as duas grandes teorias construídas, no meio espírita, sobre Jesus. Na verdade, a existência de dois corpos teóricos distintos remonta aos dias em que Kardec, assumindo a condição de protagonista físico da criação e direção do Espiritismo em nosso planeta, entabulou diálogos com diversas personalidades do seu tempo, inclusive clérigos e pessoas influentes na sociedade europeia de então. Kardec, a partir do conteúdo espírita, considerando o Espiritismo como a “terceira revelação” da Lei Divina ― somando-se às duas anteriores, a mosaica e a baseada nos ensinos e feitos do carpinteiro pescador de homens, e consagrando a Filosofia Espírita como a materialização do “Consolador Prometido” contido no Evangelho de João ―, se apropriou de um personagem e de conceitos que eram “patrimônio” das religiões, e também enfrentou uma teoria mediúnica importante, no seu tempo. Esta figura expressa na obra “Os quatro evangelhos” de seu compatriota J. B. Roustaing foi contraposta ao conteúdo espírita (kardeciano), e no seu subtítulo se observa a inscrição “A revelação da revelação”, assim como autores (presumidos) os Espíritos dos quatro evangelistas (João, Lucas, Marcos e Mateus), assistidos pelos apóstolos e por Moisés, tendo sido recepcionada por uma única médium, Émilie Collignon, e sistematizada por Roustaing.

         O próprio Kardec dialogou com Roustaing, mas não endossou a obra nem considerou a mesma como compatível com o arcabouço de conhecimento espírita. Não há novidades nesse livro, no que concerne à caracterização do personagem Jesus, porquanto o mesmo remonta à teoria do “corpo fluídico” (imaterial) de Jesus, que teria vivido na Terra, há dois mil anos, em forma “aparente”, ou seja, com uma existência semimaterial.

            Este é o aspecto fundamental para o início de qualquer abordagem espírita sobre Jesus. Ou se tem a validação da ideia tradicional ― expressa, inclusive, com anteparo nos textos dos evangelhos canônicos ―, acerca da existência corporal do Homem de Nazaré, ou, antagonicamente, se aquiesce à teoria de sua existência “não corporal”, intangível e, em alguns casos, semitangível, ocorrida quando da materialização do mesmo para a realização de certos fenômenos físicos.

            Não é possível, pois, adotar as duas conformações, porque são conflitantes, contraditórias e excludentes entre si. E esta questão é objeto específico e explícito de abordagem em “O Livro dos Espíritos”, pelo menos em dois momentos pontuais.

            O primeiro está na “Escala Espírita”, quando Kardec ensaia acerca dos diferentes níveis evolutivos dos Espíritos, desde sua criação até o “destino” final, sendo o da perfeição relativa, considerando, aqui neste particular, que as posições mais adiantadas na escala não simbolizam qualquer estado contemplativo futuro, e o não mais envolvimento em atividades espirituais, posto que o progresso (espiritual) é infindo. A partir da questão número 100, do livro primeiro, são descritos e qualificados TODOS os Espíritos e merecem destaque os itens 111, 112 e 113, porque eles apresentam os níveis mais adiantados, quais sejam, sequencialmente, os dos Espíritos SUPERIORES e dos Espíritos PUROS.

            O segundo está cravado no item 625, do mesmo livro, talvez o mais conhecido de todos os que compõem esta obra, pela repetida menção que a ela se faz em textos ou palestras. Nele, o professor francês pergunta aos Amigos Espirituais qual seria o modelo ou o guia para a Humanidade, considerando as características do planeta em que estamos vivendo. E a resposta, pontual, é: ― Vede Jesus (e não, apenas, Jesus, como a maioria das traduções conhecidas apresenta). Isto simboliza: observe, analise, situe Jesus como este molde para a espiritualização (futura) de todos nós; conheça suas virtudes, suas reações, suas ações, seus ensinos, suas pregações, seus feitos ― sobretudo aqueles direcionados à construção (ou reconstrução) espiritual ―, para, aos poucos e de conformidade com as possibilidades espirituais que vá angariando, na sucessão das experiências físicas, de encarnação a encarnação, poder progredir e alcançar o estado espiritual que era característico naquele Rabi.

            Uma análise mais acurada, inclusive, permite visualizar que a ideia do referencial espiritual para os terrenos está, também, no item 111, quando os Luminares Espirituais colocam entre as características dos ESPÍRITOS SUPERIORES a condição de figurarem como o “tipo de perfeição a que a Humanidade pode aspirar neste mundo”. Há, assim, plena sintonia entre o contido neste item e o apresentado anteriormente (item 625), podendo-se concluir que, ao apresentar o caráter de superioridade espiritual para servir de modelo aos que encarnam na Terra, e ao nomear Jesus de Nazaré como tal, o filho de Maria e José teria tido, na existência em que se colocou como o divisor temporal entre os períodos de contagem cronológica (AC ― DC), um Espírito SUPERIOR.

         O Espírito Superior, assim, tem como característica fundamental a reunião, em sua condição espiritual, da Ciência, da Sabedoria e da Bondade, encarnando POR EXCEÇÃO neste orbe para CUMPRIR UMA MISSÃO DE PROGRESSO. As palavras não são minhas. São dos Espíritos que assinam as obras kardecianas. Jesus, então, ENCARNOU, ou seja, vestiu a roupagem física, teve um corpo perecível, idêntico ao nosso e vivenciou a experiência encarnatória em caráter missionário, ainda se enquadrando, como consequência e regra imposta pelas Leis Espirituais que vigem em todos os mundos habitados, a provas e a expiações.

            Se Jesus, do contrário, fosse um ESPÍRITO PURO (itens 112 e 113 de “O Livro dos Espíritos”), ele não teria mais provas e expiações e não estaria sujeito “à encarnação em corpos perecíveis”, ou seja, não teria estado fisicamente entre nós.

            É exatamente por isso que é IMPOSSÍVEL conciliar a doutrina espírita (Kardec) com a obra de Roustaing, porque esta última consagra um Jesus não humano, não encarnado, não real, mas fictício, imaginário, pseudo-humano, em existência “fluídica”. Isto é, para o docetismo (rustenismo), Jesus não encarnou, sendo um ser agênere, diferente dos demais que compõem a Humanidade.             E, como tal, não sofreu fisicamente as macerações de sua paixão, crucificação e morte, justamente por não possuir um envoltório corporal, sendo, isto, uma farsa, uma encenação. O que dizer, então, do sangue que é retratado em qualquer película cinematográfica ou encenação teatral que tenha a vida (e a morte) de Jesus de Nazaré como roteiro? Teria, então, sofrido “apenas” MORALMENTE, como muitos dizem? Qual o sentido e a lógica disso?

            Em “A Gênese”, obra considerada como a mais científica das trinta e duas que Allan Kardec escreveu e publicou, consta como subtítulo: “Os milagres e as predições segundo o Espiritismo”. Grande parte da obra, assim, é vinculada ao personagem que ilustra este ensaio, Jesus de Nazaré, especialmente nos capítulos XIII a XVIII, ou seja, a segunda e a terceira partes do livro. A porção inicial, intitulada “A Gênese segundo o Espiritismo”, versa sobre a Natureza da Revelação Espírita, Deus, a Ciência na gênese e a Uranografia Geral (estudo sobre o Universo), além de perpassar as gêneses orgânica, espiritual e mosaica, num trabalho de fôlego, o mais maduro e consistente de toda a obra kardeciana.

         O Jesus de “A Gênese” é o mesmo retratado em “O Livro dos Espíritos” ― com ênfase para os trechos já sublinhados neste artigo ― e, também, marcadamente, em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, onde são alinhados e listados não todos os trechos contidos nos quatro evangelhos canônicos, mas, apenas, os que, a teor da afirmação dada pelo próprio Kardec em sinergia com os textos mediúnicos que estão por toda a obra, constituem a “explicação das máximas morais do Cristo em concordância com o Espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida”.

            Ou seja, espíritas, nós não encontraremos em “O Evangelho segundo o Espiritismo” tudo o que está contido nos evangelhos “bíblicos”, em termos de passagens, feitos, pregações, parábolas e ditos de Jesus, pois foram desconsiderados todos os trechos destes últimos que fossem, apenas, expressões da liturgia cristã e que são o fundamento de afirmação de cânones, mandamentos ou sacramentos, em especial do Catolicismo. Interessa para o Espiritismo aquilo que é, em essência, verdadeiro, e que teria, de fato, acontecido há dois mil anos, distante do mitológico e mítico criado e conservado, culturalmente, séculos após séculos, em cima do personagem “Cristo”, que difere, frontalmente, do Jesus humano, histórico, real e, por extensão, espírita.

            É por isso que intitulamos estes escritos como “Jesus, Espírito Espírita”. Espírito, porque é a condição de todos nós, seres inteligentes da criação, considerado, aí, também a circunstância de “sermos deuses”, como o próprio Rabi o afirmou, para nos intuir a realizações futuras, posto que tudo o que ele fez também nós pode(re)mos fazer. Espírita, porque o Espiritismo é uma filosofia atemporal, com o compromisso de manter-se atualizada e compatível com a progressão do nosso mundo, uma referência plena e permanente em termos de explicação das questões que envolvem o binômio espírito-matéria, considerados estes, pela teoria espírita, como dois dos três elementos básicos, ao que se vincula e acresce o primordial, a causa primeira, Deus.

            Os fundamentos do Espiritismo, sabemos, foram trazidos por Jesus de Nazaré, há dois mil anos, e a própria Introdução de “O Evangelho segundo o Espiritismo” também vincula todo este processo de crescimento e entendimento espiritual ao ponto inicial, situado na Antiguidade, com a doutrina de Sócrates e Platão. Este conjunto se materializa em Jesus e permanece, indefinidamente, como a consagração do “prometido consolo” do Evangelho de João ― “eu rogarei ao Pai e ele vos enviará o Consolador” ― e permite que conheçamos, a partir dos próximos artigos que aqui estarão sendo veiculados, a grandeza e a completude do Espírito Superior Jesus de Nazaré, um dos Guias e Modelos para a Humanidade, em todos os seus quadrantes, e consideradas todas as suas afirmações e realizações que são, por isso mesmo, compatíveis com as Leis Espirituais que governam os mundos, e absolutamente vinculadas aos princípios e fundamentos espíritas.

            O Jesus Espírito Espírita, assim, é (foi) um ser humano similar a qualquer um de nós, com corpo material servindo-lhe de vestimenta. Viveu fisicamente entre nós, com as peculiaridades inerentes à vida NA matéria. Como figura em “O livro dos Espíritos”, item 111, “in fine”, Jesus é perfeitamente caracterizado: “Quando, por exceção, se encarnam na Terra, é para cumprir uma missão de progresso, e então nos oferecem o tipo de perfeição que a humanidade pode aspirar nesse mundo”.

            Que possamos, juntos, descortinar a personalidade deste que foi e é um dos Espíritos mais desenvolvidos que já habitaram a Terra. Sem misticismo, sem mistificação, sem deificação, sem desnaturação de sua existência. Porque entendendo-o como humano, ser material, encarnado, nascido de mulher, aproximamo-nos do entendimento de sua importância, de seus feitos e de toda a essência de sua mensagem para a Humanidade.

Nota do ECK: Artigo originariamente publicado na Revista Eletrônica “O Consolador”, Ano 13, Edição n. 620, de maio de 2019. Versão ligeiramente adaptada.

WhatsAppFacebookTwitterLinkedInPush to KindleCopy Link

 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI).
    Visão Geral e Tese Central

    O artigo propõe uma revisão crítico-doutrinária da figura de Jesus dentro do Movimento Espírita, defendendo a tese de que ele deve ser compreendido sob a ótica do "Jesus Homem" (histórico, real e encarnado) em oposição ao "Jesus Mito" (teológico ou fluídico). O autor argumenta que a visão puramente humana e missionária de Jesus é a única logicamente compatível com a Codificação Kardeciana original.
    Principais Pontos Analisados

    A Dicotomia Teórica (Kardec vs. Roustaing): O texto estabelece um forte contraponto entre a linha ortodoxa de Allan Kardec e as teorias de J. B. Roustaing (docetismo/rustenismo). Rejeita terminantemente a tese roustainguista do "corpo fluídico" (Jesus como ser agênere), classificando-a como uma herança mística e dogmática das religiões tradicionais que contradiz a lógica espírita.

    O Enquadramento na Escala Espírita: Amparado nas questões 100 a 113 e 625 de O Livro dos Espíritos, o artigo define Jesus pedagogicamente como um Espírito Superior (e não um Espírito Puro). Essa distinção é crucial para o argumento, pois valida que Jesus de fato encarnou em um corpo perecível e biológico para cumprir uma missão de progresso, servindo de modelo tangível e alcançável para a humanidade.

    Crítica Textual e Histórica: O autor chama a atenção para possíveis alterações editoriais (adulterações) nas obras tardias de Kardec (O Céu e o Inferno e A Gênese) que teriam distorcido a imagem original do Cristo. Reforça que O Evangelho segundo o Espiritismo focou estritamente na moral universal, descartando liturgias e o aparato mitológico criado posteriormente pelas igrejas cristãs.

    Conclusão do Artigo

    Ao cunhar a expressão "Jesus, Espírito Espírita", o texto conclui que desmistificar a figura do Cristo — retirando-lhe os atributos de divindade ou de fantasma fluídico — não diminui sua importância. Pelo contrário, humanizá-lo aproxima a humanidade de seu legado, transformando seus feitos em metas evolutivas perfeitamente realizáveis por meio do binômio espírito-matéria e do esforço próprio.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

AS DEFORMIDADES COGNITIVAS PRETENSOS “HERCULANISTAS”

  Por Jorge Hessen O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo. Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...

ENLATADOS NO TEMPO

  Por Marcelo Teixeira Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

ASSOMBRAÇÃO

                 "Noiva de Furquim", Mariana (MG) - Ilustração                Contou-me um confrade que certa feita regressava ao lar, por volta de meia-noite, após uma festa.             Estava sozinho em seu automóvel. Numa curva, perdeu a direção do veículo, que se precipitou numa ribanceira. Desceu sacolejando e tombou dez metros abaixo.             A custo saiu do carro, rodas para cima. Repleto de escoriações, começou a subir, retornando à estrada. Já no alto olhou para o automóvel. Ficou estarrecido. Estava destruído. Impossível sair com vida dali.             Espírita estudioso, apavorou-se. Certamente morrera! Pensou em descer para confirmar o trágico acontecimento com a visão de seu corpo sem vida, entre as ferr...

RÉQUIEM

 Por Paulo Eduardo (*) O ofício dos mortos em música sublime. Réquiem significando repouso. Pausa na vida física a fim de enfrentar novos rumos. Retorno à pátria espiritual sendo relembrado neste segundo dia de novembro. Dia de Finados a alegria paradoxalmente triste de uma festa realmente com melodia em surdina. O palco desse momento de velada despedida ou de comunicação interna é o cemitério. Jazigo é sepultura e os espíritos são livres da vestimenta física quando partem em busca dos planos etéreos da vida plena. Ninguém fica residente em catacumba. Uma verdade inconteste. Convém destacar o crescimento da cremação de corpos e nem por isso leva-se ao esquecimento dos nossos cujos despojos tornaram-se pó. Nos réquiens pelo Dia de Finados vamos orquestrar a saudade no seu patamar de harmonia e certeza da perpetuação da vida. A Doutrina Espírita repercute na sua forma belíssima de reverenciar quem parte através do evento morte. Somos imortais na natureza divina...

ESPIRITISMO E COMUNISMO - (I PARTE)

Inserta no terceiro dos discursos proferidos em Lyon e Bordeaux (1862), está a crítica de Kardec aos sistemas de reforma social que visam, ao fim, qualquer tipo de comunismo ; [i] ao mesmo tempo, trata-se de uma defesa contra assertivas de adesão espírita a tais sistemas, no intuito de indispor a nova doutrina com a ditadura de Napoleão III, intrigas da Igreja católica, estreitamente ligada àquele regime. Concentra-se a crítica do mestre na inviabilidade desses sistemas por conta, sobretudo, do estado moral da humanidade, composta, segundo o espiritismo, por almas da terceira ordem da escala espírita, ou seja, nas quais a influência da matéria ainda é dominante, donde a origem do seu vício radical: o egoísmo, incompatível com a justiça, o amor e a caridade. [ii] Tais sistemas levariam, no dizer de Kardec, a um estado de comunidade fundado na completa abnegação da personalidade e, por efeito, requerendo o devotamento mais absoluto, o que só se sustentaria, na opinião do me...