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O TIGRE

 


O entrevistador ouvia as queixas do consulente, no serviço de atendimento fraterno, no Centro Espírita:

– O problema é a minha mulher. Mal-humorada, neurótica, agressiva, vive a tumultuar o ambiente do lar. Implica comigo, com os filhos, com a serviçal, com os vizinhos, com os cachorros… É um tormento!

– Meu amigo – ponderava o atendente –, não seria razoável considerar a virtudes de sua esposa, deter-se nos aspectos positivos de seu comportamento, a favorecer o entendimento? Há um princípio de psicologia segundo o qual as pessoas comportam-se da maneira como as vemos. Identificar virtudes é uma forma de desenvolvê-las. Estar sempre apontando mazelas e imperfeições é a melhor maneira de exacerbá-las.

O consulente arregalou os olhos, surpreendido com aquela tentativa de conciliação em relação ao que lhe parecia inconciliável, e disparou:

– O senhor fala assim porque não conhece minha mulher. Duvido fosse esse o seu discurso se passasse uma semana com ela!

O entrevistador sorriu, paciente.

– Se a sua esposa fosse vitimada por grave enfermidade, o que o senhor faria? Criticaria sua condição? Exigiria que se curasse?

– Claro que não! Seria um criminoso se o fizesse. É a mãe de meus filhos e por sinal cuida muito bem deles.

– Ótimo. Assim considerando, já imaginou que sua esposa está enferma, com um tipo grave de doença?

 – Como assim?

 – Doença da alma, meu amigo. Pessoas irascíveis, agressivas, têm a alma enferma. São mais carentes de auxílio do que a vítima de enfermidade física. Esta pede cuidados. O doente da alma pede mais que isso: paciência, tolerância, compreensão… Imagine um alienado mental a xingá-lo e maltratá-lo. Certamente você relevará, considerando sua insanidade. Por que não fazer o mesmo com sua esposa?

– Só há um detalhe. Minha mulher não é um doente mental. Sabe muito bem o que faz. Por isso irrito-me com ela.

– Sim, ela pode ter consciência de suas ações, porém não tem controle sobre suas emoções, incapaz de discernir, de conter seus impulsos. O tigre que ainda existe em nós, resíduo de estágios primitivos da animalidade, acorda com facilidade nela, levando-a a exercitar essa agressividade, uma insanidade momentânea, com a qual fere as pessoas do círculo familiar.

– É uma boa imagem. O problema é que, em se tratando de minha mulher, o tigre nunca dorme.

– Então trate de sedá-lo. Ninguém consegue ser agressivo o tempo todo, se durante todo o tempo convive com pessoas capazes de oferecer tranquilizantes como a serenidade e a brandura.

Diz André Luiz que quando as pessoas perdem o controle, deixando-se dominar pela cólera, descem a estágios primitivos de comportamento, liberando uma agressividade perigosa, capaz de produzir estragos, como um tigre feroz a movimentar-se em espaço livre. A mídia vive a destacar ações criminosas induzidas pelo tigre:

– O marido matou a esposa que o deixou.

– O assaltante fuzilou a vítima que reagiu ao assalto…

 – O homem assassinou o motorista que provocou um acidente com seu carro...

– O grupo de pessoas linchou o criminoso…

– O filho apunhalou o pai…


 – A esposa jogou ácido no marido…

 – O aluno agrediu o professor…

 Os exemplos são incontáveis, sempre envolvendo o tigre à solta. Uma perguntinha, amigo leitor:

 – Por que metade dos casamentos acaba antes de completados sete anos?

Certamente você evocará vários motivos, envolvendo pouca afinidade, divergência de ideias, incompatibilidade de gênios, dificuldades financeiras e até interferência da sogra.

Esses e outros problemas estão apenas na periferia do furacão que destrói o casamento. O epicentro é o tigre que os cônjuges não conseguem manter adormecido. Quando ele acorda, marido e mulher falam e fazem o que é irreparável, acumulando tensões e ressentimentos que desembocam no divórcio.

Por isso, o melhor que podemos fazer, nos momentos em que os ânimos se exaltam no lar, será seguir o sábio conselho:

Orar muito e pedir a Deus, com todas as forças de nossa alma, que nos ajude a manter adormecido o tigre que mora em nós.

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