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CARTAS SOBRE A NÃO VIOLÊNCIA (4) EM TEMPO DE CORONAVÍRUS



 
As revoluções armadas redundam sempre em ditaduras, portanto há uma imposição de uma certa ordem social e novas relações de produção, eliminando-se os que não concordam ou os que faziam parte da ordem anterior. Ocorre que as pulsões humanas de ganância, dominação e poder permanecem intactas naqueles que promoveram e comandam a nova ordem. Assim, temos os privilégios do partido dominante, a tortura e o massacre dos opositores e outras desgraças tão antigas quanto a humanidade. Se as revoluções foram historicamente necessárias, para ensaios de novas formas sociais, e mesmo como manifestação legítima contra as injustiças de um sistema, rapidamente elas degeneraram e praticaram atrocidades idênticas aos regimes que depuseram.


Com isso, queremos dizer que precisamos finalmente achar novos caminhos de mudança social e de abolição das estruturas injustas e violentas que mantêm a maior parte da humanidade sob a canga da dominação e da pobreza. Soluções mais duradouras, porém mais difíceis, mais profundas e mais criativas.

O primeiro e mais importante caminho – e digo isso como educadora, que se dedica a essa missão há mais de 30 anos – é justamente a educação. Mas entendendo educação como um processo amplo de abertura de consciência, de leitura crítica do mundo, de desenvolvimento ao mesmo tempo de talentos individuais e de espírito comunitário e cooperativo. Não estou me referindo à educação para submeter o cidadão ao mercado de trabalho. Mas à educação que emancipa, empodera e desperta a sensibilidade, as emoções positivas de amor e fraternidade, os princípios necessários de justiça e igualdade.

Sei que essa educação encontra fortíssima resistência no sistema, pois o sistema usa as instituições educativas (a partir da família) como forma de moldar o povo para servir aos seus interesses, seja qual for o poder dominante – a Igreja fez isso, o capital faz, os Estados totalitários à direita e à esquerda fazem. Por isso, a nossa militância deve ser contínua, incansável, criando espaços para crianças, jovens e adultos, onde essa educação de emancipação seja construída e cultivada.

O segundo e igualmente importante caminho são os processos de terapia pelos quais todos os seres humanos deveriam passar: para descontruir o que ficou de marca negativa em sua própria educação; para saber lidar com as próprias emoções e fazer uma busca de autoconhecimento e, assim, se tornar um ser humano minimamente sociável, equilibrado que não saia por aí matando, competindo com o outro para eliminá-lo, batendo em mulher ou cometendo feminicídio (no caso dos homens); que entenda que a busca desenfreada por poder e dinheiro é uma forma de compensação burra e destrutiva para alguma frustração sexual ou emocional…

O terceiro caminho, que aponto aqui, que deve interagir com os outros dois, são as ações comunitárias, as formas de organização social livres do Estado e livres do poder do capital. Ou seja, é o povo se organizando, criando uma economia independente, produtiva e igualitária. Cito aqui um exemplo concreto disso no Brasil, que é o MST: um movimento que não usou de revolução armada (ou seja, não saiu por aí matando latifundiários, aliás, muitas vezes, foram mortos por eles), mas usaram de ações de invasão, assentamento, escolas, e depois se tornaram em alguns pontos do Brasil, produtores agrícolas cooperados. Nesse ano, de 2020, por exemplo, eles anunciam a colheita de 15 mil toneladas de arroz orgânico, mantendo-se como o maior produtor desse setor na América Latina. Isso é ação revolucionária pacífica.

Outro exemplo, é o movimento que está sendo convocado pelo Papa Francisco, a Economia de Francisco e Clara, cujo encontro seria por esses dias em Assis, mas que foi adiado para novembro, por causa do Corona. Trata-se de levantar ideias, incentivar projetos, apoiar comunidades que estejam nesse espírito cooperativista, sustentável e ecologicamente engajado.

O caminho ainda que desejo acrescentar é o de uma espiritualidade crítica. O que significa isso? É a abertura para a transcendência, para a dimensão espiritual da vida, com a crítica contundente aos que exploram a fé, aos que usam das instituições religiosas, para dominar, abusar e submeter os adeptos. Inspirar-se nas grandes tradições espirituais da humanidade traz esperança, conforto e solidez em nossas ações. Mas é preciso que nos imunizemos contra aqueles que usam as religiões para os fins mais violentos possíveis.

Tudo isso, para alguns, à direita ou à esquerda (pois a violência dos extremos se toca), pode parecer utópico e distante. Podemos sim considerar que a humanidade anda muito devagar em sua busca de soluções amplas, profundas e fraternas para um mundo de exploração e injustiça. Mas sendo a lentidão de fato angustiante, acontece de repente um Coronavírus, provocando uma crise tão ou mais angustiante na saúde, na economia, no ordenamento social e internacional. Para mim, como espírita, a dor é um processo às vezes necessário e pedagógico. Então, a crise é nossa grande oportunidade de aprendizado de novos paradigmas de vida. Nessa crise, vamos identificar muito bem aqueles que se importam minimamente com o próximo e os que apenas querem salvar a própria pele; vamos tomar consciência das prioridades existenciais da nossa vida; vamos constatar o quanto um desaceleramento desse sistema enlouquecido vai fazer bem para a natureza… Organizemo-nos, pois, entre os que acreditam na igualdade e na paz, na cooperação e na solidariedade, fazendo firme (não violenta) oposição aos parasitas, sacudindo as estruturas arraigadas da exploração, com a força do amor.

Comentários

  1. Graças a Deus eu li esse artigo depois daquele texto trevoso que trata da opinião de um espírita acerca de "merecimento e igualdade", segundo aquele autor "segundo o espiritismo". Obrigado professora por trazer palavras espíritas para apontar possíveis caminhos pacificados de encontrar-se um caminho espiritual para os destinos do planeta. Roberto Caldas

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