Pular para o conteúdo principal

COMO ASSIM? CRIANÇAS EM REUNIÕES MEDIÚNICAS?






Nos últimos meses, por conta de diversos debates em que a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita tem se envolvido, marcando posições claras, temos recebido centenas de retornos via e-mail, comentários no blog e no Facebook. Muitas nos indagaram a respeito da participação de crianças em reuniões mediúnicas.


O que se dá é que as crianças ­ ­– nem todas – podem apresentar percepções mediúnicas muito cedo e precisam ser orientadas. E quando a mediunidade estoura, principalmente na adolescência, precisa ser aceita e trabalhada.


O trato com os espíritos – assim nos ensina Kardec – deve ser sério, ético, bem orientado, mas também natural, em grupos familiares, pequenos, sem mistérios, sem hierarquias. Todo mundo sabe que o Espiritismo nasceu através de meninas médiuns, adolescentes. As Baudin, Ermance Dufaux, Jafet, entre outras.  Na Revista Espírita, Kardec narra o seguinte episódio, encantador, que até transcrevi em minha tese sobre Pedagogia Espírita, na USP:

    “Um dia, ele (o menino) se achava em casa de uma pessoa do seu conhecimento e brincava no páteo com sua priminha, de cinco anos, dois meninos, um de sete, outro de quatro anos. A senhora que morava no rez-do-chão os convidou a entrar em sua casa e lhes deu bombons. As crianças, como se pode imaginar, não se fizeram de rogadas.

    A senhora perguntou ao filho do Sr. Delanne: como te chamas, meu filho?

1.     — Eu me chamo Gabriel, senhora. P. — Que faz teu pai?R. — Senhora, meu pai é espírita.P. — Não conheço esta profissão.
2.     — Mas, senhora, não é uma profissão; meu pai não é pago para isto, ele o faz com desinteresse e para fazer o bem aos homens.
3.     — Meu rapazinho, não sei o que queres dizer.R. — Como! Jamais ouvistes falar das mesas girante?P. — Então, meu amigo, bem gostaria que teu pai estivesse aqui para as fazer girar.R. — É inútil, senhora, eu tenho, eu mesmo, o poder de as fazer girar.P. — Então, queres experimentar e me fazer ver como se procede?R. — De boa vontade, senhora.

    Dito isto, ele se senta ao pé da mesinha da sala e faz sentar os seus três camaradinhas; e eis os quatro gravemente pondo as mãos em cima. Gabriel fez uma evocação, em tom muito sério e com recolhimento. Apenas terminou, para grande estupefação da senhora e das crianças a mesa ergueu-se e bateu com força.

    — Perguntai, senhora, quem vem responder pela mesa.A vizinha interroga e a mesa soletra as palavras: teu pai. A senhora empalidece de emoção. E continua: então, meu pai, podes dizer se devo mandar a carta que acabo de escrever? — A mesa responde: Sim, sem dúvida. — Para me provar que és tu, meu bom pai, que estás aí, podias dizer há quantos estás morto? — Logo a mesa bate oito pancadas bem acentuadas. Era justo o número de anos. — Podias dizer teu nome e o da cidade onde morreste? — A mesa soletra os dois nomes.

    As lágrimas jorraram dos olhos daquela senhora, que não pode mais continuar, aterrada por esta revelação e dominada pela emoção. (…) não é a primeira vez que a mediunidade se revela em crianças, na intimidade das famílias. Não é a realização daquela palavra profética: Vossos filhos e vossas filhas profetizarão (Atos, II, 17)?

Como se depreende dessa narrativa e de outras, que podem ser lidas na Revista Espírita, as crianças participavam de reuniões mediúnicas familiares no tempo de Kardec, como também acontecia até as décadas de 60 e 70, no movimento espírita brasileiro.

O que mudou?

O movimento se institucionalizou, se hierarquizou, se engessou. Perdeu convívio, familiaridade, naturalidade, humanismo, olho no olho. Virou algo cheio de regras (que nada têm a ver com Kardec), apostilado, empobrecido, em que as pessoas se sentem distanciadas, desempoderadas e cada vez mais incapazes de lidar com o fenômeno mediúnico.

Na ABPE, recebemos inúmeras pessoas, entre adolescentes, jovens e maduras, que simplesmente não encontram espaço para trabalhar a mediunidade, em centros espíritas convencionais. Tudo muito demorado, desumanizado, com dirigentes ríspidos e muitas vezes castradores. Para começar a aplicar um passe ou ter permissão para receber um mentor, 5 anos de curso básico, mais 3 de curso de desenvolvimento mediúnico e quando passou tudo isso, a mediunidade secou ou o cidadão já desistiu.

A outra situação são os centros comandados por algum médium de relativo destaque e onde só o tal pode ser médium…

Então, o que se dá é que egos inchados, incapacidade de acolher e desenvolver pessoas que possam contribuir no espiritismo, visão burocrática e apostilada da mediunidade ­­– tudo isso leva a um espiritismo sem espíritos. E quando há espíritos, o médium guru monopoliza e mediunidade e como suas manifestações não estão sujeitas à crítica, vira essa miscelânea oba-oba que impera em muitos centros, livros e no movimento em geral.

Hoje mesmo, na mediúnica para iniciantes da ABPE, em Bragança Paulista, conversávamos, algumas pessoas mais maduras e idosas, sobre como havia sido nossa convivência com a mediunidade na infância: familiar, natural, doméstica.  Eu mesma posso contar da minha experiência pessoal nesse sentido. Desde muito pequena, via reuniões domésticas em casa, com comunicações de espíritos e achava isso muito natural. Muitas vezes, participei de orações na casa de Herculano Pires (que frequentava desde dois anos de idade) e via por exemplo, as comunicações da Irmã Ditinha, uma preta velha que dava valiosos conselhos, inclusive para as crianças.

Aos 11, estava morando com minha família na Alemanha, onde não havia nem em sonho algum centro espírita, e comecei a psicografar poesias. Aos 15, já de volta ao Brasil, comecei a trabalhar, como médium de psicofonia, na reunião mediúnica do Centro Espírita Cairbar Schutel, dirigido por Herculano.

As mediunidades, que se tornarão uma tarefa existencial do indivíduo, começam cedo. E devem ser acolhidas, orientadas. Eu jamais poderia esperar para fazer um curso de anos, apostilado, num centro espírita, para começar a exercer as faculdades inatas que trazia e que quando vêm à tona, são altamente perturbadoras. Aos 11, comecei a ler livros espíritas, para entender o que se passava comigo. Aos 14, já havia devorado vários livros de Kardec, incluindo O Livro dos Médiuns de cabo a rabo.

Para resumir em itens claros, precisos e absolutamente dentro do que propôs Kardec (porque se algumas das posições das obras de Kardec podem ser revistas hoje por conta do contexto histórico em que viveu, o que permanece insuperável é a sua proposta simples, série, racional e ética no trato com a mediunidade):

1)    Crianças podem sim, desde que não tenham medo, participar de reuniões mediúnicas familiares, ouvir mentores, presenciar comunicações de espíritos sofredores, ver fenômenos outros como psicografia, pintura mediúnica etc. E é até muito bom que o façam, pois para elas, a imortalidade da alma e a comunicação com os espíritos vai se tornando algo natural, como aliás, é de fato.

2)    Crianças devem ser acolhidas e orientadas na oração, no estudo, se têm percepções mediúnicas. Mas não devem desenvolver mediunidade.

3)    Adolescentes podem e devem desenvolver sua mediunidade, orientados por médiuns mais experientes, e acompanhados nos estudos, se mostrarem fenômenos e percepções que possam ser interpretados como fenômenos mediúnicos. Há que se ter o necessário discernimento para saber se o jovem está psiquicamente saudável e pode assumir tal responsabilidade.

4)    Os adultos que quiserem ou necessitarem trabalhar a própria mediunidade, podem e devem fazê-lo, estudando Kardec sozinho ou em grupo, participando de reuniões, com médiuns experientes e confiáveis.

5)    As reuniões mediúnicas devem ser com poucas pessoas, afinadas, conectadas afetivamente, numa organização desierarquizada, onde todos se tratem de maneira fraternal e igualitária, em que as pessoas se sintam à vontade para serem médiuns, mas também encontrem crítica amistosa.

Isso é espiritismo. O resto virou igreja. E se continuarmos nessa via em que estamos, teremos um movimento espírita sem espíritos!


Comentários

  1. Francisco Catro de Sousa29 de abril de 2018 às 17:30

    Excelente texto de Dora Incontri. Tenho a mesma opinião que ela, não podemos submeter a Doutrina Espírita a uma camisa de força!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

JESUS CONOSCO

OCristianismo nascente foi alicerçado através da ajuda considerável da Espiritualidade Superior. Os Espíritos, sob a tutela do Cristo, assessoraram os primeiros cristãos, auxiliando-os na grande tarefa de difundir o Evangelho para todas as criaturas. O escritor da Epístola aos Hebreus dizia que uma “nuvem de testemunhas” rodeava-lhe e aos seus discípulos (12:1). O mesmo autor denomina Deus como “Pai dos espíritos” (Hebreus 12:9) e exorta os primeiros seguidores do Cristo a “obedecerem aos guias, sendo obedientes para com eles, já que velam por suas almas” (Hebreus 13:17). É claro que fala de guias espirituais, já que alerta que Todos deveriam “lembrar-se deles, imitando a fé que tiveram” (Hebreus 13:7) e enfatiza que “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo, e o será para sempre” (Hebreus 13:8).

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

O ESPIRITISMO DE VIDRO: O MEDO DO CONFLITO E A FALSA MANSIDÃO

       Por Jorge Luiz                    A Redoma de Vidro e o Estereótipo Anestesiado             Existe uma coreografia muito bem ensaiada nos salões do espiritismo hegemônico contemporâneo. Ela é composta por tons de voz milimetricamente sussurrados, sorrisos condescendentes que flutuam acima das misérias do mundo e uma gramática da passividade que confunde o torpor com a iluminação. Criou-se uma caricatura de santidade, um verdadeiro "espectro" encenado onde o indivíduo adota uma persona ritualística: distribui abraços, beijos e tapinhas nas costas dentro dos limites do centro espírita, mas desliga o afeto institucionalizado assim que cruza a porta de saída. Esse "bom espírita" tornou-se aquele sujeito plasticamente pacificado, incapaz de se alterar diante da injustiça, que assiste ao desmonte dos direitos sociais mais básicos da janela de seu apartam...

CONSIDERAÇÕES SOBRE A MORAL ESPÍRITA: A AUTONOMIA

                Por Maurício Zanolini               O psicólogo do desenvolvimento Yves de La Taille estuda o o processo de aprendizagem da moral nas sociedades humanas. Ele explica que a moral é a restrição da liberdade dos indivíduos para que possam viver em sociedade e que cada sociedade desenvolve seus próprios códigos de conduta. A família portanto é o núcleo mais básico onde esse código será vivenciado pela criança que está aprendendo a moral. Mas para além da família, a religião, a cultura e as tradições que compõe o que é socialmente aceito para um determinado agrupamento de pessoas, serão as influências responsáveis pela formação moral da criança. Podemos incluir a escola e o Centro Espírita nesse círculo de influências formativas.

ESPÍRITAS: CONTRADIÇÕES E ATAVISMOS

          De maneira recorrente vê-se sendo utilizada a classificação de espíritas progressistas , muito embora não se encontre essa denominação nas classes de espíritas didaticamente elaboradas por Allan Kardec. Na realidade, o termo pode em um primeiro momento parecer redundante, tendo em vista que o Espiritismo é uma doutrina essencialmente progressista. Leia-se o que Kardec comenta à pergunta 783 de O Livro dos Espíritos : Sendo o progresso uma condição da natureza humana, ninguém pode se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem retardar, mas não asfixiar.”           Em um segundo momento, a expressão converge para o movimento progressismo, que se opõe ao conservadorismo. O progressismo está vinculado à concepção de progresso, que na definição de Norberto Bobbio, em seu Dicionário de Política, é

"PALAVRÃO" - EXPRESSÃO DO EMPOBRECIMENTO MORAL

       Filólogos divergem quanto à classificação das palavras de baixo calão e de suas acepções entre ofensivas ou populares. Uma palavra de baixo calão (palavrão) é uma expressão que diz respeito ao grupo de gíria e, dentro desta, apresenta reles, impróprio, afrontoso, grosseiro, obsceno, agressivo ou depravado sob o ponto de vista de alguns conceitos religiosos ou estilos de vida.         Uma simples palavra, quando proferida nas ocasiões “certas”, seja ela de estímulo ou de desestímulo, provoca indícios, em quem ouve, de que pode reagir, positivamente, e modificar a sua maneira de pensar sobre determinada circunstância da vida. Por outro lado, a mera palavra pronunciada em momento “inadequado” pode ser motivo de grandes dores morais.       A recente publicidade das “escutas” telefônicas pela justiça brasileira tornou público múltiplos conteúdos constrangedores de algumas autoridades. O que nos prendeu a atenção foram...

A HUMANIDADE - SER COLETIVO

      Por Doris Gandres     A humanidade é um ser coletivo no qual se operam as mesmas revoluções morais que em cada ser individual (Gênese, Cap.XVIII, item 12) (1)               Se pararmos para refletir sobre a nossa progressão através dos tempos – e particularmente presentemente à luz de tantas descobertas, tantos esclarecimentos em várias áreas do conhecimento humano, seja científico, filosófico ou espiritual – veremos há quanto tempo vimos caminhando, primeiramente em meio à escuridão e à ignorância; depois, gradativamente, realizando conquistas em meio a experiências muito frequentemente equivocadas, difíceis e de dolorosos resultados; até chegarmos, aos trancos e barrancos, a este momento em que, apesar do tanto que recebemos de tantos, continuarmos lamentavelmente e irrefletidamente fazendo escolhas erradas, assumindo posturas incoerentes e nocivas, a nós, aos que nos cercam, à humanidade ...

O APARELHO PSÍQUICO - Uma proposta a partir da obra de André Luiz

Por Roberto Lúcio (*) Um estudo sobre a visão espírita da mente deve iniciar com as informações das obras de André Luiz, psicografadas por Chico Xavier e Waldo Vieira. As principais anotações encontram-se no livro “No Mundo Maior”, capítulo 03, ditado ao médium Chico Xavier. No entanto, em vários tópicos de suas obras encontram-se informações preciosas a serem apreciadas. No capítulo, André Luiz retrata o cérebro em três grandes áreas, como a biologia já indicava, mas ampliando a abordagem sob o ponto de vista espiritual. É necessário lembrar que uma divisão do aparelho psíquico em três grandes áreas já estava também presente nos textos de Freud, o grande estudioso e criador da Psicanálise. A Neurociência vem, nos últimos anos, avançando suas pesquisas na compreensão de certos aspectos da vida psíquica, clareando certas colocações freudianas, o que deu campo para a criação de uma nova subespecialidade: a neuropsicoanálise.    Não se pode negar ...

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...