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JUVENTUDE ELETRÔNICA - JUVENTUDE AMEAÇADA

 

Por Doris Gandres

Nosso tão decantado mundo moderno globalizado mal compreendido vem agredindo cada vez mais o livre-arbítrio das criaturas, qualquer seja a sua faixa etária; contudo, são os jovens os mais atingidos pelos apelos e imposições do consumismo, pois, entregues a si mesmos, por uma ou outra razão, carentes e inexperientes - e são em muito maior número do que imaginamos - tornam-se presas fáceis. Portanto, cabe a nós todo o cuidado com eles.

Sabemos que somos seres gregários, criados para nos inter-relacionar, exercitar nossas faculdades latentes de solidariedade, pôr em prática o "amor ao próximo". Esses jovens então, pressionados pela mídia e pela necessidade de relacionamento que os satisfaça, buscam os grupos onde se sintam integrados.

No livro A Educação segundo o Espiritismo, Dora Incontri, espírita, escritora, mestre e doutoranda em Educação pela USP, nos fala sobre a rebeldia do jovem: "Imerso num turbilhão de conflitos, de emoções desencontradas, de carências e anseios indefinidos, o adolescente manifesta uma rebeldia instintiva, que significa um desajuste momentâneo, uma revolta contra tudo e contra todos (...) De todas as fases da vida humana, esta é a que o indivíduo mais procura partilhar, mais deseja companhia e reconhecimento dos seus pares."

E a companheira ressalta a respeito da massificação: "A sociedade de massas em que vivemos começa a moldar as cabeças desde a primeira infância. O apelo desenfreado ao consumismo, a divulgação maciça de teorias materialistas e niilistas, a valorização do prazer físico em detrimento de qualquer responsabilidade moral, a arte desfigurada pelo comercialismo e pelo kitsh - tudo isso vai sendo impingido na mente de cada um, pela televisão, pelo cinema, pelos jornais e atualmente até por alguns livros infanto-juvenis."

Então o "hit" é ser diferente; é ser "chocante", "irado", particularmente se isso desagrada os pais, infringe os padrões da sociedade que ele rotula "careta" - é um modo de chamar-lhes a atenção. Então o ritmo eletrônico, estridente, alucinante, torna-se sua válvula de escape; nas máquinas eletrônicas de jogos violentos descarrega sua frustração, sua raiva contra o mundo, contra os pais, até contra si mesmo por não saber como solucionar seus problemas; no computador busca fugir da realidade que odeia, navegando por sites de todo tipo, estabelecendo relações muitas vezes perniciosas.

Perante as atuais condições sociais de milhões de famílias não só pobres mas paupérrimas, cujos filhos sofrem a falta de companhia e carinho de pais que lutam pela subsistência; com má nutrição, falta de assistência médica preventiva, precariedade de escola, educação, profissionalização técnica e, consequentemente, de oportunidades de trabalho dignamente remunerado, enquanto elementos amorais e mal-intencionados oferecem ganho ilegal porém aparentemente fácil, acho que ser jovem hoje nessa situação é muito difícil.

E nas famílias abastadas, com excessos de todo tipo, cujos filhos podem usufruir de boa alimentação, boa assistência médica, boas escolas, faculdades, pós-graduações, cursos os mais variados, no país e no exterior, podendo alcançar empregos altamente remunerados ou lucros consideráveis, mesmo que nem sempre muito recomendáveis, milhares de jovens igualmente sofrem a pouca (ou nenhuma) atenção dos pais, sempre empenhados em ganhar mais dinheiro - ali também acho que ser jovem hoje nessa situação é muito difícil.

E há a classe intermediária, a chamada classe média, que, na verdade, não se contenta com essa classificação e está sempre ansiosa por galgar o degrau seguinte, aproximar-se cada vez mais dessa abastança que considera como o ideal de felicidade e realização - essas criaturas então esfalfam-se mais ainda, muitas vezes gastam mais do que podem, endividando-se a níveis assustadores; e aí, desesperadas, estressam-se, desequilibram-se e também a eles escasseia o tempo para os filhos, mais uma vez relegados, sem atenção, sem carinho e sem acompanhamento. Igualmente nessa situação, penso ser muito difícil ser jovem hoje.

Por tudo isso é que a juventude eletrônica é uma juventude ameaçada - porque geralmente lhe falta à base primeira, a educação amorosa e esclarecida que irá sustentá-la nas horas difíceis, nos momentos em que o chão parece afundar, o teto ruir e não haver mais futuro nem esperança. O Espírito Joanna de Angelis, no livro Após a Tempestade, assevera: "Quando o lar se estiola e a família se desorganiza, a Sociedade combale e estertora (...) A terapêutica para tão urgente questão há de ser preventiva (...) Por coerência, espiritualmente renovado e educado, o homem investirá contra a chaga vergonhosa da injustiça social, contra os torpes métodos que fomentam a miséria econômica (...) contra o orgulho, o egoísmo e a indiferença."

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