Pular para o conteúdo principal

O ESPIRITISMO E A LUTA ENTRE O BEM E O MAL NO BRASIL

 

Por Jorge Luiz

Circularam nas redes sociais vídeos, inclusive produzidos por religiosos, que as enchentes que se abateram sobre o Rio Grande do Sul são decorrentes da preferência religiosa de alguns munícipes a templos/centros – são sei se de macumba, espíritas, ou os dois – em detrimento dos templos frequentados por essas pessoas; portanto, a ira de Deus se fez.

O detalhe interessante nesses cenários é que Deus, a força do bem, está do “meu lado” e satanás, satã, diabo, lúcifer, está do lado do outro. Ou seja, é “nós” e “os outros”. Não se sabe como se chegam a essas conclusões.

Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo prussiano, dizia em um dos seus aforismos: “chamo desgraçados todos aqueles que só podem escolher entre duas coisas: tornarem-se animais ferozes ou ferozes domadores de animais. Eu os denomino pastores, mas eles a si mesmos se consideram os fiéis da verdadeira crença! Vede os bons e os justos! A quem odeiam mais? A quem lhes despedaça as tábuas de valores, ao infrator, ao destruidor. É este, porém, o criador.”

            A reflexão de Nietzsche é providencial, pois são essas certezas que ao longo da história levaram, os que expressavam pensamentos divergentes, à fogueira, ao cadafalso, à forca, inclusive à crucificação de Jesus.

Martinho Lutero (1483-1546), monge agostiniano e professor de teologia alemão, que se tornou uma das figuras centrais da Reforma Protestante, no século XVI, em 1530, em um dos seus apontamentos, escrito por um amigo, afirmou: “ Às vezes é preciso beber um trago a mais e divertir-se; em outras palavras, cometer algum pecado com ódio e desprezo pelo diabo, para não lhe dar ocasião de transformar em um caso de consciência tolices minúsculas.”

            Com o propósito de “irritar o Papa e o demônio”, Lutero se casou e escreveu, em 1520,  A Liberdade de um  Cristão, a um prudente e sábio amigo, para se conhecer a fundo o que é um cristão e em que consiste a liberdade que Cristo lhe proporcionou, citou o Apóstolo Paulo e destacou: “Um cristão é um senhor livre sobre todas as coisas e não se submete a ninguém. Um cristão é um súdito e servidor de todas as coisas e se submete a todos.”

            Os propósitos de Lutero, bem como os de Paulo e de Jesus, desfizeram-se ao longo do tempo e o que se vê hoje são consciências tolas e minúsculas acorrentadas a  toscos líderes religiosos que as manipulam como massa para propósitos distantes da mensagem de Jesus.

            Amos Oz (1939-2018), escritor israelense, cofundador do movimento pacifista Paz Agora, estudando como se curar um fanático, diz: “Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da espécie humana: “o jardim da infância global”, cheio de brinquedos e maquininhas, balas e pirulitos.”

            A questão da luta do bem e do mal, sendo o império do Demônio, sempre foi requisitada em todas as épocas das sociedades humanas. Não poderia ser diferente à época de Jesus. É interessante notar que o próprio Jesus foi acusado de agir com o poder do Satanás. Leia-se em Mc, 3:23-26: “Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode subsistir. Se Satanás se levantar contra si mesmo, e for dividido, não pode subsistir; antes tem fim.”

            Satanás se faz muito mais presente nos cultos contemporâneos que o próprio Jesus, até por que suscita o medo, presente a escatologia apregoada por muitos líderes religiosos. O historiador francês, Jean Delumeau (1923-2020), em estudo soberbo acerca do medo, assinala: “Por toda parte presente, o medo desmedido do demônio, autor da loucura e dos ordenados dos paraísos artificiais, esteve associado na mentalidade comum à espera do fim do mundo (...).” O medo, nesse estágio, passa a ser objeto de dominação, indiscutivelmente é o que se presencia no Brasil.

            Allan Kardec, em “O Céu e o Inferno”, elabora um verdadeiro tratado teológico acerca do demônio e ele assim conclui: “Segundo o Espiritismo, nem os anjos e os demônios são seres à parte: a criação dos seres inteligentes é uma. Ligados a corpos materiais, esses seres constituem a humanidade que povoa a Terra e os outros planetas habitados; sem esses corpos, constitui o mundo espiritual ou dos Espíritos, que povoam o espaço.” Ele é didático. Os Espíritos os quais colaboraram com Kardec na organização da Doutrina Espírita, sobre Deus ter criado seres bons e outros maus, afirmam – questão n.º 115 de O Livro dos Espíritos – que os Espíritos são criados simples e ignorantes, ou seja, sem conhecimento. Deu a cada um deles uma missão, com o fim de os esclarecer e progressivamente conduzir à perfeição, pelo conhecimento da verdade e para os aproximar dele.” Os Espíritos lançam “por terra” a teoria dos anjos decaídos.

O mal, longe de ser um império de Satanás, não significa nada mais do que o conhecimento dos opostos e o que a literatura primitiva do gênero humano designou com esses dois conceitos, diz Martin Buber (1878-1965), filósofo, escritor e pedagogo austríaco e naturalizado israelense. Ele afirma, ainda, que na terminologia do pensamento moderno podemos circunscrever o suposto assim: suficiente consciência da contradição de todo ser intramundano. E isto significa a partir da crença bíblica na criação: suficiente consciência da contradição latente da criação, naturalmente nascida da distância incomensurável e imutável  entre Deus e os homens. Isso tem a gênese da concepção antropomórfica de Deus.

Para Allan Kardec, o mal é a ausência do bem, como o frio é a falta de calor. O mal não é um atributo distinto, assim como o frio não é um fluido especial: um é a negação do outro. Continua Kardec, Deus não quer senão o bem; o mal provém unicamente do homem.

Já Sócrates chamava-o de demônio (vem do grego daimon), através do termo (latino daemonium), onde ele considera um anjo que lhe dá bons conselhos desde a sua infância. Diz ele em Apologia a Sócrates: “Somente que a isso chamam de augúrios, vozes, símbolos, presságios, eu lhe chamo de demônio. (...) A prova é que não minto contra a divindade, ei-la: jamais ao anunciar a bom número de amigos que, perante os desígnios de Deus, fui apanhado em delito de impostura.” A palavra grega eudaimonía, que significa daimon, um bom “demônio”, como Sócrates o tinha, um deus; um espírito protetor. Esta é a concepção grega de felicidade.

O filósofo espírita francês Léon Denis (1846-1927), ratificando a visão de Sócrates, admite que em toda a antiguidade se admitiu a existência dos deuses, expressão por que se designavam os Espíritos puros e elevados, e dos semideuses ou heróis, como pelas palavras demônios ou gênios se entendiam os Espíritos em geral.”

O importante nas afirmações de Denis é que nas correspondências com o mundo invisível, iniciadas com o Apóstolo Paulo, narradas na Epístola aos Coríntios 14:26, as orientações dos Espíritos nem sempre estavam de acordo com o cristianismo nascente. A partir daí, os Espíritos se afastaram dos considerados ortodoxos e se aproximaram dos chamados heresiarcas. A figura do demônio assumiu a característica que se conhece hoje.

Não se sabe quem sequestrou quem. No Brasil, há uma simbiose promíscua entre religião e política, que através de um discurso de ódio se estabeleceu uma verdadeira guerra entre o bem e o mal. O que chama a atenção é que o bloco religioso envolvido nessa trama, longe de defender uma pauta de cristianizar o Brasil, apesar de se  afirmar cristão, pelo amor, pela fraternidade e pela igualdade, prega a perseguição aos profitentes de outras crenças. Agregados à extrema-direita, flertando com o neofascismo e com as lideranças religiosas, inclusive com uma bancada no Congresso bem definida, só se apegam aos costumes e hábitos, alguns medievais. Secretamente, o apoio é negociado sob a base de fiéis que “marcham para Jesus” e quem obtém os benefícios fiscais e previdenciários são as lideranças principais. O Congresso Nacional virou o palco principal dessa luta.

A sociedade, aparentemente, dá conformidade a tudo isso, até pelo simples fato que a exemplo dos que “marcham”, a grande maioria continua sendo influenciada pela mídia ortodoxa.

A liberdade do pensar que Jesus trouxe com a Boa Nova e Lutero buscou em sua Reforma,  está distante dos cristãos brasileiros.

Os espíritas, principalmente os que não se sintonizam com essas correntes do pensamento, têm de seguir o exemplo de Paulo de Tarso, que nos meados do século I d.C., rumou para Jerusalém, onde encontrou os seguidores sobreviventes de Jesus de Nazaré que pregavam doutrina diferente da de Jesus. Foi o primeiro ato ecumênico na história do cristianismo e o ponto inicial a partir de que possamos, hoje, procurar reconstruir a natureza da doutrina de Jesus, bem como os fundamentos morais que ele deixou.

Este é o momento. Resistamos, inspirados em Paulo!

 

 

 

 

 

Referências:

BUBER, Martin. Imagens do bem e do mal. Rio de Janeiro: Vozes, 1992.

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Cia de Bolso, 2009.

DENIS, Léon. Cristianismo e espiritismo. Brasília: Feb, 1992.

JOHNSON, Paulo. História do cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

KARDEC, Allan. A gênese. São Paulo: Lake, 2010.

____________. O céu e o inferno. São Paulo: Lake, 2009.

____________. O livro dos espíritos. São Paulo: Lake, 2000.

LUTERO. Do cativeiro babilônico da Igreja. São Paulo: Martin Claret, 2007.

____________. Da liberdade do cristão. São Paulo: Martin Claret, 1997.

OZ, Amós. Contra o fanatismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

SÓCRATES. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

ESCOPO SOCIAL ESPÍRITA

  Por Doris Gandres                Deolindo Amorim, Léon Denis e Herculano Pires, entre alguns outros do espiritismo contemporâneo, compreenderam o cunho social da doutrina e, sem concessões ou meias palavras, trabalharam arduamente à sua época para despertar o meio e o movimento espírita quanto a essa implicação dos princípios espiritistas.

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

FORA DA JUSTIÇA SOCIAL NÃO HÁ SALVAÇÃO

Diante dos ininterruptos processos de progresso à que estão submetidos os seres humanos, seria uma visão dicotômica não compreender está ação de forma concomitante! Ou seja, o progresso humano não dar-se-á apenas no campo espiritual, sem a ação do componente social na formação do sujeito espiritual que atua na Terra.

A DEMOCRACIA DO TEMPO: A ÚNICA IGUALDADE QUE NINGUÉM PODE EVITAR

  Por Wilson Garcia Existe uma verdade diante da qual desaparecem todas as diferenças: a trajetória humana é finita, embora se desenrole dentro da infinitude.   Todos passam. Os cantores e os poetas. Os artistas e os artesãos. Os cientistas e os agricultores. Os presidentes e os operários. Os milionários e os pobres. Os anônimos e os famosos. Os homens e as mulheres que ocupam as manchetes dos jornais, assim como aqueles cujos nomes jamais serão registrados pela história. Há democracias construídas pelos homens. Há uma, porém, que independe de governos, leis ou ideologias: a democracia do tempo. Diante dela, todos comparecemos em absoluta igualdade.

REFLEXÕES PARA O ANO QUE SE ANUNCIA...

  Sinta, chega o tempo de enxugar o pranto dos homens. Se fazendo irmão e estendendo a mão... Venha, já é hora de acender a chama da vida e fazer a Terra inteira feliz! (A Paz. Homenagem a Paulinho/Roupa Nova)   É bem comum, a cada final de ano, pensarmos sobre o ano que finda e projetarmos expectativas, sonhos e planos para o ano vindouro. Fazer isso é bom! Afinal, pensar sobre o que fizemos, avaliar o que houve de bom e o que precisa ser melhorado pode nos ajudar a depurar nossas ações, para tentarmos ser melhores e, consequentemente, fazer um ano melhor. Santo Agostinho nos ensinou esse exame de consciência. Toda noite, ele passava o dia a limpo, observando seus atos e pensando a melhor maneira de corrigir seus erros e chegar mais perto de Deus.

REFORMAR OU TRANSFORMAR? REFORMA ÍNTIMA OU TRANSFORMAÇÃO ESPIRITUAL?

        Por Marcelo Henrique   O conjunto de elementos que impregnam o conceito de “reforma íntima” repete muitos chavões de culturas e abordagens não espíritas, pertencentes a ideologias religiosas em que há a “obrigação” de seguir certas prescrições, sob pena de… É a cultura do temor, do medo e da culpa. *** Alguns conceitos são entronizados e se enraízam de tal modo em Filosofias que é difícil, depois, retirá-los ou entendê-los na sua real essência. No caso do Espiritismo, eles surgem a partir de alguma declaração – seja de um encarnado, médium ou dirigente, seja de um desencarnado – e vão ficando, ficando… Passam a ser retórica tradicional e, não raro, viram “figurinha fácil” no álbum das condutas humanas. Falemos, pois, de uma delas: a decantada reforma íntima. Onde surgiu? Quem foi o primeiro a mencionar? Em que contexto foi dito? Qual era o alcance? Que objetivos se tinha? Qual a relação deste conceito com o Espiritismo?

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.