Pular para o conteúdo principal

A INVERSÃO DO QUERIGMA: BOLSONARISMO E NEOPENTECOSTALISMO COMO ANTÍTESES SOCIOPOLÍTICAS DO JESUS HISTÓRICO

 

 


Por Jorge Luiz

  

         O Escândalo do Banco Master como sintoma da inversão.

            Em outro momento defini a relação entre o status político chamando eufemisticamente de extrema-direita, simbolizada aqui como bolsonarismo e o neopentecostalismo, como uma “simbiose promíscua”. O escândalo do Banco Master, oferece uma nova definição, resultante dessa simbiose, que agora defino-a como “escândalo ontológico”, por não se constituir em um mero desvio ético de indivíduos isolados. Para alguns, como Glair Arruda, essa simbiose pode ser interpretada como cristofascismo, fenômeno que não é novo, mas ganhou proeminência nos anos de recrudescimento de uma ideologia de extrema direita especialmente nos Estados Unidos e Brasil (Passos, 2025). A definição de Arruda, ela mesma reforça a conceituação, ao admitir que o líder que se autoproclama como o salvador da pátria, permeando o imaginário popular, de acolhimento das massas, geralmente urbanas e abrangendo em igual potência o imaginário bíblico protestante/evangélico/pentecostal (idem). Aqui, o messianismo encontra a sua contraparte no cristofascismo, numa circularidade onde a religião implícita – o poder religioso – se alterna com a religião explícita – a religião no poder (Arruda, apud Passos, 2024).

            O que se pode notar é que no balcão dessa instituição, o Querigma – o anúncio original do cristianismo – sofre uma inversão definitiva, o Banco Master se evidenciou como a catedral da “Confiança em Mamom”.

            Se no balcão da instituição o Querigma é invertido, é porque ali se materializa a tese de Walter Benjamin: o capitalismo não é apenas uma economia, mas uma religião puramente cultual, a mais extremada e impiedosa já existente. Trata-se de um culto sans rêve et sans merci (sem sonho e sem piedade), que não conhece 'dias úteis' porque exige a mobilização total e permanente do adorador em torno da mercadoria (2013).

            Diferente do cristianismo histórico, este sistema não oferece expiação, mas uma culpabilização universal. É um movimento monstruoso que martela a culpa na consciência do fiel — transmutada em dívida ou insuficiência financeira — para, ao fim, envolver o próprio Deus nesse ciclo de cobrança. No Ocidente, o capitalismo desenvolveu-se como um parasita do cristianismo, alimentando-se de suas estruturas e símbolos até que a história da religião se tornasse, essencialmente, a história de seu próprio parasita. O escândalo do Banco Master é, portanto, a face visível desse parasitismo absoluto, onde a divindade só é invocada no zênite da culpabilização do endividado. Na época da Reforma, diz Benjamim, o cristianismo não favoreceu o surgimento do capitalismo, mas se transformou no capitalismo (2013).

            É neste ponto que o “escândalo ontológico” atinge seu estágio mais nefasto. O neopentecostalismo contemporâneo, ao transfigurar-se na religião cultual de Benjamin, deixa de se realizar como experiência de fé para operar como uma seita econômica de demandas criminosas. Amparada pela Teologia da Prosperidade — essa importação ideológica que santifica o lucro —, utiliza o estatuto de religião como um salvo-conduto jurídico diante do Estado.   Gozando de um conforto jurídico que beira a cumplicidade institucional, o movimento circula por labirintos financeiros sem o incômodo da lei, uma vez que a política não apenas tolera essa promiscuidade, mas dela se nutre para a manutenção do seu projeto de poder. O Estado, ao proteger o 'sagrado' de fachada, acaba por blindar a fraude ontológica de uma fé que já não serve a Deus, mas aos fluxos de caixa.

 

         O Jesus "Desclericalizado"

            A fé, no contexto aqui apresentado, revela-se na passagem em que Jesus adverte — sempre sob o propósito de uma transformação radical — que seus discípulos são o “sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens” (Mt 5:13). Chouraqui alerta para as interpretações teológicas que consideram o sal tornar-se insosso, algo quimicamente impossível; outros atribuem o fenômeno às impurezas do sal do Mar Morto. No pensamento de Jesus, atesta Chouraqui, o verdadeiro sentido da frase não reside no mineral, mas na comunidade de seus ouvintes, representantes de Israel, povo de Adonai. Se esse povo enlouquecer, quem executará a missão de transformar o mundo? (1996). E está enlouquecido.

            Certamente, o que se testemunha no cenário religioso brasileiro contemporâneo é o enlouquecimento daqueles que se afirmam cristãos, fruto de um clericalismo institucional que transmuta a vocação profética em mera gestão de interesses. A engenharia desse enlouquecimento reside na transmutação da fé em forma-mercadoria. No ecossistema desse ”escândalo ontológico” o fetiche substitui a presença: a bênção deixa de ser o anúncio da Beshorá (Boa Nova) para tornar-se um ativo financeiro precificado. É o ápice da antítese: o sacrifício, que na raiz de Chouraqui representava a doação do Ish (o humano) em prol da Tsedacá (justiça), é aqui invertido em investimento.

            O fiel, capturado por esse culto “sem sonho e sem piedade”, já não busca a transformação do mundo, mas a liquidez de sua oferta. Sob um clericalismo asfixiante, a igreja deixa de ser o espaço do comum para converter-se no balcão de um banco espiritual, validando a face mais terrível do parasitismo de Benjamin: um sistema onde o Deus oculto é invocado apenas para assinar o contrato da própria alienação. O que se atesta, portanto, não é uma evolução dos conceitos de Jesus na dialética ou na práxis, mas uma ruptura ontológica e conceitual que sequestra a gramática cristã para viabilizar objetivos escusos.

 

         A "Afinidade Eletiva" do Poder e a Seita Econômica

            A consolidação do messianismo no imaginário popular e sua subsequente mutação em cristofascismo, estruturam-se através de uma engenharia de dois pontos fundamentais:

A.   A Gênese da Expectativa: O fenômeno nasce de uma crise social precedente que evoca a imagem bíblica do "libertador régio". É o anseio por um enviado de Deus que venha restaurar a ordem, criando o cenário ideal para a ascensão do cristofascismo.

  1. O Método de Domínio: O libertador não se apresenta apenas como líder político, mas como um guerreiro metafísico, o "vencedor do anticristo". Seu poder absoluto não conhece fronteiras, deslocando-se do altar religioso para ocupar a centralidade do poder político (Arruda, 2024).

            O que separa esses dois conceitos é a passagem da esperança para a encarnação:

1.    Messianismo vs. Cristofascismo: Enquanto o messianismo traduz a expectativa popular alimentada por sucessivos fracassos econômicos, o cristofascismo designa a figura do líder que se apropria dessa dor. Ele se autoatribui o título de libertador, alegando ser o cumprimento vivo das profecias.

2.    A Ausência de Projeto: O líder cristofascista é um simulacro: ele não apresenta plano de governo, propostas de liderança ou novas interpretações teológicas. Ele é pura performance de poder, considera algumas regras, costumes morais e símbolos nacionais.

3.    A Des-solidarização Meritocrática: Nos cultos neopentecostais, a liturgia é a do triunfo. Celebra-se o "vencedor" enquanto se formata a comunidade para a completa des-solidarização com os "perdedores". Nesse ponto, o cristofascismo encontra sua simbiose perfeita com a meritocracia neoliberal: a fé é usada para validar a exclusão e sacralizar o sucesso individual em detrimento do bem comum (Arruda, apud Moreira, 2024). A fé não foi suficiente e o fiel perdeu a aposta.

             A ausência de projeto e a fundamentação na pura performance revelam o que Bertrand Russell define como Poder Nu (Naked Power). Trata-se do estágio onde o poder se despoja de qualquer roupagem de legitimidade tradicional, legal ou moral, sustentando-se exclusivamente na força do domínio psicológico e na obediência incondicional. No contexto do cristofascismo, o poder está "nu" porque não presta contas a um plano de governo ou a uma ética pública; ele se impõe como um fim em si mesmo.

            Ao transbordar do espaço religioso para o político sem o anteparo de propostas concretas, esse messianismo opera uma estrutura de poder paralela que ignora as demandas da realidade. O líder não precisa governar; ele precisa apenas exercer o domínio, transformando a máquina do Estado em um prolongamento da sua vontade "divinizada". Assim, o Poder Nu de Russell encontra na simbiose neopentecostal o seu combustível perfeito: o medo do "anticristo" justifica a força, e a unção divina substitui a competência administrativa.

            É fundamental notar que essa afinidade eletiva entre o cristofascismo e o capital é a antítese radical daquela estudada por Löwy no Cristianismo de Libertação. Se nesta última a fé se aliava ao marxismo para denunciar a opressão e buscar a justiça social (Tsedacá), na simbiose atual ocorre o inverso: a gramática religiosa é sequestrada pelo espírito do capitalismo para sagrar a exclusão. Enquanto o Cristianismo de Libertação buscava 'desclericalizar' o poder para servir à base, o Cristofascismo clericaliza o mercado para dominar a massa. O que se vê no Brasil não é apenas uma nova religião, mas uma contra-revolução teológica que visa anular qualquer resquício de solidariedade profética em favor da adoração ao sucesso individual.

            Nesse escopo, a Teologia do Domínio atua como o suporte ideológico que converte a fé em um projeto de ocupação territorial e institucional. Ao pregar que os "eleitos" devem assumir o controle das esferas de poder — política, economia e justiça —, ela oferece a roupagem sagrada para o Poder Nu e justifica o autoritarismo como uma necessidade de "guerra santa". É a negação frontal da ética do Jesus Histórico: enquanto o Mestre afirmava que seu reino não era deste mundo, essa teologia busca fundar um reino de dominação absoluta, onde a estrutura do Estado é sequestrada para servir a uma agenda de exclusão e controle social.

                    

         A Bolsonarismo: O Nacionalismo como Idolatria

            Aqui, a análise de Bertrand Russell sobre o Poder Nu revela a face política dessa antítese. Quando um movimento propõe uma estrutura de poder que ignora as demandas reais de governo para se sustentar apenas na mobilização do medo e na autoridade absoluta, o poder está 'nu'. O “escândalo ontológico” não apresenta um projeto de nação, mas um projeto de domínio. As propostas para a população são esvaziadas de substância social e preenchidas com o fetiche da ordem armada e da prosperidade mágica, consolidando um poder que, por ser paralelo e sectário, não presta contas à República, mas apenas à sua própria sobrevivência.

         O slogan de campanha de Jair Bolsonaro, “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo, 8:32), é uma das passagens mais célebres de Jesus, referindo-se a liberdade dos que comungam com seus ensinamentos, fundamentais para libertação espiritual e intelectual, onde o conhecimento dos seus ensinos liberta as pessoas do engano, do medo e da escravidão do pecado.             A partir do seu prenome composto, Messias, encontrado em algumas passagens na Bíblia,  associa-o à figura de Jesus, quando um pastor congolês, radicado na França, confirmou que ele representava para o Brasil, comparando-o a Ciro, rei Persa, responsável para retirar o povo de Deus do exílio. Como Ciro, vai surgir a condição de ungido para o ex-presidente. Aliás, essa terminologia vem sendo, recorrentemente, atribuída a determinados indivíduos, inclusive políticos, ficando todas as suas iniciativas inspiradas pelo Todo-poderoso. Enfim, esses e outros condicionantes cristológicos sobre a figura do ex-presidente, fazem-no, ora como messias político religioso, ora como um servo sofredor que governa no calvário, reforça seu projeto de cristofascista brasileiro. O neologismo cristofascista foi cunhado pela teológa alemã, Dotrothee Sölle, conceitua-o como um projeto de “traição aos pobres”, na realidade, uma arma poderosa para a serviço dos poderosos (1).

            O que é notável no líder cristofascista, é que ele se utiliza da democracia para alcançar o poder, para em seguida destruí-la, vimos isso no Brasil nos episódios de 8 de janeiro de 2023.

            Como a retórica armamentista e a exclusão do "outro" (o inimigo ideológico) colidem com a ética da não-violência e do amor ao inimigo do Jesus Histórico. É fácil, pois, de se constatar que o Jesus do cristofascismo não é uma evolução, mas uma antítese; um simulacro que ultrapassou o Jesus histórico — o servo humilde e esvaziado de poder — para se tornar o capitão de um exército de exclusão (2025).

           

         Ontologia da Mercadoria e o Neopentecostalismo

         Nesta estrutura, a fé sofre um processo de reificação, onde o sagrado é reduzido à categoria de mercadoria. O Fetiche da Bênção, lido sob a ótica de Marx, revela que a graça divina, outrora imensurável, foi convertida em capital espiritual passível de negociação. Assim como o fetiche da mercadoria oculta as relações sociais de exploração, o "fetiche da bênção" mascara a anomia e a desigualdade, apresentando o sucesso financeiro como um fenômeno puramente espiritual, desvinculado das estruturas de poder.

            Opera-se aqui a Antítese do Sacrifício: enquanto o cristianismo histórico — fundamentado no Jesus de Nazaré — propõe o sacrifício do "eu" (a kénosis) em prol da alteridade e da justiça social (Tsedacá), o neopentecostalismo de mercado exige o sacrifício financeiro (a oferta) como combustível para o sucesso individual. É a vitória definitiva da ontologia do ter sobre a ontologia do ser. O fiel, capturado por esse animismo do capital, não mais busca a comunhão ou a transformação íntima, mas a liquidez espiritual necessária para realizar seus desejos materiais. O "sacrifício" no altar não é mais uma entrega de amor, mas um investimento de risco em uma corretora de valores metafísica.

O neopentecostalismo, ao transfigurar-se em seita econômica, revela-se como a manifestação histórica da advertência do apóstolo João: os anticristos que "surgiram do nosso meio". Ao sequestrarem o nome de Jesus para validar o Poder Nu, a exclusão meritocrática e o parasitismo financeiro do Banco Master, esses movimentos provam que, embora usem a veste cristã, não pertencem à essência do Jesus Histórico. O cristofascismo é, portanto, a antítese definitiva; é o sal que, ao enlouquecer, não apenas perdeu o sabor, mas tornou-se o instrumento de opressão da última hora.

            1. A Anatomia do Anticristo: O Simulacro no Altar

            O realce necessário à figura do Anticristo reside na compreensão de que ele não é um invasor, mas um usurpador. Ao contrário do que propaga a retórica neopentecostal — que gasta energias projetando essa sombra em figuras externas ou instituições históricas —, o texto joanino é implacável: o Anticristo "sai do nosso meio".

  • 1.1. O Anticristo como Negação da Ética na Afirmação do Nome: O maior triunfo do Anticristo contemporâneo é o uso obsessivo do nome de Jesus para validar a negação absoluta do seu Evangelho. Ele é, por definição, o Simulacro. Enquanto o Jesus Histórico desclericaliza o acesso ao Pai e personifica a Tsedacá (justiça), o Anticristo clericaliza o mercado e personifica o lucro. Ele não nega a existência de Cristo; ele nega a Vontade de Cristo, substituindo o "Caminho" por um balcão de negócios.
  • 1.2. A Inversão do Querigma: Da Vida à Forma-Mercadoria: O realce aqui é profundo: o Anticristo opera uma alquimia invertida. Ele pega o Querigma — o anúncio da vida abundante e da liberdade espiritual — e o transfigura em forma-mercadoria. Nesse processo, a fé deixa de ser uma experiência de libertação da alma para se tornar um ativo financeiro. O "pedágio para o céu" é a marca visível dessa operação: a salvação não é mais um estado de consciência alcançado pela evolução (como ensina a Cosmossociologia Espírita), mas um produto com preço de etiqueta, vendido na "Catedral da Confiança em Mamom".
  • 1.3. O Espantalho do Inimigo Externo: Para ocultar sua própria face, o Anticristo neopentecostal precisa do "inimigo externo". Ele aponta para o Papa, para o secularismo ou para as ideologias, criando uma cortina de fumaça moralista. Esse medo fabricado é o combustível do Poder Nu de Russell: um povo aterrorizado pelo "Anticristo imaginário" não percebe que está sendo governado pelo Anticristo real — aquele que substituiu a solidariedade cristã pela meritocracia cruel do fluxo de caixa.

            Dessa forma, o slogan 'Deus, Pátria e Família' ressurge não como uma expressão de fé, mas como um eco sombrio de movimentos como o Integralismo brasileiro e o Nazismo de Hitler, que historicamente esvaziaram esses conceitos de qualquer ética humanista para transformá-los em ferramentas de segregação e propaganda. Sob o domínio do 'Anticristo real', o slogan é sequestrado para servir como um selo de exclusão: Deus é reduzido ao garantidor do fluxo de caixa; a Pátria, transfigurada em reduto de um nacionalismo idólatra; e a Família, utilizada como escudo moralista para proteger uma estrutura de privilégios que ignora a fraternidade universal e a justiça do Jesus Histórico.

 

         O Retorno à Raiz

            Em última análise, o que se testemunha não é uma disputa de narrativas políticas, mas uma profunda anomalia social e religiosa. Como anteviu Peter Drucker, o futuro da humanidade depende da capacidade de conferir sentido às sociedades através da compreensão da origem, natureza e destinação do ser — uma ciência que encontra eco na Doutrina Espírita, mas que é violentada pela anomia contemporânea.

            Nesse horizonte, a Sociologia Espírita, como preconizada por J. Herculano Pires, revela-se como a chave para a superação desse caos. Diferente das sociologias puramente horizontais, a visão espírita entranha-se na própria ordem cósmica, compreendendo o ser humano não como um átomo isolado, mas como um cidadão do universo em processo de evolução. Esse entrosamento fundamenta-se no binômio da paligenesia e da mediunidade: enquanto a reencarnação estabelece a justiça sucessiva e a continuidade do aprendizado, a mediunidade restaura o intercâmbio orgânico com o invisível, quebrando o monopólio dos atravessadores da fé. Sem essa compreensão da lei biossocial que rege a imortalidade, qualquer tentativa de reconstrução social permanecerá refém do imediatismo e das fraudes do espírito.

            O neopentecostalismo, ao transfigurar-se em seita econômica, revela-se como a manifestação histórica da advertência do apóstolo João: os anticristos que "surgiram do nosso meio". Ao sequestrarem o nome de Jesus para validar o Poder Nu, a exclusão meritocrática e o parasitismo financeiro do Banco Master, esses movimentos provam que, embora usem a veste cristã, não pertencem à essência do Jesus Histórico. O cristofascismo é, portanto, a antítese definitiva; é o sal que, ao enlouquecer, não apenas perdeu o sabor, mas tornou-se o instrumento de opressão da última hora.

            O que testemunhamos é o encontro trágico entre uma política sem ética, uma religião sem Querigma e uma sociedade sem bússola ontológica. O triunfo do cristofascismo é, em última análise, a vitória da anomia sobre o Ser. Somente o resgate da compreensão cósmica da vida — onde a reencarnação restabelece a justiça e a mediunidade restaura o diálogo com a Verdade — poderá devolver ao 'sal' a sua capacidade de salgar, libertando o homem do simulacro para devolvê-lo à sua real destinação.

 

Referências:

BENJAMIN, Walter. O Capitalismo como religião. São Paulo; Boitempo. 2013.

CHOURAQUI, André. A Bíblia – matyah – o evangelho segundo mateus. Rio de Janeiro; Imago, 1996.

LÖWI, Michael. Cristianismo de libertação – religião e política na américa latina. São Paulo; Expressão Popular, 2016.

PASSOS, João D. Teologia do domínio e usos de deus na política. São Paulo; Ideias & Letras, 2025).

Notas:

(1)https://www.ihu.unisinos.br/categorias/589884-cristologia-cristofascista-de-bolsonaro

 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O texto propõe que o escândalo financeiro do Banco Master não é um mero desvio de conduta individual, mas um "escândalo ontológico" — a manifestação visível de uma fusão profunda e promíscua entre a extrema-direita política (bolsonarismo) e o neopentecostalismo de mercado.

    O autor constrói sua crítica sobre três pilares principais:

    A Inversão do Sagrado (Capitalismo como Religião): Apoiando-se em Walter Benjamin, o artigo argumenta que o ecossistema neopentecostal e a Teologia da Prosperidade transformaram a fé em "forma-mercadoria". O Querigma (a boa-nova cristã) é invertido: o templo vira banco, a bênção vira ativo financeiro e o Deus histórico é substituído pelo culto a Mamom (o dinheiro), onde o sucesso é divinizado e o endividado é culpabilizado.

    O Cristofascismo e o "Poder Nu": Utilizando conceitos de Dorothee Sölle e Bertrand Russell, o texto aponta para a ascensão de um "simulacro de Messias". Esse líder político-religioso utiliza a estrutura de fé para exercer um "Poder Nu" — sem projeto real de governo ou ética pública, sustentando-se na performance, no medo de um inimigo imaginário e na blindagem jurídica dada pelo estatuto religioso. É a antítese do Jesus Histórico.

    A Saída Ontológica (A Perspectiva Espírita): Na conclusão, o texto recorre à Sociologia Espírita (Herculano Pires) e a Peter Drucker para diagnosticar uma "anomia" (ausência de bússola moral e social). Propõe que a superação desse "enlouquecimento" coletivo e a retomada da verdadeira solidariedade profética dependem de uma compreensão cósmica do ser, fundamentada na reencarnação (justiça sucessiva) e na mediunidade como forma de quebrar o monopólio dos "atravessadores da fé".

    Em suma: O artigo diagnostica o cenário atual como uma "contra-revolução teológica", onde o mercado foi clericalizado para dominar as massas. Ao sequestrar a gramática cristã para validar a exclusão meritocrática e o poder político, o movimento se desvincula da essência evangélica, tornando-se o "sal que perdeu o sabor" e virou instrumento de opressão.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

JESUS CONOSCO

OCristianismo nascente foi alicerçado através da ajuda considerável da Espiritualidade Superior. Os Espíritos, sob a tutela do Cristo, assessoraram os primeiros cristãos, auxiliando-os na grande tarefa de difundir o Evangelho para todas as criaturas. O escritor da Epístola aos Hebreus dizia que uma “nuvem de testemunhas” rodeava-lhe e aos seus discípulos (12:1). O mesmo autor denomina Deus como “Pai dos espíritos” (Hebreus 12:9) e exorta os primeiros seguidores do Cristo a “obedecerem aos guias, sendo obedientes para com eles, já que velam por suas almas” (Hebreus 13:17). É claro que fala de guias espirituais, já que alerta que Todos deveriam “lembrar-se deles, imitando a fé que tiveram” (Hebreus 13:7) e enfatiza que “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo, e o será para sempre” (Hebreus 13:8).

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

O ESPIRITISMO DE VIDRO: O MEDO DO CONFLITO E A FALSA MANSIDÃO

       Por Jorge Luiz                    A Redoma de Vidro e o Estereótipo Anestesiado             Existe uma coreografia muito bem ensaiada nos salões do espiritismo hegemônico contemporâneo. Ela é composta por tons de voz milimetricamente sussurrados, sorrisos condescendentes que flutuam acima das misérias do mundo e uma gramática da passividade que confunde o torpor com a iluminação. Criou-se uma caricatura de santidade, um verdadeiro "espectro" encenado onde o indivíduo adota uma persona ritualística: distribui abraços, beijos e tapinhas nas costas dentro dos limites do centro espírita, mas desliga o afeto institucionalizado assim que cruza a porta de saída. Esse "bom espírita" tornou-se aquele sujeito plasticamente pacificado, incapaz de se alterar diante da injustiça, que assiste ao desmonte dos direitos sociais mais básicos da janela de seu apartam...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

CANDOMBLÉ, ESPIRITISMO E A LIBERDADE DE SER: O QUE A FALA DE MAJUR NOS ENSINA

  Por Wilson Garcia   A entrevista que a cantora Majur deu ao programa  Desculpa Alguma Coisa , com Tati Bernardi, vai muito além de um papo sobre música ou carreira. O que ela compartilhou ali é uma oportunidade rara para a gente refletir sobre coisas profundas: liberdade de consciência, identidade espiritual, pertencimento e intolerância religiosa.               Quando Majur conta como se aproximou do Candomblé, não está falando só de uma escolha religiosa. Ela fala de um processo de emancipação pessoal. Ao dizer que deixar o ambiente evangélico não significou abandonar Deus, mas sim se libertar de uma prisão, ela expõe algo que muita gente vive: a busca por uma espiritualidade que faça sentido com quem a gente realmente é.

ESPÍRITAS: CONTRADIÇÕES E ATAVISMOS

          De maneira recorrente vê-se sendo utilizada a classificação de espíritas progressistas , muito embora não se encontre essa denominação nas classes de espíritas didaticamente elaboradas por Allan Kardec. Na realidade, o termo pode em um primeiro momento parecer redundante, tendo em vista que o Espiritismo é uma doutrina essencialmente progressista. Leia-se o que Kardec comenta à pergunta 783 de O Livro dos Espíritos : Sendo o progresso uma condição da natureza humana, ninguém pode se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem retardar, mas não asfixiar.”           Em um segundo momento, a expressão converge para o movimento progressismo, que se opõe ao conservadorismo. O progressismo está vinculado à concepção de progresso, que na definição de Norberto Bobbio, em seu Dicionário de Política, é

16.11 - DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Jesus, Mt, 22:34-40)                            John Locke (1632-1704), filósofo inglês, com o propósito de apaziguar católicos e protestantes, escreveu em 1689, Cartas sobre a Tolerância. Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, impactado com o episódio ocorrido em 1562, conhecido como Massacre da Noite de São Bartolomeu , marcado pelos assassinatos de milhares de protestantes, por fiéis católicos, talvez inspirado por Locke, em 1763, escreveu o Tratado sobre a Tolerância.             Por meio da  UNESCO¹, em sua 28ª Conferência Geral, realizada de 25.10 a 16.11.1995, com apoio da Carta das Nações Unidas que “declara a necessidade de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,...a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e...

CONSIDERAÇÕES SOBRE A MORAL ESPÍRITA: A AUTONOMIA

                Por Maurício Zanolini               O psicólogo do desenvolvimento Yves de La Taille estuda o o processo de aprendizagem da moral nas sociedades humanas. Ele explica que a moral é a restrição da liberdade dos indivíduos para que possam viver em sociedade e que cada sociedade desenvolve seus próprios códigos de conduta. A família portanto é o núcleo mais básico onde esse código será vivenciado pela criança que está aprendendo a moral. Mas para além da família, a religião, a cultura e as tradições que compõe o que é socialmente aceito para um determinado agrupamento de pessoas, serão as influências responsáveis pela formação moral da criança. Podemos incluir a escola e o Centro Espírita nesse círculo de influências formativas.

O APARELHO PSÍQUICO - Uma proposta a partir da obra de André Luiz

Por Roberto Lúcio (*) Um estudo sobre a visão espírita da mente deve iniciar com as informações das obras de André Luiz, psicografadas por Chico Xavier e Waldo Vieira. As principais anotações encontram-se no livro “No Mundo Maior”, capítulo 03, ditado ao médium Chico Xavier. No entanto, em vários tópicos de suas obras encontram-se informações preciosas a serem apreciadas. No capítulo, André Luiz retrata o cérebro em três grandes áreas, como a biologia já indicava, mas ampliando a abordagem sob o ponto de vista espiritual. É necessário lembrar que uma divisão do aparelho psíquico em três grandes áreas já estava também presente nos textos de Freud, o grande estudioso e criador da Psicanálise. A Neurociência vem, nos últimos anos, avançando suas pesquisas na compreensão de certos aspectos da vida psíquica, clareando certas colocações freudianas, o que deu campo para a criação de uma nova subespecialidade: a neuropsicoanálise.    Não se pode negar ...

"FOGO FÁTUO" E "DUPLO ETÉRICO" - O QUE É ISSO?

  Um amigo indagou-me o que era “fogo fátuo” e “duplo etérico”. Respondi-lhe que uma das opiniões que se defende sobre o “fogo fátuo”, acena para a emanação “ectoplásmica” de um cadáver que, à noite ou no escuro, é visível, pela luminosidade provocada com a queima do fósforo “ectoplásmico” em presença do oxigênio atmosférico. Essa tese tenta demonstrar que um “cadáver” de um animal pode liberar “ectoplasma”. Outra explicação encontramos no dicionarista laico, definindo o “fogo fátuo” como uma fosforescência produzida por emanações de gases dos cadáveres em putrefação[1], ou uma labareda tênue e fugidia produzida pela combustão espontânea do metano e de outros gases inflamáveis que se evola dos pântanos e dos lugares onde se encontram matérias animais em decomposição. Ou, ainda, a inflamação espontânea do gás dos pântanos (fosfina), resultante da decomposição de seres vivos: plantas e animais típicos do ambiente.