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O MENDIGO E O VEREADOR: O SER OU O POLÍTICO?



"Mendigo não tem que votar. Mendigo não faz nada na vida. Ele não tem que tomar atitude nenhuma. Aliás, eu acho deveria até virar ração para peixe"
(José Paulo Carvalho de Oliveira, vereador pelo PT do B
- Barra do Piraí – RJ)




Por Jorge Luiz (*)



           
                  Maioria dos políticos brasileiros são ignaros ao ponto de não se darem conta do que representam as manifestações que ocorrem praticamente em todo o Brasil desde o dia 16 de junho deste ano. Não se dão conta sequer para com os seus deveres de cidadão e do mandato a que foi revestido por vontade popular, que contempla dentre outras, a principal atribuição: trabalhar em função da melhoria da qualidade de vida da população, elaborando leis, recebendo o povo, atendendo às reivindicações, desempenhando a função de mediador entre os habitantes e os três poderes instituídos.
            Parece que o vereador José Paulo, autor da declaração que inspira o presente artigo desconhece esta atribuição.
            Na realidade, as palavras e atitudes do vereador, mesmo se ditas sob forte emoção, ultrajam os princípios inalienáveis de liberdade, igualdade e justiça inerentes a todos os membros da família Humana, insertos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948.  

            O edil, no entanto, expõe o abismo social e os valores espirituais que regem a Opera Mundi dos desafortunados do mundo e a maioria daqueles que detêm o poder e a riqueza.
            Dados recentes divulgados da economia mundial mostram o mapa da desigualdade em 2013: 0,7% da população detém 41% da riqueza mundial. Em valores acumulados, a riqueza mundial atingiu neste ano o recorde de todos os tempos: US$241 trilhões. Se este valor fosse distribuído de forma equitativa pela população mundial, a média da riqueza seria de US$51.600/pessoa, equivalentes a R$112.373,00 (dólar cotado a R$2,182).
            Mesmo com todo o crescimento da riqueza mundial, a desigualdade social continua com índices elevados. Os 10% mais ricos do planeta detêm atualmente 86% da riqueza mundial. Destes, 0,7% da população detêm US$98,7 trilhões de dólares.

            Agora pasmem: segundo projeção dos pesquisadores do Banco Credit Suisse o Brasil está entre os países em que o crescimento dos milionários em 2013 ocorrerá na ordem de 84%.
            Ainda no Brasil, 3,5 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza em 2012, segundo dados do Instituto de Pesquisa Economia Aplicada (IPEA).  Apesar disto, 15,7 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha da pobreza em 2012, isto é, sobreviviam com menos de R$150,00/mês (R$5,00/dia). Outras estimativas apontam que há 1,8 milhões de moradores de rua em todo território brasileiro.
            Em “O Livro dos Espíritos”, questão nº 877, os Reveladores Celestiais afirmam que a primeira de todas as obrigações particulares da vida em sociedade é “respeitar os direitos dos semelhantes; aquele que respeita esses direitos será sempre justo. (...)”. Já na questão nº 879, eles acentuam que o caráter do verdadeiro homem justo seria o de seguir o exemplo de Jesus, “porque praticaria também o amor ao próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça.” Na questão nº 880, afirmam que o primeiro de todos os direitos naturais do homem é o de viver.
            É fácil de se entender que a observância dos princípios de justiça, amor e caridade em nosso Planeta estão ainda distantes do necessário para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
            A ambição é quase sempre o moto diretor das pessoas que se alçam a concorrer a poder político ou profissional. Os seres humanos são por natureza ambiciosos por várias razões, algumas delas saudáveis e positivas, pois são embaladas pela lei do progresso.
            À época de Jesus, a expectativa que se tinha dele não era diferente. Os próprios discípulos discutiam entre si sobre quem seria a figura mais importante no reino político que seria criado por Jesus. É emblemática a passagem da mãe dos filhos de Zebedeu que pede a Jesus que seus filhos Tiago e João - que se assentem em seu Reino, um a direita e outro a esquerda. Jesus responde:

“Sabeis que os príncipes das nações dominam os seus vassalos, e que os maiores exercitam sobre eles o seu poder. Não será assim entre vós; mas aquele que quiser ser o maior, esse seja o vosso servidor, e o que entre vós quiser ser o primeiro, seja o vosso escravo; assim como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em redenção de muitos. (Mt, 20-28).”

            Jesus estava sempre disposto a renunciar qualquer coisa politicamente correta para preservar o seu poder pessoal. O poder pessoal deve ser sempre motivado pelo amor. Por isso Jesus priorizou o Ser e não a política, quando disse: 
“o maior entre vós será o vosso servo”. (Mt, 23:11).
            Assim deve ser a maneira de se viver o poder pessoal que refletirá no poder político.  
        Allan Kardec, em O Credo Espírita, inserido em Obras Póstumas, facilita o entendimento:

“Por melhor que seja uma instituição social, sendo maus os homens, eles a falsearão e lhe desfigurarão o espírito para a explorarem em proveito próprio. Quando os homens forem bons, organizarão boas instituições, que serão duráveis, porque todos terão interesse em conservá-las.”

            Enquanto isto não acontece, ouçamos Jesus novamente (Mt, 25:40):

“Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”


Post Scriptum: Barra do Piraí tem mais de 70 mil eleitores. O vereador José Paulo Carvalho de Oliveira obteve 322 votos, e cumpre o seu primeiro mandato. No dia 29.10.2013, quando já havia produzido o artigo, concedeu entrevista a um portal de notícias e reconheceu o erro. Segundo ele, há 17 anos seu irmão acolheu em sua residência um andarilho, um mendigo com crianças. Seis meses depois o mendigo assassinou seu irmão.

(*) livre-pensador, blogueiro e voluntário do Instituto de Cultura Espírita - ICE.

Comentários

  1. Francisco Castro de Sousa31 de outubro de 2013 às 18:42

    JORGE, INTERESSANTE ABORDAGEM. A DOUTRINA ESPÍRITA SE APLICA A TODAS AS SITUAÇÕES DA NOSSA EXISTÊNCIA. ESPERO QUE OS LEITORES COMPREENDAM. PARABÉNS.

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  2. Amigo Jorge, temos um ano para fazer valer o nosso propósito de fazer esse país entrar nos trilhos. O Brasil e os brasileiros precisam de um choque de grande voltagem para despertarmos dessa realidade perversa que aflige o nosso território de existência. Provavelmente não devamos repetir a mesma estratégia de outros tempos diante das urnas sob a crença de "boas almas' chegarem lá para fazer mudanças. Temos que fazer valer os nossos DIREITOS e DEVERES para, em nome da Caridade, verdadeiramente mostrarmos o quanto todos estamos insatisfeitos com o rumos que pensamos coletivamente até agora. Roberto caldas

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  3. Castro e Roberto!
    Grato pelos registros!
    O Castro utilizou a expressão "Espiritismo Aplicado" para abordagens da espécie - fatos do cotidiano - que devemos refletir à luz da Doutrina Espírita. Esperamos que os leitores saúdem a iniciativa.

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    Respostas
    1. Francisco Castro de Sousa1 de novembro de 2013 às 18:03

      Concordo Roberto, mas sem Black e sem Block, só com o voto!

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  4. Jorge, irmão:
    Parabéns. Teus textos são sempre bem construídos.
    Para os políticos, semelhantes e próximos, são referências que eles trocam apenas quando diz respeito a eles próprios. Povo, está num plano real infinitamente cego, não se vê.
    Deusimar Apoliano

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