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| Panorâmica do evento que reuniu 2.500 homens na Paróquia da Glória - Fortaleza CE. |
Jorge Luiz
O Diagnóstico da Falência: A Mutilação em Números
Os dados do Ministério da Previdência Social e do Ministério Público do Trabalho (MPT) revelam um cenário de terra arrasada: um aumento alarmante de 823% nos afastamentos por Burnout e um salto de 438% nas denúncias relacionadas à saúde mental. Entretanto, esses números são apenas a ponta de um iceberg vinculado ao emprego formal; a realidade nacional é ainda mais perversa se olharmos para as periferias, onde multidões sitiadas pela privação e pela ausência de esperança acabam cooptadas pelo apelo à misericórdia divina das igrejas. Diante desse quadro, a recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) pelo Governo Federal surge como uma confissão oficial de que o ambiente corporativo se tornou patogênico. Contudo, as novas punições por riscos psicossociais são meros 'curativos' em uma estrutura que exige produtividade máxima à custa da desintegração do Perispírito ou Modelo Organizador Biológico (MOB).
A situação não é privilégio do Brasil, no mundo mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais, sendo a ansiedade e a depressão as mais comuns, afetando significativamente a qualidade de vida. A OMS destaca um aumento de 25% nesses casos no pós-pandemia, com o Brasil figurando entre os países mais ansiosos e estressados, enfrentando desafios crônicos de acesso a tratamento.
Enquanto as amígdalas na faringe defendem o corpo contra patógenos externos, a amígdala cerebral opera como o sentinela do medo. No cenário do Burnout, ela é hiperativada pelas incertezas sociais e pela pressão sistêmica, disparando sinais ininterruptos de perigo. Essa hiperestimulação não apenas exaure o sistema imunológico, mas sequestra a capacidade de discernimento, com o sequestro da amígdala, desativa o córtex pré-frontal, que é a sede da nossa racionalidade e planejamento. Isso reforça a ideia de que o trabalhador exausto perde a capacidade de análise crítica, transformando o local de trabalho em um campo de batalha biológico
Nesse sentido, esses números são a manifestação clínica da "mutilação biossocial", um enraizamento doente onde a alma, asfixiada pela ausência de tempo e afeto, entra em entropia e retira sua vitalidade do corpo. É sob essa ótica que compreendemos que, se na modernidade sólida o sofrimento psíquico estruturava-se em torno do recalque...
Em última análise, o sofrimento psíquico estruturava-se em torno do recalque e da interdição, na gramática neoliberal o adoecimento assume uma face mais insidiosa: a subjetividade do gozo. Sob o imperativo do desempenho, o sujeito não é mais freado por um 'não' externo, mas impulsionado por um 'sim' tirânico que exige a exploração absoluta de si. Nesse cenário, o delírio deixa de ser apenas uma ruptura com o real para converter-se em uma estratégia de sobrevivência — uma anestesia ontológica. Diante da insuficiência insuportável de não corresponder ao ideal de perfeição e produtividade, o delírio surge como o último refúgio onde o 'eu' fragmentado tenta silenciar a dor de um esgotamento que o sistema se recusa a nomear (Safatle, 2021).
A Válvula de Escape: O Milagre sob a Lente da Psicologia de Massas
Os indivíduos submetidos aos “moinhos de gastar gente”, na concepção de Darcy Ribeiro, com suas amígdalas sequestradas pelo medo e o corpo em entropia a partir de registros negativos na dimensão perispiritual, vão aos domingos em busca de um “milagre” nas igrejas. O Movimento Milagre — denominação outorgada por uma paróquia de Fortaleza para um encontro de homens — reuniu cerca de 2.500 homens, marcado pela oração, formação e caridade.
Para Marx, o Estado e a sociedade, ao produzirem a religião, oferecem uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A miséria religiosa é, simultaneamente, a "expressão da miséria real e o suspiro da criatura oprimida". O encontro dos 2.500 homens sob o signo do "Milagre" revela-se como o "ânimo de um mundo sem coração", a tentativa desesperada de injetar sentido onde o sistema só deixou exaustão.
Nesse contexto, o "Milagre" atua como o "ópio do povo": uma anestesia neuroquímica que oferece uma felicidade ilusória para esconder a dor de uma felicidade real sequestrada. A psicologia de massas opera aqui a serviço da manutenção: em vez de despertar o indivíduo para a causa de seu esgotamento, ela o mergulha em um transe que suspende a crítica.
O colapso biopsíquico gerado pelo Burnout prepara o terreno para a entrega total à multidão. Como descreveu Gustave Le Bon em A Psicologia das Multidões, o indivíduo imerso no delírio coletivo experimenta o "desaparecimento da personalidade consciente" e a "predominância da personalidade inconsciente" (2013). Sob a pressão do transe em Fortaleza, os 2.500 homens deixam de ser sujeitos de sua própria história para se tornarem "autômatos sem vontade", guiados pela sugestão e pelo contágio emocional.
O "Milagre" performático opera essa conversão: o trabalhador, cuja vontade foi quebrada pela exploração, busca na massa um sentido que já não consegue produzir em si mesmo. Orientado pelo contágio dos sentimentos, ele transforma a ideia sugerida em ato imediato, mas um ato que não lhe pertence. Ao tornar-se parte dessa engrenagem psicológica, o homem "deixa de ser ele próprio". O delírio, portanto, não é um despertar espiritual, mas a etapa final da mutilação biossocial: após o sistema exaurir o corpo, a psicologia das massas confisca a última fronteira da resistência — a personalidade consciente.
Allan Kardec, em um belíssimo tratado sobre a fé, ao considerá-la religiosa, admite-a em duas categorias: raciocinada e cega. A fé cega, aceitando tudo sem controle entre o falso e o verdadeiro, choca-se, a cada passo, com a evidência e a razão. Levada ao excesso, produz o fanatismo. O sentimento de adoração, inato como o da Divindade, é o que faz o homem, consciente da sua fraqueza, curvar-se diante de Deus, que o pode proteger (2000). É esse sentimento que as igrejas exploram e oprimem em nome do Estado que a viabiliza.
O Embate Teológico: O "Cristo Mágico" vs. O En Marche
Um verdadeiro exército, temos que admitir; afinal, foram 2.500 homens. Poderiam, sim, ser soldados do Nazareno e promoveriam uma verdadeira revolução transformacional, que Jesus definiu como Reino de Deus. O “Milagre”, termo bem cunhado para a estaticidade à qual o evento se determina, mantém o indivíduo acomodado, sentado, em um transe afeito ao recebimento de uma dádiva dos Céus para o alívio das aflições agudas que o mundo impõe. É a esperança em um “Cristo Mágico” que cura as dores impostas pelo sistema, sem, contudo, alterar a estrutura da exploração — a exegese radical aponta para uma direção oposta. Não foi esse o propósito da vinda de Jesus.
Nesse sentido, a tradução de André Chouraqui para as Bem-aventuranças desfaz a paralisia do "ópio". Ao verter o termo hebraico Ashrei (traduzido comumente como "Bem-aventurados") para o francês En Marche! (Em Marcha!), Chouraqui resgata a essência do Reino não como um estado de êxtase, mas como um imperativo de movimento. Jesus não estaria dizendo "felizes os passivos", mas "Avante os que têm o espírito de pobres", "Em marcha os que buscam a justiça". O Reino de Deus é uma dinâmica biológica de resistência, e não uma sala de espera para o alívio sobrenatural.
O novo paradigma que se oferece com Chouraqui reforça o perfil revolucionário-político de Jesus, e fica explícito que ele se opõe ao imperialismo romano e às lideranças religiosas judaicas. Jesus sempre foi antissistema; ao subir a montanha para mais uma ação simbólica (Mc 3:13), com a eleição dos doze apóstolos — simbolismo das doze tribos —, Jesus rompe com a estrutura de parentesco e ataca os fundamentos ideológicos das classes dominantes.
Jesus prepara uma comunidade para continuar a sua vocação. Infelizmente, seu caráter revolucionário ficou preso a uma compreensão “religiosa” das metáforas eclesiais primitivas da igreja como “novo sacerdócio” — que até hoje perdura — e “novo Israel”. Contudo, o caráter político não se perderia; como assinala Ched Myers, Jesus, tendo rejeitado a autoridade da ordem dos sacerdotes e dos escribas, forma uma espécie de “comitê revolucionário” de vanguarda, um “governo no exílio”. Fundou, assim, a comunidade da resistência (1992).
Portanto, o encontro de homens em Fortaleza, ao trocar o "Em Marcha" pelo "Sentar e Delirar", trai a mensagem original. Em vez de convocar o trabalhador em Burnout para a rebeldia evolutiva da fé raciocinada, entrega-o à fé cega que Kardec denunciou — uma fé que aceita o mundo como ele é, desde que receba uma dose dominical de consolo. O verdadeiro milagre do Reino é o fim da neurose obsessiva e o despertar do indivíduo para a sua condição de co-criador, desafiando a entropia e pondo-se, finalmente, em marcha contra tudo o que o mutila.
A Biologia do Reino: Da Autopoiese à Marcha da Consciência
Marx tinha uma visão certeira quando afirmou que o Estado e a sociedade produzem a religião e, com ela, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido (2010). A própria vida e morte de Jesus foram transformadas em dogmas e sacramentos pelo catolicismo a partir do Imperador Constantino, que foi determinante para o curso das mensagens dos Evangelhos. Um ponto crucial reside nos simbolismos da morte de Jesus, que ficaram concentrados na ressurreição da carne — ideia que hoje já assume outros contornos.
A morte de Jesus ocorreu entre dois malfeitores, a fim de justificar a profecia em Isaías 53:12, na qual ele “seria contado com os transgressores”. Essa consideração é de significativa importância: na realidade, foram três transgressores. A profecia é clara: Jesus era considerado um subversivo, um bandido social na concepção de Eric Hobsbawm — termo que não possuía caráter pejorativo antes da regulação da sociedade pelo ideal capitalista.
Portanto, para compreender a radicalidade da "Marcha", é preciso despir o Nazareno das vestes clericais e reencontrá-lo na figura do Bandido Social. Como alerta Robert Hosley, o banditismo social não é criminalidade comum, mas uma reação das ordens camponesas e oprimidas que desafiam estruturas políticas. Jesus, ao assumir a face do oprimido, subverte a ordem. Se hoje o mundo moderno "matou" o banditismo social, substituindo-o pela armadilha do empreendedorismo e da meritocracia — ferramentas que desarticulam a mobilização e geram o Burnout —, a exegese de Otto Maduro nos recorda que a religião é um aparelho ideológico condicionado pela estrutura social. Jesus integrava, na concepção de Horsley, o movimento profético e banditismo social. O único desse movimento a utilizar armas era os sicários.
O "Milagre" de Fortaleza, portanto, ao ignorar o Jesus que corrige injustiças e desagrava erros, funciona como o amortecedor de uma luta de classes que Gramsci via transbordar em rebeldia. O Reino não é a conformidade do "comportado", mas a resistência daqueles que, mesmo sob o peso de Estados e bancos, mantêm a vocação do "MST espiritual": a ocupação do tempo e do afeto para a construção de uma sociedade equitativa.
H.G. Wells reforça essa análise ao considerar que Jesus era um pregador miserável que perambulava pelas ruas ressecadas da Judeia, sustentado por doações ocasionais de comida — característica dos bandidos sociais. Segundo Wells, ele não é esse personagem europeizado que aparece sempre limpo, penteado e com vestes impecáveis, em um ar de imobilidade, como se deslizasse no ar (2011).
Os discípulos de Jesus não devem permanecer em posição de genuflexão diante de um clérigo impávido que, do alto de sua suposta superioridade, incentiva louvores e cânticos capazes de alterar o estado de consciência dos fiéis — os quais, frequentemente, atribuem tal fenômeno psíquico à presença do Espírito Santo. É imperativo que o clericalismo sofra mudanças profundas em direção à Teologia da Libertação (2), como ressalta o Papa Leão XIV na Exortação Apostólica Dilexi te (2025), retomando documentos fundamentais, é frequente e justa a acusação de passividade dirigida aos defensores de uma "ortodoxia" que ignora situações intoleráveis de injustiça. A pureza da fé não subsiste sem o testemunho eficaz de serviço ao pobre e ao oprimido; sem uma vida teologal integral, a preocupação doutrinária torna-se vazia. Portanto, o verdadeiro milagre não é o êxtase coletivo que aliena, mas a conversão espiritual que se traduz em zelo pela justiça e pela paz.
Sendo Jesus o "modelo e guia da humanidade" (L.E. Q.625) na concepção espírita, compete aos espíritas também despertarem para essa realidade.
En Marche!
Referências:
CHOURAQUI, André. A Bíblia – matyah – o evangelho segundo mateus. Rio de Janeiro; Imago, 1996.
HANSON, John S & Richard A. Horsley. Bandidos, profetas e messias – movimentos populares no tempo de jesus. São Paulo; Paulus, 1995.
HOBSBAWM, Eric. Bandidos. Rio de Janeiro; Paz & Terra, 2015.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo. São Paulo; EME, 1996.
_____________ O Livro dos espíritos. São Paulo; LAKE, 2000.
LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo, LeBooks, 2013.
MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo; Boitempo, 2010.
MYERES, Ched. O Evangelho de marcos. São Paulo; Paulinas, 1992.
SAFATLE, Wladimir e outros. Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. São Paulo; Autêntica, 2021.
SAPOLSKY, Robert M. Comporte-se. São Paulo; Companhia das Letras, 2021.
WELLS, H. G. Uma breve história do mundo. Porto Alegre; L&PM POCKET, 2011.
Notas:
(2) https://www.arquidiocesedefortaleza.org.br/milagres-em-fortaleza-2-500-homens-se-reunem-para-rezar/
(3) Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da libertação” (6 de agosto de 1984), XI, 18: AAS 76 (1984), 907-908

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