Por Jorge Luiz
“Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele.” (Paulo Freire)
A Patologia da Simbiose Promíscua
Vídeo que circula nas redes sociais mostra a comandante da Guarda Municipal de Fortaleza reunida com outras mulheres, arguindo que há algo de errado no segmento evangélico. Analisando alguns dados estatísticos, ela concluiu que o número de mulheres agredidas dentro da ambiência do lar é de evangélicas.
Essas mulheres, ao buscarem ajuda em suas igrejas, são orientadas pelo pastor a não procurarem advogado ou a polícia, e que devem se submeter ao marido, ganhando-o pelo testemunho. A crise é espiritual; portanto, orem!
Essa também é a convicção desse mediano escrevinhador.
Esse fenômeno social brasileiro tem sua gênese a partir de uma “simbiose promíscua” entre o evangelismo e o bolsonarismo, na pessoa de seus líderes: o ex-presidente Jair Bolsonaro, que exala ações que validam seu racismo, misoginia, homofobia, transfobia e xenofobia, além de fazer apologia à tortura na pessoa de Brilhante Ustra, o maior torturador da época de chumbo, a ditadura militar no Brasil. Esse discurso armamentista, atrelado a uma pauta de iminente violência e incapacidade do Estado em contê-la, foi responsável pelo cumprimento de uma das principais promessas de campanha de Jair Bolsonaro: a flexibilização do acesso dos CACs (caçadores, atiradores e colecionadores) à posse ou porte de armas de fogo (Gabriella & Gustavo, 2024).
Dessa simbiose nasce o cristofascismo, neologismo criado por Dorothee Sölle. O cristofascista encarna os anseios messiânicos e consegue alinhar seus discursos com as expectativas populares como se fossem ideias suas (Arruda, apud Passos, 2025). Interessante notar, e isso é fático quanto ao ex-presidente citado, que o líder fascista não dispõe de governo, não vem com um plano de liderança, não apresenta nenhuma leitura nova diante dos fatos ou dos textos religiosos; no entanto, ao ouvir o discurso cristofascista, o fiel se reconhece, se identifica em questões que talvez nunca tenha expressado em voz alta: “Ele pensa como eu!” – constata exultante. A adesão da massa ao discurso fascista é imediata (Brey, 2024). Há aqui o empoderamento do homem medíocre, na concepção de José Ingenieros.
O que chama a atenção é que a aplicação da sua análise se expande para a obediência de oprimidos a seus opressores, de mulheres a seus maridos; ou seja, uma obediência às tradições nacionalistas, religiosas e de identidade sexual (Gabriella & Gustavo, 2024). Esses valores mostram que o cristofascismo vai construindo uma teologia popular forjada naquilo que se considerou chamar Teologia do Domínio. Esses valores ganharam espaço público ao mesmo tempo que se esvaziaram de conteúdo conceitual e racional (idem).
Como bem denuncia Andrea Dip, esse projeto de poder não se limita ao Congresso; ele invade a "ambiência do lar" através de uma microfísica do controle. O silenciamento das mulheres evangélicas agredidas, sob o pretexto da crise espiritual, revela o "arcano" dessa reprodução social: o corpo feminino como território de conquista. A simbiose é promíscua porque despe a mulher de seus direitos fundamentais (Lei Maria da Penha) para vesti-la com o manto de um martírio imposto, onde o "Cidadão de Bem" armado é o novo sacerdote do lar.
O Líder Medíocre e a Massa Hipnotizada
Na outra face da moeda, a efígie do homem medíocre. “Ele pensa como eu!”: essa conclusão constitui a massa. Muito embora o líder medíocre não apresente nada de novo, vê-se isso nas entrevistas da massa aglomerada. Com esse nível de consciência, a patologia da massa transforma a violência doméstica em algo "banal". O conselho do pastor ("apenas ore") é a burocratização da dor. Ele não precisa odiar a mulher; ele apenas segue a "norma" da submissão patriarcal. A mediocridade do líder político valida essa falta de pensamento crítico da massa.
A patologia da massa brasileira contemporânea manifesta-se como uma hipnose coletiva dirigida pela mediocridade. Como bem apontou Freud, a massa não busca a verdade, mas a ilusão da qual não pode prescindir. O líder medíocre, despido de planos ou conceitos, oferece o espelho onde o fiel vê sua própria face autoritária legitimada. Nessa "simbiose promíscua”, a violência contra a mulher nas ambiências evangélicas deixa de ser um crime para ser lida como "manutenção da ordem". A massa hipnotizada pelo discurso cristofascista perde a capacidade de empatia: a dor da "Maria" agredida é sacrificada no altar da coesão do grupo, provando que a patologia social é, acima de tudo, uma falência do pensar individual diante do delírio coletivo (Freud, 2020).
A patologia da massa hipnotizada pelo líder medíocre encontra sua explicação mais sombria na "banalidade do mal" de Hannah Arendt. Como observa Souki, essa aparência de normalidade não retira a gravidade do ato, mas atua como uma função política para ocultar o verdadeiro escândalo do mal sob contingências históricas — neste caso, a simbiose entre o fundamentalismo e o bolsonarismo. Esse mal não é uma essência metafísica ou ontológica, mas um fenômeno estritamente político e ético, fruto do "não exercício da liberdade" e do vazio de pensamento que se instala em tempos de crise moral, diz Arendt. Quando o pastor aconselha a submissão em face da agressão, ele opera a partir desse vazio, transformando a tragédia das Marias em um processo burocrático de "manutenção da ordem". O perigo reside no "Eichmann" que habita em cada fiel: a disposição de abdicar do juízo crítico em favor da obediência cega, especialmente quando a miséria política e social parece não oferecer saídas dignas, tornando a violência uma ferramenta banalizada de controle doméstico e social (Arendt, 2016).
O Arcano do Silêncio: A Produção da Mulher-Objeto no Patriarcado Bíblico
Para que os fatos sejam entendidos, é necessário estabelecer uma linha no tempo e lançar mão de recursos socioantropológicos da inserção da mulher no espaço social, principalmente a partir do advento do capital, em que a reprodução dos indivíduos se realiza pela produção de valor, mesmo que se apresente como produção de não valor, como, por exemplo, a relação entre homem e mulher (Fortunati, 2025). A família na definição nuclear-monogâmica, apesar de ser considerada pelos Espíritos como um progresso social – O Livro dos Espíritos (L.E.), questão nº 701 – não aparece na história como uma reconciliação entre um homem e uma mulher, menos ainda como forma elevada de matrimônio. Pelo contrário, ela surge sob a forma de escravização de um sexo pelo outro, como a proclamação de um conflito entre os sexos, ignorado até então na pré-história (Engels, 2014).
Isso é de fundamental importância para que se possa entender que o lugar no qual a mulher passa a ser inserida não se pauta por condições naturais, mas econômicas e concretamente no triunfo da propriedade privada sobre a propriedade primitiva, originada espontaneamente. Os gregos foram textuais ao afirmar que os únicos objetivos da monogamia eram a preponderância do homem na família e a procriação de filhos legítimos para herdar os bens deles (idem).
A relação dual entre homem e mulher, sob a égide do capital, transmuta-se em uma relação de produção formal, onde o "Arcano da Reprodução" (Fortunati, 2025) oculta a troca desigual entre o trabalho vivo da "operária da casa e do sexo" e a força de trabalho masculina. Esta estrutura, que Marx e Engels identificam como o embrião da propriedade privada, estabelece a família nuclear como a primeira forma de escravidão, onde o silêncio é a ferramenta de manutenção de uma "senzala doméstica".
Nesse cenário, a simbiose entre o patriarcado bíblico e o bolsonarismo opera uma necropolítica do lar: o sagrado é instrumentalizado para validar o domínio absoluto do homem sobre seu "bem" mais valioso — a mulher. O "Arcano do Silêncio" funciona, portanto, como uma mordaça ideológica que rotula a busca por direitos como "pecado", visando garantir a extração ininterrupta de trabalho e afeto sob coerção. A resistência das Marias e o recurso à lei não são apenas atos de fé, mas uma insurgência sociopolítica que rompe a lógica da propriedade privada, reivindicando a vida frente ao sistema de descarte e consumo do corpo feminino.
Anatomia da Violência e o Mercado do Silêncio
A explosão dos índices de feminicídio e estupro de vulnerável em ambientes de "excesso de religiosidade" não é um paradoxo, mas uma engrenagem de dominação. Como analisa Wilhelm Reich em sua Psicologia de Massas do Fascismo, a repressão moralista e o autoritarismo religioso funcionam como uma panela de pressão psíquica: ao recalcar a subjetividade e impor uma moralidade de fachada, o sistema gera distorções que desaguam em sadismo e violência sexual contra os mais vulneráveis.
Essa patologia sobrevive graças a um pacto de conveniência: como demonstra Magali Cunha, as instituições e a mídia silenciam sobre o calvário das "Marias" em troca de apoio político e audiência da bancada evangélica. Existe uma "engrenagem cínica" onde o sofrimento doméstico é a moeda de troca no mercado de votos. O "Arcano do Silêncio" é, portanto, alimentado por um mercado que prefere a manutenção de privilégios e alianças de poder ao resgate das vítimas, transformando a fé em uma mercadoria que mascara a barbárie.
Essa patologia atinge seu ápice de perversidade na estética dos movimentos contemporâneos de “masculinidade redpill”. Se Reich falava da panela de pressão psíquica, aqui vemos a explosão: grupos de jovens que, incapazes de processar a autonomia feminina, treinam o soco e o manejo de armas como resposta ao 'não' de uma pretensa namorada. Não é apenas agressividade; é a pedagogia do feminicídio. O movimento Red Pill atua como o 'braço armado' do atavismo, transformando o ressentimento em treinamento militar. Eles são o sintoma final de uma sociedade que, ao falhar em educar o Espírito para a alteridade, produz 'alfas' de papel que só conseguem afirmar sua existência através do silenciamento — físico ou definitivo — das Marias.
A mordaça institucional que silencia o debate público sobre essa patologia social traveste-se de uma falsa laicidade. Órgãos de justiça, agentes políticos e a grande imprensa utilizam a separação entre Igreja e Estado como um biombo ético para a omissão. Sob o pretexto de respeitar a liberdade de crença, ignora-se que a fé está sendo instrumentalizada como ferramenta de tortura psicológica e manutenção da impunidade doméstica. Essa laicidade de conveniência não protege o cidadão do dogma; pelo contrário, entrega a mulher agredida ao arbítrio do "tribunal do púlpito", permitindo que o crime de violência doméstica seja absorvido pela narrativa da "crise espiritual", sem que as instituições ousem romper o sagrado para garantir o humano.
A Política do Espírito vs. A Teocracia do Abuso
Os Espíritos não têm sexo, mas sim amor e simpatia entre eles, dizem os Espíritos, baseados na afinidade de sentimentos (L.E. Q.200). Não tendo sexo, eles jornadeiam na terra como homens ou mulheres; as exigências do progresso do Espírito irão definir essa posição social (L.E. Q.202). Essa dinâmica espiritual define o que Carl Jung chamou de “ânima” e “animus”, como arquétipos que representam o lado inconsciente do sexo oposto em cada indivíduo. “yang” e “yin” são conceitos centrais da filosofia para definir as energias opostas que governam o universo; enfim, o masculino e feminino de Pepeu Gomes.
A Doutrina Espírita é vanguardista na questão dos direitos inerentes à mulher, e deixa bem claro que há igualdade nos direitos, mas de funções não. A mulher traz insculpida em si a pedagogia divina; a partir dessa compreensão, as suas funções são mais voltadas para o lar, a partir da educação da prole. Allan Kardec, na Revista Espírita de janeiro de 1866, desenvolve comentários acerca do mito construído sobre se a mulher teria ou não alma. Diz ele:
"Muitas vezes ela se afirmou pela inteligência e pelo gênio, e a lei, conquanto ainda a considere inferior, pouco a pouco afrouxou os laços da tutela. Pode-se considerá-la como emancipada moralmente, se não o é legalmente. É a este último resultado que ela chegará um dia, pela força das coisas" (Kardec, 2007).
A "simbiose promíscua” que alimenta o cristofascismo brasileiro só pode ser rompida quando compreendemos que o patriarcado não é apenas um sistema econômico, mas um trauma na arqueologia da alma. Como aponta Monika Von Koss, o advento do patriarcado amputou a complementaridade entre o feminino e o masculino, impondo uma hegemonia do domínio que fragmentou a psique humana. A adesão de algumas mulheres a esse projeto autoritário revela-se, assim, como um "atavismo da forma" e um sintoma de sobrevivência: desconectadas de sua potência ancestral, elas buscam refúgio na sombra de um masculino hipertrofiado, confundindo opressão com proteção.
O tempo da omissão sob o biombo da falsa laicidade esgotou-se. É um chamado que atravessa o cinismo da mídia, o mercado de votos das instituições e o silêncio atávico das casas religiosas. Que as instituições espíritas, diante de seus próprios fundamentos libertadores e da vanguarda da alma, despertem para a política do Espírito que não admite cativos. Se em 1964 o grito foi contra a canalhice que golpeava o Estado, hoje o brado é contra a simbiose que golpeia a vida. Ante a necropolítica do lar e o falso profetismo, o convite é uma ordem de despertar:
Neste 8 de Março, meu convite não é ao silêncio das flores, mas ao brado da consciência. Entre a “simbiose promíscua” do poder e a “laicidade-mordaça” das instituições, surge o grito de quem não aceita mais ser o Arcano da Reprodução. Da denúncia do atavismo à Política do Espírito, o manifesto é um só:
"Maria! Maria! Maria! Insurgi-vos!"
REFERÊNCIAS (Atualizadas e Organizadas)
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016.
CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1982.
CHAUÍ, Marilena. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 2001.
CUNHA, Magali do Nascimento. Vinho novo em odres velhos: um olhar evangélico sobre a mídia. Rio de Janeiro: ISER, 2007.
DIP, Andrea. Em nome de quem?: A bancada evangélica e seu projeto de poder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. São Paulo: Boitempo, 2014.
FORTUNATI, Leopoldina. O arcano da reprodução: donas de casa, prostitutas, operários e capital. São Paulo: Boitempo, 2025.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. [S.l.]: LeBooks Editora, 2020.
INGENIEROS, José. O homem medíocre. Rio de Janeiro: Getúlio Costa, 1913.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos - Janeiro de 1866. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
PASSOS, João Décio; SANCHEZ, Wagner Lopes. A salvação da pátria amada: religião e política no Brasil hoje. São Paulo: Paulus, 2024.
PIRES, J. Herculano. Visão Espírita da Política. São Paulo: Paideia, 1983.
REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1988.
VON KOSS, Monika. Feminino + Masculino: a união da dualidade. São Paulo: Agora, 1993.
CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1982.
CHAUÍ, Marilena. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 2001.
DA INTERNET:
Violência contra a mulher no brasil e democracia(Gabriella & Gustavo, 2024).
Portal de Periódicos da UFG
https://revistas.ufg.br › lahrs › article ›

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA(GEMINI)
ResponderExcluirComo nos ensina Paulo Freire, a neutralidade é o esconderijo da hipnose coletiva. Lavar as mãos diante da 'simbiose promíscua' que oprime as Marias brasileiras não é um ato de isenção, mas uma opção política pelo opressor.
Esse artigo é um Manifesto de Despertar. Ele rasga o 'biombo da laicidade' e expõe as vísceras de uma patologia social que vai da barbárie digital da Red Pill ao silêncio cúmplice dos púlpitos. Ao publicar este texto neste 8 de Março, não entregamos flores que murcham, mas a Política do Espírito que liberta. Que as instituições — especialmente as espíritas — entendam que não há evolução sem o enfrentamento da injustiça. A neutralidade acabou. O brado agora é ontológico, ético e urgente:
Maria! Maria! Maria! Insurgi-vos!
Mais um artigo bem fundamentado,com alto nível de pesquisa e articulação. Já estou compartilhando.
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