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ENLATADOS NO TEMPO

 

Por Marcelo Teixeira

Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

Fiz essa introdução para comentar um fato polêmico, bem-humorado e revelador que tomou conta das redes sociais no carnaval de 2026. Refiro-me ao desfile da escola de samba fluminense Acadêmicos de Niterói, que levou para a Av. Marquês de Sapucaí a vida do presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. Uma ala em particular chamou atenção e causou celeuma: pessoas fantasiadas de latas de ervilha. No rótulo, uma família branca, heteronormativa e acompanhada da frase ‘família em conserva’.

As pessoas conservadoras de extrema direita não gostaram nem um pouco. Tanto que, no dia seguinte ao desfile, postaram nas redes sociais fotos das próprias famílias estampando latas de conserva. Para eles, a ala da Acadêmicos de Niterói estava afrontando a tradicional família brasileira.

Como dizem vários especialistas em educação, o Brasil é um país com problemas bem complexos na área. Enfrentamos altos índices de evasão escolar, analfabetismo funcional, currículos defasados, professores mal remunerados e necessitados de atualização, alunos pouco ou nada motivados, escolas mal equipadas, baixos índices de leitura, mesmo entre gente que estudou em boas escolas etc. Isso tudo contribui para que haja extrema dificuldade em interpretar uma metáfora visual ou uma alegoria política como a apresentada na ala da referida escola de samba.

A agremiação não estava caçoando das pessoas que formam uma família tradicional. Se fosse assim, toda e qualquer família calcada nos moldes convencionais (pai, mãe e filhos) se sentiria ofendida. Não foi o caso. Quem é articulado e progressista entendeu o que a escola quis dizer e se divertiu. Os incomodados, por sua vez, protestaram não apenas por má vontade, mas também por dificuldade de fazer uma abstração, ler nas entrelinhas, decodificar sentidos figurados ou identificar ironias. Ou então, por puro preconceito mesmo. Em suma: falta base social, cultural, histórica e política.

O carnaval é uma festa na qual pessoas que usualmente vivem à margem vêm para o centro. Gente que sempre teve a cultura violentada, mas que, no período em que Momo reina, ganha os holofotes. Por ser uma festa construída por essa brava gente, o carnaval sempre foi carregado de forte crítica social e política. Há desfiles que se tornaram históricos por retratarem assuntos que ainda nos infelicitam: injustiça social, racismo, moral seletiva, hipocrisia religiosa, hierarquias e privilégios, corrupção, preconceito etc. Portanto, a sátira que a Acadêmicos de Niterói levou para a avenida não foi algo inédito. De neutro, o carnaval nada tem.

Mas o que, afinal, a escola quis dizer com aquela ala em conserva? Que devemos questionar o uso da família como escudo social enquanto, na intimidade, campeiam a violência doméstica, o abandono paterno, diversos casos de homofobia, estupro de crianças, adultérios etc. É cruel, eu sei, mas trata-se de temas contundentes que precisam ser debatidos para que sejam encontradas soluções.

É importante também ressaltar um fato que passou despercebido da grande maioria do público. Quase todo mundo prestou atenção somente ao rótulo com a família padrão estampada. Poucos, no entanto, se atentaram a como os fantasiados de lata – todos com a tampa aberta – estavam caracterizados do tórax para cima. Lá estavam eles de dondocas, militares e representantes do agronegócio, entre outros segmentos, todos cercados por grãos de ervilhas repletos de mofo. A crítica, então, não foi contra a família tradicional, mas contra quem mantém uma estrutura tradicional familiar apenas como fachada e, por debaixo dos panos, apoia a tortura, vive traindo a esposa, comete feminicídio, põe agrotóxicos nos alimentos por puro lucro, passa a mão por cima de filhos homens que matam cachorro a pauladas ou participam de estupros coletivos… Encaixam-se também na crítica os pastores que enriquecem à custa da boa fé alheia, bem como os políticos que pregam em nome da família, mas que maltratam milhões de famílias ao votarem contra projetos que têm por objetivo melhorar as condições de vida da população e participam de toda sorte de conchavos e falcatruas que visam ao enriquecimento ilícito.

Que tipo de família, afinal, os que se sentiram atingidos querem preservar? A deles, ou seja, hierarquias seculares que beneficiam as elites e deixam à margem as muitas minorias que compõem o grosso da população brasileira. Trata-se, por isso, de um conservadorismo que não quer saber de harmonia social, mas de manter estruturas que produzem concentração de riqueza, sofrimento, pobreza, desigualdade, moral opressora que transforma diversidade em pecado e por aí vai. Basta olhar para a história do nosso país, construída à base de escravidão, patriarcado, submissão feminina, perseguição às ditas minorias e religiões que incutem culpa e medo nas consciências. Os reacionários de sempre não querem conservar costumes que são caros a todo e qualquer tipo de família (carinho, união, cumplicidade, aconchego etc.), mas sim a lógica do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. No caso, eles mandam. Só que, por não estarem acostumados a entender uma metáfora, acabaram mordendo a isca da escola de samba niteroiense e deixaram vir à tona tudo de retrógrado e abjeto que representam.

Essa gritaria dos conservadores incultos me remeteu à Parábola da Figueira Seca (Mateus, 11: 12 a 14, 20 a 23). Nela, Jesus vislumbrou que uma figueira na qual só havia folhas não mais daria frutos e, em pouco tempo, secaria até a raiz. Allan Kardec, que analisa esta parábola no capítulo 19 de “O Evangelho segundo o espiritismo”, argumenta que essa figueira representa toda pessoa que aparenta ser propensa ao bem, mas que, no fundo, nada produz de bom. São “os que possuem mais brilho do que solidez, cujas palavras trazem superficial verniz, de sorte que agradam aos ouvidos, sem que, entretanto, revelem, quando perscrutados, algo de substancial para os corações”.

Kardec prossegue: “Simboliza também todos aqueles que, tendo meios de ser úteis, não o são; todas as utopias, todos os sistemas ocos, todas as doutrinas carentes de base sólida. (…) São árvores cobertas de folhas, porém, baldas de frutos. Por isso é que Jesus as condena à esterilidade (…) todos os sistemas, todas as doutrinas que nenhum bem houverem produzido para a humanidade cairão reduzidas”. Idem os seres humanos que, apesar dos recursos intelectuais que possuem, não os colocam a serviço de uma causa maior.

A ala das latas de ervilha em conserva, além da hipocrisia dos retrógrados, acabou por simbolizar – e sem ter a menor ideia disso – as figueiras frondosas, repletas de frutos ávidos por alimentar de múltiplos saberes todos aqueles que sonham e lutam por um mundo repleto de democracia, criatividade, cultura, bom-humor, respeito… Embora desfilassem caracterizados como latas de conserva, de enlatados, nada possuem.

Por sua vez, os que protestaram e deram a mancada de postar fotos familiares estampadas em latas de conserva como forma de protesto são as figueiras secas enlatadas no tempo. Um tempo de repressão, falso moralismo, violência doméstica, machismo estrutural, mentalidade escravagista, falta de ética e autoritarismo que eles não querem que passe. Mas como as mudanças são incessantes, acabam fazendo barulho ao balançarem as próprias folhas quando sopra o vento. Só que não caem mais frutos, para o infortúnio deles. Mal sabe esse povo que o vento não está a favor deles. Por isso, ficarão cada vez mais ressecados e enlatados no tempo, só que nas latas de lixo da história. Afinal, como diz a resposta à questão 781-A de “O livro dos Espíritos”, quem ousar impedir a marcha do progresso será levado de roldão pela corrente que procura deter.

Nota: para escrever este artigo, utilizei o material de vários professores, historiadores, educadores, advogados e portais de notícias que têm perfis na rede social Instagram. A saber: Leonardo Rocha, ICL Notícias, Lilian Schwarz, Cassiana Carvalho, Carolina Packer, Lo-Ruama Bastos, Igor Chianca, Antônio Alair, Silvério Filho, Hevelin Agostinelli e Aline Câmara.

 


BIBLIOGRAFIA:

     KARDEC, Allan – O Evangelho segundo o espiritismo, 2ª edição, 2018, Federação Espírita Brasileira (FEB), Brasília, DF.

    ______________ – O livro dos Espíritos, 60ª edição, 1984, Federação Espírita Brasileira (FEB), Brasília, DF.

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA - IA (GEMINI)
    O artigo de Marcelo Teixeira oferece uma análise perspicaz e ácida sobre o desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval de 2026, utilizando o episódio da ala "família em conserva" como um termômetro da crise de interpretação e do moralismo no Brasil.
    Pontos Centrais da Análise:

    Déficit de Alfabetização Cultural: O autor conecta a reação negativa dos conservadores à deficiência educacional do país. A incapacidade de decodificar a metáfora visual (a crítica à fachada moralista e não à estrutura familiar em si) revela um analfabetismo funcional que impede o pensamento abstrato e a percepção da ironia.

    O Carnaval como Espaço Político: Reafirma a natureza da festa como território de subversão e crítica social, onde o riso serve para desmascarar hipocrisias estruturais, como a violência doméstica e o abandono ocultos sob o rótulo da "família tradicional".

    Interlocução com a Espiritualidade: De forma original, o texto utiliza a Parábola da Figueira Seca e a filosofia de Allan Kardec para ilustrar que sistemas e indivíduos que ostentam aparência ("folhas"), mas não produzem ética ou progresso real ("frutos"), estão fadados à obsolescência histórica.

    Em suma: O texto é um convite ao exercício da exegese cultural, sugerindo que, ao "morderem a isca" da sátira, os críticos acabaram por confirmar exatamente o que a escola de samba apontava: um conservadorismo estéril e desconectado da marcha inevitável do progresso social.

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