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QUANDO A EDUCAÇÃO PERDE A ALMA

 


Por Wilson Garcia

Neoliberalismo, humanismo e espiritualidade no debate educacional contemporâneo

 

A educadora e espírita Dora Incontri concedeu recente entrevista ao jornal e à TV Brasil 247, na qual articula uma crítica consistente ao modelo educacional neoliberal no Brasil contemporâneo. A partir de uma visão humanista e espiritualista da educação, Incontri analisa a transformação da escola em espaço de desempenho, com professores submetidos a lógicas produtivistas e estudantes progressivamente tratados como consumidores. É a partir desse horizonte pedagógico e espiritual que se organizam os comentários e reflexões apresentados a seguir.

 

A entrevista concedida por Dora Incontri reacende uma questão incômoda e necessária: o que restou da educação como processo de formação humana? Ao afirmar que “a educação foi sequestrada pelo neoliberalismo”, a educadora não formula apenas uma crítica econômica ou administrativa. Ela aponta para uma fratura mais profunda: a perda do sentido da experiência educativa.

Vivemos um tempo em que a escola é crescentemente tratada como linha de montagem de competências, e o estudante como portador de indicadores mensuráveis. Nesse cenário, ensinar passa a ser sinônimo de cumprir metas, e aprender, de atingir desempenhos previamente estipulados. A fala de Incontri surge, assim, como contraponto humanista e alerta ético: quando a educação se submete integralmente à lógica do mercado, ela abdica de sua função civilizatória.

A pedagogia sob a lógica do desempenho

A crítica central da entrevista dirige-se à substituição da formação integral por métricas de desempenho, rankings e avaliações padronizadas. Avaliar tornou-se mais importante do que compreender; medir, mais urgente do que educar. O estudante aparece menos como sujeito em formação e mais como dado estatístico.

Essa lógica contrasta frontalmente com a tradição pedagógica clássica. Desde Comenius, que defendia uma educação universal orientada pela natureza do aprendiz, respeitando ritmos e etapas do desenvolvimento humano, até Pestalozzi, que insistia na integração entre afetividade, razão e ação — “coração, cabeça e mãos” — como núcleo do processo educativo, a pedagogia sempre compreendeu a educação como fenômeno complexo e integral.

Ao converter a escola em organização gerencial, o neoliberalismo rompe essa unidade. O resultado é uma educação tecnicamente eficiente, mas antropologicamente empobrecida.

O enquadramento da crítica

Convém, no entanto, situar o discurso no qual a entrevista se inscreve. A crítica de Dora Incontri à educação contemporânea emerge de um enquadramento político-cultural específico, compartilhado também pelo veículo e pelo formato da entrevista. Trata-se de uma leitura fortemente marcada por uma tradição crítica ao neoliberalismo, que privilegia a análise estrutural dos efeitos do mercado sobre a escola pública.

Esse enquadramento não invalida os argumentos apresentados — muitos deles amplamente sustentados por tradições pedagógicas clássicas e humanistas —, mas delimita o horizonte interpretativo da conversa. Como todo discurso situado, ele ilumina certos aspectos da realidade educacional ao mesmo tempo em que silencia outros, exigindo do leitor uma escuta crítica, contextualizada e intelectualmente responsável.

Humanismo pedagógico: força e tensão

Ao enfatizar o vínculo afetivo entre educador e educando, Incontri recupera um núcleo essencial da pedagogia humanista. O conhecimento, nessa perspectiva, não é simples transmissão de conteúdos, mas experiência relacional, mediada pela presença, pelo tempo e pela escuta.

Essa concepção dialoga diretamente com Rousseau, para quem a educação deveria favorecer o desenvolvimento das potencialidades humanas e não a adaptação precoce às exigências sociais. Educar, nesse sentido, é formar um sujeito capaz de pensar, sentir e agir com autonomia — não apenas responder a demandas externas.

O desafio contemporâneo, contudo, permanece aberto: como sustentar essa visão humanista em sistemas educacionais massificados, precarizados e submetidos a pressões econômicas constantes? A entrevista identifica a fratura, mas deixa claro que não há soluções simplistas.

Tecnologia, aceleração e empobrecimento da atenção

Outro eixo relevante da entrevista é a crítica ao uso acrítico da tecnologia na educação. Incontri alerta para o risco de que plataformas digitais, quando orientadas exclusivamente por eficiência, escala e produtividade, substituam o vínculo pedagógico por interfaces e fragmentem a atenção dos estudantes.

Ensinar, no entanto, exige tempo de elaboração, silêncio reflexivo e mediação humana. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reconhecer que ela não é neutra: molda comportamentos, reorganiza a atenção e redefine prioridades. Uma educação submetida à lógica da aceleração permanente corre o risco de perder sua capacidade de formar pensamento profundo.

Um diálogo possível com o Espiritismo laico

Embora não explicitamente espírita, a entrevista de Dora Incontri permite um diálogo fecundo com a tradição espírita em sua vertente laica, filosófica e crítica. Para Allan Kardec, a educação era elemento central do progresso humano. A instrução intelectual, desacompanhada da formação moral, poderia apenas sofisticar desigualdades e ampliar abusos.

Em Obras Póstumas, Kardec afirma que o verdadeiro progresso é inseparavelmente intelectual e moral. Educar, portanto, não é apenas transmitir conhecimentos, mas preparar o espírito para o uso responsável do saber. Essa visão seria aprofundada por Léon Denis, ao defender que a educação deve formar consciências, considerando a continuidade da vida e a responsabilidade espiritual do ser humano.

Sob essa ótica, uma educação capturada por métricas perde não apenas sua dimensão humanista, mas também sua vocação ética e evolutiva.

Educação como responsabilidade coletiva

Há ainda um aspecto sociológico implícito na entrevista: ao reduzir a educação a um serviço, a lógica neoliberal desloca a responsabilidade coletiva pela formação das novas gerações. A escola deixa de ser espaço público de construção de sentido e passa a operar como prestadora de resultados.

Do ponto de vista espírita — e também humanista — a sociedade é um espaço contínuo de aprendizagem moral. Indivíduos e instituições educam-se mutuamente. Quando a educação se empobrece, empobrece também o tecido social que dela depende.

Considerações finais

A entrevista de Dora Incontri não oferece respostas prontas — e talvez esse seja seu maior mérito. Ela recoloca a educação no campo das questões essenciais:

  • Para que educamos?
  • Que tipo de ser humano estamos formando?
  • Que valores orientam nossas escolhas pedagógicas?

Ao articular crítica social, pedagogia humanista e abertura a uma leitura espiritual não dogmática, sua fala convida a pensar a educação como experiência de sentido, e não apenas como instrumento de adaptação ao mercado.

Em tempos de aceleração, métricas e automação, a pergunta: o que restou da educação como processo de formação humana? permanece incômoda — e absolutamente necessária.

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo oferece uma análise densa e necessária sobre a mercantilização do ensino, utilizando a entrevista de Dora Incontri como fio condutor para uma crítica ao que define como o "sequestro" da educação pelo neoliberalismo.

    Abaixo, apresento um comentário sucinto dividido em três eixos fundamentais:
    1. Crítica à "Pedagogia do Desempenho"

    O texto acerta ao identificar a substituição da formação integral por métricas frias. A escola, ao mimetizar o ambiente corporativo, transforma o aluno em um "dado estatístico" e o professor em um cumpridor de metas. Essa análise resgata a importância de autores como Pestalozzi e Comenius, lembrando que a educação deve envolver "coração, cabeça e mãos", e não apenas a eficiência técnica.
    2. O Resgate do Humanismo e da Espiritualidade

    Um ponto distintivo do artigo é a articulação entre o humanismo clássico e a espiritualidade laica. Ao citar Kardec e Léon Denis, o texto propõe que a educação não é apenas instrução intelectual, mas um processo de evolução moral e ética. Essa perspectiva eleva o debate para além da política partidária, tratando a educação como uma ferramenta de preservação da dignidade humana frente à aceleração tecnológica e ao esvaziamento de sentido.
    3. Reflexão sobre a Tecnologia

    O artigo traz um alerta oportuno sobre o uso da tecnologia. Ele não a demoniza, mas questiona a lógica da aceleração. Ao apontar que o aprendizado exige "silêncio reflexivo", o texto toca em uma ferida contemporânea: a fragmentação da atenção e o risco de uma formação intelectualmente superficial, porém tecnicamente funcional.

    Conclusão: O texto é um convite à resistência pedagógica. Ele nos lembra que, se a educação abdicar de sua função civilizatória em favor do mercado, perderemos a capacidade de formar sujeitos autônomos e conscientes.

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