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“CANALHA! CANALHA! CANALHA!”: O GRITO DE INDIGNAÇÃO CONTRA A CANALHICE ESTRUTURAL BRASILEIRA

 

 

Por Jorge Luiz

  

O Grito da Canalhice: Uma Definição Multifacetada

            “Assim sendo, declaro vaga a Presidência da República.” Com essas palavras,  o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, anunciou a um tumultuado Congresso Nacional, na madrugada do dia 2 de abril de 1964, que João Goulart não era mais o presidente do Brasil. Jango estava em Porto Alegre. Na gritaria que se seguiu à fala de Auro, o deputado Almino Afonso ouviu Tancredo Neves, líder do governo na Câmara, gritar: “Canalha! Canalha! Canalha”.

A frase é frequentemente citada por outros políticos em momentos de crise, como fez o senador Roberto Requião, em 2016, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, evocando a memória do ato de Moura Andrade e a reação de Tancredo.

O Brasil está com a Espada de Dâmocles, metáfora clássica da Grécia Antiga que representa a ameaça iminente e constante que paira sobre aqueles que detêm o poder, mostrando que a riqueza e a posição vêm com grandes perigos e insegurança. No contexto brasileiro, a ameaça não é apenas a perda do poder, mas a própria canalhice que permeia as instituições e ameaça a coesão social.

Afinal, o que é ser canalha?

O Dicionário Larrousse define-o como pessoa infame, velhaco, vil, portanto, a canalhada, grupo de pessoas abjetas.

Mário Sérgio Cortela apela para a raiz italiana canaglia com o português cachorro, afinal, canaglia (para indicar uma má pessoa ou um conjunto delas) vem do termo carne, isto é, cachorro – uma ambiguidade mamífera capaz (como nós) de fidelidade extrema e fingimento oportunista (Filho, Clóvis de Barros & Pompeu, Júlio, 2020).

É uma sina irrevogável: somos todos canalhas quando decidimos sê-lo, em vez de nascermos prontos; não somos canalhas o tempo todo, mesmo quando o somos, por isso seria esgotante; a canalhice, ou seja, qualquer ação que prejudique outro para  exclusivo e desviado benefício meu, não é nem uma obrigatoriedade nem uma ausência (idem).

Partindo desta definição de canalhice como uma escolha que beneficia o eu em detrimento do outro, este artigo propõe uma análise multifacetada. Argumentamos que a canalhice transcende a falha moral individual, sendo o produto de uma tensa intersecção entre a fragilidade do caráter e, crucialmente, a impunidade estrutural que garante a proteção da elite. Em última instância, a superação desse ciclo de vileza exige, conforme a perspectiva espírita, o exercício do livre-arbítrio para o progresso moral, contrastando a fatalidade materialista com a responsabilidade transcendental.

 

Fundamentação Conceitual e Teórica

Immanuel Kant, ao analisar as questões de ordem moral, considera o imperativo categórico que se formulou na condição da lei universal “Aja somente com aquela máxima através da qual você pode ao mesmo tempo querer que se transforme em lei universal.” A partir dessa condição, ele formula ainda:

a)    a fórmula da humanidade como um fim em si - “Aja somente para usar a humanidade, em sua própria pessoa como na pessoa de qualquer outro, nunca meramente como um meio, mas ao mesmo tempo como um fim”.

b)    a fórmula da autonomia, que Kant não concebe a princípio como um imperativo, mas como “a ideia da vontade de todo ser racional como uma vontade legisladora universal”.

          O princípio da autonomia, considerado por Kant como a terceira formulação do imperativo categórico, é, mais tarde, substituído pelo princípio do reino dos fins como o terceiro princípio da moralidade: “que toda máxima originada de nossa legislação deve harmonizar em um reino dos fins, com um reino da natureza”, a fórmula do reino dos fins. (*)

            Aristóteles decididamente não escreveu nada sobre a canalhice, entretanto, ao considerar os quesitos mencionados sobre as questões morais, considera que tudo que se afaste desses parâmetros são descuidos de ordem moral, onde a canalhice se encerra.

            Aristóteles via o ser humano, analogamente à luz e sombra junguiana, ao definir o indivíduo como “centauro parcialmente Deus e parcialmente Satã,” com uma “face linda e outra face hedionda.”

A canalhice representa essa metade satânica, instintiva e demoníaca que, se não for reconhecida e controlada, determina o destino trágico do indivíduo.

            Nelson Rodrigues capta a canalhice de forma sarcástica, inteligente e trágica, não a tratando como exceção, mas como uma dimensão intrínseca e onipresente da natureza humana, especialmente na sociedade brasileira. Há uma frase popular no Brasil,  que contribui para entender o espírito de Rodrigues. Rodrigues afirma que “atrás de todo paladino da moral, vive um canalha.”

            Em todas as suas obras Rodrigues considera a canalhice. Uma figura que de maneira recorrente aparecia em suas crônicas e colunas de jornal era Palhares, que servia para ilustrar o canalha brasileiro, principalmente na série “A Vida Como ela É...”. Palhares é o tipo que ele definia como “canalha honesto”. Palhares, portanto, é mais que um personagem, é um conceito, uma metáfora para a complexidade humana e os desejos reprimidos que Nelson Rodrigues tão bem retratava. “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.”

 


                        As Raízes da Canalhice                                                              (Análise Psicossocial e Desenvolvimentista)                                      
  • A Canalhice como Falha Evolutiva da Consciência

A canalhice não é um defeito inato, mas uma falha de escolha que reside na Consciência, que é o fundamento da realidade. O idealismo monista de Amit Goswami (Goswami,1993), ao estabelecer que “se escolho, logo existo”, move a responsabilidade moral da fatalidade material (o cérebro) para o livre-arbítrio da Consciência.

Em A Evolução Criativa das Espécies (Goswami, 2008), o autor demonstra que a evolução é guiada por saltos criativos da consciência, impulsionando a expansão da nossa identificação do ego limitado para o Self universal. Neste contexto, a canalhice é a resistência ou a estagnação evolutiva. Ela é a recusa da Consciência em transcender o egoísmo, preferindo a contração e o benefício próprio em detrimento do coletivo – o exato oposto do caminho natural do progresso moral.


  • A Estagnação Psicológica e a Sombra Moral

A recusa evolutiva em transcender o ego limitado manifesta-se na patologia psicológica, a qual explica que a canalhice é facilitada pelo ato de reprimir e projetar aspectos negativos do self (a “Sombra”). O indivíduo nega suas próprias falhas e as vê no mundo externo, perpetuando um ciclo de hipocrisia e intolerância (Wilber, 2007).

Essa estagnação psicológica culmina na figura do Homem Medíocre (Ingenieros, 1913). A mediocridade não é apenas falta de talento, mas uma covardia moral: o indivíduo não possui um ideal próprio, optando pelo conformismo e pela hipocrisia para evitar o risco de buscar a evolução. O medíocre, ao estagnar sua consciência e viver de aparências, torna-se o agente ideal para praticar o oportunismo tático (a canalhice em pequena escala), sustentando estruturas vis pela omissão.

                    
  • O Oportunismo e a Destruição do Caráter

A fragilidade da consciência estagnada é explorada pela estrutura social e econômica. em A Corrosão do Caráter, é mostrado que o capitalismo flexível destrói o ambiente necessário para a construção de hábitos virtuosos (Senett, 1998).

O sistema recompensa o oportunismo de curto prazo, a falta de lealdade e o desapego. Assim, o comportamento canalha — a escolha pelo benefício exclusivo em detrimento do compromisso — deixa de ser uma falha de caráter para se tornar uma estratégia adaptativa incentivada pelo sistema. Esta corrosão do caráter facilita que o indivíduo medíocre faça a escolha canalha, a canalhice não como falha individual, mas como estrutura de poder.

 

 Canalhice Estrutural e a Elite do Atraso

Há um encadeamento lógico entre o homem-massa de José Ortega y Gasset, definido como encantado de si mesmo e beneficiário de padrões de vida que considera naturais, o homo demens de Edgar Morin, e a “canalhice estrutural” de Jessé Souza. Chamados de “meninos-mimados” por Gasset, esses indivíduos não olham para cima buscando um ideal de excelência; olham para o lado e veem que "todo mundo faz", sentindo-se, assim, justificados. O homem-massa não critica o sistema; ao contrário, esfalfa-se com ele e só age, em última instância, quando fustigado em seu bem-estar pessoal.

Para Edgar Morin, esse homem-massa, ao sentir-se fustigado, não reage racionalmente (Sapiens); ele reage de forma delirante (Demens). Ele projeta seu ódio, cria bodes expiatórios e aceita a canalhice estrutural da elite como se fosse uma salvação moral. Contemporaneamente, o bolsonarismo manifesta-se como a expressão máxima desse fenômeno no Brasil. Ele representa a insurgência de um homem-massa digital que, sob o efeito de uma "indocilidade intelectual", refugia-se em bolhas informacionais para validar seus próprios preconceitos. O bolsonarista, enquanto homo demens, abandona a lógica em favor do mito, projetando em inimigos imaginários — o "comunismo", as "instituições", a "ciência" — a culpa por sua angústia existencial, tornando-se massa de manobra para projetos de poder que desprezam a ética coletiva.

É nessa zona de incerteza entre o real e o imaginário que a canalhice encontra sua morada definitiva: o indivíduo, possuído por seus mitos e quimeras, torna-se incapaz de perceber que sua indignação moral é, muitas vezes, um subproduto de sua própria desordem interior. Dessa forma, o delírio do homo demens encontra sua expressão política mais acabada na obra de Jessé Souza. Para o sociólogo, a “elite do atraso” brasileira instrumentaliza a inércia do homem-massa através do que ele denomina “corrupção dos tolos”. Ao reduzir o debate moral à superfície do Estado e de bodes expiatórios específicos, a elite oculta a canalhice estrutural que define o Brasil: um sistema de pilhagem invisível que mantém os privilégios de uma classe enquanto condena a maioria à exclusão. O bolsonarismo, portanto, operou como uma cortina de fumaça moralista que, ao manter a massa em estado de transe e ódio, permitiu a aceleração da pilhagem de riquezas e o desmonte da coesão social, sob a herança de uma mentalidade escravocrata que permite ao homem-massa sentir-se 'justificado' em sua indiferença.

  

A Transmutação da Canalhice: Evolução e a Ética do Espírito

A carne só é fraca quando o Espírito é fraco. Assim, Allan Kardec se expressa deixando claro que a responsabilidade pelas atitudes do ser no mundo é do Espírito. A carne, diz ele, não é dotada de pensamento nem vontade (Kardec, 2004).

O Espírito é o ser pensante e moral. Cidadão de dois mundos, o físico e o extrafísico, apresenta a individualidade, como dimensão evolutiva. A personalidade, dimensão que ele ostenta quando se reveste da carne, expressa-se pelo seu caráter. Com essas dimensões, o Espírito encarnado é submetido à lei do progresso. A realização desses processos se alcança com o conhecimento de Si mesmo (Kardec, 2000; Q. 919).

O caráter expresso pelo Espírito se expressa no corpo (personalidade). Embora sendo matéria, ela é modelada pelas qualidades do Espírito, que lhe imprimem um certo caráter, principalmente ao semblante, sendo pois com razão que se apontam os olhos como o espelho da alma, o que quer dizer que o rosto, mais particularmente, reflete a alma (Kardec, 2000; Q. 217).

Vê-se que a canalhice é um estágio provisório, que deverá um dia desaparecer, mediante as vivências sucessivas, pelo uso do livre-arbítrio.

Conclui-se, portanto, que a canalhice, embora se apresente como o “motor da história nacional” através de estruturas de pilhagem e heranças escravocratas, não é uma condenação perpétua. Se a “elite do atraso” instrumentaliza o delírio do homem-massa, a Lei de Progresso convoca o indivíduo ao despertar. A superação da vileza estrutural brasileira passa, inevitavelmente, pela emancipação do Espírito. Quando o ser deixa de “olhar para o lado” em busca de justificativas na mediocridade alheia e passa a olhar para dentro em busca de sua própria reforma, a canalhice perde sua morada. O fim da era dos “meninos mimados” e das “aves de rapina” dar-se-á pelo esforço individual na construção de uma moralidade autônoma, onde o dever se funde ao amor, transformando, enfim, a personalidade transitória em um caráter imortal e fraterno.


 

 

Referências:

GASSET, José O. Y. A rebelião das massas. E-books Brasil.

GOSWAMI, Amit. O Universo autoconsciente. São Paulo: Rosa dos Ventos, 1993.

_____________. Evolução criativa das espécies. São Paulo: Aleph, 2009.

INGENIEROS, José. O homem medíocre. Rio de Janeiro: Getúlio Costa, 1944.

KANT, Immanuel. Metafísica dos costumes. Portugal: Calouste Gulbenkian, 2017.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.

_____________. O céu e o inferno. São Paulo: LAKE, 2004.

MORIN, Edgar. O paradigma perdido. São Paulo: Universitária, 1999.

POMPEU, J. & FILHOS, Clóvis de B. Somos todos canalhas. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

WILBER, Ken. Espiritualidade integral. São Paulo: Aleph, 2007.

 

 

 

 

 

(*)https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://opiniaofilosofica.org/index.php/opiniaofilosofica/article/download/732/661/770&ved=2ahUKEwjtudP_i7mRAxUkKrkGHVl4GdsQFnoECCYQAQ&usg=AOvVaw1rq4xKjLlETMve1DDYblAw


 

 Foto: Esse trabalho é uma citação direta à obra Viva Maria, de Waldemar Cordeiro. Exposta na Bienal de Artes da Bahia de 1966, período da ditadura militar, a bandeira com a palavra canalha costurada em feltro foi retirada da mostra pelo então governador do estado Antônio Carlos Magalhães. Cinquenta anos depois torna-se imagem frequente nas redes sociais associada a canalhocracia escancarada no Brasil.


           

 

 

 

 

(*)https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://opiniaofilosofica.org/index.php/opiniaofilosofica/article/download/732/661/770&ved=2ahUKEwjtudP_i7mRAxUkKrkGHVl4GdsQFnoECCYQAQ&usg=AOvVaw1rq4xKjLlETMve1DDYblAw

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    Este é um artigo denso e interdisciplinar que utiliza a figura do "canalha" como fio condutor para analisar as crises éticas, políticas e sociais do Brasil. Abaixo, apresento um comentário sucinto dividido pelos eixos principais:
    1. A Canalhice como Escolha e Estrutura

    O texto foge do senso comum ao não tratar a canalhice apenas como um defeito de caráter individual, mas como uma estratégia adaptativa. O autor utiliza referências de Cortella e Nelson Rodrigues para mostrar que a canalhice é uma "escolha pelo eu em detrimento do outro", frequentemente incentivada por um sistema que premia o oportunismo e a falta de lealdade (o "capitalismo flexível" de Richard Sennett).
    2. A "Elite do Atraso" e o Homem-Massa

    Um dos pontos mais fortes é a conexão entre a mediocridade individual e a estrutura social brasileira. Ao citar Jessé Souza e Ortega y Gasset, o artigo argumenta que a canalhice é o motor da história nacional, onde a elite mantém privilégios através de uma "pilhagem invisível", enquanto o "homem-massa" se sente justificado em sua inércia porque "todo mundo faz".
    3. A Síntese Filosófica e Transcendente

    O artigo percorre um caminho ambicioso que vai do Imperativo Categórico de Kant (a ética como lei universal) ao Espiritismo de Allan Kardec. A conclusão proposta é que a superação desse "ciclo de vileza" não virá apenas de reformas institucionais, mas de um salto evolutivo da consciência e do exercício do livre-arbítrio para a construção de uma moralidade autônoma.
    Resumo Crítico

    O texto é uma provocação necessária sobre a normalização do comportamento antiético no Brasil. Ele consegue amarrar bem a filosofia clássica à psicologia transpessoal e à sociologia contemporânea. O ponto alto é a definição de que a canalhice não é uma condenação perpétua, mas um estágio provisório que exige "reforma interior" e responsabilidade individual para ser superado.

    Destaque: A metáfora do "canalha honesto" de Nelson Rodrigues serve como um excelente alerta para a hipocrisia das falsas indignações morais que escondem interesses próprios.

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