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O BRASIL CÍNICO: A “FESTA POBRE” E O PATRIMONIALISMO NA CANÇÃO DE CAZUZA

 


Por Jorge Luiz

“Não me convidaram/Pra esta festa pobre/Que os homens armaram/Pra me convencer/A pagar sem ver/Toda essa droga/Que já vem malhada/Antes de eu nascer/(...)/Brasil/Mostra a tua cara/Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim/Brasil/Qual é o teu negócio/O nome do teu sócio/Confia em mim.”

 

A Festa Pobre e os Sócios Ocultos: Uma Análise da Canção Brasil’”

            Os versos acima são da música Brasil, composta em 1988 por Cazuza, período da redemocratização do Brasil, notabilizando-se na voz de Gal Costa. A música foi tema da novela Vale Tudo (1988), atualmente exibida em remake.

            A festa “pobre” citada na realidade ocorreu, realizada por aqueles que se convencionou chamar “mercado”,  para se discutir um novo plano financeiro, para conter a inflação galopante que assolava a Nação. Por trás da ironia da pobreza, revela-se a forma de como, na surdina, um grupo seleto de indivíduos se organiza para decidir, prevalecentes os interesses privados que sobrepujam e apropriam-se daquilo que é público. São esses os “sócios” liricamente citados na música, que traduzem o patrimonialismo que impera no Brasil desde priscas eras.

 

Patrimonialismo no Brasil: Das Capitanias Hereditárias ao Estamento Burocrático

         O patrimonialismo surge, em um primeiro momento, por estudos do sociólogo alemão Max Weber, como um tipo de dominação caracterizado pela confusão entre o público – res publica - e o privado, onde o poder é exercido como se o Estado fosse propriedade pessoal do governante. Em outras palavras, as funções e recursos estatais são utilizados para fins privados ou para beneficiar grupos específicos.

            Para o historiador e cientista político Raimundo Faoro, não há nada mais de enganador no processo de colonização do Brasil por Portugal, tendo a criação das Capitanias Hereditárias representada por uma delegação pública de poderes, sem exclusão da realeza. Para ele, o estamento implantado na realidade estatal do patrimonialismo não se confunde com a elite, ou a chamada classe política, mesmo quando esta se esclerosa, incapaz de renovar-se. A minoria governa sempre, em todos os tempos, em todos os sistemas políticos (Faoro, 2001).  Faoro, no entanto, considera que a burocracia no Brasil não é um mero conjunto de regras e procedimentos, mas a principal expressão de um grupo social que se apropria do Estado para seus próprios interesses, argumentando que a burocracia brasileira se consolidou como uma classe social que vive e se beneficia do patrimonialismo (idem).

            A partir dessa compreensão, o patrimonialismo brasileiro amplia-se na dinâmica da elite e alcança a classe média letrada, na definição do sociólogo Jesse Sousa, quando surge um liberalismo repaginado e habilitado para convencer e não apenas oprimir. O moralismo da nascente classe média urbana seria a melhor maneira de adaptar o mandonismo privado aos novos tempos. Pintando-o com as cores da liberdade e da decência. O que estava em jogo aqui era a captura da classe média letrada pela elite do dinheiro, formando a aliança de classe dominante que marcaria o Brasil daí em diante (Souza, 2017). A classe média letrada na contemporaneidade, configura-se naquilo que as Capitanias Hereditárias foram no processo de colonização do Brasil.    

            Com a mobilidade social promovida através das políticas públicas por partidos de esquerda, a reatividade para a manutenção desses privilégios fez que os donos do poder, agora patrocinando a classe média, tanto na esfera política, bem como a social, “mostrassem as suas caras”, verbalizadas com gana na interpretação da saudosa Gal Costa, apresentando uma nova configuração patrimonialista, agora não só como quesito moral, mas racionalizado-a como posição discursiva em várias esferas da vida social.

 

            O Cinismo como Ferramenta do Patrimonialismo

         O paradoxo do cinismo patrimonialista está na citação da poesia de Cazuza, “Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim”, e é estudado pelo sociólogo Ricardo Antunes como “privilégio” -  Privilégio da Servidão -, privilégio que na realidade é uma ilusão. O trabalhador se contenta com o mínimo, aceita a exploração e a precarização (como jornadas exaustivas, baixos salários, falta de direitos etc.) porque teme perder seu emprego e cair em uma situação ainda pior: a do desemprego. Ou seja, ele se sente sortudo por ter o que Antunes chama de servidão, uma submissão às condições impostas pelo capital.

Consorciado com o institucionalismo religioso, patentearam a servidão como privilégio, pois as recompensas para essa massa de miseráveis viriam para o reino de Deus, anunciado por Jesus, na vida além-túmulo. Eles, no entanto, abrem mão dessa realidade, mesmo sabendo da idêntica finitude, para usufruir das riquezas das quais não participam pelo árduo trabalho. Jesus inaugurou o reino de Deus, que será realizado na terra, pelo compartilhar das riquezas nela produzidas.

Meritocracia, empreendedorismo, falácias dos senhores do patrimonialismo para mascararem as desigualdades que gritam perante uma legião de miseráveis, que assim são, pela sua incapacidade de alcançar o sucesso, pelas suas incapacidades individuais.

            Entre as iniquidades sociais produzidas ao se observar a lei de amor e justiça, está o direito de propriedade – leia-se acesso às riquezas –, quando se considera que através desse direito é que se realiza o progresso material.  

            “A propriedade privada é um roubo”, frase atribuída a Pierre-Joseph Proudhon, filósofo político e economista francês, a qual comunga esse mediano resenhista. Allan Kardec familiarizou-se com as ideias de Karl Marx e Proudhon através do seu grande amigo Maurice Lachâtre, que esposou as ideias dos socialistas utópicos Saint-Simon e Charles Fourier.

            Kardec, consciente disso, abriu o item II, do Capítulo XI, do Livro III, de O Livro dos Espíritos, com o título: Direito de Propriedade. Roubo.  Antes de ouvir dos Espíritos que a propriedade legítima é aquela que foi adquirida sem prejuízos para outrem – questão nº 884, ouviu que as desigualdades sociais não somente têm suas origens nas faculdades individuais, mas também pela astúcia e pelo roubo – questão nº 808. O próprio Lachâtre confirma isso em seus apontamentos, publicado no Brasil sob o título: “O Espiritismo – uma nova filosofia”.

            Cínico é um sujeito sem escrúpulos, sem-vergonha, descarado, impudico, obsceno, hipócrita, oportunista, atrevido no modo de ser-e-viver ou atrevido quando justifica ‘cinicamente’ um ato imoral. O que dizer da ocupação do Parlamento brasileiro por deputados, com o propósito de chantagear o País, consequentemente solapar a democracia, cujos cargos que são revestidos pelo voto, único momento pleno no qual o cidadão exerce a cidadania, com o propósito de solapar a democracia?

 

O Brasil Cínico’’: Um Espelho para a Transformação Moral

No entender deste mediano resenhista, o cinismo que permeia o Brasil é mais do que uma atitude: ele se tornou uma racionalidade que opera em tempos de crise. O teórico David Harvey realça esse aspecto ao afirmar que as crises são essenciais para o capitalismo e, com elas, vêm mudanças drásticas nas formas de pensar e entender as instituições (Harvey, 2014).

Para o filósofo Vladimir Safatle, o cinismo contemporâneo é justamente isso: um modo de funcionamento em que se torna racional ser cínico, e só é possível ser racional sendo cínico. Essa racionalidade permite explicar as contradições do sistema do qual o próprio cínico se beneficia, em um processo que erosiona a substância da vida social (Safatle, 2008).

É neste contexto que o paradoxo do cinismo patrimonialista reside em sua perversão conceitual. O cinismo original, exemplificado pelo filósofo grego Diógenes, era uma virtude. Diógenes vivia de forma despojada, buscando a verdade e a libertação da alma, usando o cinismo para desmascarar a hipocrisia. Em contraste, o cinismo que impera no Brasil não é um meio de libertação, mas de aprisionamento. Ele é a atitude descarada de quem age de má-fé, utilizando a hipocrisia para justificar a manutenção de seus privilégios e a exploração de outrem. É a ferramenta dos ‘senhores do patrimonialismo’ para mascarar as desigualdades.

Assim, ao questionarmos quem paga pra gente ficar assim, a resposta nos remete à urgência de uma transformação. A moral espírita-cristã, com sua lei de amor e justiça, denuncia a desproporção da propriedade e a corrupção do caráter que o cinismo promove. A solução, portanto, não está em aceitar a servidão como privilégio, mas em reivindicar a justiça social e moral, fazendo da nossa vida um espelho dos ensinamentos de Jesus, onde a riqueza não se mede pelo acúmulo, mas pela dignidade e pelo bem-estar coletivo.

Um tribunal federal de apelações dos EUA reconhece a ilegalidade de parte das tarifas de Donald Trump, mas ainda assim permite sua cobrança. Políticos admitem roubar, mas entregam obras, e mesmo assim são reeleitos. No futebol, torcedores sabem das manipulações de resultados, mas continuam se digladiando por seus clubes. O cinismo parece, de fato, contagioso. E diante desse quadro, a máxima de Stanislaw Ponte Preta nunca soou tão pertinente: ou restaura-se a moralidade ou locupletamo-nos todos.

 

Referências:

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão. São Paulo: Boitempo, 2018.

FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Porto Alegre: Globo, 2001.

HARVEY, David. 17 contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2014.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo: Lake, 2000.

LACÂTRE, Maurice. O Espiritismo – uma nova filosofia. São Paulo: Lachâtre, 2014.

SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo, 2008.

SOUZA, Jesse. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

WEBER, Max. Economia e sociedade. São Paulo: Editora UNB, 2004.

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo apresenta uma análise intrigante e multidisciplinar da canção "Brasil" de Cazuza, usando-a como ponto de partida para discutir o patrimonialismo e o cinismo na sociedade brasileira. A conexão entre a música, o contexto político da época (redemocratização) e as teorias de pensadores como Max Weber, Raimundo Faoro e Jessé Souza é bem articulada, oferecendo uma perspectiva histórica e sociológica sobre a apropriação do público pelo privado.

    O autor faz um paralelo perspicaz entre o cinismo contemporâneo e o cinismo original dos gregos, destacando a perversão de seu significado. Em vez de ser uma ferramenta para expor a hipocrisia, o cinismo se torna um instrumento para perpetuar a exploração. A citação de Ricardo Antunes sobre o "privilégio da servidão" é particularmente relevante, ilustrando como o medo da perda de emprego mascara as desigualdades.

    A inserção de referências do espiritismo e do cristianismo, embora inesperada, adiciona uma camada de crítica moral ao debate, sugerindo que a solução para os problemas do Brasil passa por uma transformação de valores e não apenas por mudanças estruturais. O texto é provocador, estimulando o leitor a refletir sobre a persistência de certas mazelas sociais e políticas no país.

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  2. Privilégio da servidão só é possível porque o cinismo impera geral. De forma que a classe trabalhadora chega a ser grata por ser explorada. Lamentável isso. Agora, cínicos são os donos do poder apenas? Será se estamos preparados para mudar esta realidade que sempre se fez presente neste país? É ignorância, comodismo ou mesmo cinismo para fingimos que está tudo bem neste país das desigualdades?

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    1. Olá, realmente, o Blogger exige dados dele próprio para o acesso à resposta. Você pode, no final do seu comentário, registrar seu nome.
      Pois é, considerei que ele é contagioso, isso se dá a partir das contradições da ideologia capitalista, em conflito com as subjetividades dos indivíduos, formadas pelos aparelhos ideológicos do Estado (família, escola, judiciário, etc) e o próprio Estado, agente fundamental do capitalismo. Jorge Luiz.

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