Pular para o conteúdo principal

E SE A DEMOCRACIA FOSSE NOSSA RELIGIÃO?


 Por Maurício Zanolini

O professor de educação cívica Eric Liu criou, nos EUA, a Universidade Cidadã (Citzen University), um projeto que tem como foco espalhar o espírito da cidadania e a fé na democracia. A missão dele é estimular as pessoas comuns a votar, participar dos processos decisórios e influenciar ativamente a construção, manutenção e melhorias no contrato social, que determina as relações entre as pessoas de uma determinada localidade. Ele entende que esse movimento pode instigar um autogoverno, ou seja, um governo realmente das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas. Nas palavras dele: “democratizar a democracia.” 

Nos Estados Unidos, o voto não é obrigatório e é preciso se registrar para ser um eleitor votante. Essas características explicam as lutas sociais pelo direito ao voto que ao longo da história norte americana manteve ativo o sentimento de civismo (de participar do processo político). Mas com a televisão, o debate político deixou de ser a conversa sobre a  política nas reuniões da comunidade, e passou a ser a passividade do espectador que assiste ao debate do seu sofá. Com a internet, a participação passou a ser o compartilhamento de memes nas redes sociais.

Nos últimos anos, as eleições tiveram um comparecimento muito baixo de eleitores registrados (em alguns casos apenas 20% de comparecimento). Para combater isso, Liu acha que resgatar o sentimento de luta pelo acesso ao poder político e de alegria de participar coletivamente da organização do país (do bairro, da cidade, etc), é o caminho para estimular a população a se registrar e comparecer nas eleições.

Além da importância do voto, Liu se preocupa especialmente com a ampliação da compreensão das pessoas sobre o poder. O que ele é, quem o detém, como ele funciona, como ele flui, que parte dele é visível, que parte dele não é, por que algumas pessoas o têm, por que isso tende a se repetir. Essa compreensão não é só importante para que todos saibam como uma proposta vira uma lei, mas também para perceber como uma relação privilegiada vira lobby, como o preconceito vira política e um slogan vira um movimento. Nas palavras dele: “As pessoas que entendem essas coisas exercem uma influência desproporcional e elas estão mais do que felizes em preencher esse vácuo criado pela ignorância da grande maioria.”

Mas de todas as propostas dele, a mais provocativa é a que entende a democracia como uma religião. A base para essa compreensão é entender que a democracia só funciona quando um número suficiente de pessoas acredita que a democracia funciona, portanto é um salto de fé, de confiança no outro e na capacidade das pessoas dialogarem. Ele define a religião cívica como: “um sistema de crenças compartilhadas e práticas coletivas pelas quais os membros de uma comunidade autogovernada escolhem viver como cidadãos.”

Na comparação com outras religiões Liu esclarece: “A prática da religião cívica não é sobre a adoração do Estado ou a obediência a um partido político. É um compromisso de uns com os outros e com nossos ideais comuns. E a sacralidade da religião cívica não é sobre a divindade ou o sobrenatural. Trata-se de um grupo de pessoas diferentes, falando sobre as semelhança entre elas, sobre o grupo.”

Se de um lado a religião pode ser a busca por discernimento moral e por aceitar a dúvida, um compromisso de se desligar de si mesmo e servir aos outros, um desafio para melhorar o mundo, de outro a religião cívica pode nos levar a olhar para a falta de moradia, a violência, a gentrificação, a desconfiança em relação aos imigrantes e a propagação de notícias falsas, não como problemas das outras pessoas, mas como o resultado de nossos próprios hábitos e omissões. Só que raras vezes entendemos essas coisas como o conteúdo de nossa cidadania (de nossas ações como cidadãos, portanto de nossa participação política na democracia).

Aos que entendem que religião não se mistura com política, é preciso lembrá-los que religião e democracia tem na comunhão um sacramento. Nós, humanos, somos seres sociais e a partilha e a convivência são essenciais para a nossa sobrevivência, tanto física quanto emocional e psicológica. A busca pelo sagrado é também a busca por um mundo de harmonia entre os seres humanos, e essa busca é um caminho de escolhas, ações e construções. A política, a democracia e o autogoverno são ao mesmo tempo formas de comunhão e atos de fé na humanidade.


 

 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo apresenta a iniciativa da "Universidade Cidadã" de Eric Liu, nos EUA, que visa revitalizar o engajamento cívico e a fé na democracia. O texto destaca que Liu busca combater a apatia política, incentivando a participação ativa da população através do voto e da compreensão do poder. A ideia mais provocadora de Liu, segundo o artigo, é a de ver a democracia como uma "religião cívica", que exige um "salto de fé" e compromisso coletivo para funcionar. Em suma, o comentário central do texto é que a democracia não é apenas um sistema político, mas um sistema de crenças e práticas sociais que exigem a participação e a fé mútua dos cidadãos para prosperar.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

“CANALHA! CANALHA! CANALHA!”: O GRITO DE INDIGNAÇÃO CONTRA A CANALHICE ESTRUTURAL BRASILEIRA

    Por Jorge Luiz     O Grito da Canalhice: Uma Definição Multifacetada             “Assim sendo, declaro vaga a Presidência da República.” Com essas palavras,  o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, anunciou a um tumultuado Congresso Nacional, na madrugada do dia 2 de abril de 1964, que João Goulart não era mais o presidente do Brasil. Jango estava em Porto Alegre. Na gritaria que se seguiu à fala de Auro, o deputado Almino Afonso ouviu Tancredo Neves, líder do governo na Câmara, gritar: “Canalha! Canalha! Canalha”. A frase é frequentemente citada por outros políticos em momentos de crise, como fez o senador Roberto Requião, em 2016, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, evocando a memória do ato de Moura Andrade e a reação de Tancredo.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

A FARSA DA HISTÓRIA NO CENTRO DO CAPITAL: "ONDE DORMIRÃO OS POBRES?"

    Por Jorge Luiz OS RECENTES EVENTOS NA VENEZUELA ANTECIPARAM A POSTAGEM DESTE ARTIGO, QUE JÁ ESTAVA CONCLUÍDO, MAS QUE AGORA SE TORNA AINDA MAIS NECESSÁRIO.   De Reagan a Leão XIV: A Batalha pelo Cristianismo de Libertação Espero que Karl Marx esteja enganado quando afirmou que a história se repete “duas vezes” ao filósofo alemão Hegel, mas adicionou a sua própria conclusão sobre o caráter da repetição. A tragédia é o evento original, a farsa é a sua repetição, mas com uma diferença. A primeira versão é um evento dramático, enquanto a segunda é uma imitação que, apesar de ridícula, pode não ser menos prejudicial. A frase é a chave para analisar a crise social e geopolítica contemporânea.             A questão que se repete nos tempos atuais é o Império Americano e o Cristianismo de Libertação, cunhado por Michael Lövi, que antes chamava Teologia de Libertação. A arena escolhida é a América Latina, hoje ma...

DESCOBRINDO UM ESPIRITISMO LIBERTADOR

  Por Ana Cláudia Laurindo Ser espírita livre em uma sociedade prenhe de padrões e vícios, tem sido a conquista deste tempo, onde não pertencer é sinônimo de alcance, mantendo fidelidade intelectual e moral aos preceitos do livre pensamento. O elitismo de provar que sabe ronda os agrupamentos espíritas brasileiros, inclusive aqueles que se recomendam progressistas, no entanto, as armadilhas dos hábitos de manutenção de perspectivas sociais baseadas em correlação de força que perpassam o status quo, disparam alertas.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

UM POUCO DE CHICO XAVIER POR SUELY CALDAS SCHUBERT - PARTE II

  6. Sobre o livro Testemunhos de Chico Xavier, quando e como a senhora contou para ele do que estava escrevendo sobre as cartas?   Quando em 1980, eu lancei o meu livro Obsessão/Desobsessão, pela FEB, o presidente era Francisco Thiesen, e nós ficamos muito amigos. Como a FEB aprovou o meu primeiro livro, Thiesen teve a ideia de me convidar para escrever os comentários da correspondência do Chico. O Thiesen me convidou para ir à FEB para me apresentar uma proposta. Era uma pequena reunião, na qual estavam presentes, além dele, o Juvanir de Souza e o Zeus Wantuil. Fiquei ciente que me convidavam para escrever um livro com os comentários da correspondência entre Chico Xavier e o então presidente da FEB, Wantuil de Freitas 5, desencarnado há bem tempo, pai do Zeus Wantuil, que ali estava presente. Zeus, cuidadosamente, catalogou aquelas cartas e conseguiu fazer delas um conjunto bem completo no formato de uma apostila, que, então, me entregaram.

ALLAN KARDEC, O DRUIDA REENCARNADO

Das reencarnações atribuídas ao Espírito Hipollyte Léon Denizard Rivail, a mais reconhecida é a de ter sido um sacerdote druida chamado Allan Kardec. A prova irrefutável dessa realidade é a adoção desse nome, como pseudônimo, utilizado por Rivail para autenticar as obras espíritas, objeto de suas pesquisas. Os registros acerca dessa encarnação estão na magnífica obra “O Livro dos Espíritos e sua Tradição História e Lendária” do Dr. Canuto de Abreu, obra que não deve faltar na estante do espírita que deseja bem conhecer o Espiritismo.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

TUDO MUDOU. E AS INSTITUIÇÕES?

  Por Orson P. Carrara Os de minha geração, nascidos nas décadas de 60 a 80 ou 90 e, claro, mesmo anteriores, lembram-se perfeitamente do formato de organização e funcionamento de uma padaria, de uma farmácia ou de um mercado, entre outros estabelecimentos comerciais. Hoje temos tais formatos completamente diferentes. O que antes era balcão único de atendimento mudou para prateleiras abertas, inclusive com auto atendimento para pagamento. Antes levávamos o pão para casa, hoje vamos à padaria tomar café para apreciar outras delícias. Farmácias normalmente eram reduzidas, hoje se multiplicaram com total mudança nos atendimentos, face às facilidades virtuais. Nem é preciso citar mais nada, todos estamos muito habituados às facilidades dos dias atuais.

ASTRÔNOMO DIZ QUE JESUS PODE TER NASCIDO EM JUNHO (*)

  Por Jorge Hessen Astrônomo diz que Jesus pode ter nascido em junho Uma pesquisa realizada por um astrônomo australiano sugere que Jesus Cristo teria nascido no dia 17 de junho e não em 25 de dezembro. De acordo com Dave Reneke, a “estrela de Natal” que, segundo a Bíblia, teria guiado os Três Reis Magos até a Manjedoura, em Belém, não apenas teria aparecido no céu seis meses mais cedo, como também dois anos antes do que se pensava. Estudos anteriores já haviam levantado a hipótese de que o nascimento teria ocorrido entre os anos 3 a.C e 1 d.C. O astrônomo explica que a conclusão é fruto do mapeamento dos corpos celestes da época em que Jesus nasceu. O rastreamento foi possível a partir de um software que permite rever o posicionamento de estrelas e planetas há milhares de anos.