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O DESAFIO DE RECONSTRUIR A CONFIANÇA EM UM MUNDO DESENCANTADO

 

Por Mário Portela

Como? Como percorrer as veredas da vida, cultivando pensamentos soltos e distantes da realidade? Em um mundo cada vez mais caótico, vago aturdido pelos campos das ilusões, onde os contos de fada inebriam minha alma, sedenta por paz.  Ingênuo e imaturo, construo um hiato entre o pensar e o agir e acabo, como todos, preocupado, tão somente, em vencer a corrida alucinada pela sobrevivência, ladrilhando minha rua sob a lógica infantil e desconectada da vida.  O colapso total dos padrões morais, até então considerados como irrevogáveis, ruíram ante aos golpes certeiros de um individualismo progressivamente mais crescente. A cada esquina, fome e miséria forjam uma paisagem cada vez mais invisibilizada; em cada canto, o desencanto enche as redes sociais de sorrisos cristalizados em imagens falsas e alegrias voláteis.

Atualmente, o mundo enfrenta 56 conflitos em andamento, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial, conforme aponta o relatório de Índice Global pela Paz. Em 2024, 92 países estão envolvidos em disputas fora de seus territórios, o maior índice desde o início da elaboração do relatório em 2008. Além disso, o estudo revela que o número de países com crescente militarização também aumentou. Devido aos conflitos, 110 milhões de pessoas foram forçadas a se refugiar ou a se deslocar internamente em seus próprios países. O relatório também destaca que 16 nações estão acolhendo mais de meio milhão de refugiados cada uma. A violência possui um impacto econômico mundial e todos sofremos as consequências de nossa ganância e cupidez. Segundo o relatório, em 2024, o Brasil ocupa a 131ª posição entre os 163 países analisados. O índice leva em conta 23 indicadores quantitativos e qualitativos, como a percepção da criminalidade, o número de agentes de segurança, homicídios, a população carcerária, o acesso a armas, conflitos internos organizados, instabilidade política, entre outros. No caso do Brasil, os indicadores mais elevados são relacionados a homicídios, população encarcerada, crimes violentos, acesso a armas, manifestações violentas, mortes em decorrência de conflitos internos e confrontos internos em andamento. Na fornalha em chamas dos laços humanos, cada angústia grita e dói no seu próprio tempo. São como pontadas morais a incomodar o coração petrificado pelo excesso de orgulho e vaidade, cultivados há séculos e repassados culturalmente pela ideologia do ter.

E cá estamos, em mais um final de ano, cheios de expectativas, buscando uma felicidade firmada no prazer pessoal e em detrimento do outro. Ouço as pessoas dizerem que a vida ensina, que a vida é uma escola. Mas será que passamos de ano e estamos preparados para 2025? Na Biologia da convivência, aprendemos a acolher nosso semelhante como alguém que necessita de apoio, assim como nós? Na Matemática das emoções e sentimentos, conseguimos quantificar os acontecimentos positivos e negativos que nos acorreu, sempre observando o lado bom das experiencias que nos direcionam a um estado de gratidão? Na História de nossa existência, nos historicizamos, passando sempre nossa vida em revista, a fim de perdoamos mais e sentirmos melhor o prazer das coisas simples? Na Geografia consciencial, soubemos visitar outros mundos diferentes do nosso, sempre respeitando e aprendendo com o diferente? Em Línguas, utilizamos nossa fala para unir as pessoas ou verbalizamos o escândalo da fofoca e da mentira? É meu amigo/a leitor/a, parece que nosso ano letivo não foi tão bom assim. Mas espere, acredito que em Artes nos saímos bem. Nunca encenamos tanto e com tanta qualidade uma vida de aparência e futilidade, nos tornamos especialistas em felicidade de retrato. Infelizmente, ouso-lhes dizer que, a forma como vivemos essa disciplina não nos conduzirá para um 2025 feliz e próspero. Percebo, então, que terminamos esse ano, sem grandes avanços fundadores de preceitos que imprimam em nosso ser, caracteres humanos.

A realidade não corresponde ao nosso desejo e o medo do devir preenche nosso vazio com mais ansiedade. Não podemos atribuir a autoilusão, caracteres de falta de caráter ou fraqueza moral. O comportamento ilusório instala-se no ser como cegueira cognitiva, agindo de forma coletiva e é reflexo de uma educação deficitária onde não aprendemos a analisar em nós e naqueles a quem mais dizemos amar, traços de afirmações contraditórias e desprovidas de verdades significativas, criadoras de uma ética universal. Nesse caldo de interseções relacionais, vamos cultivando uma aparência e, cada vez mais, desprezamos nossa essência e acabamos por robotizar nossos comportamentos, agindo sobre forte influência de um comportamento de manada, na tentativa infame de agradar a todos para nos sentirmos aceitos socialmente. Pobre humano! Mendigo moral a implorar conforto e paz nas portas douradas da luxúria e frivolidade do mundo.

Mas a liberdade de escrever o futuro está em nossas mãos. No entanto, tenho medo do que vejo; náuseas do que ouço; agonia em assistir o homem engolir o próprio homem. A esperança é apenas um pavio que insiste em queimar tenuemente, mesmo sem a cera da fé para lhe dá força e longevidade. Apesar dos pesares, busco um amanhã tranquilo, mas não nego que antes de toda calmaria é preciso uma forte tempestade. Garimpo dentro de mim, fragmentos de generosidade e misericórdia, algo que destrua a erva daninha do desânimo. Na arquitetura do tempo não me dou por vencido. Continuo a sonhar com um mundo melhor, onde a Geometria psíquica seja plana em nome da igualdade entre os seres e seguirei, até o fim, a buscá-lo em meus atos e pensamentos.

Que em 2025 trabalhemos juntos, por um mundo melhor para todas as pessoas!

Ab imo pectore!

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