Pular para o conteúdo principal

POESIA, ASSASSINATO E SOL DE PRIMAVERA: ANIVERSÁRIO DO MEU FILHO

 

Por Ana Cláudia Laurindo

Este setembro chegou encantando as redes sociais com trechos da música de Beto Guedes, Sol de Primavera.

” Quando entrar setembro

E a boa nova andar nos campos

Quero ver brotar o perdão

Onde a gente plantou juntos outra vez”.

Setembro me trouxe um filho, semeou a boa nova nos campos da minha vida até que o assassinato cruel fechou meus olhos ao perdão, porque não seria mais possível plantar juntos outra vez neste tempo terreno, em nenhuma de suas estações.

Assim, setembro me traz saudade. Mas esta saudade é fecunda, alimentada de lutas diárias pela glória infinita do viver!

A saudade é uma energia política, nesta imensa luta contra a distorção do fenômeno assassinato em uma sociedade gerida por forças assassinas e outras intencionalidades.

É muito importante saber e dizer que aquele jovem não morreu. Seu corpo foi matado.

Matar um corpo traz inúmeras mensagens ao mundo dos que convivem com a morte imposta. Tenho me alfabetizado em códigos de poder e manipulação de crenças para seguir lutando contra a morte que criaram para o meu filho.

Algumas vezes permito que escapem em palavras as explicações para os fenômenos que nenhuma estatística nos ajuda a entender, pois o poder está como base de toda destruição de vida, e a sociedade capitalista, liberal, individualista, abre caminho para o percurso da crueldade fazer parte da rotina deste mundo.

Os efeitos dos atos cruéis são longevos, e a sociedade viciada em ganhos criou recursos de compensação para si mesmas, sobre a dizimação de corpos humanos.

Um dos aspectos que analiso é a rapidez com a qual se associam ao assassinato de jovens, sejam estes negros ou não, ao contato e uso de substâncias ilegais. Um drogadito pode ser aniquilado tranquilamente, porque já existe uma margem de expectativas criadas para embutir em números os sonhos implumes.

Quando um corpo jovem verga e tomba sob estampidos o poder avisa ao mundo que um bandido a menos foi contabilizado, portanto, é uma mensagem positiva para a coletividade que se sente aflita por este tipo de presença. Isso não significa que o jovem morto seja bandido de verdade, mas a sua morte ecoa sob esta justificativa aceita e esperada. Na sequência, os verdadeiros bandidos, usurpadores de direitos e muitas vezes empossados em cargos públicos, seguem incólumes vestidos na capa de cidadãos.

A ritualística social para a aceitação da morte como elemento de manutenção do poder violento, não é temática aberta porque tem sido conveniente para pesquisadores, escritores, jornalistas e cidadãos comuns, reforçar a culpa das vítimas.

A mentira toma ares de verdade e um suspiro diz que Deus quis assim. A farsa mantém a estrutura inalterada pelos séculos.

A estrofe da música nos diz que

“Já sonhamos juntos

Semeando as canções no vento

Quero ver crescer nossa voz

No que falta sonhar”

Mas não tem bastado sonhar, precisamos cantar pela vida, na consciência de que nenhuma vantagem terrena será eterna ao corpo que agora nos veste, porque é perecível, e nesta condição, despir os medos e as ambições possui a mesma importância.

As vozes precisam liberar dores, gritos e denúncias até que o gozo inflamado do consumo supere a surdez e ouça essa verdade que bate em tantas portas, através de homicídios e genocídios.

Já choramos muito

Muitos se perderam no caminho

Mesmo assim, não custa inventar

Uma nova canção que venha nos trazer”

Seguimos chorando quando somos violentados pela cultura da anestesia, pela exigência de complacência para com os violentos e abusadores.

Nestes caminhos se perdem os desamparados e os iludidos.

A nova canção precisa trazer libertação, saber que a história humana é feita de movimentos conhecidos, e Deus não interfere nos rumos da nossa maldade, da nossa indiferença, julgamentos cruéis e mesquinhos.

“Sol de primavera

Abre as janelas do meu peito

A lição sabemos de cor

Só nos resta aprender”

Meu peito de mãe continua amamentando, nutrindo de amor os afetados  pela escassez de coragem, abrindo as janelas da alma consciente, lúcida e ferida no imo, mas amparada pela santidade do que é eterno, aprendendo a fazer diferente cada amanhecer.

Esse setembro nutre a memória do meu filho, e beija com lágrimas seu nome ferido e ensanguentado pela covardia dos cidadãos.

Alexystaine Laurindo é flor eterna, e este sol de primavera é banho causticante na consciência de quem não precisa perdoar, porque decifrou o código da morte e o repudia, todos os dias. Eu, sua mãe.

Comentários

  1. Bom e comovente texto. Gosto muito tanto dos textos quanto das lives com Ana Cláudia. Doris Gandres.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

O ESPÍRITO NÃO “REINICIA” SUA EXISTÊNCIA AO DESENCARNAR. ELE PROSSEGUE COMO SUJEITO HISTÓRICO

      Por Wilson Garcia   Quem governa a vida: o encarnado ou os Espíritos? É relativamente comum, no meio espírita — e talvez mais ainda fora dele — a ideia de que os Espíritos acompanham os encarnados de forma permanente, opinando sobre tudo, interferindo em decisões cotidianas e, em certos casos, conduzindo a própria vida humana. Quando escrevi o livro Você e os Espíritos, um amigo sintetizou esse imaginário com ironia: “Parece que quem comanda a vida são os Espíritos, e não o encarnado.” A observação, embora espirituosa, revela um equívoco conceitual recorrente. Ela expressa uma leitura simplificada — e até confortável — da relação entre o mundo espiritual e o mundo material, pois desloca responsabilidades, dilui escolhas individuais e oferece explicações prontas para conflitos pessoais e sociais.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

O CALVÁRIO DAS MARIAS: DA RED PILL À INSURREIÇÃO DO ESPÍRITO

      Por Jorge Luiz “Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele.” (Paulo Freire)   A Patologia da Simbiose Promíscua Vídeo que circula nas redes sociais mostra a comandante da Guarda Municipal de Fortaleza reunida com outras mulheres, arguindo que há algo de errado no segmento evangélico. Analisando alguns dados estatísticos, ela concluiu que o número de mulheres agredidas dentro da ambiência do lar é de evangélicas. Essas mulheres, ao buscarem ajuda em suas igrejas, são orientadas pelo pastor a não procurarem advogado ou a polícia, e que devem se submeter ao marido, ganhando-o pelo testemunho. A crise é espiritual; portanto, orem! Essa também é a convicção desse mediano escrevinhador. 

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

ENLATADOS NO TEMPO

  Por Marcelo Teixeira Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

A RELIGIÃO DO CAPITAL: O ENRIQUECIMENTO DOS PASTORES E A ESTERILIDADE DA FÉ INSTITUCIONAL.

      Por Jorge Luiz   A “Teocracia do Capital”: A Ascensão das Organizações Religiosas no Brasil Moderno             Os números denunciam. Segundo o Censo de 2022, o Brasil tem mais estabelecimentos religiosos que superam a soma de hospitais e escolas. O número de organizações religiosas criadas por dia no Brasil varia de 17 a 25. Essas mesmas instituições movimentam mais de R$ 21 bilhões por ano, riqueza cujo retorno social institucionalizado é questionável. Esse montante, contudo, carece de um vetor social direto, uma vez que goza de imunidade tributária e não se reverte em investimentos em saúde ou educação. Tamanha pujança econômica permitiu, inclusive, que diversos pastores brasileiros figurassem na revista Forbes como detentores de fortunas bilionárias.             Em contrapartida a isso tudo, o Brasil vive uma anomia moral. Os escândalos de ...

ALLAN KARDEC, O DRUIDA REENCARNADO

Das reencarnações atribuídas ao Espírito Hipollyte Léon Denizard Rivail, a mais reconhecida é a de ter sido um sacerdote druida chamado Allan Kardec. A prova irrefutável dessa realidade é a adoção desse nome, como pseudônimo, utilizado por Rivail para autenticar as obras espíritas, objeto de suas pesquisas. Os registros acerca dessa encarnação estão na magnífica obra “O Livro dos Espíritos e sua Tradição História e Lendária” do Dr. Canuto de Abreu, obra que não deve faltar na estante do espírita que deseja bem conhecer o Espiritismo.