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FISIOLOGIA DA DESENCARNAÇÃO (FINAL)

 

 


 Por Jerri de Almeida

Na obra “Voltei” psicografada por Francisco C. Xavier, e de autoria espiritual de Irmão Jacó, temos a narrativa da experiência da desencarnação do próprio autor espiritual:

“As mãos do passista espiritual concentravam-se-me agora no cérebro. Demoraram-se, quase duas horas, sobre os contornos da cabeça. Suave sensação de bem-estar voltou a dominar-me, quando experimentei abalo indescritível na parte superior do crânio. (...) Semelhava-se a um choque elétrico, de vastas proporções, no íntimo da substância cerebral. Aquelas mãos amorosas, por certo, haviam desfeito algum laço forte que me retinha no corpo de carne...” (Voltei, cap. 2. P. 31. Ed. FEB.)

Do exposto, devemos considerar que o Centro Coronário é tido como o mais significativo, em razão de seu alto potencial de radiações, uma vez que nele assenta a ligação com a mente, sede da consciência. Deve-se a isso, o fato de o desligamento do Espírito ao corpo concluir-se com o rompimento do “fio prateado” conectado no centro coronário (na região central do cérebro), justamente por encontrar-se aí o ponto de interação entre as forças determinantes do espírito e as forças fisiopsicossomáticas organizadas. No livro “Obreiros da Vida Eterna”, o instrutor espiritual Jerônimo chama-nos a atenção para três regiões orgânicas fundamentais que demandam extremo cuidado nos serviços de liberação da alma:

Centro Vegetativo

Ligado ao ventre, sede das manifestações fisiológicas. Plexo Solar/Gástrico. Produz o esticamento dos membros inferiores: esfriamento do corpo.

Centro Emocional

Situado no tórax; zona dos sentimentos e desejos. Plexo Cardíaco. Produz desregularidade do coração, aflição, angústia, pulso fraco.

Centro Mental

Situado no cérebro; o mais importante. Centro Coronário/Epífise/ Fossa Romboidal. Desatamento do “fio prateado”. Inutilização do tronco encefálico.

Cumpre observarmos que o desprendimento do períspirito, no entanto, não se dá subitamente, mas gradualmente, e com uma lentidão variável conforme o nível educacional ou de desenvolvimento moral do indivíduo. Em uns, é bastante rápido, podendo dizer-se que o momento da morte é mais ou menos o da libertação. Em outros, cujas vidas enalteceram hábitos negativos, contra si e/ou contra a vida, o desprendimento é mais lento, devido à “força adesiva”, que, por afinidade, mantém unidos perispírito e corpo físico. Percebemos, ainda, que nos casos de morte causada por doenças de longo período, a desagregação tem início prévio pelo fato de a doença ensejar o esgotamento gradual das energias vitais do corpo. O mesmo não ocorre nas mortes violentas, pois nenhuma desagregação pôde iniciar-se previamente considerando-se que a vida orgânica estava em plena exuberância quando foi subitamente aniquilada. Em tais condições, o processo desencarnatório inicia com a morte e de forma gradativa, conforme nos observa o Codificador em comentário à questão 162 de “O Livro dos Espíritos”: “(...) Em todos os casos de morte violenta, quando não resulta da extinção gradual das forças vitais, os laços que prendem o corpo ao perispírito são mais tenazes, e o desligamento completo é mais lento.”

Visões no leito da morte

As chamadas “visões no leito da morte” compreende a percepção pelo moribundo, em certos casos, de espíritos familiares e amigos que se fazem presentes nesse relevante momento de regresso à vida espiritual. Muitas vezes, por desconhecimento dessas questões, familiares e médicos interpretam essas manifestações como “alucinações” geradas por drogas ou oriunda da própria doença ou mesmo produzidas por tensão excessiva. Mas nem toda percepção dessa natureza pode e deve ser enquadrada como “alucinação”. Limitar um acontecimento a uma “única explicação” não nos parece ser coerente ou “científico”.

O pesquisador italiano Ernesto Bozzano, realizou exaustiva pesquisa sobre os “fenômenos psíquicos no momento da morte” Em suas investigações, Bozzano também estudou os “casos nos quais as aparições dos mortos são percebidas unicamente pelo moribundo e se referem a pessoas cujo falecimento era por ele conhecido.” Natural que sejamos assistidos nesse momento e percebamos – devido ao enfraquecimento da vitalidade física – a presença de nossos protetores e orientadores, bem como, familiares e amigos espirituais que nos vem receber de retorno à vida espiritual.

Consciência

A desencarnação é sempre seguida de um período de perturbação ou torpor, de duração variável. Na transição da vida corporal para a espiritual, o estado de maior ou menor lucidez ou autonomia consciência do desencarnante, estará sempre vinculado ao construído no espaço do seu mundo interior: seus valores alimentados durante a experiência existencial. Maior perturbação sofre quem mais apegado estava à vida terrena. Todavia, aquelas pessoas que nutriram ideais de beleza, caracterizados pela elevação dos sentimentos e o emprego nobilitante da inteligência, conquistaram para si mesmas possibilidades transcendentes de percepção, podendo contemplar conscientemente o seu próprio desprendimento e até, em certos casos, auxiliar os benfeitores espirituais incumbidos de tão delicada tarefa. Há casos que, principalmente quando a desencarnação se dá após enfermidade prolongada, o espírito, antes de “adormecer” a sua consciência, consegue observar seu corpo material inerte, comunicar-se com outros espíritos e/ou deslocar-se através do ambiente onde se encontra, percebendo o comportamento e a reação das pessoas à sua volta.

Nas pesquisas desenvolvidas pelo Dr. Raymond ª Moody Jr, registradas em seu famoso livro “Vida Depois da Vida”, baseado em fatos narrados por pessoas que vivenciaram a denominada experiência de “quase-morte”, mas voltaram depois à consciência física, encontramos inúmeros relatos de pessoas que ouviram seus médicos e/ou parentes declará-las mortas, algumas percebem ainda a movimentação na sala cirúrgica, o estado aflitivo dos parentes e amigos, ..., mantendo certo nível de consciência sobre os acontecimentos.

A experiência do túnel

Conforme os estudos do Dr. Raymond A. Moody Jr. há interessantes relatos de pessoas que, no processo da morte – no momento do “desligamento” – tiveram “a sensação de estar sendo muito rapidamente puxada através de uma espécie de espaço escuro”. A pessoa parece atravessar um “túnel”, em grande velocidade, na direção de um ponto de luz As pesquisas, entretanto, não indicam que essa experiência seja regra geral.

Retrospectiva existencial

Imagine-se revendo todos os fatos de sua existência como se estivessem passando em uma tela de cinema! Sim, esse é um dos fenômenos registrados por ocasião da desencarnação. Por ocasião do desligamento do corpo, o ser espiritual experimenta um processo de recapitulação sistemática de sua existência. Esse mecanismo oferece, ao desencarnante, um intenso processo de autoanálise, não somente mostrando-lhe os painéis de sua existência, mas, também os efeitos de suas ações edificantes ou não.

Emergem, de forma panorâmica, farto material que nos desnuda diante da própria consciência. O cintilar das emoções, nesse momento, é oportuno para uma avaliação pessoal de como estamos conduzindo a nossa vida. Observe o seguinte relato:

“Vi-me diante de tudo o que eu havia sonhado, arquitetado e realizado na vida. Insignificantes ideias que emitira, tanto quanto meus atos mínimos, desfilavam, absolutamente precisos, ante meus olhos aflitos como se me fossem revelados de roldão, por estranho poder, numa câmara ultrarrápida instalada dentro de mim.” (Livro: Voltei. Francisco C. Xavier, pág. 31)

Por mais aflitivo que seja esse exame é necessário, porque pode ser o ponto de partida de resoluções salutares, caracterizando um clima de estímulo ao autoconhecimento. A recapitulação é um ato da memória, mas não um tipo normal de lembrança. Primeiro, é extraordinariamente rápido e, quase sempre, descrita como uma exibição de imagens visuais, seguindo em ordem cronológica. Em alguns casos, em cores vibrantes. Segundo os sentimento e emoções associados com as imagens são novamente experimentados, de forma intensa. Do mais insignificante ao mais significativo. Mas a experiência da recapitulação pode-se limitar, em alguns casos, somente aos pontos mais essenciais ou principais da existência

Essa retrospectiva motiva – interiormente – uma pergunta: o que você fez na sua vida? Para o Dr. Moody, algumas pessoas caracterizam isso como um esforço educacional que parece acentuar a necessidade de “a amar outras pessoas e adquirir conhecimento.”

Percepções

Quando os familiares não aceitam de forma equilibrada a perspectiva da separação e alimentam profunda inconformidade e desespero, que se prolonga no tempo, criam mentalmente uma espécie de “teia de retenção”, envolvendo o desencarnante. Esse quadro mental e afetivo tende a dificultar ou retardar o processo de liberação e/ou adaptação do desencarnante. Não raras vezes, os orientadores espirituais lançam mão de alguns recursos para promover a chamada “melhora da morte”. Operando uma melhora artificial no paciente, sua família –aliviada – retoma um estado mental de confiança na vida. Aproveitando a “trégua” dos familiares, os espíritos responsáveis aceleram o processo desencarnatório.

Mesmo após a desencarnação, reações positivas, de aceitação do fato, de compreensão e de preces, partidas de familiares e amigos, atuaram para auxiliar o desprendimento e, desse modo, amenizar o estado de confusão que, normalmente, acompanha o desencarnante. As preces feitas com sentimentos ressoam em torno do espírito como as vozes amigas que nos fazem despertar de um sono.

O Despertar na vida espiritual

É comum os espíritos recém-desencarnados acordarem em hospitais, institutos ou casas de tratamento ou refazimento e readaptação. Questiona Kardec:

Que sensação experimenta a alma no momento em que reconhece

estar no Mundo dos Espíritos?

- Depende. Se praticaste o mal, impelido pelo desejo de o praticar, no primeiro momento te sentirás envergonhado de os haveres praticado. Com a alma do justo as coisas se passam de modo bem diferente. Ela se sente como que aliviada de grande peso, pois que não teme nenhum olhar perscrutador.

(O Livro dos Espíritos – questão 159)

O estado moral do ser humano é fruto de suas construções mentais, emocionais e volitivas no transcurso de seu histórico espiritual e, mais substancialmente, de sua existência atual, com influência decisiva para maior ou menor facilidade de sua desencarnação e despertar na espiritualidade. Refletindo em si próprio, a lei de afinidade estabelece que, quanto mais espiritualizado for o indivíduo, mais rápido se processa a desencarnação e melhor o nível do grupo espiritual em que o espírito se classifica imediatamente após a morte. Portanto, as construções interiores, que nos alimentam a jornada existencial, refletirão nosso estado feliz ou desditoso, harmonizado ou desequilibrado, após a libertação da indumentária orgânica.

Nesse sentido, o conhecimento espírita, oferta-nos uma cosmovisão de vida, esclarecendo, consolando, gerando estímulos e motivações, com base na fé racional, para instrumentalizar o processo de autoeducação consciencial do homem imortal, para vivências enobrecedoras, nas quais valores e hábitos, pensamentos, sentimento e ações, tipifiquem a dinâmica do bem.

A grande alegria do ser, ao atravessar a cortina da morte, é a percepção de continuar e sentir-se vivo. André Luiz, anotou a afirmativa de um espírito amigo: “Depois da morte física, o que há de mais surpreendente para nós é o reencontro da vida.” Que maravilha!

Nossa cultura Ocidental foi profundamente enrijecida pela “ideia do nada”, fruto de reflexões materialistas de pensadores e filósofos, ao longo de nossa história. Freud, por exemplo, considerava que diante do fim irremediável da vida, o homem havia – como fuga dessa realidade – criado o “imaginário da imortalidade”. É bem verdade que a ideia da vida após a morte com céu (de ociosidade eterna), inferno (de sofrimento infinito) e juízo final, tal como asseveram as religiões tradicionais, ensejaram a descrença e o antagonismo de muitos pensadores. Entretanto, criou-se uma “ditadura materialista” que não contribuiu em nada para desvelar um universo realmente rico de sabedoria, fruto, sim, de uma inteligência suprema e absolutamente sábia.

 

Referências Bibliográficas

BOZZANO, Ernesto. A Crise da Morte, 7ª Ed. FEB.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 34ª Ed. FEB.

_______. O Livro dos Espíritos. 68ª Ed. FEB.

LUIZ, André. Evolução em Dois Mundos. 17ª Ed. FEB.

_______. Obreiros de Vida Eterna. 17ª Ed. FEB.

_______. Os Mensageiros. 28ª. Ed. FEB.

PERALVA, Martins. Estudando a Mediunidade. 12ª Ed. FEB.

PIRES, J. Herculano. Educação para a Morte. 3ª Ed. Correio Fraterno.

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