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A MORAL RESSENTIDA E A MORAL ESPÍRITA

 


 Por Jerri Almeida

Nietzsche foi o filósofo que, possivelmente, mais veementemente, criticou a moral cristã.  Escavando a origem da moral ocidental, enraizada na tradição judaico-cristã, ele utiliza um método genealógico para compreender o contexto histórico de construção do que chamou de uma moral ressentida. A experiência do povo hebreu, de opressão e escravidão sofrida no contato com egípcios, babilônicos e romanos, sem que houvesse condições de reação bélica para a conquista da liberdade, segundo Nietzsche, teria levado os sacerdotes judeus a construírem e incorporarem uma moral que tornava seus opressores a própria imagem do mal.

A tensão entre o povo escravizado e seus senhores, produziu uma espécie de “revolta moral” na qual se negava as qualidades dos opressores, ao mesmo tempo que se enfatizava a resignação e a paciência dos oprimidos como virtudes fundamentais. Segundo Neto: “Para dar legitimidade a essa moral, os sacerdotes tiveram de se apoiar na ideia da vingança divina. Isto é, a moral judaica teria sido sustentada pela promessa de que, num momento vindouro, Deus libertaria os escravos e vingaria toda a dor aturada por eles até então”. [1]

Essa expectativa, engendrada pelos sacerdotes, teria dado ao povo uma espécie de esperança no futuro, paciência e resignação diante dos sofrimentos do presente, que se tornaram virtudes morais. Para Nietzsche, esse ódio reprimido deu origem a uma moral ressentida, da qual teria brotado a moral ocidental. Assim, os valores ressentidos não teriam ficado restritos à comunidade dos judeus, mas tido influência também entre os cristãos. A relação de parentesco com o judaísmo teria levado o cristianismo a assimilar uma moral que torna os oprimidos virtuosos. A tradição cristã se tornou, segundo Nietzsche, ainda mais radical ao imaginar um julgamento divino na vida de além-túmulo para os senhores enquanto os oprimidos seriam recompensados. Portando, a verdadeira recompensa da existência estaria, para os “bons”, na vida futura. O sofrimento torna-se uma “bem-aventurança”.

Assim, está imbricado na “moral cristã” a expectativa de recompensa futura, o conformismo, e a obediência aos “desígnios de Deus”. No entender de Nietzsche, essa obediência moral teria constituído um imaginário religioso de negação do mundo material, na medida em que projeta todas as esperanças na vida pós-morte. Para ele, um dos grandes responsáveis por esse esvaziamento de significado da vida terrena, foi Paulo de Tarso. Na análise de nosso filósofo, foi Paulo que “popularizou” essa perspectiva de julgamento e recompensa, contaminando o imaginário da civilização ocidental.

No entanto, em sua obra “O anticristo”, Nietzsche sustenta que a noção de “Reino de Deus” para Jesus era compreendida como uma experiência pessoal “de paciência frente à dor, mas não como algo que viria após a morte em forma de retribuição ou castigo”. [2] A filosofia platônica e a religião cristã teriam incentivado uma espécie de redenção ou de evolução espiritual a partir da negação da existência e do corpo, e da sustentação do sofrimento como virtude.

Considerando que a hipótese de Nietzsche esteja correta, então fica compreensível que a moral judaico-cristã, ao longo de sua historicidade no Ocidente, teceu, com linhas de ressentimento, um imaginário de desumanização e despersonalização do humano. Isso explica, pelo menos em parte, frases do senso comum, tão comuns hoje em dia, do tipo: “Deus no comando”. Por mais ingênuo que isso pareça, existe uma confiança cega, numa moral religiosa que retira do sujeito/humano/Espírito a responsabilidade pela tecitura de sua própria existência.

O espiritismo absolutizou a moral cristã, como uma “moral universal”. Em alguns aspectos me parece que existe uma reprodução dessa narrativa criticada por Nietzsche. A ideia de que a nossa verdadeira vida é no mundo dos espíritos e que, portanto, na vida futura devemos depositar nossas esperanças como forma de consolo para os dilemas atuais; que as coisas materiais não possuem valor para nossa evolução espiritual; que a reencarnação é a chave para explicar as desigualdades e arbitrariedades sociais, entre outras. Narrativas como essas, descontextualizadas, fragmentadas, sem análise problematizada a partir do conjunto da obra kardequiana, podem continuar reproduzindo essa moral ressentida.

Penso que vivemos, em termos de movimentos espíritas, um período ingente e profícuo de oxigenação de ideias, de revisão das interpretações simplistas aos ensinos espíritas, de livre-pensar, onde buscamos trazer Kardec para o contemporâneo e resgatar a essência libertadora de sua filosofia. A moral cristã, da qual escreve o fundador do espiritismo, não deve ser entendida nos estreitos limites da tradição judaico-cristã, dogmática, ressentida, do julgamento e da barganha. Uma moral da alienação e da passividade, que insiste em negar o mundo para ganhar o céu, ou quem sabe um bônus para viver em “Nosso lar”? Precisamos resgatar no espiritismo os fundamentos de uma moral autônoma [3], que situe o ser-na-existência, com todas as suas implicações humanas. Em favor de uma moral ocidental, não devemos abandonar – calcada em argumentos religiosos, nosso direito à cidadania, ao debate político e às discussões pertinentes à sociedade e ao mundo que vivemos.

A verdadeira vida é aquela que estamos vivendo! A “moral espírita” – com sua eticidade metafísica, necessita, sem perder uma perspectiva de futuro, acolher o humano que habita em nós.

 

Notas/Referências

[1] NETO, João E. T. de Melo. 10 Lições sobre Nietzsche. Petrópolis-RJ: Vozes, 2017. p. 64.

[2] Idem. p.68.

[3] “Onde está escrita a lei de Deus? Na consciência”. O Livro dos Espíritos, questão: 621.

[4]NIETZSCHE, F. Sobre a genealogia da moral. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: LP&M, 2018.

[5] MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje. Sobre os desafios da vida contemporânea. Petrópolis-RJ: Vozes, 2018.

 

 

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