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ASSERTIVIDADE - UMA CARIDADE MORAL

 

 


 Por Doris Gandres

Há muito tempo Jesus nos recomendou “seja o vosso falar sim-sim, não-não”. E há séculos vimos barganhando com a nossa consciência e com os nossos deveres; há séculos vimos fugindo de nossas responsabilidades, vimos fingindo acreditar poder delegá-las a outrem – por que também quisemos ignorar outra afirmativa do Mestre nazareno: “quem quiser vir comigo, pegue a sua cruz e siga-me”, não disse que a carregaria para nós.

Há milênios somos “os seres inteligentes da criação” (LE 76), a cada existência recolhendo ensinamentos e experiências que nos permitem avançar rumo à perfeição indefinida e à felicidade. Esta condição faz com que, a cada etapa, cresça o nosso entendimento, desenvolva-se o senso moral que, em germe, habita a nossa consciência (LE 621 e 754). Somos dotados, desde a nossa criação, de um potencial ainda não bem compreendido e que fará de nós, no futuro mais ou menos distante, espíritos altamente evoluídos, como nos assinalou ainda Jesus: “sois deuses, fareis tudo que eu faço e muito mais”.

O que já sabemos, contudo, é que isso se dará em conformidade com os esforços individuais empreendidos nesse sentido, mediante o uso da razão e do bom-senso, do exercício do amor e da caridade bem compreendida. Em nenhum momento a doutrina espírita recomendou a fé cega, a abnegação do nosso livre-arbítrio: “Jamais o Espiritismo disse que era preciso fazer abnegação de seu julgamento e submeter-se cegamente ao dizer dos Espíritos” (RE abril 1866).

Por tudo isso, pelo elevado teor de ensinamentos a que já tivemos e temos acesso, é imprescindível, após criteriosa e imparcial análise de fatos, situações, circunstâncias e recomendações, tanto de Espíritos desencarnados quanto encarnados, bem avaliar seu conteúdo, sua qualidade, sem nos prendermos aos nomes envolvidos “por mais ilustres que sejam” (ESE – Introdução II).

Elaborar, construir e manter a nossa assertividade, respeitando a condição de cordialidade e consideração em relação aos outros, trata-se de um trabalho minucioso, cuidadoso e, porque não dizer, difícil; trata-se de assumir uma postura de compromisso com os ideais, conceitos e a proposta de vida que escolhemos para reger nosso comportamento e nossas opções – e isso de forma direta, transparente e firme e, ainda assim, fraterna.

A assertividade significa coerência do aparente com o imanente, ou seja, do exterior com o interior, do parecer com o ser; significa fidelidade explícita aos princípios reconhecidos como aqueles que devem basilar atitudes; significa não se utilizar da desculpa de fins meritórios para servir-se de meios duvidosos; significa enfim ter a coragem de ser verdadeiro não só para com os outros, mas, sobretudo, para consigo mesmo.

Essa postura requer muita segurança em relação àquilo que se propõe como caminho e objetivo. A nossa doutrina abre os nossos olhos para o fato de não só já sermos seres inteligentes, mas sermos também independentes, visto sermos senhores absolutos do nosso livre-arbítrio: “Com o ser espiritual independente, preexistente e sobrevivente ao corpo, a responsabilidade é absoluta (...) Provar que o homem é responsável por todos os seus atos é provar a sua liberdade de ação, e provar a sua liberdade é revelar a sua dignidade” (RE março 1869).

Ao estudar a teoria do móvel de nossas ações, Kardec assinala: “a doutrina espírita não só é de sublime moralidade, mais ainda revela o homem aos seus próprios olhos; mostra-o livre de sacudir todo jogo, assim como é livre para fechar a porta aos importunos; já não é qual máquina, agindo por um impulso independente de sua vontade; é um SER RACIOCINANTE, QUE OUVE, JULGA E ESCOLHE” (RE setembro 1868). Em junho de 1865 (RE), recomenda: “É, pois, um dever de todos os espíritas sinceros e devotados, repudiar e desautorizar abertamente, em seu nome, os abusos de todo gênero que pudessem comprometê-la, a fim de não lhes assumir a responsabilidade: pactuar com os abusos seria tornar-se cúmplice e fornecer armas aos nossos adversários.”

Há uma recomendação do Espírito Luis de França (mais tarde, São Luis), cujo título primeiramente espanta: “O Espiritismo Obriga”. Mas, à medida que se avança na leitura, compreende-se que não poderia ser diferente: “O Espiritismo é uma ciência essencialmente moral. Então os que se dizem seus adeptos não podem, sem cometer uma grave inconseqüência, subtrair-se às obrigações que impõe. Essas obrigações são de duas sortes: a primeira concerne o indivíduo que, ajudado pelas claridades intelectuais, que a doutrina espalha, pode melhor compreender o valor de um de seus atos, melhor sondar todos os retalhos de sua consciência (...) A segunda ordem de obrigação do espírita, decorrendo necessariamente da primeira e a completando, é a do exemplo, que é o melhor dos meios de propagação e de renovação” (RE maio 1866).

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