Pular para o conteúdo principal

QUANDO FOR ORAR CONVÉM REFLETIR

 

            


Por Roberto Caldas

Oração é uma espécie de diálogo. Supõe interlocução. De quem com o quê? Talvez seja essa uma questão importante para entender o que sucede nesse momento que pode ser considerado de maior refino e fluidez de alguém em contato com o transcendental. Afinal, porque é disso que se trata. A oração é uma tentativa de encontro com o transcendental.

            Jesus considerou a grandiosidade desse momento de conversação da pessoa com Deus. Sugeriu atitudes para gerar conexão adequada evitando que as palavras se tornassem vazias, como se aprecia em Mateus (5; 23 e 24): “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta”.

            O interlocutor, Aquele que é destinatário dos pensamentos que se aglomeram em oração tem a condição de adentrar a intimidade dos sentimentos daquele que evoca o contato. Não há como enganá-lo. Se a boca emite um discurso alheio ao que se passa no coração, nada feito. Sem conexão. Mesmo que consiga enganar às multidões em mistificações que arraste aos menos cuidadosos.

            O momento da prece certamente prescinde de fórmulas, mas pode aceitá-las se a mente que as utiliza acreditar fortemente que necessita das mesmas para expor o que há de mais profundo em sua alma. Prescinde, no entanto da dramatização e do estardalhaço, posto que a divindade certamente não é passiva de ser impressionada.

            O Livro dos Espíritos (q. 659) põe esse entendimento da seguinte maneira: “Qual o caráter geral da prece? - A prece é um ato de adoração. Fazer preces a Deus é pensar nele, aproximar-se dele, pôr-se em comunicação com ele. Pela prece podemos fazer três coisas: louvar, pedir e agradecer”.  Na questão que lhe antecede (658) sobre o que é agradável à Deus numa oração, a resposta indica que “A prece é sempre agradável a Deus quando ditada pelo coração, porque a intenção é tudo para ele.”

            É possível transferir os templos externos para a intimidade do pensamento que se entrega a Deus, única garantia de estarmos plenos de Sua presença em quaisquer ambientes ou situações, incluídos os templos erigidos para orar. Sem essa compreensão todas as paredes que nos cercam não passam de paredes, sem reverberação do pensamento evocador que se transforma em meras palavras vãs.

            O hálito divino se encontra espalhado universalmente. Desnecessárias vestimentas, luzes, sons, odores especiais para entrar em contato com a Sua vibração. Não há segredos àqueles que alcançam alimentar-se desse respiro que se expande em todas as direções. A simplicidade e a aceitação são as brechas que o pensamento humano conquista para conseguir desnudar a alma no seu intento de adoração ao Poder do Universo.

            Quando formos orar convém refletir que Deus Nos sabe antes mesmo que anunciemos as nossas pretensões de adoração. Impossível enganá-Lo com palavras que não expressem a nua realidade da alma.

 

             


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

A ANATOMIA DE UM ABANDONO: DO CAPITALISMO DESTRUTIVO À TEOLOGIA DO CUIDADO

    Por Jorge Luiz.            O Corpo como Sentença Político-Espiritual A obra literária “Quem Matou meu Pai” , de Édouard Louis, é um monólogo biográfico nascido de uma dor visceral. O relato parte do encontro com seu pai — um homem que, após uma vida de trabalho manual na fábrica e um grave acidente laboral, encontra-se doente, com dificuldades para andar e respirar, reduzido a uma "invalidez" física. Esse corpo quebrado é o ponto de partida para que o autor, com uma voz apaixonada e urgente, questione os culpados pela destruição da saúde e da dignidade do seu progenitor.             Na realidade, o relato de Louis faz-nos reconhecer, na sua história, a trajetória de milhões de indivíduos e as “digitais do poder” na anatomia da vida quotidiana. É um relato sobre a luta de classes, o afeto e o apagamento — um grito que ecoa em um tempo em que a gestão técnica tenta silenciar o...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

LIVRE-ARBÍTRIO E MOBILIDADE SOCIAL

      Por Marcelo Teixeira                Ouvi de um motoboy, a quem chamarei de Dario, um depoimento que me sensibilizou. Disse ele, entre triste e revoltado, que não vislumbrava perspectivas de uma vida melhor para ele e família, apesar de trabalhar de sol a sol. A rotina massacrante e cansativa o fazia sair de casa todas as manhãs na esperança de tempos ditosos; no entanto, acabava sempre fazendo o mesmo trabalho para pagar as mesmas contas e seguir sempre no mesmo ritmo, sem expectativa de algo diferente que lhe permitisse voltar a estudar, adquirir a casa própria ou realizar outro sonho que dependesse de juntar algum dinheiro. Uma vida que se limita a cruzar a cidade de motocicleta, fazendo entregas, num périplo que dura aproximadamente 12 horas por dia.               Tal depoimento me instigou a pensar de forma mais acurada na questão do livre-arbítrio, tema so...

A FÓRMULA DA FELICIDADE

    Por Marcelo Henrique   A felicidade é “Para a vida material, a posse do necessário; para a vida moral, a consciência pura e a fé no futuro” (resposta ao item 922, de “O livro dos Espíritos”). ***               A felicidade parece ser a maior busca da humanidade. Ser feliz é a pretensão, o desejo, a aspiração, o projeto de vida de cada criatura, presente praticamente em todos os discursos ou quando o indivíduo seja perguntado a respeito do que deseja da vida. Há que se distinguir, todavia e inicialmente, felicidade e alegria. Esta última corresponde a instantes, momentos que têm duração variável e que pertencem ao âmbito dos sentimentos derivados de experiências específicas, onde se pode compreender o alcance das emoções. Já a felicidade… Ah, esta corresponde a um ideal de inspiração, como se, figurativamente, estivéssemos diante da linha de chegada de uma competição esportiva ou o ápice de uma monta...

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

LIVRE PENSAMENTO, LIVRE CONSCIÊNCIA

    Por Doris Gandres                     Há séculos e mais séculos vem a humanidade lutando dos mais diferentes modos e por meios os mais diversos por liberdade; no entanto, nem sempre usando as ações mais apropriadas que a pudessem conduzir à tão sonhada liberdade, ainda que somente no aspecto material, terreno...             Mesmo civilizações, nações e países onde muitas vezes, aparentemente, reina a liberdade, sob uma análise e uma observação mais acuradas, encontramos muitas circunstâncias, situações e condições onde vige pressão, opressão, cerceamento, coação e censura. E não podemos falar apenas do ponto de vista geral, social, de cidadania, de direitos humanos etc, mas também de segmentos religiosos e, nesse campo, lamentavelmente, o meio/movimento espírita não está excluído, o que me parece profundamente contraditório quando se tem algum conhecim...

CROMOTERAPIA NA CASA ESPÍRITA: UM SISTEMA SEM AMPARO NA CODIFICAÇÃO KARDEQUIANA

    Sala de cromoterapia no Colônia Fraternal Bom Jesus - Centro Espírita no Ipiranga (SP)   Por Jorge Hessen                Periodicamente ressurge no movimento espírita a tentativa de justificar a implantação da cromoterapia nas atividades da Casa Espírita, apoiando-se em referências de Joanna de Ângelis, especialmente na obra  Plenitude . Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo na Codificação e desconsidera o método científico-doutrinário estabelecido por Allan Kardec.             Em  Plenitude , Joanna de Ângelis menciona a helioterapia e faz alusões à cromoterapia no contexto da preservação da saúde física e psíquica. Em nenhum momento, porém, recomenda sua adoção como prática institucional do Espiritismo. Há profunda diferença entre reconhecer a existência de um recurso terapêutico e convertê-lo em atividade da Casa Espírita.