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31 DE AGOSTO, DIA DE REGURGITAR DOR E LUTA

 

 

Por Ana Cláudia Laurindo

 

Um dia em experiência de atendimento fraterno, no centro espírita que se propunha a acolher quem sofria, ouvi de uma entidade espiritual que eu não deveria regurgitar o passado.

Apesar dos anos idos, a frase ecoa. Com ela a mensagem que me desagrada, porque o passado é um container de vivências que podem nos ensinar muito sobre esta vida, acentuando aprendizados.

Apenas os dias de sol devem ser lembrados?

Eu quero lembrar das noites lacrimosas, e adentrar na névoa espessa do erro que me levou alegrias. Mas só posso fazer esta incursão se a errada for eu?

Eu quero trazer a noite do passado com os erros de outros, com agravantes institucionais, com determinações letais que sustentam as estruturas de dor, medo e morte. Porque nestes espaços reinam as potestades e as falanges do mal.

Era 31 de agosto, no ano 2008. Amanheci aquele dia na corregedoria da polícia civil de Alagoas para denunciar a truculência de um delegado. A vítima tremia a meu lado, meu filho de apenas 12 anos.

A cada ano que passo eu regurgito a dor de maneira diferente, porque a voz da denúncia não deve calar nem mesmo com a morte do meu corpo, e de caso pensado, a condenso em gráficos, para que o futuro também possa ler estas práticas delituosas cometidas por sistemas de (in)segurança por todas as veias abertas desse Brasil, que é América Latina, berço de Eduardo Galeano, o inspirador deste modus operandis sobrevivente.

O crime da criança foi jogar um pedregulho a esmo e este ter batido em um carro da guarda municipal do município de Matriz de Camaragibe, zona litorânea e canavieira de Alagoas.

Perseguição, atropelamento, pisada nas costas, revólver na cabeça, fizeram parte do drama que desregulou o futuro do meu jovem filho. Seria assassinado na mesma cidade, aos 16 anos.

Entre o início e o desfecho da tragédia, muitas energias empregadas em lutas e sobrevivências; caminhos íngremes marcados por solidões, convulsões morais e emocionais, preconceitos e covardias institucionais.

A morte foi o louvor do estado de Alagoas.

Ele estava certo. Enterrar corpos juvenis devidamente humilhados na frieza do IML foi um dos mastros do governo de Teotônio Vilela Filho. Regurgito com amargura essa passagem.

Vi muitas mães naufragarem e mortes precoces, após provarem da taça amarga deste crime; que leva corpo, rosto e nome, deixando uma memória maculada.

Resolvi caminhar chorando. Escrever chorando. E quando estivesse sorrindo, falar da dor sem chorar.

Não quero morrer ainda. Quero regurgitar a experiência nefanda até ser capaz de anunciar esperanças, respeito pelas memórias na conquista política de preservação de vidas e histórias.

O quebra-cabeças social não está encaixando as peças no lugar devido. As crenças estão tortas. As bençãos estão sendo dirigidas para os lados das culpas. A humanidade brasileira está no limbo, por escolher um Deus excludente, uma pátria genocida e uma família limitada a de cada um.

Enquanto este erro persistir, nós regurgitaremos a história comum, e este sangue de filhos e irmãos escorrerá insepulto, vivo e etérico, fogo a queimar as mãos de quem mantém o erro como se fosse glória.

Ontem sonhei com meu filho, em sorrisos, abraços e beijos a esta mãe que um dia morrerá, mas que desde agora sabe que amor não morre, e o futuro regurgitará esta certeza para que tantas outras mães também reconciliem com esta esperança.

Não importa quanto tempo passe, a memória do erro não o eximirá, enquanto estiver sendo repetido.

O crime do Brasil é não parar de cometer crimes.

Enquanto respirar, regurgito luta em defesa da vida.

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