Pular para o conteúdo principal

MANSUETUDE E AUSTERIDADE

 


 Por Roberto Caldas

             As palavras escondem segredos que importa sejam descobertos para investimento adequado na comunicação, condição sem a qual coisa nenhuma prospera. Entender o que fala na essencial prática de relacionar-se com os outros é política acertada.

            Tantas vezes o que parece oposto não o é. Assim como outras tantas que julgamos similares e não o são. Faz-se necessário especial cuidado em se evitar confusões deliberadas na linguagem, cuja prática enseja gerar entendimento parcial e, portanto nebuloso.

            Jesus ao falar ao povo de sua época considerava a falta de habilidade dos seus contemporâneos, vitimados que eram pela extrema pobreza econômica, abandono social e falta de acesso aos estudos. Ali também mais atingidas as mulheres, as quais devotava atenção especial.  Daí lhes falava em linguagem palatável dos tesouros divinos, sob o véu de relatos, como enigmas que exigiriam ao futuro que fossem desvendados.

            Propondo as bem-aventuranças (Mateus V; 3 a 12) – inserto na maravilhosa prédica do Sermão do Monte – Jesus traduz a lista daqueles que seriam convidados para a felicidade, na condição de bem-aventurados: os pobres de espírito, os que choram; os humildes, os misericordiosos, os famintos de justiça, os puros de coração, os mansos e pacificadores, os perseguidos por causa da justiça. Longe de escalar os que se retardam na estrada entre queixumes e desistências, o Mestre reitera o convite àqueles que conseguissem aliar mansuetude e austeridade, cuja flexibilidade em se enternecer não antagonize à capacidade de indignar-se, alertas na compreender do cortejo de deserdados do caminho, combatendo o bom combate, sem cansaço.

            O desenho do mundo atual se constitui num tremendo desafio aos convidados da lista de Jesus. Eles sabem que, detentores das virtudes listadas por Ele, estão inseridos numa ordem mundial que ressuscitou o bezerro de ouro e substituiu as expressões mais singelas da fraternidade pela moeda cunhada pelos muitos Césares que viraram as costas a Deus e maltratam em nome do lucro desarrazoado as normas da civilidade.

            A tarefa que se lhes apresenta alberga dificuldades de elevada monta, cheia de ruídos à interpretação dos sinais, com risco de sofrerem atrasos, detidos pelo lamaçal de propostas enganosas. A ousadia de intentar construir na Terra o Reino de Deus guarda a perspectiva ainda não provada, daí avaliada com desfaçatez pelos fissurados em conquistas dos poderes passageiros, capazes de mover hordas de incautos em seu redor, os quais aplaudem e reverberam sem lucidez do que fazem exatamente.   

            Muito difícil manter o equilíbrio com mansuetude e austeridade ao longo do caminho diante de tamanhas intempéries da estrada, operando como convidado de Jesus no trabalho que parece apenas desperdício de forças, tão grandes as adversidades do caminho.

            Nossos aplausos aos missionários reconhecidos e invisíveis, acima de religiões e partidos políticos, que mostram com generosidade e persistência que é possível viver sob a aura de Jesus, mesmo num mundo tão cheio de problemas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

AFINAL, QUANDO O ESPIRITISMO SE TORNOU RELIGIÃO? UMA CONVERSA FRANCA SOBRE CULTURA, PODER E TRANSFORMAÇÃO NO ESPIRITISMO BRASILEIRO

  Por Wilson Garcia A Dissertação Espiritismo transnacional: poder, habitus e mitopráxis na configuração religiosa brasileira em décadas de perseguições, defendida na PUC-SP por Adair Ribeiro Júnior em 2026, tenta responder a uma pergunta que há décadas tira o sono de quem estuda ou vive o espiritismo: como e por que o espiritismo se tornou uma religião no Brasil?               A resposta que o autor apresenta é fundamentada, bem documentada, mas não é definitiva. E é justamente aí que mora seu valor. Ela nos obriga a pensar. Quem conhece Allan Kardec sabe: o projeto original não era religioso. Era um tripé — ciência, filosofia e moral — apoiado na investigação metódica dos fenômenos espirituais. Observação, comparação, controle das comunicações: um verdadeiro laboratório do invisível.             Mas aí essa ideia atravessou o Atlântico, desembarcou ...

A INVERSÃO DO QUERIGMA: BOLSONARISMO E NEOPENTECOSTALISMO COMO ANTÍTESES SOCIOPOLÍTICAS DO JESUS HISTÓRICO

    Por Jorge Luiz              O Escândalo do Banco Master como sintoma da inversão.             Em outro momento defini a relação entre o status político chamando eufemisticamente de extrema-direita, simbolizada aqui como bolsonarismo e o neopentecostalismo, como uma “simbiose promíscua”. O escândalo do Banco Master, oferece uma nova definição, resultante dessa simbiose, que agora defino-a como “escândalo ontológico” , por não se constituir em um mero desvio ético de indivíduos isolados. Para alguns, como Glair Arruda, essa simbiose pode ser interpretada como cristofascismo, fenômeno que não é novo, mas ganhou proeminência nos anos de recrudescimento de uma ideologia de extrema direita especialmente nos Estados Unidos e Brasil (Passos, 2025). A definição de Arruda, ela mesma reforça a conceituação, ao admitir que o líder que se autoproclama como o salvador da pát...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

DEÍSMO OU ATEÍSMO?

                      Entre as muitas escolas do pensamento algumas há que buscam discutir questões, cujas comprovações estão muito longe de ser determinadas pela Matemática ou qualquer ciência exata. Apesar dos esforços para tornar o debate enriquecido pelas equações da Física Moderna, tais temas haverão de trazer a polêmica para o campo de uma filosofia opinativa ou de viés religioso. Assim é quando se trata da discussão quanto a existência de Deus.

“BEM AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA PORQUE SERÃO SACIADOS...” (Mt 4, 23-25)

  Doris Gandres Essa uma das bem aventuranças proferidas pelo Mestre Jesus em seu Sermão da Montanha, há quase 2 mil anos e da qual bem pouco se fala... Não foi mencionada nem comentada no Evangelho Segundo o Espiritismo por Allan Kardec e os Espíritos que com ele trabalharam, quando tantas outras lhes mereceram a atenção... E de algum tempo me pergunto por que... Julgaram talvez, Kardec e a equipe espiritual, que ainda não tínhamos capacidade de entender o significado dessa afirmativa de Jesus? Que talvez, famintos e sedentos por justiça como estávamos – e ainda continuamos a estar – para nos saciarmos recorreríamos a métodos separatistas e violentos? Afinal, mesmo assim, mesmo relegando essa bem aventurança a segundo plano, praticamente ao ostracismo, povos e nações de todos os tempos, mesmo após o vinda do Cristo e mesmo ainda após o surgimento da doutrina espírita, recorreram ao domínio pela força de todo tipo com a justificativa de estabelecer e implantar justiça.

"NOSSO LAR" É SUSTENTÁVEL?

Por André Trigueiro (*) O filme mais caro da história do cinema nacional consumiu boa parte dos 20 milhões de reais de seu orçamento em efeitos especiais que se prestam à impressionante visualização da cidade espiritual descrita pelo Espírito André Luiz através da psicografia de Francisco Cândido Xavier. “Nosso Lar” impressiona pelo bom gosto na justa distribuição dos espaços de área construída intercaladas por gramados e lagos. As áreas verdes e a presença da água marcam o projeto urbanístico da cidade, onde os pedestres circulam livremente sem disputar espaços com qualquer gênero de transporte individual. O transporte público de massa é o aérobus , muito parecido com o nosso metrô de superfície, só que sem trilhos. O magnetismo que impulsiona o veiculo é o mesmo que por aqui já empurra trens-bala de alta velocidade.

TERRA: MUNDO DE PROVAS E EXPIAÇÕES

Questão 1018 (O Livro dos Espíritos) – Jamais o reino do bem poderá ter lugar sobre a Terra? Resposta: O bem reinará sobre a Terra quando, entre os Espíritos que vêm habitá-la, os bons vencerem sobre os maus. Os sofrimentos existentes no planeta Terra são devidos às imperfeições morais dos seres, encarnados e desencarnados, que nela habitam. Embora com a intelectualidade até certo ponto desenvolvida e apurada, as criaturas humanas que aqui se encontram, na sua maioria, estão com a moral atrofiada pelas paixões inferiores alimentadas pelo orgulho, pelo egoísmo e pela vaidade, sentimentos estes precursores de todas as desgraças humanas. A iniquidade reinante no globo terrestre não pode ser ignorada pois, em todos os recantos do mundo, ela é visível e concreta. Não duvidamos que a Lei do Progresso é uma lei natural, emanada de Deus e, por isso mesmo, imutável atingindo a tudo e a todos. É certo também que o progresso intelectual precede ao progresso moral, possibilit...

A ANÁLISE DOS FRUTOS (*)

Por Francisco Cajazeiras(**) “O homem bom tira boas coisas de seu bom tesouro e o homem mau do mau tesouro tira coisas más.” (Jesus – Mt, 12:35) Há pessoas que se apegam ruidosamente a uma ideia, acreditando   – por vezes de boa fé – no que franquearam se arquitetasse e aninhasse em nível íntimo, que se obstinam em levar às últimas consequências os objetivos adrede delineados. Se a perseverança é uma virtude indispensável ao progresso do Espírito em curso evolutivo, não menos o são a prudência e o bom senso, sendo-lhe a teimosia óbice dos mais difíceis de transpor. Indispensável, por conseguinte, analisar, sem paixões, os frutos do esforço desprendido, certo de que não pode doá-los maus a boa árvore, como a árvore má não os produz bons. Se, pois, há desequilíbrio, mágoas, rancores e outros sentimentos menos dignos, ainda que dissimulados, por solvente do que se quer apresentar; e se há utilização de expedientes condenáveis, em desesperada ânsia ...