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A CONDIÇÃO HUMANA

 


 Por Doris Gandres

Para quem efetivamente deseja conhecer e entender a doutrina espírita e, além disso, considerar-se e dizer-se espírita, essa doutrina nos apresenta de modo muito claro os dois grandes obstáculos à necessária renovação da humanidade, não apenas a individual: a incredulidade e o fanatismo, que se opõem a uma fé lúcida, sólida e esclarecida, em consonância com as leis naturais de liberdade, igualdade e fraternidade, que correspondem ao modo de ver das novas gerações e dos anseios de justiça e oportunidades igualitárias para todos.

No Prefácio do livro Socialismo e Espiritismo, de Léon Denis (1), publicado pela Casa Editora O Clarim, Matão/SP, Freitas Nobre, conhecido espírita, fundador da Folha Espírita de São Paulo, já em 1982 afirmava: “De fato, o nosso edifício social a ser construído pelo socialismo, pode não excluir todas as iniquidades, porque a condição humana não é de perfeição, mas, sem dúvida, significará muito na edificação de uma sociedade menos injusta”.

E quem de nós, em sã consciência, poderá discordar dessa reflexão? Quem de nós, ciente da lei de justiça, amor e caridade, não haverá de querer menos arbitrariedades, menos autoritarismos, menos abuso de livre arbítrio, menos violência – de todo tipo, marginal e institucionalizada – menos ganância de poder e de riqueza a qualquer custo, ainda que à custa da miséria em larga extensão, de falta de alimento, saúde, moradia, educação, desemprego, salários aviltados, com cerca de 1/3 (um terço) da população brasileira abaixo da linha de pobreza?

“O Espiritismo embora compreenda e explique certos fenômenos sociais e econômicos através da lei da reencarnação, tem que ser eminentemente revolucionário no sentido de reivindicar as mudanças da estrutura da sociedade, combatendo a concentração da riqueza e a ausência da fraternidade que significam a manutenção dos privilégios e dos excessos no uso dos bens.” (RE outubro 1866) - (2)

No Livro dos Espíritos, na Lei de Conservação (3), temos um esclarecimento a esse respeito, na resposta dada à q.711 em que Kardec pergunta se o uso dos bens da terra é um direito de todos os homens: “Esse direito é a consequência da necessidade de viver. Deus não pode impor um dever sem conceder os meios de o cumprir” E seguem ainda outros tantos esclarecimentos: na q.716 fica registrado que a natureza traçou o limite do necessário, mas que o homem é insaciável e que seus vícios alteraram a sua constituição e criaram para ele necessidades artificiais. E mais, na q.717: (Pergunta) “Que pensar dos que açambarcam os bens da terra para se proporcionarem o supérfluo, em PREJUÍZO DOS QUE NÃO TÊM SEQUER O NECESSÁRIO?” (Resposta) “Desconhecem a lei de Deus e terão que responder pelas privações que ocasionaram.” (Comentário de Kardec ao final) [...] Os que vivem às custas das privações alheias, exploram os benefícios da civilização em proveito próprio, não têm de civilizados mais do que o verniz, como há pessoas que não possuem da religião mais do que a aparência. ”

E será que não é exatamente isso que lamentavelmente ainda vemos acontecer na atualidade? Um grupo, na verdade minoritário, ocupando o (pretenso) poder e que se propagam civilizadas, intelectualizadas, religiosas, seguidoras das leis de Deus, do Cristo, contudo cegos arrastando outros milhares de cegos, os quais, se não se entregam à incredulidade, entregam-se ao fanatismo ideológico de todo tipo?

Nos livros da nossa doutrina encontramos tudo o que é necessário para melhor analisarmos a nossa postura e os nossos deveres perante o próximo, ou melhor, perante toda a sociedade. No livro Viagem Espírita em 1862 (4), Discurso de Kardec, nas cidades francesas de Lyon e Bordeaux, encontramos o seguinte: “E, enquanto isso, a incredulidade deixa em seu rastro um mar de inquietude. Se é cômodo ao homem entregar-se às ilusões, não pode furtar-se de pensar, uma vez outra, no que lhe sucederá depois”.

Em Obras Póstumas, Projeto 1868: “Somente o Espiritismo bem entendido e compreendido pode remediar esse estado de coisas e tornar-se, conforme disseram os Espíritos, a grande alavanca da transformação da humanidade. A experiência deve esclarecer-nos sobre o caminho a seguir. ” (5)

Trouxe e transcrevi várias partes da doutrina espírita para nossa reflexão, de modo que nada – a não ser as maiúsculas em PREJUÍZO DOS QUE NÃO TÊM SEQUER O NECESSÁRIO – possa ser imputado como de minha interpretação ou autoria. Precisamos também refletir no que ensinou Jesus de Nazaré: veja quem tem olhos de ver, ouça quem tem ouvidos de ouvir; e, seja o vosso falar sim, sim não, não ...

 

Bibliografia:

Léon Denis, livro Socialismo e Espiritismo

Allan Kardec, Revista Espírita outubro 1866

O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, qs. 711, 716 e 717

Viagem Espírita em 1862, Allan Kardec

Obras Póstumas, Allan Kardec, Projeto 1868

A condição humana

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